2.2 A ascendência do acesso à justiça juvenil na perspectiva latino-americana
2.2.2 A Argentina e o Brasil sob o paradigma menorista
A Argentina e o Brasil, os dois maiores países em extensão territorial da América do Sul, e fronteiriços geograficamente, compartilham de alguns pontos similares no enredo de criação de instrumentos jurídicos voltados à infância e juventude. A compreensão desses elementos se faz importante para se repensar o acesso à justiça juvenil na região, evidentemente marcada pela truculência do Estado, pelo beneficiamento de instituições privadas e pela criminalização da adolescência despossuída e herdeira da carência deixada por seus genitores.
14 Yo me siento muy feliz de poder transmitir una fe profunda en el futuro de los tribunales para niños. Tengo la
certeza de que en algunos años todos los países civilizados los habrán organizado completamente. Estos tribunales se transformarán en todas partes en centros de acción para la lucha contra la criminalidad juvenil. No sólo ayudándonos a recuperar la infancia caída, sino también a preservar la infancia en peligro moral. Estos tribunales podrán transformarse, además, en auxiliares de la aplicación de las leyes escolares y las leyes del trabajo. Alrededor de ellos se agruparán las obras admirables de la iniciativa privada, sin las cuales la acción de los poderes públicos no podría ser eficaz. Al mismo tiempo que mantienen la represión indispensable, suministrarán una justicia iluminada, apropiada a quienes deben ser juzgados. Serán al mismo tiempo la mejor protección de la infancia abandonada y culpable, y la salvaguarda más eficaz de la sociedad.
15 Si el siglo XVIII, fija la categoría social del niño tomando como punto de referencia la escuela, al inicio del
siglo XX se asiste a la fijación de la categoría socio-penal del "menor" que tiene como puntos de referencia la "ciencia" psicológica, y una estructura diferenciada de control penal.
32 Na Argentina, a promulgação da primeira lei latino-americana voltada especialmente para os menores de dezoito anos ocorreu em 1919. A Lei do Patronato de Menores, n°. 10.903, conhecida como Lei Agote16, teve por objeto regulamentar a atuação do Estado, personificado na figura do Juiz de Menor, nas situações em que crianças e adolescentes estivessem em perigo moral ou material, em reprodução à lógica da situação irregular menorista já abordada.
Zapiola (2010) expõe que os acontecimentos em Buenos Aires no início do Século XX17 abriram brecha propícia para a aprovação de lei em consonância com o cenário internacional de controle social dos Estados modernos sobre as populações alijadas das pautas tradicionais impostas pelo capitalismo periférico, em resposta também à expansão dos princípios científicos e filosóficos do positivismo. Além disso, a Lei Agote foi reflexo de uma discussão antiga sobre a infância abandonada, trazendo como algumas justificativas: a incompetência e a imoralidade de alguns pais, o efeito corruptor da deambulação de crianças e jovens pelas ruas e de sua detenção em ambientes em contato com os delinquentes adultos e a necessidade de que o Estado interviesse por meio de políticas específicas na desativação do abandono e da negligência em direção ao delito (ZAPIOLA, 2010, p. 7).
Sobre a implantação e prática do primeiro Tribunal de Menor na capital argentina, Leandro Stagno (2008) esclarece que a política institucional foi direcionada para uma fiscalização e completa ingerência em âmbito familiar, cujo estudo médico-psicológico e social eram realizados por médicos e “visitadores sociais”18 do próprio Tribunal a fim de identificar dados que comprovassem a situação de irregularidade do menor. Em sua explanação, “se o juiz diagnosticava abandono material ou moral ou perigo moral, o menor era internado em uma das
16 Nome referente ao deputado idealizador da lei, Luis Agote, e que inicia um período tutelar denominado
“Patronato de Menores”, segundo o qual caberia ao Juiz de Menor centralizar a atuação estatal e aplicar as medidas necessárias para retirar da sociedade os menores em situação de risco e abandono. Uma opção política muito criticada na atualidade, uma vez que se preferiu privilegiar o punitivismo judicial ao invés de ampliar os investimentos em saúde e educação como políticas sociais mais adequadas.
17 A autora se refere, principalmente, ao conhecido contexto da historiografia argentina nomeado como la semana trágica, que se refere à repressão e ao massacre sofrido pela classe obreira de Buenos aires entre 7 e 14 de janeiro
de 1919, em razão das prolongadas greves gerais levantadas em prol das melhorias nas condições de trabalho. O governo de Hipólito Yrigoyen marcou pautas radicais de contenção das greves, deixando centenas de feridos e mortos. Nesse mesmo período, crianças e jovens, trabalhadores e filhos de trabalhadores, foram acusados de incendiarem bondes no bairro de Nueva Pompea, na capital argentina, dando início às repressões policiais contra eles e ascendendo o clamor popular de enfrentamento da delinquência juvenil (ZAPIOLA, 2010, p. 7-8).
18 Stagno (2008) aponta que a demanda pelo estudo social a partir da implantação do Tribunal de Menores gerou
a especialização de novas funções, surgindo, em 1925, o Curso de Visitadoras de Higiene Social, com sede no Instituto de Higiene da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, tornando-se Escola de Visitadoras de Higiene Social anos mais tarde (STAGNO, 2008, p. 81).
33 instituições dependentes da ‘Direção Geral de Proteção à Infância’ e se ditava a suspensão do pátrio poder” (STAGNO, 2008, p. 80, tradução nossa)19.
Como salienta a autora, uma das características marcantes do processo judicial menorista, colocado em prática nesse período, era a relação direta com a tradição criminológica de Cesare Lombroso. Este pesquisador foi o responsável por relacionar a delinquência, dentre outros fatores, a causas hereditárias e à loucura moral, assentando uma patologia social determinista20 no século XIX. Os tribunais eram as instituições onde desembocavam essas patologias para as quais a institucionalização e a separação da família eram os remédios aplicados.
Curiosamente, como crítica de García Méndez (2004), a origem das leis específicas para a infância era de natureza estritamente penal, uma vez que a criança proprietária, herdeira de bens, podia resolver seus conflitos tal qual um adulto. Além disso, não havia diferenciação em face da execução das penas em relação a um adolescente e um adulto, na medida em que a privação de liberdade era estabelecida indiscriminadamente colocando todos nas mesmas instituições penitenciárias21.
Nesse mesmo percurso, em 1926, foi a vez do Brasil integrar o rol dos países com legislações destinadas à infância. O Decreto nº 5.083 foi o primeiro código de menores brasileiro e que tinha por objeto consolidar as leis de assistência e proteção dos denominados infantes expostos (crianças até sete anos encontradas em estado de abandono), os menores vadios ou abandonados e menores delinquentes. No ano seguinte, o Decreto n° 17.943-A, trouxe uma nova codificação, sendo reconhecido como o Código de Mello Mattos, cujo nome refere-se ao idealizador da nova normativa e também considerado o primeiro Juiz de Menores brasileiro, com atuação na cidade do Rio de Janeiro.
Nas palavras de Maciel (2010), o Código de Mello Mattos “foi uma lei que uniu Justiça e Assistência, união necessária para que o Juiz de Menores exercesse toda sua autoridade centralizadora, controladora e protecionista sobre a infância pobre, potencialmente perigosa”
19Si el juez diagnosticaba abandono material o moral o peligro moral, el menor era internado en una de las
instituciones dependientes de la Dirección General de Protección a la Infancia y se dictaba la suspensión de la patria potestad.
20 Nesse aspecto, Stagno (2008) aclara que a criminologia lombrosiana tinha como objetivo último a caracterização
do tipo criminal ou homem delinquente. Este tipo era definido por caracteres morfológicos associados aos estigmas físicos, caracteres fisiológicos tais como a sensibilidade tátil e dolorosa, a agudeza visual e a força muscular e caracteres psicológicos ligados a comportamentos que se caracterizavam como vaidade criminal, tirania exercida pelas paixões violentas ou insensibilidade moral (STAGNO, 2008, p. 83).
21 Não se trata aqui de se estabelecer críticas rasas sobre o direito penal, os institutos e as instituições que lhe dão
forma, mas sim de reafirmar e alertar o leitor para o fato de que o histórico do direito da criança e do adolescente não é embasado na proteção, mas na punição, colocando ênfase sobre a marginalidade e não sobre as políticas públicas de efetivação de direitos sociais.
34 (MACIEL, 2010, p. 6). Foi reproduzido o modelo patronal que vigorava na América Latina e confirmada a judicialização da infância e da adolescência. Iniciou-se, enfim, um movimento que reforçou o domínio do Estado sobre a família em um amplo aspecto vigilante e fiscalizador, alçando a punição como um norte para a institucionalização no país.22
Sobre essa linha, Rizzini e Rizzini (2004) relatam que o Brasil possui uma longa tradição de internação de crianças e adolescentes em instituições asilares. Filhos de famílias ricas e pobres, desde o período colonial, passaram a experiência de serem educados longe de seus familiares e membros da comunidade em instituições surgidas conforme tendências educacionais e assistenciais de cada época, tais como colégios internos, seminários, asilos, escolas de aprendizes artífices, educandários, reformatórios, dentre outros (RIZZINNI; RIZZINI, 2004, p. 22).
Ainda dentro dessa realidade, um dos fatores relevantes nesse contexto é a vinculação da institucionalização com a assistência e o controle social exercido pelo Estado em face da população considerada perigosa. Após a segunda metade do século XX, o modelo de internato caiu em desuso para os ricos, mas, como destacam as autoras “essa modalidade de educação, na qual o indivíduo é gerido no tempo e no espaço pelas normas institucionais, sob relações de poder totalmente desiguais, é mantida para os pobres até a atualidade” (RIZZINNI; RIZZINI, 2004, p. 22).
Ainda sob esse prisma, em outubro de 1979 foi sancionada a Lei n° 6.697, responsável por dar à luz ao terceiro Código de Menores no Brasil, já em um período maculado pela Ditadura Militar e que reforçou o estigma menorista vigente até a promulgação da Constituição da República Federativa de 1988 (CRFB/88).
Assim, os três códigos de menores citados reproduzem a lógica anteriormente apontada, traduzindo um modelo nacional de introjeção da doutrina da situação irregular23. Importante destacar que as leis menoristas na Argentina e no Brasil vieram a partir da forte influência dos movimentos sociais e instituições filantrópicas e foram, a seu tempo, consideradas inovadoras e um avanço para a tratativa político-jurídica das questões afetas às crianças e aos adolescentes em situação de risco.
Ambas as legislações representaram também respostas à conjuntura pós-primeira guerra mundial em que a Declaração de Genebra, adotada em 1924 pela antiga Liga das Nações, suscitou a necessidade de amplo cuidado especial voltado à infância, no sentido de que “a
22 Nesse sentido, ver Foucault (2014). 23 O tema será retomado adiante.
35 criança com fome deve ser alimentada; a criança doente deve ser amamentada; a criança com algum retraso deve ser ajudada; a criança delinquente deve ser recuperada e o órfão e o abandonado devem ser abrigados e socorridos” (LEAGUE OF NATIONS, 1924, tradução nossa) 24. Complementarmente, também é trazida a prioridade no auxílio à criança necessitada, a proteção contra toda forma de exploração e a educação para a garantia de melhores condições futuras.
2.3 O delineamento da proteção integral e o papel da Corte Interamericana de