• Nenhum resultado encontrado

A alta modernidade e o desenvolvimento tecnológico.

CONCLUSÃO 381 REFERÊNCIAS

1 O SISTEMA DE PROTEÇÃO INTEGRAL: ENTRE O MODELO ADOTADO NA MODERNIDADE E OS DESAFIOS DA

1.2 O SISTEMA DE PROTEÇÃO INTEGRAL DESAFIADO PELA SOCIEDADE INFORMACIONAL.

1.2.1 A alta modernidade e o desenvolvimento tecnológico.

Cada período histórico é modelado pela forma como homens e mulheres vivem, o que abrange desde as mais íntimas e remotas aspirações de ordem pessoal até os grandes projetos de construção coletiva.

É da simbiose entre os aspectos sociais, econômicos e políticos que se constrói cada fração da história, que tem seu ritmo próprio, determinado pelas descobertas e escolhas realizadas. Dessa forma, pensar o sistema de proteção integral de adolescentes em face dos riscos a que estão expostos no ciberespaço pressupõe, antes de qualquer coisa, identificar os principais aspectos do momento atual, caracterizado pela produção dos efeitos e riscos advindos do rápido desenvolvimento tecnológico experimentado nos últimos anos do século XX. É preciso compreender que a incorporação e o crescente emprego das tecnologias ocorrem dentro de um marco de transformação e de confrontação da própria sociedade, que é produtora e ao mesmo tempo se vê desafiada pelos efeitos da tecnologia.

Os novos padrões de comunicação, interação social e de riscos produzidos no ambiente virtual28 estão intimamente ligados à transformação das tradições que historicamente sustentavam a vida das pessoas, e no momento em que as instituições que até então tinham servido de referencial para a marcha da história dão sinais de desgaste, novas formas de relacionamento começam a se forjar.

A fratura nas instituições tradicionais também alcança os espaços mais íntimos de construção da identidade pessoal, produzindo um ator social dotado de maior mobilidade espaço-temporal. As relações de vizinhança, demarcadas pelo local, passam a conviver com outras que

28

Convém esclarecer que se tentará evitar, tanto quanto possível, recorrer aos dualismos que separam em polos opostos universo real e virtual, pois se entende que o ciberespaço se constitui apenas num novo ambiente que serve de palco para as interações, não estando apartado da realidade. Explicar as relações no ambiente virtual como separadas do universo real significa lançar mão do pensamento simbólico, que opera a partir de representações que separam sujeito e objeto, representação da realidade e realidade, recaindo numa visão linear, sucessiva e temporal, rechaçada por vários autores utilizados nesta construção, com destaque para Mariotti (2000) e Lévy (1996; 1999).

extrapolam as fronteiras geográficas; a transmissão do conhecimento e das experiências intergeracionais, antes vistas como símbolo de certeza, hoje sofrem constante reavaliação.

Assim, a partir de Giddens (1991, p. 14), percebe-se que as mudanças experimentadas caracterizam-se pela sua profundidade e extensão, abrangendo tanto aspectos públicos, que dizem respeito à atuação dos Estados, quanto alterando a existência cotidiana, vez que atingem padrões de comportamento e de convívio diário das pessoas. Esse conjunto de transformações configura a alta modernidade, período atual que se caracteriza pela confluência do tempo e do espaço e pela radicalização dos efeitos do intenso desenvolvimento tecnológico, com destaque, para fins desse estudo, as tecnologias da informação e comunicação.

Fazendo-se um contraponto entre a modernidade simples e a alta modernidade ou modernidade tardia, pode-se dizer que a primeira caracterizou-se pelas grandes conquistas territoriais, nos quais o Estado não só se expandia em extensão geográfica, mas também se firmava como o grande instituidor do social.Conforme Santos (1997, p. 117), o Estado moderno, como realidade construída, caracterizava-se por sua organização formal, unidade interna e soberania absoluta29, representada

29 Segundo Dallari (1991, p. 63-80), o conceito teórico de soberania afirmou-se claramente a partir do século XVI, impulsionado pelos estudos de Jean Bodin, especialmente a partir de obra escrita em 1576. Neste momento, o teórico conceituou a soberania como “[...] poder absoluto e perpétuo de uma República, palavra que se usa tanto em relação aos participantes quanto em relação aos que manipulam todos os negócios de Estado de uma República”. Posteriormente, a soberania passou a ser considerada uma característica fundamental do Estado Moderno, definida por alguns autores como Poder de Estado e por outros, a exemplo de Kelsen, como expressão da unidade de uma ordem. Dallari, ao proceder à síntese das ideias apresentadas, culmina por conceituar soberania como poder, o mesmo concebido como o centro unificador de uma ordem, capaz de decidir sobre qual a ordem jurídica aplicável em cada caso, podendo, inclusive, negar legitimidade e aplicabilidade a alguma norma. Como características, este poder se manifesta como uno, indivisível, inalienável e imprescritível. Bobbio e Matteucci (1994, p. 1179-1188), por sua vez, definem a soberania, em sentido lato, como o poder de mando de última instância numa sociedade política, sendo o elemento que a distingue como tal, diferentemente das demais formas de associação, despidas deste poder. As formas de manifestação da soberania são diferentes, variando em razão da forma de organização do poder. Em sentido estrito, o termo data do final do século XVI, junto com o aparecimento do Estado, indicando o poder estatal. Seu conceito comporta uma dupla face: interna e externa. No âmbito interno, consiste no poder de eliminar qualquer situação que afronte a organização do Estado, agindo como mediador na eliminação dos conflitos internos cuja atuação é marcada pela absoluta supremacia. Na seara externa, atua em um sistema de coordenação, equilibrando suas relações de guerra e paz. A soberania, a partir de conceito político-jurídico passa por redefinição no momento em que se dá a crise do Estado Moderno, que não mais se apresenta como único centro do poder interno, nem como único ator no cenário internacional. A adoção de modelos democráticos e a nova feição das relações internacionais contribuíram para a redefinição do conceito de soberania, forçando uma releitura da plenitude do poder estatal.

por seu sistema jurídico, unificado e centralizado, por meio do qual determinava suas ordens para a sociedade civil. Esta, por sua vez, limitava-se ao espaço do econômico e das relações sociais espontâneas, voltadas aos interesses eminentemente privados.

O espaço de liberdade era assegurado, difundindo-se a ideia de que as pessoas eram livres e iguais, o que lhes conferia a possibilidade de gerir os seus negócios sem a interferência do Estado. Pode-se observar que as questões econômicas pertenciam ao domínio da sociedade civil, ao passo que as de caráter político e jurídico ficavam sob o domínio exclusivo do Estado. A sociedade civil mantinha-se separada do Estado, promovendo-se uma verdadeira oposição: liberdade/ ordem; privado/público, sociedade/Estado.

Forjou-se um sistema binário, no qual a autoridade, a ordem e a soberania ocuparam lugar de destaque em face das liberdades e a esfera pública, representada pelo Estado, era a produtora exclusiva do Direito. Ao mesmo tempo produziu-se, a médio e longo prazos, um descomprometimento da sociedade com as questões de interesse coletivo, o que resultou num déficit de participação social no espaço de cidadania, ou seja, nas relações sociais estabelecidas entre os cidadãos e o Estado, que domina e impõe sua juridicidade (SANTOS, 1997, p. 126).

Segundo as lições de Châtelet e Pisier-Kouchner (1983, p. 116- 117), na medida em que a liberdade individual e a livre administração dos seus bens e força de trabalho começaram a evidenciar a desigualdade entre os membros de uma mesma comunidade, gerando disputas e conflitos, o Estado começou a ser chamado a uma maior intervenção. Dessa forma, para manter a ordem e a coesão entre os membros da comunidade, deveria atuar como administrador do interesse geral (o que seria feito a partir da regulação), ao mesmo tempo em que foi forçado a realizar algumas prestações, abandonando a postura de abstenção em face das exigências de maior ação. Como consequência, passou a ocupar novos espaços, fortalecendo o poder estatal e engendrando, em seu bojo, um aparelho administrativo para impor a ordem.

Nesse período, o Estado constituía-se na forma social mais expressiva e na entidade sociopolítica que atuava dentro de um território delimitado, sendo dotado de capacidade de vigilância e de controle dos meios de violência. Na alta modernidade, em contrapartida, as pessoas, auxiliadas pelas tecnologias da informação e comunicação, desenvolvem novas formas de interação que muitas vezes se subtraem à ação do Estado.

Enquanto na modernidade simples o espaço de liberdade almejado pelo cidadão estava prioritariamente ligado à possibilidade de administrar os seus negócios e exercer seus direitos fundamentais sem a interferência do Estado, na alta modernidade, o anseio por liberdade se aprofunda, e as pessoas aspiram à livre manifestação do pensamento, das comunicações e ao direito de obter e produzir informações. Com isso, inicia-se um processo de interpenetração de esferas que antes eram hermeticamente separadas, pois produção e seleção de informações, outrora reservadas ao domínio público, começam a ser exercidas pelos particulares.

Com efeito, o Estado-nação, que historicamente se utilizava da informação para construir e disseminar o ideário de homegeneidade étnica, religiosa, linguística e cultural se vê desafiado por novos centros de produção e divulgação de informações30 que escapam à ação estatal (BAUMAN, 1999, p. 166).

Várias outras situações paradoxais se produzem: a expansão do Estado é garantida na modernidade simples graças ao desenvolvimento científico, motivo pelo qual há intensos investimentos nesta seara, alçando-se a ciência à condição de nova sacralidade. Isso culmina na transformação do próprio Estado, além de determinar a reorganização da técnica e das necessidades de produtividade. Inaugura-se uma nova era, na qual ocorre a racionalização da sociedade e a cientificização do Estado, o que faz com que Chatelet e Pisier-Kouchner (1983, p. 449) o tratem por Estado Cientista. O modelo que serve para a construção deste período é de inspiração cartesiana, que exalta o conhecimento como algo capaz de tornar o homem senhor da natureza e de todas as coisas.

Na alta modernidade, o desenvolvimento científico impulsionado pelo capital é potencializado em favor do mercado. A ciência, de livre investigação, é convertida e aprisionada pela tecnologia, retornando à sociedade transformada nos mais variados produtos. E o desenvolvimento científico, que tinha servido ao Estado, acaba se voltando contra ele, pois o progresso se mistura a uma profunda crise de humanidade, o que termina por revelar as insuficiências das estruturas

30

Aliado a isso, o próprio conceito de informação se transforma, dando lugar ao termo

complexo informacional, que envolve não só a informação, mas a publicidade e o

entretenimento que se fundem e com isso obtém maior penetração junto à população (VIRILIO, 1996, p. 22). Por conseguinte, mais difícil se torna o controle estatal, pois a informação vai se transformando. Outro aspecto salientado por Virilio (1996) e que ajuda a compreender a perda do controle estatal é a velocidade, já que a informação precisa ser instantânea, chegando rapidamente ao destinatário final, o que dificulta a filtragem do que é publicado.

estatais para responder aos novos problemas e conflitos que se desencadeiam a partir da marcha descontrolada da tecnociência. Ao mesmo tempo se desvela uma enorme crise de participação social, em que a sociedade, que teve suas formas de vida e de produção dominadas pela razão instrumental, vê seu fragilizado tecido se fragmentar ainda mais.

E é na alta modernidade que vão se revelar de forma latente as ambivalências produzidas pelo desenvolvimento posto em marcha na modernidade simples: a euforia da industrialização vai descortinando sua face oculta, mostrando que o progresso tecnocientífico, ao lado dos benefícios, também oferece riscos. O Estado vê sua área de atuação reduzida (ou conduzida pelos caprichos do mercado) e é constantemente confrontado com novas demandas; as promessas de bem-estar e progresso da modernidade não são cumpridas, as metanarrativas que tinham servido de bandeiras de luta dão sinais de esgotamento e começa a se questionar a adequação e a eficácia das respostas que tradicionalmente eram ofertadas pelo ente estatal.

Conforme sustentado por Giddens (2002, p. 22-26), o dinamismo das instituições atuais provoca descontinuidades, pois tanto as mudanças são mais velozes, quanto se diferenciam em amplitude e profundidade. Para o autor, três elementos explicam o caráter dinâmico da vida na alta modernidade: o primeiro deles é a separação entre tempo e espaço, que divergem radicalmente das sociedades pré-modernas, onde estas dimensões se conectavam a partir de uma demarcação específica, de um lugar. Atualmente há um processo de esvaziamento do tempo e do espaço, gerando o que o autor chama de mecanismos de desencaixe, considerados por ele como o segundo elemento caracterizador da vida moderna. Por meio desses mecanismos de desencaixe, a exemplo dos sistemas peritos (como a Internet) é possível constatar o próprio desencaixe das instituições sociais, que escapam dos modelos tradicionais e do modus operandi, deslocando-se dos contextos locais para rearticularem-se em espaços globais. Por fim, o terceiro elemento é a reflexividade institucional, que se refere ao profundo processo de revisão das técnicas e ações, o que é feito à luz do novo conhecimento científico adquirido. A reflexividade atinge as ideias de certeza, cunhadas pelo Iluminismo, introduzindo a dúvida e mostrando que todo o conhecimento está sempre sujeito à revisão. Isso obriga os atores sociais e refletirem sobre os efeitos produzidos pelo desenvolvimento tecnológico, o que pode conduzir a mudança nos padrões comportamentais, bem como na abertura dos processos de tomada de decisão.

Beck (1999, p. 181-183), na mesma linha que Giddens, salienta o impacto que este período produz sobre as instituições, afirmando que nesse período entra em erosão o tecido institucional e administrativo do Estado. Ao lado dos Estados nacionais, colocam-se vários atores cuja atuação e poderio ultrapassam as fronteiras e se sobrepõem ao comando estatal, levando-se ao questionamento (tanto interna, quanto externamente) do real papel desempenhado pelo Estado. Dessa forma, embora não sendo dispensado do cenário social e político, o Estado é constantemente confrontado, o que importa na releitura de sua atuação em busca de uma ressignificação que seja capaz de atender às demandas de uma sociedade em constante transformação, onde as certezas de outrora dão lugar a interrogantes e novos riscos.

Diante dos múltiplos cenários que se construíram na alta modernidade, o ente estatal que acreditava que a solução para os conflitos se encontrava na ciência do Direito, caracterizada pela neutralidade e certeza, começa a perceber que a crença de que Direito e Estado constituíam um só corpo (CHÂTELET e PISIER-KOUCHNER, 1983, p. 481) não cobria todos os aspectos dessa nova sociedade, local e global – sociedade em rede – marcada pela interligação de informações e pelos fluxos intensos de comunicações e interações.

E não é só o Estado que se vê confrontado, posto que as relações sociais, familiares e a própria constituição da identidade das pessoas sofre alterações, conforme descrito por Giddens (2002, p. 19):

A esfera que passamos hoje a chamar de “relações pessoais” oferece oportunidades de intimidade e de auto-expressão ausentes em muitos contextos mais tradicionais. Ao mesmo tempo, tais relações se tornaram arriscadas e perigosas, em certos sentidos desses termos.

Modos de comportamento e sentimento

associados à vida sexual e conjugal tornaram-se móveis, instáveis e “abertos”. Há muito a ganhar; mas há um território inexplorado a mapear, e novos perigos a evitar.

Com efeito, vivendo na “fronteira barbárica da tecnologia”31, as pessoas se veem imersas na sociedade de risco cujos contornos, ainda insuficientemente definidos, descortinam uma diversidade de futuros possíveis.

Beck (1997, p. 15), autor que se dedica a estudar a sociedade de risco, entende que “Este conceito designa uma fase no desenvolvimento da sociedade moderna, em que os riscos sociais, políticos, econômicos e individuais tendem cada vez mais a escapar das instituições para o controle e a proteção da sociedade industrial”. Significa dizer que as ameaças produzidas pelo estilo de vida e pelo progresso alcançado na modernidade começam a se concretizar, provocando as instituições e as pessoas a redeterminarem ou darem novo curso aos seus padrões de vida e de consumo.

Para Giddens (GIDDENS; PIERSON, 2000, p. 141), a sociedade de risco se origina de duas transformações fundamentais: o fim da natureza e o fim das tradições. Segundo ele, são extremamente raros os aspectos da natureza que não sofreram intervenção humana e se nos séculos anteriores o grande receio era com os perigos que a natureza poderia oferecer para a vida, a sociedade de risco se manifesta quando as pessoas passam a se preocupar com o que elas produziram sobre a natureza, ou seja, sobre os efeitos que serão gerados pelas intervenções humanas. Quanto ao fim das tradições, ela ocorre quando as pessoas se dão conta de que vários aspectos da vida não precisam ser vividos como destino, ou seja, é possível ousar e construir uma história de vida diferente daquela experimentada pelos antepassados, porque as pessoas têm a possibilidade de opção, de livre arbítrio.

As pessoas passam a ser constantemente autoconfrontadas pelas consequências de um modo de vida e de produção adotado na modernidade e que alterou os significados coletivos, abalando a crença que depositavam nas tradições. Com isso, estilos de vida dão sinais de exaustão e as pessoas, agora sem as amarras que lhes conferiam o sentido de tempo e lugar, passam a vagar livres, com maior mobilidade. Se por um lado a maior mobilidade incrementa as trocas culturais entre pessoas de lugares diferentes, por outro lado, favorece o aparecimento do sentimento de incerteza e a proliferação de riscos decorrentes das novas formas de interação social.

A fragilização, e até mesmo a ausência de vínculos familiares e comunitários fortalecidos, acaba impulsionando as pessoas a buscarem outros tipos de relacionamento onde possam restabelecer o sentimento de pertencimento que foi abalado na sociedade de risco. Busca-se substituir a “biografia padronizada”32, em que cumpriam papéis previamente determinados por uma biografia de eleição, em que elas escolhem o personagem a representar e elaboram o roteiro de suas vidas.

O que antes tinha sentido nas experiências de um passado compartilhado, agora se volta em grande velocidade para um futuro incerto.

Essa transformação afeta diretamente o dia-a-dia das pessoas, a forma como constroem sua identidade e se relacionam intersubjetivamente. Segundo Giddens (BECK; GIDDENS; LASH, 1997, p. 100), a tradição empresta significado ao eu, pois “A identidade é a criação da constância através do tempo, a verdadeira união do passado com o futuro antecipado”. Quando a integridade da tradição é ameaçada, por conseguinte a integridade da identidade da pessoa é abalada, passando por constantes confrontações.

Na sociedade de risco, a vida no presente se mostra em constante confrontação com o modo de vida eleito e desenvolvido durante a modernidade e as certezas que até então serviam de âncora para as decisões pessoais, sociais, políticas e econômicas acabam se revelando frágeis. Não há mais uma crença nos sistemas peritos e a própria ciência passa a ser contestada, pois a cada descoberta não tardam a aparecer posições e estudos em sentido contrário, o que dificulta as escolhas e previsões sobre o futuro.

Embora possa parecer que os riscos revelam-se como um fenômeno dessa quadra da história33, esta expressão é utilizada há vários séculos, pois segundo Giddens (GIDDENS; PIERSON, 2000, p. 142), “[...] os primeiros a utilizar a ideia de risco foram os exploradores ocidentais, quando se aventuraram por novos mares em suas viagens pelo mundo. Da exploração do espaço geográfico ela transferiu-se para a exploração do tempo”. Para ele os riscos oferecem uma dupla face, pois se de um lado revelam uma configuração negativa ou preocupante, sinalizando para possíveis resultados indesejáveis, por outro lado provocam reações positivas, impulsionando para a busca de soluções de problemas futuros, o que pode mobilizar a dimensão política a encontrar melhores soluções.

As respostas ofertadas serão mais eficientes na medida em que as características dos riscos da modernidade forem conhecidas. Para tanto, Giddens (1991, p. 126-127) apresenta a seguinte descrição:

33 Para Serrano (2006, p. 59), “A palavra risco é um neolatinismo (riscum) que não surge até meados do século XVI (Ad omnen risicum, periculum et fortuna dei). Ignoramos a origem da palavra (árabe, talvez). Ocorre que por volta de 1500 os observadores precisam introduzir o conceito de risco para caracterizar situações que supomos que não estavam bem caracterizadas com termos muito antigos como sorte, perigo, acaso ou medo. [grifos no original]

1. Globalização dos riscos no sentido de intensidade: por exemplo, a guerra nuclear pode ameaçar a sobrevivência da humanidade.

2. Globalização do risco no sentido da expansão da quantidade de eventos contingentes que afetam todos ou ao menos grande quantidade de pessoas do planeta: por exemplo, mudanças na divisão global do trabalho.

3 Risco derivado do meio ambiente criado, ou natureza socializada: a infusão de conhecimento humano no meio ambiente material.

4. O desenvolvimento de riscos

ambientais institucionalizados afetando as

possibilidades de vida de milhões: por exemplo, mercados de investimentos.

5. Consciência do risco como risco: as “lacunas de conhecimento” nos riscos não podem ser convertidas em “certezas” pelo conhecimento