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PARTE I – SOCIEDADE MODERNA, CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS E

1 CIDADANIA, DIGNIDADE HUMANA E MODERNIDADE: UMA PERSPECTIVA A

2.4 Os conflitos socioambientais sob o olhar da vulnerabilidade e do risco no

2.5.4 Instrumentos técnicos e jurídicos para o planejamento das cidades

2.5.4.2 A Agenda 21 como instrumento universal e local de gestão ambiental

A Agenda 21 Global foi construída em consenso, com a contribuição de governos e instituições da sociedade civil de 179 países, em um processo que durou dois anos e culminou com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre

33O Estatuto da Cidade, guia para implementação pelos municípios e cidadãos, Câmara dos Deputados, 5 ed., 2005, página 29 e seguintes, aprofunda a concepção do Plano Diretor contida no Estatuto .

Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Além da Agenda Global ela traz sugestões para os países e para Agendas Locais34.

Num contexto de crise ambiental e social do final do século, a Agenda 21 é um plano de ação para ser adotado global, nacional e localmente, por organizações do sistema das Nações Unidas, governos e pela sociedade civil, em todas as áreas em que a ação humana impacta o meio ambiente. Constitui-se na mais abrangente tentativa já realizada no sentido de orientar a sociedade para um novo padrão de desenvolvimento para o século XXI, cujo alicerce é a sinergia da sustentabilidade ambiental, social e econômica, perpassando em todas as suas ações propostas.

Neste sentido a agenda 21 propõe princípios para o desenvolvimento sustentável.

O programa de implementação da Agenda 21 e os compromissos para com a carta de princípios do Rio foram fortemente reafirmados durante a Cúpula de Joanesburgo (Rio + 10) em 2002, pois 10 anos depois da criação da Agenda 21, as constatações foram de que aumentou a degradação ambiental e as injustiças sociais, agravando o quadro de miséria no mundo.

Todavia, a Agenda 21 não é um programa pré-estabelecido para ser implementado. Ela propõe um processo de planejamento participativo, no qual os diferentes atores, governo, sociedade, setores econômicos e sociais, responsavelmente comprometidos com o processo, realizem a análise da situação do município ou região, e mediante um diagnóstico participativo, planeja o futuro de forma sustentável. E esse processo deve envolver toda a sociedade na discussão dos principais problemas e na formação de parcerias e compromissos para as soluções de curto, médio e longo prazos.

Segundo a proposta do documento, a análise do cenário e o encaminhamento das propostas para o futuro devem ser realizados dentro de uma abordagem integrada e sistêmica das dimensões econômica, social, cultural, ambiental e político-institucional da localidade. Em outras palavras, o esforço de planejar o futuro, com base nos princípios da Agenda 21, gera inserção social e oportunidades para que as sociedades e os governos possam definir prioridades nas políticas públicas sobre os problemas ambientais, sociais e econômicos locais e o debate sobre soluções para esses problemas através da identificação e implementação de

34 Além da Agenda 21, resultaram desse mesmo processo quatro outros acordos: Declaração do Rio sobre o uso da terra ou Carta da Terra, a Declaração de Princípios sobre o Uso das Florestas, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças Climáticas.

ações concretas que visem o desenvolvimento sustentável local articulado com dimensões regionais, nacionais e internacionais.

A Agenda 21 (2004, p. 9) propõe a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável, compreendido como “aquele capaz de atender as necessidades das atuais gerações sem comprometer os direitos das futuras gerações.”

Tal conceito só poderá ser integralmente efetivo se consolidado como processo multiatoral, multitemático e interinstitucional, tendo como base de ação a reconstrução e operacionalização com novas bases para a infra-estrutura econômica, social e ambiental, estabelecendo novas políticas ambientais locais.

Como proposta política de desenvolvimento sustentável o documento resultante da Consulta Nacional, propôs seis áreas básicas, nas quais se realizou diagnóstico dos problemas, principais conflitos, estratégias e ações prioritárias. As áreas escolhidas ficaram assim definidas:

1) gestão de recursos naturais;

2) agricultura sustentável;

3) cidades sustentáveis;

4) redução das desigualdades sociais;

5) infra-estrutura e integração regional;

6) ciência e tecnologia para o desenvolvimento sustentável.

Os eixos definidos como prioritários no âmbito nacional, corroboram com o conteúdo da própria Agenda 21, especialmente no sentido de incorporar uma visão holística, desde os aspectos relacionados ao ambiente natural, as profundas injustiças sociais e especialmente as práticas de produção, de uso e ocupação do solos, incluídos os avanços tecnocientíficos que de certa forma traduzem as preocupações socioeconômicas e ambientais, uma vez que resultam de investimentos de recursos financeiros e de pessoas, que levaram ao atual quadro socioambiental.

Como instrumento prático, a Agenda 21 local, potencializa o processo dos Planos Diretores e garante maior objetividade aos orçamentos municipais. O desafio que se apresenta é construir compromissos, elaborar em cada local a sua Agenda 21, integrar as mais diferentes agendas e construir uma nova forma de relação entre homem e natureza, fundada nos princípios da sustentabilidade.

Os resultados da consulta nacional elencados no documento oficial da agenda, apresenta um conjunto de premissas considerados fundamentais para a sustentabilidade e podem ser assim resumidos:

1) estabelecer uma abordagem multissetorial e sistêmica, com visão prospectiva entre as dimensões econômica, social, ambiental e institucional;

2) promover a sustentabilidade progressiva e ampliada. A Agenda 21 apresenta essencialmente a construção de consensos e pontes, a partir da realidade atual para o futuro desejado; não existem fórmulas mágicas e a sustentabilidade será resultado de uma transição, e não de uma transformação abrupta;

3) promover o planejamento estratégico participativo. A Agenda 21 não pode ser um documento de governo e sim, um projeto de toda a sociedade brasileira, pois só assim serão forjados compromissos para a sua implementação efetiva;

4) estabelecer o envolvimento constante dos atores no estabelecimento de parcerias. O processo de construção e implantação da agenda deve sempre estar aberto à participação e envolvimento das pessoas, instituições e organizações da nossa sociedade;

5) entender que o processo é tão importante quanto o produto. Os maiores ganhos virão das novas formas de cooperação e diálogo entre os atores sociais e da eficiência e eficácia dos resultados pretendidos;

6) estabelecer consensos e superar os entraves do atual processo de desenvolvimento. A construção da agenda demanda a mediação e a negociação como forma de se avançar sobre os conflitos e contradições dos processos, para que se lance luz sobre os grandes entraves que devem ser enfrentados, para caminharmos rumo à sustentabilidade é fundamental que as ações sejam pactuadas. (AGENDA 21, 2004, p. 25).

Sobre a efetividade da agenda 21 como instrumento para a gestão ambiental local, merece amplas considerações. Entre as ponderações trazidas, consolidam-se algumas trazidas pela própria agenda, como problemas socioambientais presentes nos diferentes aspectos dentro do contexto brasileiro.

O programa de implementação da Agenda 21 e os compromissos para com a carta de princípios do Rio de Janeiro foram fortemente reafirmados durante a Cúpula de Joanesburgo - Rio + 10, em 200235, pois 10 anos depois da criação da Agenda 21, as constatações foram de que, com o aumento populacional, aumentou a degradação ambiental, tornando mais flagrantes e profundas as injustiças sociais, agravando o quadro de miséria no mundo. Tais constatações levam a crer que, o compromisso dos diferentes atores, está muito aquém do que a realidade impõem.

Os propósitos metodológicos da gestão participativa perpassam toda a proposta da agenda 21, destacadamente para o nível local o documento enaltece

35 Trata-se do encontro realizado pela ONU, na cidade de Joanesburgo, na África do Sul, resultou na Declaração de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável.

enquanto espaço de interação entre governo e sociedade, movimento social e gestão pública, construindo espaços de solidariedade e de democracia de forma concreta.

A possibilidade teórica e metodológica apresentada pela agenda 21 representa um caminho para alcançar formas sustentáveis de vida, especialmente porque cada cidade tem suas características, seus ecossistemas, suas estruturas sociais e necessitará de jeitos próprios de compreender seus problemas, conforme sugere o diagnóstico participativo, bem como, definir ações possíveis e factíveis em cada contexto, em cada cidade.

Por derradeiro, destaca-se a defesa da adoção de uma gestão ambiental integrada com a vida da cidade.