CAPITULO 2 SOBRE O PRESENTE SIMPLES
3.1 OS PRÓXIMOS PASSOS
Devido à natureza imprecisa de [n ⊂ t], a DRS apresentada é compatível com
condições que surtem os seguintes relações entre a eventualidade e o momento de proferimento da sentença (MPS):
(i) a(s) eventualidade(s) precedem o M.P.S.
(ii) a(s) eventualidade(s) se sobrepõem ao M.P.S;
(iii) a(s) eventualidade(s) são posteriores ao M.P.S.
Mas as DRS não dão exatamente esses resultados. Elas são tão somente compatíveis com eles. Essa seção mostra como princípios griceanos podem corretamente fornecer as condições (ii) quando se adota que [n ⊂ t] é a
contribuição do tempo presente simples para a DRS. Para ser mais específico sobre o papel das máximas de Grice, elas serão implementadas usando as linhas mestras da semântica-pragmática da Teoria da Otimalidade. Uma vez que (i) e (iii) correspondem ao passado e ao ‘futurate’, elas não serão discutidas.
4 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA NA TEORIA DA
OTIMALIDADE
A semântica bi-direcional da Teoria da Otimalidade (TO) tem como objetivo juntar a tradição da Pragmática Radical e da TO. Assim como a chamada Pragmática Radical, também se busca mecanismos pragmáticos que expliquem fenômenos que são tradicionalmente vistos como sendo semânticos Cole(1981). E assim como a Teoria da Otimalidade, usa-se a idéia de competição: a ocorrência de um objeto lingüístico em um determinado contexto é explicada como sendo devido ao fato de esse objeto se adequar melhor a esse contexto que as outras alternativas. Esses dois pontos de vista acarretam uma estratégia geral de subespecificar a semântica e de procurar fontes de enriquecimento contextual do conteúdo dos objetos lingüísticos.
Formalmente um sistema de otimalidade é uma tripla <GEN, C, <<> Onde GEN é um conjunto de valores de saída em potencial para um dado valor de entrada (que intuitivamente corresponde à idéia que uma sentença quer expressar); C é um conjunto de restrições universais e << (também chamado de EVAL(uator)) é um ordenamento das restrições particular de cada linguagem.
Blutner (2000) descreve o GEN de acordo com os princípios gerais da semântica dinâmica, onde o significado de uma expressão é seu potencial de modificação de contexto. Assim, o significado de uma sentença é a maneira como a informação semântica modifica um dado contexto quando é nele introduzido. Onde Sem(A) é a informação semântica associada a uma expressão lingüística, s e t são contextos, o potencial de mudança de contexto de uma expressão A é (34a). Assim, define-se o gerador GEN em (34b) como o conjunto de mapeamentos da semântica de A para o contexto (renovado) t tal que t tenha sido obtido a partir do alargamento de um discurso s mediante a incorporação de Sem(A).
(34)
a. s [Sem(A)] t
b. Gen = {<Sem(A), t>: s [Sem (A)] t}
Com respeito a Eval, Blutner insere aí ás Máximas de Grice. Ele adota a reformulação de Horn (1984) e Atlas & Levinson (1981) do esquema Griceano: Uma tentativa de generalizá-lo aos seguintes dois princípios. Onde o primeiro princípio é a primeira parte da Máxima da Quantidade e o segundo princípio é: (i) a segunda parte da máxima da quantidade (não faça sua contribuição mais informativa que o exigido) e possivelmente todas as máximas de maneira.
(35) a.
Princípio-Q: Diga tanto quanto possa (dado que I)
Princípio-I: Não diga nada além do necessário (dado que Q)
b. Otimalidade bi-direcional (versão fraca)
(Q) [<A, t> satisfaz o princípio Q sse <A, t> ⊂ Gerador e não há outro par em <A’, t> que satisfaça o princípio I tal que <A’, t> é menos custoso que <A, t>;
(I) [<A, t> satisfaz o princípio I sse <A, t> ⊂ Gerador e não há outro par em <A’, t> que satisfaça o princípio Q tal que tal <A’, t> é menos custoso que <A, t>;
<A, t> é chamado super-ótimo sse satisfaz Princípio e o princípio I
Um dos debates atuais na semântica da otimalidade se trava entre a perspectiva que postula a bidirecionalidade e a perspectiva que postula que a sintaxe seja a perspectiva do proferidor da sentença e a semântica seja a perspectiva do destinatário do proferimento. Blutner defende a bidirecionalidade e propõe a versão em (35). Ele mostra, por exemplo, que se levarmos a distinção entre significado formal e interpretacional - onde temos um componente sintático, um semântico e um pragmático - a sério só a bidirecionalidade entre os componentes vizinhos (sintaxe/semântica, semântica/pragmática, no mínimo) podem dar conta de
fenômenos como bloqueamento léxico e o “moedor conceptual” (em inglês, ‘conceptual grinding’).
Como foi dito acima, o Avaliador ordena as restrições com base nos princípios I e Q. As máximas de Grice então são uma métrica de otimalidade. Elas equilibram a economia do proferidor – que é seja preciso e transfira o máximo de informação possível com o mínimo esforço – com a economia oposta – diversificação e generalidade. Com a teoria da otimalidade como pano de fundo, a perspectiva teórica oferecida para dar conta do formas verbais chamadas presente simples toma a seguinte forma: Os presentes simples tomam os valores reportivo ou não- reportivo como solução ótima para o conflito entre a economia do proferidor e do destinatário. Além disso, uma solução nesses moldes potencialmente unifica a semântica das perífrases ‘cópula + V-gerúndio’ das línguas de (6) (Inglês, Italiano, Espanhol, Português Brasileiro). Isso pode ser feito simplesmente mediante os princípios I e Q e as regras de projeção de pressuposição de Geurts (1999) e van der Sandt (1992).
Blutner (2000: 28) traduz essas regras de Geurts/van der Sandt para as seguintes duas restrições da Teoria da Otimalidade. Evite Acomodação, que conta o número de marcadores presentes em um discurso que necessitam acomodar pressuposições: Quanto mais pressuposições acomodadas, mais custosa a expressão. Além disso, segundo essa restrição, quanto maior o escopo do material acomodado menos custoso o processo de acomodação. Também temos a restrição SejaForte, uma restrição que prefere os proferimentos mais informativos com respeito ao contexto.
(36)
a. EviteAcomodação: Conta o número de marcadores discursivos que estão envolvidos na acomodação.
b. SejaForte: atribui valores mais altos aos pares forma - contexto <A, t> cujas saídas t são mais informativas.
Blutner (2000: 207) exemplifica como EviteA funciona usando a DRT como formato representacional para a sentença ‘If Peter has a dog, then his cat is gray’. Na DRS para esse discurso, no caso Sem (A), o material atrás da barra ‘/’ é pressuposto: ((gray(y)/).
( 37) Sem(A) = [:[x: dog (x), have (Peter, x)]→ [: grey(y)/[y: have (Peter, y), cat(y)]]]
Supondo que o fundo conversacional está “vazio” (ou melhor, que não contenha informação diretamente relevante ao ponto discutido aqui), o gerador entrega três formas possíveis f1, f2, f3 que correspondem aos escopos do material acomodado (sublinhado).
(38)
a. f1: [:[x:dog(x), have(Peter, x)] → [: grey(y), y: have (Peter, y), cat(y)]]] b. f2: [:[x, y: dog (x), have (Peter, x), y: have (Peter, y), cat(y)]→ [: grey(y)]] c. f3: [y: have (Peter, y), cat(y)[x: dog (x), have (Peter, x)]→ [: grey(y)]]
Os três níveis de acomodação correspondem respectivamente às glosas: (a) se Peter tem um cão, então presumindo-se que ele tem um gato, esse gato é cinza; (b) se Peter tem um cão e assume-se que ele tem um gato, então esse gato é cinza; (c) (assumindo que Peter tem um gato) se ele tem um cão, então seu gato é cinza. A interpretação preferida é f3, onde há acomodação global. Isso é previsto pela restrição EviteAcomodação.
A outra restrição que Blutner propõe é chamada SejaForte: um contexto ti é mais forte que outro contexto ti sse ti acarreta tk mas tk não acarreta ti. De acordo com isso, a semântica que dá mais acarretamentos é preferida.
O que nós precisamos ver agora é que princípios da semântica da TO que acabamos de esboçar de fato produzem as leituras de presente simples nas quais estamos interessados. De acordo com a proposta da seção anterior a informação semântica (Sem(A) nos termos de Blutner) associada com o presente simples seria
medidas de otimalidade, e EviteAcomodação e SejaForte, como restrições, produzem as leituras corretas do presente simples. Em outras palavras, é preciso dizer como [n ⊂ t], I e Q produzem os valores reportivo e habitual do presente
simples nas situações adequadas.
Vamos focar em como as leituras adequadas surgem e nas as relações de inferência entre as leituras e as formas de presente simples e de presente progressivos.
5 O PAPEL DA EVIDENCIALIDADE.
Com as condições [n ⊂ t; e ⊆ t], a DRS resultante é a mesma coisa que dizer que
João tem a propriedade de ser um nadador em um intervalo t. As condições não nos dizem nada mais com respeito aos detalhes. As máximas de Grice têm que tomar a representação subespecificada e levar a representações que estejam conforme nossa intuição. Antes de se fazer isso precisamos comparar as condições [n = t] e [n ⊂ t] com respeito a como cada uma determina o que conta
como evidência para se fazer uma asserção existencial sobre um evento.