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Mapa 4- Estradas e caminhos entre Monte Alto e Caetité

2 CAPÍTULO 1 ESCRAVOS E SENHORES DE UMA “PRAÇA PROVIDA DE

2.3 Os ofícios dos moradores livres e cativos

A mão de obra escrava esteve presente em todas as áreas da economia de Caetité. Os escravos atuaram nos setores voltados para o mercado local, regional e externo. Atenderam às necessidades do trabalho no comércio, na pecuária e na agricultura.

A lavoura foi a área mais citada na identificação do trabalho exercido por trabalhadores escravos e livres de Caetité. Na ordem das profissões arroladas na junta de qualificação, apareceu em primeiro lugar a lavoura, depois os negócios e, só então, os demais ofícios: funileiro, carpinteiro, pedreiro, vigário, alfaiate, professor de primeiras letras, porteiro, coletor, carcereiro, fogueteiro, músico e caçador76.

Nos inventários, o “trabalho de lavoura” também prevaleceu. No caso dos cativos, as ocupações na casa ou no campo estavam correlacionadas, muitas vezes, ao sexo do cativo. A tipologia e a função foram as seguintes: a) roça/campo: lavoura, roceiro, carpina, vaqueiro, tropeiro e arrieiro; b) casa: cozinheira, engomadeira e pajem; c) ofícios especializados: ferreiro, sapateiro, pedreiro, rendeira, tecelã, fiandeira, costureira, alfaiate e boticária.

As menções às ocupações dos escravos adultos não constituíram uma regra nos inventários e, excepcionalmente, apareceram para jovens e crianças. O fato de o maior número de trabalhadores da região estar diretamente envolvido com a lavoura talvez fosse algo notório que dispensasse ou levasse a negligenciar a informação sobre a função exercida na propriedade. Como também acreditamos que o fato de os escravos da região exercerem múltiplas funções nas posses em que trabalhavam também tenha contribuído para negligenciar essa informação da ocupação nos inventários.

Gráfico 1- Ofícios dos escravos

Fonte: Inventários de Caetité, 1830-1870.

Embora o quadro de ofícios desempenhados pelos escravos fosse praticamente exclusivo aos adultos, em plena força produtiva, não se pode deduzir que as crianças e jovens cativos, nas diferentes faixas etárias, vivessem só para o lúdico ou na ociosidade. O que também se estendia aos escravos mais idosos, muito frequentes nas posses. A ociosidade não era pauta na vida sertaneja, os lucros dos proprietários e a sobrevivência na caatinga presumiam o trabalho frequente e incessante com o advento das frequentes estiagens.

E mesmo que não existam registros quantitativamente expressivos para inseri-los diretamente no mundo do trabalho, acreditamos que as crianças e os jovens cativos participassem, em proporções menores, das principais atividades produtivas da região. As mãos pequenas podem ter sido usadas com frequência nas hortas, na colheita do algodão e do café, nos afazeres domésticos e na lida com os pequenos animais. No Manual do Agricultor Brasileiro, de Carlos Augusto Taunay, publicado em 1839, há uma recomendação sobre a colheita de algodão e o trabalho das crianças:

A colheita do algodão não se faz ordinariamente com aquela delicadeza que a lã requer para conservação da sua alvura. Os negros pegam sem cuidado nas cápsulas e atiram com elas a esmo nos samburás ou cestos. Parecia-nos mais

acertado, ainda que se gastasse algum tempo a mais, que se separasse nesta mesma ocasião o fruto das cascas, trabalho que as crianças e mulheres

2; 2% 104; 70% 21; 14% 21; 14%

Ofícios

Roça e casa Roça e lavoura Trabalho de casa

Outros ofícios: sapateiro, pedreiro, ferreiro, boticária,alfaiate, tecelão, arrieiro, fiandeira, costureira, rendeira.

poderiam fazer no pé da árvore, enquanto os negros despissem os ramos

altos.( Grifo nosso).77

Nesse caso, como apontou Maria Cristina Luz Pinheiro, a exigência da ordem econômica e social escravista não pode ser negligenciada e, em algum lugar ou momento, o trabalho do pequeno cativo foi acionado:

A definição da idade em que a criança escrava tornava-se força produtiva, ou mesmo quando ela começava a desempenhar algumas tarefas, se aos quatro, cinco, aos sete, ou aos doze anos, tinha pouca importância diante das exigências da ordem econômica e social escravista. Importa-nos verificar que a criança não era uma carga inútil para os senhores e que podia começar a trabalhar muito cedo. Essa era a lógica do sistema escravista78.

O trabalho das crianças foi registrado em outras praças com maior riqueza de detalhes. Nas freguesias de Salvador, Maria Cristina Luz registrou percentuais muito mais ilustrativos de atividades urbanas e rurais das crianças. Ela chegou à conclusão de que, na Freguesia da Sé, 31,10% das crianças estavam associadas a algum tipo de atividade de trabalho e, na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Praia, 63,5%. A maioria dessas pessoas foram arroladas em atividade de lavoura ou doméstica. Heloísa Teixeira encontrou em Mariana o registro de crianças como pajem, pastor, candeeiro, servente, copeiro e ajudante de lavoura79.

A historiografia vem apontando, nos vestígios documentais, que as crianças escravas eram treinadas ainda muito pequenas. Segundo José Góes e Manolo Florentino, a “pedagogia senhorial” impôs aos pequenos cativos “suplícios, humilhações e grandes agravos”80. Se

ponderarmos essa assertiva sobre o treinamento, é possível que algumas crianças de Caetité, quando atravessavam a faixa dos 7 anos, fossem encaminhadas para o trabalho na lavoura, na pecuária ou mesmo em funções mais especializadas como tropeiro, vaqueiro, fiandeira, rendeira e cozinheira. Encontramos escravos entre os 8 e os 16 anos que lidavam com costura, que fiavam e faziam renda e que precisaram de alguns anos de aprendizagem do ofício. Logo, foram iniciados desde cedo nas atividades. Esses cativos podem ter sido ensinados por escravos muito

77 TAUNAY, Carlos Augusto. Manual do Agricultor Brasileiro. (org.) Rafael de Bivar Marquese. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.137.

78 PINHEIRO, Maria Cristina Luz. “O trabalho de crianças escravas na cidade de Salvador 1850-1888”. Afro-

Ásia,Salvador,n.32,p.159183,2005.Disponívelem:https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/21091

/13682.Acesso em: 10 mar. 2018.p. 173.

79 TEIXEIRA, Heloísa Maria. Reprodução e famílias escravas em Mariana (1850-1888). Dissertação (Mestrado em História) –Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. p. 70.

80 GÓES, José Roberto de; FLORENTINO, Manolo. Crianças escravas, crianças dos escravos. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2013. p.185.

próximos, o que não afastava acidentes e problemas de saúde impostos pelo trabalho, mas que ajudava a evitar alguns suplícios81.

As poucas referências aos ofícios encontrados na documentação ocorreram com crianças acima de 7 anos. Foram citados o trabalho na lavoura ou o trabalho em casa. Entre os ofícios mais especializados apareceram os de rendar, costurar e pastorear. Achados importantes porque os inseriram no mundo do trabalho, mas quantitativamente insuficientes para definir padrões de ofícios para os pequenos escravos. Não nos parece tão salutar essa ausência do ponto de vista da espécie da atividade, já que há fortes indícios de que o caminho da lavoura e do trabalho com os animais eram os mais propensos. Quanto à faixa etária, não encontramos dados que apontem ou neguem com segurança o que já foi posto pela historiografia sobre o trabalho de crianças: de que os filhos de escravos começassem a trabalhar aos sete ou oito anos, ou de que o serviço mais pesado ocorresse também a partir dessa faixa etária82.

As atividades exercidas por escravos mais jovens encontrados nos documentos não permitem assumir posições sobre a relação do preço da criança no mercado. Isso comporia mais um item no “jogo de variáveis dos preços” dos escravos, citado por Kátia Mattoso83. No entanto,

há evidências de aumento progressivo nos valores estimulados por outras variantes. Nessa segunda metade do século XIX, período contemplado nesta pesquisa, o cativo passou a ser o bem de maior valor, independentemente da faixa etária. O crescimento vertiginoso nos preços tomou fôlego com o advento do fim do tráfico internacional. O mercado do tráfico foi determinante para a disposição maior de escravos para a venda, principalmente pela difícil concorrência com os lucros apresentados nas paragens do Sudeste. Essa situação favoreceu o incentivo à reprodução, a oferta de escravos muito jovens ao mercado, e possivelmente, a ampliação deles nas atividades agropastoris.