Endogenia discursiva
5 QUADRO METODOLÓGICO
5.2 A ABORDAGEM QUALITATIVA DE PESQUISA
Tendo em vista a semelhança no que diz respeito ao foco temático desse es- tudo e da pesquisa realizada quando da obtenção do título de mestre57, essa inquiri- ção parte do mesmo tom adotado na primeira experiência investigativa, isto é, da abordagem metodológica qualitativa.
Tal como na pesquisa anterior, a intencionalidade que aqui se coloca não tem por interesse utilizar metodologias que se apoiam em medidas operacionais, cuja in- tensidade pode ser traduzida em números, mas sim na obtenção de dados a partir das experiências vivenciadas pelos sujeitos58 (GATTI, 2002). Ou, como postulam Ge- rhardt e Silveira (2009), não se tem a preocupação com a representatividade numé- rica, mas sim com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, etc.
Dependendo da questão estudada, a abordagem será quantitativa ou qualitativa. Elas podem até ser complementares, se o estudo assim o exigir. É preciso saber como tratar o problema que se está estudando e quais são os recursos metodológicos apropriados a esse tratamento (LÜDKE, 2006, p. 420-421).
Acerca das abordagens metodológicas, as quatro últimas décadas têm sido marcadas por movimentos investigativos fortemente marcados pela abordagem qua- litativa, em diversas áreas do conhecimento. Aplicada, inicialmente, em estudos de Antropologia e Sociologia, como contraponto à pesquisa quantitativa dominante, a abordagem qualitativa alargou seu campo de atuação, especialmente em áreas como a Psicologia e a Educação (GERHARDT; SILVEIRA, 2009).
Matos e Vieira (2002, p. 33) sinalizam que fora a partir da década de 70 que a pesquisa e a análise qualitativa tomaram corpo, tornando-se mais evidentes nos casos da pesquisa-ação e da pesquisa-participante, usadas, no Brasil, com a intenção de marcar a intervenção e a transformação da realidade, em sintonia com o paradigma do materialismo histórico59.
57 KIST, Liane Batistela. Limites e Possibilidades para a Implementação de uma Proposta de Tu-
toria no Desenvolvimento de Estágio Curricular em Cursos de Licenciatura. Dissertação. (Mes-
trado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2007.
58 Neste caso, dos sujeitos envolvidos com as atividades relacionadas ao PIBID/Português.
59 De acordo com Gil (2007, p. 40), “O materialismo histórico fundamenta-se no método dialético e suas
bases foram também definidas por Marx e Engels. Para o materialismo histórico, a produção e o inter- câmbio de seus produtos constituem a base de toda a ordem social. As causas últimas de todas as
Essa adoção, a despeito de não caracterizar necessariamente o estabelecimento de polos opositivos, provocou um acirrado debate, colocando em xeque a credibilidade das pesquisas quantitativas, as quais, há muito, eram as mais utilizadas pelos pesquisadores em educação e, por sua vez, tinham, por objetivo, dar um tratamento estatístico aos resultados obtidos a partir dos instrumentos utilizados.
Numerosas críticas, desprovidas de uma análise mais profunda sobre suas implicações, de acordo com Gatti (2002), foram feitas entre os pesquisadores em relação às pesquisas quantitativas, o que, praticamente, excluiu-as dos estudos em educação.
As pesquisas quantitativas e qualitativas, entretanto, embora se distanciem quanto ao tipo, à forma de coleta e à forma de tratamento das informações, não guardam entre si relação de oposição. As diferenças existentes, entre o método qualitativo e o quantitativo, podem ser articuladas e empregadas conjuntamente, pelo pesquisador, em benefício do estudo, uma vez que a combinação de métodos distintos pode contribuir para o enriquecimento da análise (KIST, 2007).
A título de comparação, conforme o quadro a seguir (Quadro 4), Fonseca (2002) procura mostrar o grau de determinados aspectos inerentes ao processo investigativo em uma e outra abordagem. Em especial, no que diz respeito ao enfoque na interpretação dos dados, na importância do contexto do objeto pesquisado e na proximidade do pesquisador em relação aos fenômenos estudados, o autor considera a existência de um grau relativamente superior nas pesquisas de abordagem qualitativa que as difere das pesquisas de base quantitativa.
modificações sociais e das subversões políticas devem ser procuradas não na cabeça dos homens, mas na transformação dos modos de produção e de seus intercâmbios. [...] Quando, pois, um pesqui- sador adota o quadro de referência do materialismo histórico, passa a enfatizar a dimensão histórica dos processos sociais. A partir da identificação do modo de produção em determinada sociedade e de sua relação com as superestruturas (políticas, jurídicas etc.), é que ele procede à interpretação dos fenômenos observados”.
Quadro 4 – Comparação dos aspectos da pesquisa qualitativa com os da pesquisa quantitativa60 Aspecto Pesquisa Quantitativa Pesquisa Qualitativa
Enfoque na interpretação do objeto. menor maior Importância do contexto do objeto
pesquisado. menor maior
Proximidade do pesquisador em relação
aos fenômenos estudados. menor maior
Alcance do estudo no tempo. instantâneo intervalo maior
Quantidade de fonte de dados. uma várias
Ponto de vista do pesquisador. externo à organização
interno à organização Quadro teórico e hipóteses. definidas
rigorosamente menos estruturadas
FONTE: Fonseca (2002).
Assim, e também em consenso com Gerhardt e Silveira (2009), é que tomamos esse caminho investigativo, levando em consideração que os pesquisadores que uti- lizam os métodos qualitativos buscam explicar o porquê das coisas, exprimindo o que convém ser feito, mas não quantificando os valores, e as trocas simbólicas. Além disso, não se submetem à prova de fatos, pois os dados analisados são não-métricos (suscitados e de interação) e se valem de diferentes abordagens.
No nosso caso, adotamos a abordagem qualitativa na intenção de investigar as experiências vivenciadas e as reflexões realizadas por alunos de graduação, profes- sores da educação básica e pela IES participante, ou seja, pela análise das vivências dos envolvidos no programa PIBID/Português/UFSM.
Tal como aponta Minayo (2001), ao se referir à pesquisa qualitativa, essa in- vestigação objetiva trabalhar com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das rela- ções, dos processos e dos fenômenos, os quais não podem ser reduzidos à operaci- onalização de variáveis.
60 FONSECA, João José Saraiva da. Metodologia da pesquisa científica. Fortaleza: UEC, 2002.
Apostila. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=oB5x2SChpSECeprintsec=front coverehl=pt-BR#v=onepageeqef=false. Acesso em: set. 2015