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Mapa 4- Estradas e caminhos entre Monte Alto e Caetité

2 CAPÍTULO 1 ESCRAVOS E SENHORES DE UMA “PRAÇA PROVIDA DE

5.5 A alforria e a paternidade nas cartas e nos testamentos

Mesmo nas cartas onde a filiação do escravo estava implícita e pode ter implicado a alforria, os elementos de domínio e de cobrança somavam-se ao da autoridade instituída pela paternidade e pela posse, como ocorreu com Mathilde:

Digo eu abaixo assignado, que entre os mais bens que possuo livres e desembargados, húm bem assim huma Escravinha de nome Mathildes mulatinha de idade de quatro annos, a qual fica debaixo athe´o dose annos, e dai em diante poderá gozar de sua liberdade322.

Na sequência da carta de Mathilde há a observação de que não se poderia em tempo algum cobrar os dias de serviços pelos anos de criação. Os doze anos de idade dela encerrariam o fim da “dependência”, pois haveria chegado à idade adulta, ideal para as moças se casarem. Ela, supostamente, deveria entender que esses anos eram custosos e que a gratidão era o mínimo para ofertar em troca.

A idade de casar definia algumas concessões de alforria para as meninas. Joaquim Alves Coelho afirmou, na carta de alforria de sua “cria”, Maria parda, que a alforriava por “desencargo de consciência”. A mãe de Maria, que se chamava Teresa, havia sido sua escrava e, no momento da elaboração da carta, gozava de sua liberdade ao lado do marido. Segundo Joaquim Alves, essa condição de Teresa como esposa de José Ramos, associada a sua nova condição jurídica de mulher forra, permitia que ele lhe entregasse “a dita menina” para que ela e seu marido a criassem até a idade de casar. Chegado este momento, o casal deveria devolvê-la para ele, seu pai. Como informação adicional, na carta ele a reconhecia por sua filha natural, tida com Teresa

no tempo dela solteira e ele viúvo323. Pareceu-lhe oportuno fazer essa ressalva que o abonava

de qualquer desvio na moral cristã.

Maria foi descrita no documento como cria, parda e filha natural. Embora filha biológica de Joaquim Alves de Carvalho, foi identificada no início do registro de sua liberdade como sua cria e depois como filha. Talvez porque a visse primeiro como uma de suas crias, e só depois como filha. No entanto, como citamos no capítulo 2 desta tese, o termo filha, como sempre acontecia, reportou-se à filiação concebida entre uma pessoa livre e uma escrava. Do mesmo jeito, o termo parda foi novamente empregado para qualificação da criança que estava sendo alforriada.

Ao conceder a alforria, o pai e proprietário livrou-se de sustentá-la. Por outro lado, talvez imbuído de boas intenções, se tenha mesmo importado com a sua criação e amparo ao enviá-la à mãe. Ou, quem sabe, cedeu aos apelos desta para entregá-la e alforriá-la. Quanto à menção em ajudá-la a casar, poderia estar referindo-se ao futuro cônjuge, a um dote, ou mesmo às providências do “enxoval de casa”, como alguns pais faziam com moças da região prestes a contrair o matrimônio. Ajudar a casá-la também evitaria a desonra moral de um mau casamento ou do infortúnio de ser mãe solteira. Já a alforria lhe permitia, em terra, e depois da morte, o alegado “desencargo de consciência”.

Para situações com a de Maria e Mathilde foram usadas justificativas como: “desconfio de parte na criança por ter tido cópula carnal com a mãe da dita”, ou “reconheço ter parte nela”. Sérgio Florentino da Silva descreveu nos seguintes termos uma situação parecida:

[...]entre os mais bens que possuo livres e desembargados hé bem assim huma Escrava Clemencia, cuja Escravinha hé cria minha, “a qual forro e com efeito forra a tenho de hoje para todo sempre e como desconfio ter de parte nella por ter tido copula carnal com a Mai da dita por isso a forro e cuja alforria a fasso muito de minha vontade[...]324

Assim como Sérgio Florentino e Joaquim Alves de Carvalho, a tônica da filiação amparou algumas alforrias nos testamentos. Logo depois dela, vieram os bons serviços. Todas as alforrias apareceram com a indicação de serem concedidas após a morte dos proprietários.

As alforrias das escravas “pejadas” foram demarcadas quase sempre para depois do parto, e as crias destinadas aos herdeiros. Escravos adultos, com anos servindo aos senhores,

323 SALVADOR. Seção Judiciário. Livro de Notas de Tabeliona n. 6. Série cartas de liberdade. Salvador: APEB, 1840.s/p.

324 SALVADOR. Seção Judiciário. Livro de Notas de Tabeliona n. 6. Série cartas de liberdade, s/p. Página incompleta no documento.

foram os mais contemplados. Vestígios das alforrias ocorridas com mais de um membro das famílias cativas apareceram nas cláusulas que citavam alforrias dos cativos. Elas ocorreram em conjunto com a mãe ou só para a criança. Maria Inácia Antônia Pereira de Jesus deixou no seu testamento coartada a escrava Vicência cabra pelo valor de 50$000 mil réis. Vicência ficou com o direito de quitar essa quantia com o testamenteiro em dois anos. A sua filha, a cabrinha Theresa, foi libertada no mesmo documento com a verba para o título deixado pela proprietária. Como as duas ficariam libertas após seu falecimento, e a mãe, provavelmente, mais tarde que a filha, já que teria que efetuar o valor, ficou assentado no documento que a criança ficaria em companhia de sua mãe325. Em outro testamento, Maria, seu marido, Vicente, e seu filho Manoel,

foram alforriados juntos. Teresa, irmã de Maria, também326.

Expressões comuns às cartas de alforrias concedidas na pia batismal e nos cartórios também foram recorrentes nos testamentos. Havia entre os proprietários uma espécie de consenso quanto aos trâmites da escrita, ou mesmo uma prática comum guiada por um texto padrão emitido por quem elaborava o documento. Entre as expressões que enfatizavam a posse e a dádiva estavam: “gozará de sua liberdade como se de livre ventre nascesse, por tanto meus herdeiros, em tempo algum poderão reduzir a escravidão”; “alforriado pelos bons serviços”; “por ser minha cria”327. Já para determinar ou alertar sobre os perigos de revogação e a

imposição da obediência, um bom exemplo ocorreu no testamento de Antônio de Almeida e Souza. Ele deixou nesse documento cartas de liberdade para seus escravos Eduvirges, Martiniana, Rita, Maria, Euzébio, Ana e Antônio com a condição de, enquanto vivo, “acompanhá-lo e obedecê-lo”328.

O testamento, muitas vezes, ratificava a alforria ocorrida em outra circunstância. Domingos Soares dos Santos Barbalho alforriou em 1855 o mulatinho Antônio, talvez seu filho, na pia batismal. Antônio até foi batizado com o sobrenome do proprietário e passou a se chamar Antônio dos Santos Barbalho. A confirmação da alforria apareceu em seu testamento e depois em seu inventário. Ele alegou ser Antônio filho de sua escrava Maria “fula”, e que o alforriava de forma incondicional “pelo amor de criação” e por ser sua “cria”. Maria, mãe de Antônio,

325 SALVADOR. Série Judiciário. Séries Testamentos. ID: Inácia Antônia Pereira de Jesus. Classificação: 02/568/1020/04. Salvador: APEB, 1836. p.4.

326 SALVADOR Série Judiciário. Séries Testamentos. ID: Martiniana Maria de Jesus. Classificação: 08/3391/10. Salvador: APEB, 1879. p.1.

327 SALVADOR. Série Judiciário. Séries Testamentos. ID: João Borges de Carvalho. Classificação: 02/564/1016/06. Salvador: APEB, 1854. p.2.

328 SALVADOR. Série Judiciário. Séries Testamentos. ID: Antônio de Almeida e Souza. Classificação: 02/868/1337/27. Salvador: APEB, 1858. p.3.

aparece na descrição dos bens de Domingos em 1860, com trinta anos de idade e avaliada por 400$00 mil réis.

O convívio mais próximo com o proprietário, o fato de nascer na posse e a paternidade, aparentemente, operaram para a liberdade de Antônio. Domingos Barbalho ainda deixou expressa no documento a quantia de 50$000 mil réis para sua educação. Talvez Domingos estivesse realmente preocupado com a inserção do pequeno Antônio na sociedade ou nutrisse de fato um afeto pelo menino. Sob um ângulo mais comum nestes casos, talvez lhe aliviasse o peso da consciência na iminência da morte certa.

Na prestação de contas, nos anexos do testamento em 1877, seu filho que também era seu testamenteiro, apresentou os comprovantes de que o dinheiro deixado ao mulatinho Antônio por sua educação havia sido entregue ao professor público Martiniano Sant’Ana, que o teve como interno durante o ano de 1864 para aprender as primeiras letras, o que conseguiu regularmente. No entanto, o testamenteiro alegou ter tido muitas despesas com o menino, porque o criou até aos 12 anos, idade em que morreu. O menino tinha ficado, desde os quatro anos, sob sua responsabilidade.

As alforrias encontradas nos testamentos, como as de Antônio e de Rufina, ou nas cartas de alforrias, como as de Vicência, Maria e Mathilde, entre tantas outras, citadas neste capítulo, reiteram a luta pela liberdade em Caetité. A liberdade também chegou às crianças do cativeiro, embora as “crias” fossem, além de fundamentais para a preservação da posse, um bem para os herdeiros e pagamento possível para algumas transações comerciais. No cenário onde o escravo comprado era muito caro, os portos ficavam distantes e a mecânica do tráfico envolvia o monopólio de empresas e as dificuldades das estradas, a presença de escravos crioulos em tenra idade, era uma forma de garantir um trabalhador e um bem para negociação. O mercado interno tinha uma dinâmica econômica que alimentava transações comerciais diversas como: venda, permuta e hipoteca. É sobre essas transações comerciais, com crianças e jovens cativos, que o capítulo seguinte se desenvolve.