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Semântica de Frames

No documento elyedisondasilvamatos (páginas 45-49)

3.3 A Linguística Cognitiva

3.3.2 Semântica de Frames

Da discussão anterior, observa-se que os conceitos não ocorrem isoladamente: eles estão presentes em uma rede de relações com outros conceitos, de tal modo que, para se

compreender um conceito e usá-lo, é preciso entender o seu posicionamento na rede. Além disso, cada conceito pode ser visto como possuindo uma estrutura interna, composta por outros conceitos e pelas relações entre estes. Lakoff (1990, p. 12) apresenta um exemplo, discutindo o significado de <terça-feira>. Para se entender o conceito de <terça-feira> é necessário se entender o conceito de <semana>. Mas o conceito de <semana> não existe na natureza; ele é produto da imaginação criativa da mente humana e da experiência cultural compartilhada (o que possibilita que diferentes culturas tenham diferentes conceitos para

<semana>). Da mesma forma, podemos considerar, recursivamente, que o conceito de <semana> depende do conceito de <mês> e este depende do conceito de <ano>. O tipo de

estrutura imaginativa necessária para definir um conceito como <terça-feira> é justamente o que Lakoff(1990) chama de esquema ou frame.

Fillmore e Baker(2010) vão utilizar o mesmo exemplo, para mostrar que o significado de <terça-feira> não pode ser compreendido sem conhecimento sobre como o tempo é dividido na cultura ocidental, incluindo o ciclo de sete dias e os nomes dados a cada membro deste ciclo. Os conceitos de <dia útil> ou <fim de semana> dependem mais ainda de outros conhecimentos, como os períodos da semana que são tipicamente dedicados ao trabalho e ao descanso. Entender uma expressão como "Até que enfim é sexta!" depende de conhecer os períodos da semana e uma generalizada preferência pelo descanso ao invés do trabalho. Ou seja, a compreensão de um conceito, expresso por um item lexical, demanda o conhecimento da situação em que aquele item está sendo usado. Este background é o que Fillmore chama de Frame e o estudo destes Frames é denominado Semântica de

Frames.

A Semântica de Frames é uma abordagem para estudo do significado lexical baseado nos trabalhos de Fillmore e seus colaboradores ao longo dos últimos 35 anos (FILLMORE, 1977),(FILLMORE, 1982),(FILLMORE,1985),(FILLMORE, 2006),(PETRUCK,1996), (FILLMORE; BAKER,2010), (GAWRON,2008). A ideia central da Semântica de Frames

é que o significado de uma palavra deve ser descrito em relação a um frame semântico. Um Frame, neste contexto, é uma representação esquemática de estruturas conceituais e padrões de crença, práticas, instituições, etc. que provê a base para uma interação significativa em uma comunidade de fala. Um Frame representa um sistema de conceitos relacionados entre si de tal forma que, para compreender um deles é necessário compreender toda a estrutura onde ele se situa.

Para a Semântica de Frames as palavras são categorizações das experiências e cada uma destas categorias é sustentada por uma situação motivadora, ocorrendo contra o cenário de conhecimento e experiência representado pelo Frame. O significado de uma expressão linguística é interpretado de acordo com o Frame de fundo que representa a cena no momento da enunciação. Por exemplo, o lexema <quebrar> pode significar <partir, romper> ("O copo quebrou") ou <falir> ("A empresa quebrou"), dependendo do Frame

aplicado (ou "evocado", na terminologia comumente usada na Semântica de Frames) e dos elementos linguísticos que ocorrem simultaneamente no mesmo enunciado.

A Semântica de Frames pode então ser definida como o estudo de como as formas linguísticas evocam ou ativam o conhecimento estruturado em Frames, e como os Frames assim ativados podem ser integrados para fornecer a compreensão das passagens que contém estas formas linguísticas (FILLMORE; BAKER, 2010). Por isso, a Semântica de Frames é também chamada de "Semântica da Compreensão" (FILLMORE,1982). O estudo completo do processo de compreensão, destaca Fillmore, deve considerar as maneiras pelas quais a informação não-linguística é integrada no processo.

Além disso, como ressalta Salomão (2009), cada Unidade Lexical, o pareamento de uma palavra com um de seus significados (CRUSE,2010), ao evocar um Frame impõe sobre ele uma certa perspectiva ou perfilamento. Tomando-se como exemplo o Frame associado a uma transação comercial, os lexemas <comprar> e <vender> perfilam a transação sob perspectivas diferentes (do comprador e do vendedor, respectivamente). A ideia central é que um lexema, ao evocar um Frame, destaca algum elemento deste Frame de forma particular. Isto significa que, quando compreendemos uma palavra, simultaneamente reconhecemos a informação relevante no background no qual aquela palavra desempenha um papel interpretativo.

O tratamento da polissemia em um estudo como a Semântica de Frames envolve a escolha entre manter significados distintos agrupados em uma só acepção ("lumping") ou separar os significados em diferentes acepções ("splitting"). Embora a Semântica de Frames não direcione esta escolha, a abordagem que considera cada Unidade Lexical (UL) como o pareamento de um lexema com um sentido (o que implica o pareamento de uma UL com o Frame no qual o significado é definido) possibilita o processo de "splitting". Isto acontece porque cada UL está localizada em um sistema de relações com outras palavras do Frame e com suas propriedades combinatoriais (valência). Por exemplo, <pequeno> em contraste com <grande> é uma UL (evoca um Frame), enquanto <pequeno> em contraste com

<alto> é outra UL (evoca outro Frame).

O estudo dos vários sentidos que podem ser atribuídos a um único lexema deve, então, ser feito procurando lexemas que tenham a mesma forma linguística em mais de um Frame. Fillmore e Baker (2010) exemplificam a questão com o Frame COMPLIANCE. O lexema <adhere> aparece tanto no Frame COMPLIANCE quanto no Frame ATTA- CHMENT, estando relacionado com coisas que conectam-se umas as outras ("o curativo adere à ferida"). Embora possa ser argumentado que <adhere > em COMPLIANCE é um sentido ’motivado’ pelo sentido de ATTACHMENT, a evidência que as duas UL

<adhere> pertencem a Frames diferentes é encontrada na relação morfológica com as

nominalizações correspondentes. Através da separação das nominalizações, podemos dizer que a nominalização para o sentido em COMPLIANCE é < adherence>, enquanto o

substantivo correspondente no Frame ATTACHMENT é <adhesion>. Fillmore e Baker (2010) explicam que uma das vantagens em separar as UL que têm a mesma forma é que fatos sobre o significado, valência e outras propriedades distribuicionais, bem como as correspondências entre as formas das palavras que compartilham uma base morfológica, pode ser expostos no nível da UL e não do lexema.

Este é um ponto fundamental para o presente trabalho, uma vez que a melhoria da interpretação por máquinas pressupõe a possibilidade de desambiguação dos lexemas polissêmicos. O fato de cada UL possuir seu próprio sentido, ou seja, evocar um Frame específico já se constitui em parte do processamento que deve ser realizado.

É importante entender também que os Frames, enquanto mecanismos cognitivos, não estão restritos à dimensão cultural. Qualquer conceptualização, linguística ou não- linguística, processa-se como evocação de um Frame (SALOMÃO, 2009), uma posição que também é assumida pela Teoria Neural da Linguagem (FELDMAN,2006). Todos os conceitos podem ser esquematizados como Frames na forma de uma MVA (Matriz de Valores de Atributos), em que os atributos representam os elementos (entidades, propriedades, participantes, etc) que podem ou devem estar presentes para a caracterização do Frame. Esquemas imagéticos, cinestésicos e executivos podem ser considerados Frames elementares, em contraste com os Frames "culturais". A figuraFigura 2mostra três exemplos de Frames, em níveis de abstração diferentes: na Figura 2(a) COMÉRCIO_COMPRAR pode ser caracterizado como um Frame cultural; na Figura 2(b), ATIVIDADE é um Frame abstrato; na Figura 2(c), CONTAINER é uma esquema imagético.

Figura 2 – Frames representados como MVA .

Em termos linguísticos, os elementos de um Frame emergem na valência lexical e construcional das expressões que evocam este Frame e podem ser considerados, segundo Salomão(2009), funções microtemáticas, postuladas em relação ao Frame caracterizados por elas. O Frame de transação comercial, citado anteriormente, pode, por exemplo, ter como elementos o VENDEDOR e o COMPRADOR, ao invés de uma função temática mais geral, como AGENTE. Além de responder as inadequações das nomenclaturas anteriores, os Elementos de Frame são importantes no processo de desambiguação, ajudando a diferenciar situações como exemplificadas pelas sentenças (3.7) (adaptadas de Salomão (2009)).

(3.7) (a) Dunga técnico substituiu o atacante Robinho jogador no último jogo.

A relação entre a Semântica de Frames e a TLG, discutida anteriormente, é explicitada em Fillmore e Baker (2010). Com substantivos que designam um objeto que tem uma função, o contexto linguístico pode em alguns casos ajudar a distinguir entre os casos que se referem meramente ao objeto físico e os casos que apresentam o objeto como servindo a sua função. Por exemplo, nas sentenças (3.8) <sobre a> e <na> ajudam a distinguir a <televisão> como um eletrodoméstico e como um meio de comunicação, o que efetivamente evoca Frames diferentes.

(3.8) (a) Ele pôs o copo sobre a televisão (b) Ele viu o jogo na televisão.

Na TLG esta é uma distinção entre os papéis qualia. Um objeto pode ter um qualia formal e um qualia télico, o que apontaria para sua representação em Semântica de Frames como duas Unidades Lexicais diferentes. Moreira e Salomao(2012) apresenta o exemplo do lexema <livro>, que pode estar associado ao Frame TEXTO, através do seu qualia formal, e ao Frame INFORMAÇÃO, através do seu qualia télico. Já Salomão (2009) mostra que

<pegar um ovo> e <pegar uma pedra> são diferentes não pelo Frame MANIPULAÇÃO

evocado por <pegar>, mas pelos diferentes Frames que poderiam ser evocados por <ovo> e <pedra>, devido a distinção do seu qualia constitutivo.

Um ponto comum às duas teorias (Semântica de Frames e TLG) é o tratamento da significação lexical considerando o seu contexto sintático, ou seja, o registro da Estrutura Argumental (no caso da TLG) e a descrição das valências (no caso da Semântica de Frames). Assim, de alguma forma as duas teorias se complementam na tarefa de possibilitar a compreensão mais completa de um enunciado. Esta é também a perspectiva adotada nos experimentos deste trabalho.

As ideias de Fillmore em relação a Semântica de Frames deram origem a uma implementação computacional, o projeto FrameNet, apresentado na próxima seção.

No documento elyedisondasilvamatos (páginas 45-49)