5 A METODOLOGIA DO MAPEAMENTO DE CONFLITOS NO PROGRAMA
5.1 O programa de Justiça Juvenil Restaurativa de San Isidro
5.1.1 Os objetivos do programa piloto e os marcos de atuação
Para explicar os objetivos do programa piloto de San Isidro é preciso compreender um pouco a legislação argentina. São duas as leis nacionais que regulamentaram o regime penal juvenil no país: a Lei do Patronato, de 1919, e sua substitutiva, a Lei Nacional n° 22.278, de 1980, que instituiu o Regime Penal da Minoridade.
Esta última é a lei nacional, em matéria infracional juvenil, vigente até hoje. Guarda traços menoristas da década de 1980 e antecede a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, de 1989 e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a administração da justiça de
83 Ambiente de dois espaços separados por um vidro com visão unilateral. Permite que as mediações pré-judiciais
e os encontros restaurativos sejam filmados, gravados e observados pelo outro lado, sem interferência direta dos assistentes. Também há um interfone que possibilita que os mediadores/ facilitadores se comuniquem entre os dois ambientes durante as intervenções.
84 O pesquisador participou da elaboração de um desses projetos, denominado “Justicia Infantil Restaurativa”
(2015), proposto ao município de San Isidro como estratégia de execução de práticas restaurativas com crianças até 12 anos. Tem-se em vista que, nessa faixa etária, já há cometimentos de atos considerados ilícitos em San Isidro, porém, sem o acompanhamento preventivo devido pelos órgãos públicos municipais.
120 menores, de 1985 – Regras de Beijing - de forma que é flagrantemente contrária aos estandartes internacionais de proteção integral dos direitos da criança e do adolescente em âmbito infracional. Fato é que, várias leis provinciais e nacionais vieram depois dela para adequar os paradigmas da proteção integral, mas nenhuma alterou a interpretação sobre a inimputabilidade penal e como transformar o sistema de responsabilidade juvenil.
A referida Lei Nacional n° 22.278/80, alterada pela Lei Nacional n° 22.803, de 1983, estabelece não ser punível o menor de 16 anos de idade e o menor de 18 anos que tenha cometido delito não condenável com pena privativa de liberdade que não exceda a 2 anos (art. 1°) e ser punível o menor de 16 anos a 18 anos que comete delito fora das situações prevista no caso anterior (art. 2°).
Assim sendo, todas as pessoas menores de 16 anos são inimputáveis no país. E todos os adolescentes entre 16 e 18 anos só são puníveis se tiverem cometido ilícito cuja pena privativa de liberdade prevista pela legislação penal argentina seja superior a dois anos. No caso dos adolescentes entre 16 e 18 anos que cometem delitos considerados graves, estes são responsabilizados com base no direito penal argentino e processual penal da província de Buenos Aires, como se adultos fossem85.
Em decorrência dessa análise, surge uma lacuna estrutural: como o Estado trata a responsabilização de adolescentes menores de 18 anos que são inimputáveis ou cometeram delitos de baixa intensidade? Não há resposta, ao menos na Província de Buenos Aires. Criou- se um sistema em que as possibilidades processuais frente a esses casos são, basicamente, três: o arquivamento do processo, o sobrestamento ou a suspensão do juízo à prova, conhecida como probation86.
85 É preciso lembrar que, no Brasil, os menores de 18 anos são inimputáveis sob o ponto de vista penal. Mas, com
base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), adolescentes entre 12 e 18 anos incompletos são responsabilizados em caso de ato infracional cometido. Essa possibilidade não há na Argentina. O Foro de Responsabilidade Juvenil está adstrito a reconhecer os casos que se enquadram na inimputabilidade e as medidas do Código Penal cabíveis nos demais casos de responsabilização. Basicamente, há juízes, defensores e promotores juvenis, mas com atuação penal.
86 De acordo com o Código Processual Penal da Província de Buenos Aires (1997), promotores de justiça e as
autoridades judiciais podem proceder com o arquivamento do processo, o sobrestamento ou a suspensão do juízo à prova (probation). O arquivamento é facultado quando a afetação do bem jurídico for insignificante ou irrelevante e a aplicação da pena for desproporcional, supérflua ou desnecessária frente ao delito causado, desde que a pena máxima aplicável não ultrapasse a seis 6 anos (art. 56). O sobrestamento se dá pelo encerramento definitivo e irrevogável do processo em razão da inimputabilidade, insuficiência de provas, não cometimento do fato pelo imputado, dentre outras previsões (art. 341). A suspensão do juízo à prova, ou probation, é a extinção da ação penal em casos de crimes puníveis com pena de prisão que não exceda a três anos (ARGENTINA, 1984) e é conferido pelo ministério público de acordo com a observância do critério de oportunidade. É uma medida alternativa em que se avalia a possibilidade de prestação de serviço à comunidade, restituição da vítima, atividades educativas, dentre outros. A crítica que se faz em relação à probation é que, na prática, consiste apenas em pagamento pecuniário realizado pelo responsável do adolescente, sem nenhuma estratégia responsabilizatória acoplada.
121 Na esfera social há um consequente circuito insustentável. Primeiro porque a ausência de políticas públicas de responsabilização coloca o adolescente em conflito com a lei em um cenário em que não lhe é ofertado nenhum tipo de recurso de desvinculação com a trajetória delitiva antes dos 16 anos, ainda que inicie desde cedo. É como se não existisse para o sistema responsabilizatório antes disso e, a partir de então, deve lidar com as duras penas do Estado. Em segundo lugar, em relação às vítimas, frustradas e desestimuladas a agir quando alvo de adolescentes. Internalizou-se um discurso perverso de impunidade juvenil.
É nessa conjuntura que o programa piloto de San Isidro se insere. Na ausência de políticas que favoreçam a responsabilização dos adolescentes, a Prefeitura investe na justiça juvenil restaurativa como o único modelo de tratamento dos conflitos infracionais no município. Esse aspecto é interessante porque as práticas restaurativas não intencionam contrastar necessariamente a justiça restributiva, mas ofertar uma oportunidade de acesso onde nem mesmo esta via alcança.
Para se estabelecer seu marco de funcionamento, como não há leis nacionais e provinciais que prevejam explicitamente a justiça restaurativa como alternativa legal, o programa piloto se alicerça na Lei n° 23.849, de 1990, que sancionou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança na Argentina, a Lei Nacional n° 26.061, de 2005, que estabelece a proteção integral de crianças e adolescentes em todo o território e a Lei da Província de Buenos Aires n° 13.298 que trata da promoção e proteção integral de direitos da criança.
Dessa forma, trata-se de imbuir políticas restaurativas desde uma perspectiva de efetivação dos direitos humanos e fundamentais de crianças e adolescentes em San Isidro. O programa objetiva transcender o discurso restritivo de avaliação da inimputabilidade penal como um critério legítimo para instaurar políticas de responsabilização, na medida em que, historicamente, esse instituto penal serve apenas para balizar a divisão de dois sistemas punitivos: adulto ou juvenil.
Nessa mesma lógica, defende-se a superação da equivocada relação inimputabilidade e impunidade. Por um lado, não punir os adolescentes pode realmente ser importante. Por outro, deixar de dar respostas públicas à delinquência juvenil não interessa a ninguém. Reconhecer que o adolescente é inimputável não tira o dever público de agir enquanto há tempo, antecipar toda a cadeia delitiva em formação e gerar oportunidade de trazer o adolescente para o seio social responsável por mantê-lo incluído e à salvo.
122 Parte-se da noção de que grande parte dos delitos cometidos por jovens são de baixa intensidade e não geram danos sociais tão alarmantes. Porém, essa realidade se agrava ao se abrir um caminho de escalada dos atos infracionais em direção aos delitos de alta intensidade e a continuidade de um ciclo vicioso rumo a uma fase adulta em que o vínculo com a delinquência persista, com difícil solução.
Uma crítica que surge da prática do programa de San Isidro, e se assemelha ao que ocorre no Brasil, diz respeito ao efeito paradoxal do garantismo, em decorrência da doutrina da proteção integral. Refere-se à associação do cometimento do delito com o acesso a direitos87. Somente após a captura do adolescente pelo sistema infracional ele é visto como um sujeito vulnerável, excluído da garantia dos direitos sociais básicos que lhe faltaram anteriormente e, justamente por isso, chegou até ali. O programa de San Isidro busca identificar desde logo as situações de risco, com a ajuda dos Serviços Locais de Proteção de Direitos88 do município, para realizar a derivação do adolescente a outros programas sócio assistenciais, se necessário. Isso porque, somente após os direitos garantidos, é possível um processo de responsabilização restaurativo.