PARTE I – SOCIEDADE MODERNA, CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS E
1 CIDADANIA, DIGNIDADE HUMANA E MODERNIDADE: UMA PERSPECTIVA A
2.4 Os conflitos socioambientais sob o olhar da vulnerabilidade e do risco no
2.4.3 Vulnerabilidade: compreender para minimizar
2.4.3 Vulnerabilidade: compreender para minimizar
Para entender o termo vulnerabilidade é preciso considerar, simultaneamente, o conceito de risco, pois a vulnerabilidade aparece no contexto dos estudos sobre risco, tanto em sua dimensão ambiental quanto no contexto sócio-econômico (MARANDOLA JR, 2004).
A vulnerabilidade é um componente fundamental na análise de risco. Muñoz (2002, p. 12), utilizando-se dos apontamentos de Blaikie et al, a define como as
características de uma pessoa ou grupo em termos de sua capacidade para antecipar, enfrentar, resistir e se recompor do impacto de um perigo [...]. Isto implica uma combinação de fatores que determinam o grau em que a vida e o sustento dos indivíduos são postos em perigo por um evento identificável na natureza e nas sociedades.
Para Oliver-Smith (2004), vulnerabilidade é fundamentalmente um conceito político-ecológico e envolve a relação do ser humano com o meio ambiente, considerando as forças econômicas e políticas, características da sociedade em que
está inserido. Do ponto de vista dos desastres, vulnerabilidade é um nexo conceitual que relaciona o meio ambiente às forças sociais, instituições e valores culturais que os sustentam ou combatem. Combinando elementos do ambiente, da sociedade e da cultura em múltiplas proporções, o conceito de vulnerabilidade engloba a multidimensionalidade dos desastres.
Para o referido autor, desastres são tanto eventos materiais complexos quanto uma multiplicidade de construções sociais interpenetrantes e por vezes conflitantes. Quer sejam material ou socialmente construídos, os efeitos dos desastres são canalizados e distribuídos na forma de risco no âmbito da sociedade, de acordo com práticas e instituições políticas, sociais e econômicas. Essa é a essência da vulnerabilidade (OLIVER-SMITH, 2004).
Wilches-Chaux (1989) identifica onze diferentes formas de vulnerabilidade:
natural, física, econômica, social, política, técnica, ideológica, cultural, educacional, ecológica e institucional. O modelo proposto por Blaikie et al (1994) coloca essas diferentes formas de vulnerabilidade em correntes causais. O autor situa as ideologias dos sistemas político e econômico, como originárias da maioria dos desastres a que o mundo está vulnerável hoje, já que afetam a alocação e a distribuição de recursos na sociedade. A vulnerabilidade está situada conceitualmente na interseção entre natureza e cultura e demonstra, muitas vezes dramaticamente, a mutualidade de ambas na construção do desastre, seja natural ou social.
É necessário examinar os conceitos de vulnerabilidade em termos teóricos, para desvelar suas amplas implicações ecológicas, políticas, econômicas e sócio-culturais. É necessário reconhecer, naquilo que geralmente se compreende como distúrbios da natureza e da sociedade, as suas profundas bases sócio-culturais e econômico-políticas.
Se, como sustentam teóricos da vulnerabilidade, desastres são mais produto da sociedade que especificamente naturais, certas questões concernentes à conjuntura da cultura, da sociedade e da natureza aparecem. É preciso entender vulnerabilidade enquanto relacionada às estruturas sociais e econômicas, normas e valores culturais e desastres do meio-ambiente em corrente causal.
Alves (2005, p. 11), ao identificar e caracterizar as situações de vulnerabilidade sócio-ambiental, define-as como “a coexistência ou sobreposição espacial entre grupos sociais muito pobres e com alta privação (vulnerabilidade
social) em áreas de risco com degradação ambiental (vulnerabilidade ambiental)”.
Decorrentes dessas duas dimensões surgem outras vulnerabilidades e outros riscos, que devem ser enfocados pelas políticas públicas. Compreendido como condicionante ambiental e/ou social o tema da vulnerabilidade permitirá a atuação que reduza os impactos de eventos de qualquer dos campos, social ou ambiental.
Para o autor “não é por acaso que as áreas de risco e degradação ambiental também são, na maioria das vezes, áreas de pobreza e privação social” (ALVES, 2005, p. 13). Assim, a sua hipótese “é que a vulnerabilidade ambiental é um fator relevante na configuração da distribuição espacial das situações de pobreza e privação social” (p. 13), o que, de modo geral, se repete em outras metrópoles brasileiras devido à similaridade dos processos que as formaram e aos problemas que enfrentam.
Nesse sentido, ele acredita que a categoria vulnerabilidade pode captar e traduzir os fenômenos de sobreposição espacial e interação entre os problemas sociais e ambientais, sendo adequada para uma análise da dimensão sócio-ambiental (espacial) da pobreza. Para Mendonça (2004b, p. 142), a “condição de pobreza de uma determinada população está estreitamente vinculada à condição de formação de riscos e de vulnerabilidade sócio-ambiental.”
A vulnerabilidade implica, pois, uma combinação de fatores que determinam o grau em que a vida e o sustento dos indivíduos são postos em perigo por um evento identificável na natureza ou na sociedade. A vulnerabilidade é inerente ao território e à população, mas pode ser trabalhada. Constitui um conceito complexo por abranger aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, além da ecologia política e da ecologia ambiental.
Muñoz (2006)25 afirma que a vulnerabilidade está diretamente ligada à capacidade de resposta de uma sociedade em prevenir, evitar e reduzir os prejuízos.
Daí sua relação com aspectos como educação, grau de informação, condições econômicas, legislação ambiental, grau de organização social, nível de vida e saúde e rede de proteção civil da sociedade.
Para identificar a capacidade tanto de prevenção quanto de resposta ao risco, alguns indicadores são decisivos, como o nível de renda, que permite perceber os
25 Comunicação pessoal em curso proferido no Programa de Mestrado/Doutorado em Geografia da UFPR. Curitiba, ago. 2006.
níveis de pobreza, o grau de instrução, taxas de desemprego e de rotatividade nos empregos, ou outras que permitem identificar as formas de trabalhar e viver.
Não se deve esquecer, porém, que as diferentes camadas sociais ou grupos, bem como regiões com variados níveis de desenvolvimento, estão expostos, cada um, a diferentes riscos, sendo precipitado afirmar de antemão que quanto maior o nível econômico, de instrução ou de desenvolvimento, menor o número e a dimensão de riscos a que os sujeitos estão expostos. São outros os riscos, outros os possíveis desastres. As diferentes situações de vulnerabilidade dos sujeitos (individuais e/ou coletivos) podem ser particularizadas pelo reconhecimento de três componentes interligados: o individual, o social e o programático ou institucional.
Os componentes da vulnerabilidade individual referem-se à ordem cognitiva como quantidade e qualidade de informação de que os indivíduos dispõem e sua capacidade de elaborá-la, bem como à ordem comportamental: referem-se à capacidade, à habilidade e ao interesse dos sujeitos para transformar as preocupações em atitudes e ações.
O componente social da vulnerabilidade envolve o acesso às informações, as possibilidades de processá-las e o poder de incorporá-las a mudanças práticas na vida cotidiana, condições diretamente associadas ao acesso a recursos materiais, a instituições sociais como escola e serviços em geral, ao poder de influenciar decisões políticas, à possibilidade de enfrentar barreiras culturais e de estar livre de coerções violentas de todas as ordens etc., que precisam então ser incorporadas às análises de vulnerabilidade.
O componente institucional ou programático da vulnerabilidade conecta os componentes individual e social. Diz respeito ao grau e à qualidade de compromisso, recursos, gerência e monitoramento de programas nacionais, regionais ou locais de prevenção e cuidado, importantes para identificar necessidades, canalizar os recursos sociais existentes e otimizar seu uso.
Fatores igualmente relevantes para compreender a vulnerabilidade são os aspectos técnicos, políticos, sociais e territoriais. Mais do que entender ou medir a vulnerabilidade, segundo Muñoz, tal elaboração constitui passo fundamental para o planejamento urbano, sem o qual não se conseguirá alcançar formas sustentáveis de organização e de ocupação territorial que reduzam os riscos para a população.
Articulados entre si, os componentes constitutivos de uma abordagem apoiada no quadro conceitual da vulnerabilidade priorizam análises e intervenções
multidimensionais, sugerem a compreensão de que as pessoas não são, em si, vulneráveis, mas podem estar vulneráveis a alguns agravos e não a outros, sob determinadas condições, em diferentes momentos de suas vidas.