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A análise das sentenças

No documento elyedisondasilvamatos (páginas 122-124)

De acordo com a metodologia adotada neste trabalho (capítulo 2), a busca de evidência em corpus é fundamental por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, ainda que a intuição do analista como usuário falante da língua seja rica, o uso feito pelos outros milhões de falantes é muito mais rico. Isto implica dizer que uma categorização, como aquela que será apresentada a seguir, precisa ser testada contra um número razoável de sentenças em corpus, a fim de avaliar sua coerência. Em segundo lugar, ainda associado a riqueza do uso da língua, uma análise superficial de algumas centenas de sentenças é suficiente para concluir que qualquer categorização realizada é bastante limitada. Isto não é surpresa, se adotamos como hipótese de trabalho para representação das conceptualizações o uso de esquemas imagéticos (ao invés de uma solução meramente simbólica). A riqueza conceptual de cada esquema, acrescida das possibilidades de combinações e transformações, torna virtualmente impossível uma categorização completa. Assim, o uso de corpus para avaliar a categorização apresentada a seguir visa também testar a sua abrangência, sem a ilusão de que uma cobertura de 100% pode ser alcançada. No entanto, dado o viés computacional deste trabalho, "alguma" cobertura é necessária, e a análise de sentenças torna-se de importância capital.

Os corpora foram consultados através da aplicação SketchEngine, um sistema de consulta que incorpora esboços de texto, uma página, ou resumo. Os corpus usados são apresentados na Tabela 11(as siglas foram definidas no escopo deste trabalho e são usadas para referência, nas sentenças apresentadas ao longo do texto).

Dois fenômenos de interesse para a presente análise se destacaram, entre vários ou- tros, tornando-a mais complexa: a alternância causativo-incoativo e a numerosa ocorrência de metonímias.

9.1.1

Alternância causativo-incoativo

A alternância causativa é caracterizada por verbos que possuem um uso tanto intransitivo quanto transitivo, onde o uso intransitivo tipicamente denota um evento de mudança de estado sofrido por alguma entidade e o uso transtivo denota que este evento de mudança de estado foi acarretado ou causado por uma outra entidade (SCHäFER, 2009). O uso transitivo é, por esta razão, frequentemente parafraseado como "causar V-intransitivo", como em (9.1).

Tabela 11 – Corpora utilizados.

Sigla Corpus Descrição

CT CETENFolha/CETEMPublico O CETENFolha (Corpus de Extractos de Textos Electró-

nicos NILC/Folha de S. Paulo) é um corpus de cerca de 24 milhões de palavras em portugues brasileiro, criado pelo projecto Processamento computacional do portugues (pro- jeto que deu origem a Linguateca) com base nos textos do jornal Folha de São Paulo que fazem parte do corpus NILC/São Carlos, compilado pelo Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC).O CETEMPúblico (Corpus de Extractos de Textos Electrónicos MCT/Público) é um corpus de aproximadamente 180 milhões de palavras em português europeu, criado pelo projeto Processamento Computacional do Português (projeto que deu origem à Linguateca), após a assinatura de um protocolo entre o Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCT) português e o jornal PÚBLICO em Abril de 2000.

NURC

Projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro

Corpus constituído por entrevistas gravadas nas décadas de 1970 e 1990, num total de 350 horas, com informantes de nível superior completo, nascidos no Rio de Janeiro e filhos de pais, preferencialmente, cariocas.

DP Domínio Público Corpus composto de obras literárias do portugues brasileiro

do século XIX em diante e obras traduzidas para o Portugues Brasileiro, presentes no site do Domínio Público, totalizando mais de 500 obras literárias.

(9.1) (a) A porta abriu.

(b) O menino abriu a porta.

Enquanto a sentença intransitiva (9.1)(a) denota uma simples mudança de estado da entidade "porta", a sentença transitiva (9.1)(b) expressa que "o menino causou a porta estar aberta". Uma característica central desta alternâcia de transitividade é que o sujeito no uso intransitivo possui a mesma relação semântica com o verbo que o objeto no uso transitivo.

No uso intransitivo, os verbos que sofrem a alternância causativa são geralmente chamados de verbos anticausativos ou incoativos. No seu uso transitivo, eles são chamados de causativos (lexicais). A alternância causativa é também rotulada de alternância causativo- incoativo ou alternância anticausativa ou, ainda, de alternância ergativa.

A alternância causativo-incoativo é de interesse neste trabalho, pois é citada ex- plicitamente na metodologia de desenvolvimento da FrameNet Ruppenhofer et al. (2010, c. 2). No caso da FrameNet a opção foi por registrar os relacionamentos entre os Frames estativos e os Frames causativo (onde a ocorrência de uma causa ou agente é explícita) e incoativo (onde o desencadeador dos eventos não é focalizado). As relações Causative_of

e Inchoative_of são usadas para este fim. Os Frames que participam destas relações como Causativos deveriam herdar do Frame TRANSITIVE_ACTION, os Incoativos deveriam herdar do Frame EVENT e os Estativos do Frame STATE ou GRADA- BLE_ATTRIBUTES. No entanto, muitas destas relações ainda não foram registradas diretamente na FrameNet.

9.1.2

Metonímia

Tradicionalmente, a metonímia é definida como o uso de uma palavra (ou um sintagma) para se referir ao significado de um conceito relacionado, mas que não é explicitamente mencionado. Ela está baseada na contiguidade e implica, de certa forma, um contato ou uma conexão física entre as entidades (SHUTOVA et al.,2013). A metonímia é geralmente explicada através de "padrões metonímicos" convencionalizados que operam sobre classes semânticas (LAKOFF; JOHNSON, 1987, p. 35), com o uso de uma entidade em lugar de outra. Estes padrões ocorrem sistematicamente na linguagem e são também denominados "polissemia regular" ou "extensão do sentido", por outros autores. De fato, as ocorrências de uso metonímico com o verbo <abrir.v>, encontradas durante a análise, são tão numerosas que quase configuram a regra, ao invés da exceção. Alguns padrões comuns de substituição com o verbo <abrir.v> são ilustrados a seguir.

–Parte-pelo-todo: A sala está aberta. [a porta da sala]

–Conteiner-pelo-conteúdo: Abre o guaraná primeiro. [a garrafa com guaraná] –Evento-por-entidade: O museu já está aberto. [a visita ao museu]

–Produto-por-produtor: No jantar ele abriu um Bordeaux. [a garrafa de vinho Bordeaux] –Pessoas-por-instituição: A universidade está aberta a sugestões. [Os administradores

da universidade]

O interesse pelas ocorrências metonímicas, neste trabalho, está relacionado não só a sua frequência, mas também como uma possibilidade de análise dos mecanismos gerativos apresentados na seção 7.4.

No documento elyedisondasilvamatos (páginas 122-124)