1.2 A dispositio e a palavra
1.2.1 A argumentação
Cícero (107 a.C. – 43 a.C.) e Aristóteles (2005 [séc. I a.C.]) afirmam que o objetivo principal do orador é falar adequadamente, de modo a persuadir (TRINGALI, 2014); Massmann (2021, p. 18) afirma que “a retórica é a arte de persuadir pelas palavras” e Abreu (2013, p. 25) completa: “argumentar é a arte de convencer e persuadir”.
Convencer e persuadir são análogos, porém não são a mesma coisa. Convencer tem a ver com razão; persuadir, com emoção. Convencer é gerir bem as informações e chegar ao pensamento do outro, ao se mostrar e comprovar. Persuadir é gerir bem as relações e chegar à emoção do outro (ABREU, 2013, p. 25).
A Retórica se assenta na linguagem; é a força do simbólico que traz consigo a arte de argumentar. Para Aristóteles (2005 [sec. I a. C.]), argumentar se constitui de raciocínio e dedução. Na perspectiva de uma dimensão simbólica, o ser humano, como ser social e cultural, depende da criação de sentido e de valores para fixar seus vínculos. A linguagem é instrumento basilar de argumentação, e esta última se constrói na comunicação e pela comunicação; sempre situada, ocorre basicamente num processo de diálogo, num contato entre os sujeitos (MOSCA, 2004, p. 27).
Argumentação e Retórica estão imbricadas, “pois não existe discurso sem auditório e não há argumentação sem retórica” (MOSCA, 2004, p. 24); e, por isso, a Retórica se confunde com a teoria do discurso persuasivo (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2000).
Aspectos argumentativos, como o uso de figuras de estilo, tese e argumentos, e aspectos oratórios, como tom de voz, gesto e mímicas, compõem a base da persuasão (REBOUL, 2000).
As palavras podem nos levar às linguagens, que, por conseguinte, podem nos levar aos textos e, por fim, aos discursos; em muitos deles, como estratégia argumentativa, encontramos as metáforas, que agradam ou comovem e, por isso, estão presentes no cotidiano das relações; para Benoist (1977, p. 101), a metáfora “enriquece uma palavra por uma transposição de sentido, de tal forma que se aplica a duas coisas de mesma aparência”.
Ouvir, por exemplo, um conto em que brotam metáforas permite um efeito catártico;
conceitos são aprisionados na memória pela vivência de imagens mentais – imaginação e
criação. Na metáfora viva, há um solo fértil para o desenvolvimento da magia e do encantamento. Nesse momento, é possível cantar feliz, pela estrada a fora, como a Chapeuzinho Vermelho; salvar o dia, como o caçador; ou sentir-se sedutor como o lobo. A metáfora possibilita o fortalecimento dos argumentos e torna-os mais contundentes.
Tringali (2014) afirma que alegorias e símbolos equivalem a metáforas. A alegoria carrega um significado utilitário, enquanto os símbolos, um significado místico ou estético.
Assim, assumimos que cabe, nesse trabalho, a metáfora simbólica, por ser aberta, inacabada, polissêmica, vaga, sugestiva e ter sentido indeterminado, pois traz em si a possibilidade de novas interpretações, o que ocasiona um alargamento semântico de alguns termos, como será visto na análise. A alegoria, ao contrário, é fechada, completa, unívoca e tem sentido determinado, o que torna hermética a interpretação.
As metáforas se constroem pela aquisição de conceitos e, quando incorporamos conceitos, é porque adquirimos conhecimentos por meio de exemplos ou combinações de conceitos elementares. Uma vez captado,
o conceito se instala na memória: ele permite organizar os conhecimentos ou recordá-los facilmente. Desse modo, tais conceitos nos dão a possibilidade de sustentar ou rejeitar afirmações a priori (justificáveis pelo conteúdo conceitual) ou a posteriori (justificáveis pela experiência). (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 101).
Os conceitos se constituem em significados criados pela linguagem humana. Por conseguinte, a argumentação também é uma questão de linguagem. O que está em jogo é a pluralidade de sentidos que cabem numa palavra – sua polissemia – e suas ambiguidades.
Assim, a argumentação não é pura questão de conceitos (FIORIN, 2015), e, sim, de percepções, no plural, de conceitos.
Por meio das diversas linguagens e dos conceitos que lhes pertencem, os seres humanos manifestam o seu existir, o ser e o estar no mundo; e materializam a sua presentidade constante8, por meio da ação; e, assim, a comunicação acontece. As narrativas surgem e as histórias se perpetuam.
Há um tempo em que as narrações de histórias são mais que um passatempo, pois constituem-se de uma forma de registro dos hábitos, das características e da forma de organização de tribos, comunidades e sociedades. Os ritos e rituais são também comuns e
8 Presentidade constante é uma expressão usada por Heidegger em uma livre tradução do termo ousia usado pelos gregos, cujo significado é: “o caráter de ser daquilo que é”. Há um estudo publicado por Estevão Lemos Cruz (2019), que percorre toda a trajetória da palavra desde os gregos até uma atualização do uso por Heidegger na obra
“Ser e tempo”.
corriqueiros e originam as narrações com um traço de sacralização que são os mitos e os contos – histórias arraigadas de misticismos e religiosidades.
As narrações míticas se fortalecem como base de sustentação de crença social e tornam-se reguladoras de valores, instituintes de símbolos e referências de sacralidade e de mistérios;
é uma estratégia retórico-argumentativa dos povos, como forma de manutenção dos seus costumes e da sua cultura. Com o passar do tempo, quando o mito é confrontado por manifestar a existência de vários deuses, o pathos é maculado, corrompido, a crença é questionada, dessa forma, acompanhamos o processo de dessacralização dos mitos. A profanação dos contos populares se dá à medida que a narração sagrada se transforma em narração profana; os cultos religiosos – onde predomina o pathos – perdem a relação com o divino, e a crença cede lugar ao argumento, ou seja, passa a predominar o logos. É necessário, então, acolher as transformações sociais, em contínuo fluxo de renovação.
Com isso, os valores se transmutam, e a historicidade assume um papel dialético. O passado é revisitado não só como um referencial de tradição9, mas com o intuito de se atualizar a semântica das narrativas, por meio de práticas reflexivas e problematizadoras, pois a narração de histórias ainda persiste como um legado de sabedoria e ensinamento dos nossos ancestrais.
Ao mesmo tempo, por ser uma expressão genuína do pensamento e das linguagens, trouxe consigo uma organização e sistematização, dentro do simbólico, dos conceitos e da argumentação.
As múltiplas formas de se contar uma mesma história, seja um mito ou um conto, a partir de variedades lexicais, dentro de contextos culturais diversos, levam a modificações no enredo, embora sem modificar o eixo padrão, no caso dos contos, por exemplo. Abrem-se, por isso, oportunidades de (des)naturalizar valores postos em narrações já validadas culturalmente e socialmente. A organização social, até pouco tempo cristalizada, desmorona aos poucos, mas, em continuidade, vislumbram-se novas perspectivas de ser e de estar no mundo.
Por meio das recém-chegadas narrativas – entendidas como um argumento por ilustração10 –, constata-se que as antigas formas de linguagem são originalmente combinadas e
9 Tratamos o léxico ‘tradição’, nessa pesquisa, a partir do artigo Tradição, oralidade e ancestralidade de Michele Freire Schiffler (2016) que desconstrói a semântica da palavra. Assim, tradição deixa de ser considerada um valor da imobilidade e do anacronismo, entendida na dimensão de um passado imobilizado e conservador e é construída como um signo de resistência contra a violência simbólica que silencia e oprime, por séculos, identidades culturais.
10Segundo Fiorin (2015, p. 188), o argumento por ilustração “serve para reforçar uma tese tida como aceita. Ele figurativiza-a para dar-lhe concretude, para torná-la sensível, para aboná-la. Por isso, não se destina à comprovação, mas à comoção, volta-se mais para o sentimento”. Para Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000, p. 407),
“a ilustração tem a função de reforçar a adesão a uma regra conhecida e aceita, fornecendo casos particulares que esclarecem o enunciado geral, mostram o interesse deste através da variedade das aplicações possíveis,
aumentam-resultam na materialização de inéditas narrativas a partir de múltiplas linguagens. Essas histórias, contadas por inauditos caminhos, trazem novas representações simbólicas, contabilizadas no passar contínuo e fluido do tempo, mas que já estão inscritas na perseverança da memória.
Na atualização das narrativas, das linguagens e das representações simbólicas, manifesta-se a Retórica em diálogo permanente com a sociedade por meio da construção de argumentos, no campo do verossímil, do plausível, do provável, do possível. Aqui se encaixam as narrativas como raciocínios preferíveis, pois dependem de valores, crenças, medos, anseios, hierarquias e lugares. Por isso, são usadas como estratégias de persuasão, pois a tese de que carregam as narrativas deve ser aceita ou porque é mais justa, ou mais adequada, ou mais benéfica, ou mais convincente (FIORIN, 2015).
As reflexões e os posicionamentos que se dão nos/pelos discursos contribuem para o alargamento de um espaço que precisa ser democrático, pois é imprescindível a liberdade para o pensamento e para as respostas. A antilogia proporciona um eterno direito de respostas, o que estimula a argumentação e a busca de argumentos, porque toda argumentação é diálogo. Para Meyer (2016), há que se fazer a observação de que:
essa relação, de saída, implica liberdade e subjetividade. Liberdade de pensar, liberdade de expressar o pensamento, subjetividade, porque o locutor escolhe suas próprias armas (ideias, exemplos), que poderão ser ou não acatadas pela subjetividade do interlocutor. Do ponto de vista político, não é ocioso ressaltar que a argumentação se desenvolveu ou se desenvolve nos países e em culturas que garantem e valorizam a autonomia individual (MEYER, 2016, p. 2).
A teoria da argumentação, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000, p. 4, grifo dos autores), tem como objeto “o estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se lhes apresentam ao assentimento”. Assim, é em função de um auditório que uma argumentação é proposta. Todo discurso e todo texto produzidos se dirigem a um auditório. A escuta é necessária para que se estabeleça uma relação entre orador/escritor e auditório/leitor. As linguagens são um meio de contato e ficam a serviço da defesa de um ponto de vista. Pela argumentação, que é cultural, manifesta-se a arte de raciocinar e produzir argumentos. Os argumentos se apresentam, de acordo com Fiorin (2015, p. 19), como “os raciocínios que se destinam a persuadir, isto é, a convencer ou a comover”.
Um clima de tensividade instala-se na relação argumentativa, pois, segundo Meyer (2016, p. 3), “argumentar não consistirá apenas em justificar uma tese, mas também em
lhe a presença na consciência”. Assim, a ilustração precisa impressionar a imaginação para chamar a atenção. É uma pintura ou um desenho cuja legenda já está posta.
considerar a(s) tese(s) contrária(s), o que será feito de múltiplas maneiras, que será preciso saber dominar: evocação, citação, refutação ou concessão”. São observadas questões como a força, a validade e a eficácia dos argumentos para o triunfo do discurso com a adesão do auditório.
Assim, a organização e a expressão das ideias são procedimentos metodológicos argumentativos importantes.
A função pedagógica da Retórica é “ensinar a compor segundo um plano, a encadear os argumentos de modo coerente e eficaz, a cuidar do estilo, a encontrar as construções apropriadas e as figuras exatas, a falar distintamente e com vivacidade” (REBOUL, 2000, p. XXII). O contrário do exposto é uma manifestação provada de incultura, o que vem a ser tanto apartar-se de si próprio quanto do outro: apartar-sem coerência e organização de pensamento não sabemos nem nos dizer. Para Reboul (2000, p. XXII) existem culturas diversas da escolar, “mas não existe cultura sem formação retórica” quando se aprende “a arte de bem dizer”, aprende-se a ser.
Cultivo, aplicação e estratégia são fundamentais no emprego da Retórica como técnica do bem falar, imprescindíveis na comunicação social. No exercício cotidiano de práticas sociais de interação, para se chegar a uma competência retórica, é preciso usar da racionalidade, como instância histórica e dialética que regula nossas crenças, convicções e liberdades, associada ao conhecimento e também à afetividade, à sedução e ao prazer (MOSCA, 2004).
Portanto, dentro de situações reais de comunicação, em um tempo e um lugar determinados, a partir de valores culturais e sociais, os símbolos ganham contextos para sua manifestação. Os símbolos são considerados uma forma de expressão, pois comunicam a um determinado grupo de pessoas. Para estabelecermos um elo com o outro, temos o gesto e as palavras – que “falam com outras palavras” (ORLANDI, 2013, p. 43), pois qualquer palavra é sempre parte de um discurso, e todo discurso se define na relação com outros discursos, por meio das linguagens.