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Janelas virtuais: identidade e representações juvenis na tela do computador.

CONCLUSÃO 381 REFERÊNCIAS

2 PONTOS E CONTRAPONTOS: A VISÃO DOS TEÓRICOS SOBRE AS INTERAÇOES DOS ADOLESCENTES NA WEB.

2.1 ADOLESCENTES CONECTADOS: A VIDA SOCIAL NA WEB.

2.1.1 Janelas virtuais: identidade e representações juvenis na tela do computador.

As relações e interações sociais no ambiente virtual proporcionam inúmeras oportunidades às pessoas, o que tem dividido opiniões entre quem não hesita em apontar seus efeitos nocivos, chegando a ter uma visão considerada como tecnofóbica em alguns momentos e, na outra senda, quem simpatiza com o ambiente virtual, vislumbrando ali um espaço privilegiado para exercício das liberdades de expressão, o que contribui para a construção da cidadania planetária.

Há vários argumentos construídos pelos autores que apontam os riscos que podem derivar da crescente utilização das tecnologias da informação e comunicação50 para a socialização dos internautas, a saber: a) o tipo de interação realizada no ambiente virtual contribuiria negativamente para a formação da identidade pessoal dos adolescentes, pois a ampla possibilidade de formar perfis e criar personagens poderia produzir confusão sobre quem realmente são, numa espécie de alienação de si mesmos; b) há autores que denunciam o excesso de exposição a que são estimulados os internautas, especialmente os nativos digitais, o que colocaria em risco sua intimidade e imagem; c) a superexposição da intimidade, revelada no ciberespaço contribuiria para o consumo de vidas alheias, ou seja, as experiências pessoais se transformariam numa espécie de produto disponível na web, desencadeando o processo de mercantilização da vida das pessoas; d) a realidade perderia lugar para as simulações e o que é construído para exposição precederia e formataria o real, dentre outros.

Como já mencionado, os nativos digitais passam grande parte do seu tempo livre conectados à Internet. A cada conexão se revela uma variedade de novas possibilidades, acessíveis com um simples clique no mouse. Desvendar este universo se torna uma grande aventura, na qual é possível dar vazão à imaginação, trocando o nome, a identidade, o perfil, assumindo outra roupagem, como se vivessem um personagem.

A amplitude das conexões e dos contatos interpessoais produzidos em parte sob o impulso das tecnologias da comunicação e comunicação pode ter reflexos sobre a identidade das pessoas, alterando tanto os aspectos íntimos, relacionados à autoidentidade51, quanto as relações de maior alcance social. A possibilidade de manter contato instantâneo com um número expressivo de pessoas nos mais diversos locais do planeta altera os referenciais de tempo e espaço, introduzindo dinamismo e aceleração à vida diária. A instantaneidade, por sua vez, acaba por se refletir na forma como as pessoas vivem os ritos de

50 Sinay (2008, p. 27) denomina as novas tecnologias de Tecnologías de la información y la

conexión, pois entende que sua utilização não conduz a que se estabeleçam formas de

comunicação e sim que as pessoas ficam conectadas. Para ele, a verdadeira comunicação é um fenômeno que envolve o reconhecimento da própria subjetividade, que se encontra com a subjetividade do outro sujeito. A comunicação se dá pela simbiose dessas subjetividades e pressupõe vinculação, desenvolvimento de habilidades existenciais, o que não acontece nas situações de mera conexão (SINAY, 2008, p. 10).

51 Para Giddens (2002, p. 54), “A auto-identidade não é um traço distintivo, ou mesmo a pluralidade de traços, possuídos pelo indivíduo. É o eu compreendido reflexivamente pela

pessoa em termos de sua biografia. A identidade ainda supõe a continuidade no tempo e no

passagem de uma idade ou de uma etapa de vida à outra, que ficam confundidas pela perda dos traços distintivos que antes delineavam cada fase da existência. Da mesma forma que é quase impossível precisar a localização geográfica do internauta, é muito difícil distinguir sua idade, e a padronização das formas e imagens que se descortinam na tela do computador fragilizam as demarcações entre a adolescência e a vida adulta, que se parecem ainda mais confundidas.

Vive-se em uma época em que a formação e a continuidade do eu são atravessados pelos sistemas abstratos52, ou seja, sistemas criados por quem detém grande saber técnico na área e sobre os quais a ausência de conhecimento das demais pessoas acerca do seu funcionamento impõe que se confie em seus mecanismos de atuação, a exemplo do que ocorre com as tecnologias da informação e comunicação. E a confiança nos sistemas peritos desenvolvidos na alta modernidade, somada aos padrões de trabalho e de vida social incorporados no período fizeram com que os ensinamentos e exemplos de vida antes reservados às trocas intergeracionais migrassem para os meios eletrônicos (primeiro a televisão e depois o ambiente virtual), refletindo-se ainda mais diretamente sobre a formação dos adolescentes.

A redução das trocas intergeracionais, por sua vez, abala a formação da confiança básica da criança, essencial para o desenvolvimento da autoidentidade e para o reconhecimento da identidade das demais pessoas e objetos, pois é na convivência e na troca realizada com pais e demais familiares que aquele ser vai se introduzindo no contexto social. Quando muitos dos ensinamentos que eram passados de geração a geração de forma oral e pela experiência compartilhada acabam confiados aos sistemas peritos (tarefa por vezes cumprida pela mídia), produz-se um estado de constante incerteza que abala a confiança básica da criança, refletindo-se na adolescência e na vida adulta.

Pessoas que não conseguem desenvolver a confiança básica são constantemente inseguras e apresentam dificuldade em conservar uma continuidade biográfica, o que faz com que sua vida se pareça fragmentada. Sem confiança em sua autointegridade, a pessoa permanece em constante interrogação de si mesma, o que a conduz a frequentes mudanças, afetando sua identidade, pois como ensinado por Giddens (2002, p. 55-56) “A identidade de uma pessoa não se encontra

52 Tal como são chamados por Giddens (2002, p. 37) os sistemas desenvolvidos a partir de um conjunto de conhecimentos técnicos partilhados apenas por um número limitado de pessoas, consideradas peritos.

no comportamento nem – por mais importante que seja – nas reações dos outros, mas na capacidade de manter em andamento uma narrativa particular.” [grifos no original]

E aqui reside um dos lados negativos do uso excessivo das tecnologias da informação e comunicação por parte de adolescentes, pois a multiplicidade de interações oportunizada nos vários ambientes do ciberespaço serve como um grande laboratório para a testagem de papéis e personagens, fragmentando ainda mais a narrativa particular, que se transforma a cada conexão. Como resultado, a identidade do adolescente pode ser afetada, pois como visto acima, ela depende de estabilidade.

Embora os adolescentes encarem as experiências de simulação de papéis e troca de identidades como mais uma oportunidade de ludicidade que lhes é ofertada no ambiente virtual, há autores que apontam uma série de consequências que podem se produzir a partir da passagem de um eu estável e centrado na identidade delineada para outra, mutável de acordo com as conexões à Internet.

Rüdiger (2002, p. 46) é um dos autores que discute a subjetividade e a socialidade virtual, apontando várias das transformações ocorridas em razão da virtualização. Para ele, “As concepções acerca do eu criadas pelos modernos, racionalistas e liberais, assim como as relações sociais que as apoiavam, tendem a caducar, na medida em que as tecnologias emergentes permitem experimentar uma variedade de estilos de vida e imagem [...]”. Assim, as rápidas transformações pelas quais passa a sociedade informacional produzem efeitos tanto na dimensão mais íntima dos seres, quanto nas formas de relacionamento interpessoal.

Apesar das mudaças que se operam no âmbito pessoal, Rüdiger sustenta que, em regra, as pessoas não perdem a noção de sua identidade verdadeira em decorrência da manipulação de vários papéis encenados on line, forjando-se uma possessão racionalizada que impediria de derivar para o registro do patológico. Para ele, “As pessoas, por suposto, se dividem em vários personagens, invertem relações de gênero, ficcionam o real, mas, em geral, não perdem o controle da situação”. (RÜDIGER, 2002, p. 115).

Convém lembrar, no entanto, que mesmo que as experiências transformistas com a identidade levadas a efeito no ciberespaço não derivem para o patológico (em geral, conforme gizado pelo autor), deve- se ter em mente que os atores que estão a encenar os mais variados papéis são os adolescentes, pessoas em processo de formação e que,

portanto, encontram-se mais vulneráveis que os adultos. Diante disso, os riscos de patologia são, no mínimo, maiores.

Rüdiger (2002, p. 14) também questiona até que ponto essa manipulação de papéis “ao invés de criar um novo conceito de pessoa, não aprofunda o processo de abstração social do sujeito que está na base do niilismo contemporâneo [...]”. Por seu ângulo de visada, o ciberespaço não serviria como palco para a construção do sujeito relacional, como propagado por muitos autores, antes se constituindo como “uma nova frente de lazer industrial, um elemento de potenciação da sociedade de comediantes [...]” (RÜDIGER, 2002, p. 114).

Segundo essa linha argumentativa, a multiplicação do mesmo tipo de perfil e de relatos, somado a intensas (mas vazias) trocas de mensagens não contribuiriam para que as pessoas descobrissem e expressassem de forma autêntica as suas características pessoais. Longe disso: as peculiaridades de cada um seriam esquecidas em favor de um modelo onde todos se parecem, numa constante repetição dos mesmos trejeitos e histórias. A massificação de modelos atingiria a vida das pessoas, que de seres concretos se reduziriam apenas a um estereótipo, numa pura abstração, sem perceber que cumprem um script cujo objetivo é reproduzir as estruturas de consumo, controle e dominação.

Como se sabe, a adoção de papéis e personagens diversos do verdadeiro não é uma prática que se originou com a utilização das tecnologias da informação e comunicação, pois em todas as culturas é comum as pessoas separarem a autoidentidade de performances que fazem nos contatos sociais. No entanto, deve-se atentar para que o indivíduo não transforme sua vida numa experiência artificial e falsa, pois a pessoa não pode sentir-se como se estivesse constantemente encenando a maioria das rotinas. Além da construção de performances ser contextual, ou seja, ocorrer em situações determinadas, ela não deveria ser determinada por padrões ditados pelo mercado.

Ao dizer isso não se quer negar o fato de as identidades serem múltiplas e se transformarem ao longo das sucessivas fases de desenvolvimento da vida. No entanto, apesar de mutáveis e relacionais, a pluralidade de identidades não prescinde do sentimento individual de permanência, ou seja, a pessoa não pode perder-se em meio ao personagem que está representando.

Mendes, estudioso dos processos de transformação das identidades, afirma que cada pessoa possui a identidade social, a pessoal e a identidade do ego. Enquanto a identidade social é variável em razão da interface entre as características pessoais e estruturais, resultando das influências do contexto; a identidade pessoal refere-se aos aspectos

informacionais relativos ao próprio indivíduo, como nome, impressão digital, sexo, constituindo-se nas marcas que tornam cada pessoa portadora de uma identidade única. A identidade do ego, por sua vez, é subjetiva e precisa ser sentida pelo indivíduo. Essa última identidade é mais flexível às variações e mudanças propostas pela própria pessoa, pois como explicado por Mendes (2005, p. 511), “[...] o indivíduo constrói a imagem de si próprio a partir dos mesmos materiais com que os outros primeiro constroem uma identificação social e pessoal dele, mas ele tem uma margem de liberdade importante para moldar a identidade do ego”.

Como se vê, a construção da identidade não é algo que se dê de uma vez por todas, constituindo-se e reconstruindo-se ao longo da vida a partir da mediação entre sentimentos e percepções pessoais e influências culturais53. Esse processo tem se acelerado diante da facilidade em simular papéis, proporcionada pelo desenvolvimento de novas ferramentas e pelas crescentes inovações da web, pois os demais meios de comunicação, notadamente rádio, televisão e cinema descortinavam ao usuário um espaço limitado à apreciação, sendo-lhe reservada uma posição mais passiva. As novas tecnologias, ao revés, permitem uma interação sem precedentes, conferindo ao usuário poder para criar e recriar, assumindo uma espécie de protagonismo que não tinha lugar nos demais meios de comunicação.

A explicação para o ambiente virtual ter se revelado como palco para a criação de personagens, construção e reconstrução de identidades pode ser extraída das lições oferecidas por Sibilia (2003, p. 141-144), para quem a linguagem é uma das formas de estabelecimento e demarcação da identidade. A partir de exemplos de relatos datados do séc. XIX e vastamente retratados na literatura, como confissões, ensaios, cartas e diários que narravam sofrimentos e dúvidas era possível, por meio da escrita, reelaborar as experiências pessoais, num exercício de reinterpretação de si mesmo.

Essa prática então predominantemente feminina se inseria no contexto de separação entre as esferas do público e do privado, consistindo num dos poucos espaços em que as mulheres podiam expor suas dúvidas, medos e experiências de vida. Era em seus diários que registravam as passagens importantes da vida e, através da narrativa, a mulher tentava compreender a si própria, num exercício de autoconhecimento. Nessa época, não se buscava a exposição dos sentimentos e os escritos eram secretos, servindo como uma espécie de

confessionário no qual os segredos íntimos eram revelados. Como dito por Carvalho (2001, p. 243), o eu era o texto.

Outra forma de expressão utilizada era a troca de correspondência entre amigas e familiares do sexo feminino cujo conteúdo normalmente refletia o universo predominantemente doméstico, povoado por nascimentos e mortes, histórias dos filhos e de suas conquistas. Por meio da escrita, as mulheres partilhavam intimidades e desenvolviam o sentimento de solidariedade e, embora as cartas fossem dirigidas à leitura do destinatário, seu teor se mantinha na reserva do privado (CARVALHO, 2001, p. 246).

O desenvolvimento tecnológico e as transformações sociais ocorridas na última metade do século XX tornaram mais porosos os limites entre a esfera pública e a privada (fortemente influenciada pelo ingresso da mulher no mercado de trabalho), fazendo com que grande parte dos atos praticados nos locais reservados à intimidade ganhasse publicidade.

Esse processo também produziu impactos sobre a construção do eu a partir da escrita, e o que antes ficava limitado aos diários íntimos hoje projeta-se no ciberespaço, ganhando publicidade sem precedentes. Se antes a escrita consistia em um exercício de autoconhecimento, que não visava a encantar ou despertar o interesse dos leitores, hoje ela é planejada com a finalidade de chamar a atenção, de capturá-los. Escreve-se pensando em quem vai ler a mensagem, buscando impressionar e fidelizar os leitores, mesmo que para isso seja necessário que a intimidade se desnude sem pudores, como se observa nas recentes formas de construção do eu feitas no ciberespaço, onde proliferam blogs, fotologs e Orkut.

Carvalho (2001) associa a exposição da intimidade em diários virtuais à necessidade de as pessoas aliviarem sua solidão, sentindo-se conectadas a alguém. Sibilia (2003), por outro lado, identifica a emergência e proliferação dessa forma de registro e publicização da intimidade pela necessidade de consumo de vidas alheias, sentimento despertado pelas empresas que exploram o setor e incentivam esse padrão comportamental. Nesse novo contexto onde tudo pode virar espetáculo, o privado e o público se interpenetram, configurando o que chama de mutação radical da subjetividade. Formam-se territórios onde capturar, copiar e vender modos de ser têm originado verdadeiros toxicômanos de identidade (SIBILIA, 2003, p. 147-149).

Em outra obra, Sibilia (2008, p. 16-17) refere que as tecnologias da informação e comunicação elegeram a pessoa comum como o grande destaque da web 2.0, já que o desejo de produzir vídeos caseiros para

serem disponibilizados no You Tube54, fotologs e blogs tem estimulado milhares de usuários a passar grande parte do dia selecionando imagens que mais tarde serão enviadas ao ambiente virtual.

Assim, incentivados pelas mensagens de quem explora o universo virtual, os usuários comuns sonham em sair do anonimato e se tornar produtores do que é consumido avidamente por milhares de olhos espalhados por todo o planeta. Para tanto, não medem esforços e tudo pode ser capturado para ser enviado à web: desde fotos familiares, imagens pitorescas, relatos do cotidiano, poesias, letras de músicas, relações sexuais55, enfim, tudo vira objeto de consumo.

É preciso, no entanto, perceber o que há por trás do discurso que insistentemente prega a ascensão do usuário a produtor e que persevera em associar a imagem do ciberespaço como ambiente para a manifestação de sua autonomia. Como denunciado por Rüdiger (2002, p. 118), “[...] a tendência estimulada pelas novas tecnologias de comunicação, ao invés do livre jogo da imaginação, é antes o acionamento da subjetividade instrumental e a exposição do eu como mercadoria”, o que equivale a dizer que o usuário acredita que ele é artífice da experiência no ciberespaço, movendo-se com amplo poder de escolha, e na realidade nada mais faz do que cumprir roteiros e papéis previamente determinados pela lógica mercantilista.

E a web 2.0 parece não reconhecer limites de expansão, disponibilizando novos serviços e oportunidades a cada dia. As diferentes formas de atuação no ambiente virtual não cessam de se multiplicar: pessoas ofertam bens usados, colocam à disposição a habilidade para a escrita de e-mails56; usuários são provocados pelos autores para contribuir na produção de livros, escrevendo o final que mais lhe agradaria; adolescentes internautas são convidadas a participar no processo de produção de sapatos57 e a partir disso são alçadas à

54 Siegel (2008, p. 60), ao tratar da lucratividade das empresas que operam no setor, informa que o Google comprou o You Tube por 1.650 milhões de dólares.

55 A exemplo do caso divulgado no Jornal Zero Hora, edição do dia 18 de março de 2009 que noticia a filmagem da relação sexual mantida entre uma menina de 11 anos de idade e um adolescente de 14 anos (ETCHICHURY, 2009).

56 Tal como a argentina Lola Copacabana que se denomina “prostituta das palavras” e oferece seus serviços para a escrita dos “melhores e-mails do mundo”, conforme Sibilia (2008, p. 24). 57 Sibilia (2008, p. 27) explica que as empresas estão abandonando o conceito de campanha publicitária em favor de “projeto de comunicação”. A aplicação deste novo conceito foi feito via Internet, quando uma empresa fabricante de calçados elegeu fotologs de quatro populares adolescentes brasileiras para serem “embaixadoras” da marca. Nessa condição, a partir de seus gostos e das sugestões de outros internautas indicavam cores e modelos à empresa. A estratégia foi exitosa e as adolescentes receberam cerca de dez mil visitas por semana, convertendo-se nas celebridades do momento.

condição de celebridades imediatas, a nudez é revelada sem pudores, inundando páginas da web com imagens de corpos nus58, enfim, tudo vira objeto de consumo fácil e rápido, num simples clique no mouse.

Mesmo que imaginem os riscos, as vantagens oferecidas se mostram mais tentadoras, especialmente porque os serviços disponibilizados são acompanhados de discursos e campanhas publicitárias sedutoras, que provocam os nativos digitais a deixarem sua marca no mundo por meio de signos que os identifiquem entre si e ao mesmo tempo os diferenciem dos adultos. Nada melhor do que a web, marca de sua geração que tem servido de tela na qual projetam sua imagem e inscrevem sua historicidade.

A necessidade de fazer parte desse cenário é tão intensa e a dimensão manipuladora dos meios de massa tão bem engendrada que, de acordo com Subirats (2001, p. 92-93), ocorre algo comparado com a drogadição. Ao mesmo tempo, todos querem ter a possibilidade de participar do que chama de “grande teatro do mundo”, no qual a renovação constante de notícias, informações e entretenimento se revelam atrativos irrecusáveis. Embora a aparente abertura do mundo virtual, em que todos podem fazer parte e garantir seu protagonismo, na realidade ele se revela fechado em si mesmo, em que a realidade estampada nas várias telas e sites é construída artificialmente por um sistema inteiramente programado. Para ele, “[...] la cultura o culturas virtuales significan la universalización o globalización del paradigma epistemológico de la alienación a todas las esferas de la vida, de la experiencia o de la sensibilidad”59 (SUBIRATS, 2001, p. 94).

Assim, a apropriação da realidade humana pelas culturas virtuais torna a vida de muitas pessoas uma ficção, uma série de narrativas justapostas, intercaladas por espaços publicitários60 e de entretenimento, acompanhados de informações fragmentadas, formando um verdadeiro mosaico humano. Há uma performatização das

58 Segundo Sibilia (2008, p. 241), a jovem norte-americana Natacha Merritt foi uma das primeiras a expor suas fotografias eróticas na web. Do ano 2000, quando iniciou a exposição, para cá, Natacha figura como autora das fotos e protagonista das cenas eróticas, em que aparece nua (sozinha ou acompanhada de parceiros ou de objetos eróticos). Ora vestida de colegial, outras vezes se valendo de recursos diversos, o seu diário digital serviu de inspiração para muitos outros que se desenvolveram na sequência. O diário pode ser acessado em