• Nenhum resultado encontrado

Endogenia discursiva

OFICINA 8 (objetivos): oralizar parecer sobre argumentação dos colegas.

Ao observamos o conjunto das 22 oficinas, percebemos, do início ao fim, o respeito a um trabalho pautado no desenvolvimento das quatro habilidades, o que revelou a consonância com a concepção interacionista, por meio do compromisso fir- mado com a abordagem comunicativa de Leffa (1998). Com a escolha do gênero oral debate69, como centro do projeto, foi possível prever atividades que contemplassem tanto a competência de falar e ouvir, quanto de ler e escrever.

69 Sobre o gênero debate, vale registrar que a turma da escola participante desenvolveu duas ativida-

des: uma voltada para o exercício do debate público (oficina 7), conforme DOLZ; SCHNEUWLY e PIE- TRO, (2004) e outra um pouco mais voltada para o debate político (oficina 20). No primeiro caso, foi realizado um debate sobre a “redução da maioridade penal”. No segundo caso, a turma foi dividida em dois grupos, e cada um deles deveria constituir um partido político que participaria de um grande de- bate. Para isso, cada grupo organizou sua plataforma de campanha, contendo nome do partido (sigla), slogan, bandeiras, propostas de campanha, etc. O debate, entre os partidos, ocorreu no auditório da escola participante, no dia 30 de outubro de 2014, tendo sido assistido por outras turmas da escola.

Na preparação para o debate realizado pela turma, os alunos da escola partici- pante precisaram desenvolver tanto a capacidade de falar em público (debater, ora-

lizar), quanto a de ouvir seus colegas (oficinas 07 e 08: exercício reflexivo de defesa

de um ponto de vista – argumentação -, pautado no respeito pelo outro como interlo- cutor). Além disso, realizaram atividades de leitura, bem como de produção textual na organização das ideias e também na desenvoltura argumentativa, conforme mos- tram as demais oficinas.

Acrescentamos, ainda, que nos objetivos “Dividir os alunos nas funções pre- vistas para o debate” e “Oralizar parecer sobre argumentação dos colegas” identifi- camos uma forte relação com a perspectiva dialógico-problematizadora de Freire. O grupo adotou condutas como “dividir os alunos” e “oralizar parecer”. Com isso, perce- bemos a preocupação com a ideia de que pela linguagem os sujeitos, no caso, os alunos, atuam na e sobre a língua, de modo a participarem ativamente da construção dos saberes propostos. Dito de outra forma, Freire (1996) recorda o fato de que ensi- nar não pode estar associado a práticas tecnicistas, que valorizam o acúmulo de co- nhecimentos, a forma e a mensuração de resultados. Ensinar significa, sobretudo, criar possibilidades para a produção e/ou construção do conhecimento.

Somando-se a isso, destacamos, igualmente, as oficinas 8 e 9, voltadas para o desenvolvimento do gênero debate e para o estudo da argumentação.

OFICINA 8 (objetivos): oportunizar situações, nas quais a interação pela lin- guagem seja um exercício reflexivo de defesa de um ponto de vista, pau- tado no respeito pelo outro como sujeito interlocutor.

OFICINA 9 (objetivos): Posicionar-se diante do tema “Você é a favor ou con- tra a redução da maioridade penal?”; Defender seu ponto de vista por meio de elaboração de tese e argumentação válida.

Em “oportunizar situações nas quais a interação pela linguagem seja um exer- cício reflexivo de defesa de um ponto de vista, pautado no respeito pelo outro como sujeito interlocutor” e “Posicionar-se diante do tema “Você é a favor ou contra a re- dução da maioridade penal”, destacam-se duas perspectivas em consonância com o paradigma sociointeracionista. Primeiro, a relação com os documentos oficiais que

Após o término do debate, foi realizada uma simulação de eleição, a fim de se identificar qual dos partidos havia alcançado êxito junto aos eleitores (plateia do debate).

norteiam as diretrizes da educação brasileira com base num trabalho pautado na re- flexão sobre o uso da língua na vida e na sociedade; segundo, com a percepção de língua enquanto sistema-em-função, de acordo com Antunes (2003).

Partindo-se do pressuposto de que as situações didáticas, em LP, precisam levar o aluno a pensar sobre a linguagem, para poder compreendê-la e utilizá-la ade- quadamente, a concepção de linguagem, como processo de interação subjacente aos PCNs (1998), visa ao desenvolvimento integral do aluno em termos de desenvolvi- mento de suas habilidades discursivas. Isso fica bastante evidente nos objetivos acima sublinhados, na medida em que promovem condições fundamentais para o exercício da cidadania, para a construção de uma sociedade democrática e para a formação de sujeitos capazes de interagir através do uso da língua(gem) oral e escrita, de forma concreta, efetiva e responsável.

Outra relação possível se trata, em especial, das sinalizações propostas por Antunes (2003, p. 41) de que a língua, enquanto sistema-em-função, numa aborda- gem interacional de linguagem, só encontra efetividade em tendências centradas numa perspectiva de “atuação social, enquanto atividade e interação verbal de dois ou mais interlocutores”, isto é, em situações comunicativas concretas de produção oral e escrita, tais como as apresentadas pelo grupo nos objetivos já destacados.

Por fim, como superação da acrasia e permanência num paradigma sociointe- racionista, destaca-se outro objetivo: ”defender seu ponto de vista por meio de elabo- ração de tese e de argumentação válidas”. A proposta apresentada pelo grupo, no sentido de desenvolver com consistência teórica e prática a habilidade argumentativa dos alunos na produção, tanto de textos orais quanto escritos, encontra respaldo nas proposições mais amplas no cenário educacional do século XXI.

A esse respeito, acrescenta-se o Relatório da Unesco para a educação do sé- culo XXI, que, nas palavras de Delors em 1998, já sinalizava que, dadas as transfor- mações que o século XXI traria, especialmente na área da comunicação, caberia à educação a tarefa não só desenvolver cada vez mais saberes e saber-fazer evoluti- vos, encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficar submergi- das nas ondas da informação, mas, do mesmo modo, fornecer os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado, e as bússolas que permitam navegar por intermédio dele.

Em consenso com a ideia de língua como lugar de interação, como conduto de construção de sujeitos históricos e sociais, não há muito como se pensar em saberes e saber-fazer evolutivos, em emergir-se das ondas de informação e saber navegar num mundo complexo e em constante transformação, sem pensar no desenvolvi- mento e no aprimoramento da competência comunicativa dos alunos.

Considerando-se, ainda, a oficina 9, juntamente com as demais que trataram da produção escrita (oficinas 1 a 4 e 9 a 12), destacamos, em especial, que, pelo privilégio ao trabalho com o campo argumentativo, o grupo fez uma contribuição ex- tremamente significativa junto aos alunos da escola participante. Ao trabalhar com a ideia de autoavaliação70, os alunos puderam desenvolver a capacidade não só de olhar para a sua própria escrita, como conseguiram acompanhar seu desempenho longitudinalmente. Ou seja, as atividades de escrita de texto de base dissertativo-ar- gumentativa e de artigo de opinião, seguidos de feedback, autoavaliação e reescrita, as quais permearam vários outros momentos, permitiram um trabalho de escrita en- quanto processo e em consonância com uma proposta sociointeracionista.

Ainda no que diz respeito ao paradigma sociointeracionista, assumido pelo sub- projeto, no projeto inicial, destaca-se o esforço constante do grupo em desenvolver suas ações a partir de situações comunicativas em que a linguagem fosse instrumento efetivo de interação social. Ao eleger o gênero debate como fio condutor de todos os processos organizados pelo grupo, vê-se em prática uma concepção de linguagem e também o ensino de língua materna pautados na perspectiva de Richter (2000, p. 36- 37) ao mencionar que “linguagem é (também) trabalho humano. É um meio social empregado para realizar atividades em situações determinadas, no empenho de atin- gir resultados determinados – resultados estes, por sua vez, formulados em termos das necessidades dos sujeitos”. E, nesse caso, destacamos por último um dos objeti- vos da oficina 16.

OFICINA 16 (objetivos): socializar as funções eleitorais com os