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A alimentação adequada como direito humano e fundamental

Inicialmente, cumpre ressaltar que a questão dos alimentos sempre foi um tema que gerou grandes preocupações, e isso ocorre por tratar-se de uma necessidade de extrema importância a todos os seres vivos, exigindo proteção jurídica específica.

Assim sendo, o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) foi incluído na Declaração Universal dos Direitos Humanos em seu artigo 25°, e reconhecido como direito fundamental pela Constituição Federal em seu artigo 6°, passando então a ser declarado como direito fundamental e assegurado como direito social.

30 Sendo assim, consoante afirma Caroline Erhardt (2015):

A alimentação, por atender a uma das necessidades básicas do homem, sempre foi objeto de preocupação. O Direito à Alimentação, como direito fundamental, foi incluído na Constituição Federal, passando a figurar como direito social no seu artigo 6°. O Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) no art.25° da Declaração Universal dos Direitos Humanos é discutido no contexto da promoção do direito a um padrão adequado de vida.

A partir do momento em que a alimentação passou a encontrar previsão expressa no texto constitucional como um direito social, e não mais apenas nas Leis ordinárias das unidades da Federação, a preocupação com uma boa alimentação acaba por fazer parte de todo o programa de saúde pública dos governos federal, estadual e municipal (VAZ, 2012).

Contudo, mesmo que a carta constitucional tenha acrescentado expressamente em seu artigo 6° o direito a alimentação, já havia previsto em seu texto original o direito a saúde, o qual implicitamente já englobava o direito a alimentação, pois não há vida saudável sem alimentação adequada.

Da mesma forma a Constituição já trazia em seu artigo 1°, III, como fundamento geral de toda a República Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana, a qual compreende todos os direitos necessários para que os seus cidadãos possam viver de forma digna.

Ademais, em termos de conceituação o art. 2º da Lei 11.346 de 2006, estabelece que a alimentação adequada é direito fundamental:

[...] do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável á realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população.

§1° A adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as dimensões ambientais, econômicas, regionais e sociais.

§3° É dever do poder publico respeitar, proteger, promover, prover, informar, monitorar, fiscalizar e avaliar a realização do direito humano à alimentação adequada, bem como garantir os mecanismos para sua exigibilidade (BRASIL, 2015).

Nessa mesma percepção, pode-se afirmar que o direito humano a alimentação adequada é inerente a todos os seres humanos, compreendendo desde

31 o acesso aos alimentos, quantidade e qualidade até as condições de vida destes indivíduos.

Ao que se refere a conceituação do Direito Humano à Alimentação Adequada, há de se ressaltar o trazido em 2002, pelo Relator Especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, também citado no texto de Valéria Burity, Thaís Franceschini, Flávio Valente, Elisabetta Recine e Marília Leão (2010, p.15):

O direito à alimentação adequada é um direito humano inerente a todas as pessoas de ter acesso regular, permanente e irrestrito, quer diretamente ou por meio de aquisições financeiras, a alimentos seguros e saudáveis, em quantidade e qualidade adequadas e suficientes, correspondentes às tradições culturais do seu povo e que garanta uma vida livre do medo, digna e plena nas dimensões física e mental, individual e coletiva.

Assim para a garantia do direito fundamental a alimentação adequada consoante preceitua o relator das Nações Unidas, deve haver o acesso não somente ao básico para a subsistência, mas a todos os alimentos capazes de satisfazer nossas necessidades fisiológicas e nutricionais, os quais possibilitem viver com dignidade e nos tornem pessoas sadias e saudáveis.

Nesse diapasão, é de entendimento de Burity et al, (2010, p.16):

O DHAA começa pela luta contra a fome, mas caso se limite a isso, esse direito não estará sendo plenamente realizado. Os seres humanos necessitam muito mais do que atender suas necessidades de energia ou de ter uma alimentação nutricionalmente equilibrada. Na realidade, o DHAA não deve –e não pode – ser interpretado em sentido estrito ou restritivo, ou seja, que o condiciona ou o considera como “recomendações mínimas de energia ou nutrientes”. A alimentação para o ser humano deve ser entendida como processo de transformação da natureza em gente saudável e cidadã.

Esse também é o entendimento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (2013, p.1), o qual defende que o DHAA possui duas dimensões distintas, onde de um lado encontra-se o direito de se estar livre da fome e do outro o próprio direito a alimentação adequada, afirmando que a realização de ambas as dimensões são essenciais para que ocorra a efetividade dos demais direitos humanos.

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O Direito Humano à Alimentação adequada tem duas dimensões: o direito de estar livre da fome e o direito à alimentação adequada. A realização destas duas dimensões é de crucial importância para a fruição de todos os direitos humanos. Os principais conceitos empregados na definição de Direito Humano à Alimentação Adequada são disponibilidade de alimentos, adequação, acessibilidade e estabilidade do acesso a alimentos produzidos e consumidos de forma soberana, sustentável, digna e emancipatória (2013).

E é exatamente nesse contexto que deve haver a intervenção do Estado para que seja respeitado, protegido, promovido e se necessário fornecido o indispensável para a efetividade desse direito que é crucial para todos os seres humanos.

Eis o que torna a afirmar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (2013, p.1):

Uma abordagem de direitos humanos também requer ações especificas, para contextos específicos. Assim, é fundamental a adoção de ações afirmativas e políticas que considerem a dimensão de gênero, raça, geração e etnia. A garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada é uma obrigação do Estado e essa obrigação se desdobra nas seguintes dimensões: Obrigação de Respeitar, Obrigação de Proteger e Obrigação de Prover.

Isto posto é do Estado a obrigação de garantir a efetivação do direito à alimentação adequada, devendo promover ações especificas para que assegure esse direito de suma importância a todas as pessoas.

Nesse mesmo entendimento, pode-se afirmar que a efetivação do direito à alimentação, como direito fundamental, exige, em todos os níveis um olhar transdisciplinar, pois passa pela adoção de políticas sustentáveis de produção, distribuição, acesso e consumo de alimentos seguros e de qualidade, promovendo- se a saúde com uma alimentação saudável. Não é possível analisar o acesso à alimentação restrito a um só ponto de vista, motivo pelo qual o olhar transdisciplinar é essencial para contemplar o aspecto social, biológico, sanitário, jurídico e econômico envolvido na temática pertinente (ERHARDT, 2015).

Por conseguinte, é nesse ponto que o direito humano e fundamental à alimentação adequada e a questão do direito do consumidor à informação e a rotulagem de alimentos se encontram, uma vez que o Estado deverá promover

33 mecanismos que se destinem a regulamentar o ramo alimentício, desde a sua produção até o destinatário final, ou seja, até a mesa de cada cidadão.

Em suma, para que o direito humano e fundamental à alimentação adequada seja efetivo o Estado terá que proporcionar a segurança alimentar a todos os cidadãos, estabelecendo diretrizes a serem seguidas visando à garantia deste direito.

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