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3.2 Análise do conto

3.2.4 Estava escuro na barriga do lobo!

3.2.4.6 A floresta

Chapeuzinho pode ser considerada uma heroína com a missão de completar a sua jornada, que começa em sua casa e deve ser concluída na casa de sua avó. Nesse intervalo, a menina precisa atravessar a floresta, o grande obstáculo para cumprir a sua missão. A floresta representa o mistério, é um lugar obscuro e de enfrentamento. Muitos contos populares apresentam a tarefa de atravessá-la como simbologia de passagem; um lugar que precisa ser transposto para se provar um valor próprio. É muito comum que uma personagem seja expulsa de casa, ou fuja dela, ou simplesmente parta do seu lar para empreender uma aventura pelo mundo, e esse desafio cruze uma floresta (MUTAFI, 2021).

Dessa forma, a floresta vai muito além de ser somente uma floresta, como uma metáfora, pode ter o sentido de passagem, transgressão e transição; também, pode ser transformada em um espaço-tempo medieval, atemporal e profano, em que a magia domina. A existência da metáfora requer a presença de uma memória, e aqui evidenciamos a multissensorial, visto que a representatividade da floresta extrapola os significados dicionarizado.

Dentro da simbologia apresentada, por meio de uma semântica retoricamente contextualizada, permite-se ao leitor/ouvinte sentir para se aperceber do mistério, da obscuridade, da transição e da passagem contida nessa floresta. Talvez não sintamos o medo, da mesma forma que Chapeuzinho não sentiu, pois, segundo Chevalier e Gheerbrant (2016), a floresta pode ser considerada um santuário, lugar propício de um templo. Para alguns poetas, pode gerar angústia e serenidade, opressão e simpatia. Para Cirlot (2012), é um lugar ligado ao princípio feminino onde floresce a vida vegetal em abundância. Mas também pode ser um lugar que guarda muitos perigos e demônios, inimigos e doenças. Normalmente é na floresta que habitam animais selvagens e, desde a Idade Média, ela era o lugar preferido para os lobos se esconderem, o que contribuiu para se criarem lendas e histórias sobre os mistérios da floresta e essas criaturas.

Para Chapeuzinho Vermelho, a floresta representa um lugar de liberdade, onde ela pode ser ela mesma. Dessa forma, a menina transparece uma felicidade genuína ao colher flores para levar à sua vovó; além disso, manifesta despreocupação com o mundo, tanto que não se assusta com o lobo, pois não tem a menor noção do perigo que representa. Como uma criança, Chapeuzinho brinca e diverte-se nesse jogo por ele proposto.

Ao finalizarmos a análise, afirmamos que o conto ainda é uma forma lúdica de aconselhamento e orientação, entretanto não se apresenta nos nossos dias com o peso que carregava nos séculos XVII e XIX. Atualmente, reconhecemos o valor do lúdico, envolto em

magia e encantamento que proporciona a vazão para a criatividade e a imaginação. Pelos primeiros contos, as crianças podem desenvolver uma memória multissensorial e afetiva e, assim, valorizamos mais a parte heurística que a pedagógica. Dessa forma, garantimos que a tradição popular se mantenha viva e continue a se perpetuar de geração em geração como parte dos nossos costumes. Ter acesso aos contos tradicionais é ter acesso aos primórdios da literatura infantil. E foi assim que uma história começou, com um era uma vez.

CONCLUSÃO

Escrever uma tese é estabelecer comunicação; faz parte da ação retórica. Nessa pesquisa, mais que a nossa comunicação com o auditório, situada no mundo real, apresentamos a comunicação de Chapeuzinho Vermelho, na narração do conto tradicional, pertencente ao mundo do encantamento, em duas recriações: a primeira, escrita por Perrault, em 1697, e a segunda, pelos Irmãos Grimm, em 1812. A pergunta que orientou essa pesquisa foi: em que medida a memória multissensorial atravessa o conto Chapeuzinho Vermelho? Acreditamos que o nosso problema de pesquisa tenha sido exaustivamente respondido durante o desenvolvimento do trabalho. No entanto, vamos explanar, de acordo com a ordem sistematizada, os argumentos principais que garantem o êxito do resultado.

Começamos a inventio da pesquisa ao selecionar, dentro da Retórica, o sistema retórico combinado aos elementos da categoria de análise, que sustentaram com firmeza os argumentos teóricos. Vale esclarecer que a memória é um elemento de ubiquidade em todas as demais relações, e o processo de formação da memória passa pela trajetória do desenvolvimento do pensamento, que busca palavras para se expressar e, assim, se organiza nas/pelas linguagens.

Na nossa inventio exploratória e investigativa, em que buscamos e avaliamos a teoria retórica, apresentamos, como primeira relação, a inventio e o pensamento. Assim, expusemos a força da memória para a prática da reflexão e uma consciência de si, do sujeito retórico, que se apercebe a partir da sua corporeidade; é o sentir para racionalizar.

Entretanto, para se expressar o pensamento, faz-se necessário praticar a palavra, entre tantas outras manifestações simbólicas, pois essas manifestações, que envolvem arte e técnica, possibilitam ao sujeito retórico a expressão de si, seja pelo seu autoconhecimento, seja pelo conhecimento de mundo. Dessa forma, a intencionalidade do orador e o contexto retórico de produção do discurso contribuem para a seleção das palavras, dentro de uma hierarquia, na organização do discurso. Nessa relação com o sistema retórico, casamos a dispositio com a palavra, união que atrai as linguagens. Dentro do sistema retórico, as linguagens ganham estilo e classe quando bem conduzidas pelo orador, na parceria com a elocutio. Destacamos, em nossa pesquisa, nessa relação, a metáfora simbólica como a excelência na manifestação das linguagens para evidenciarmos a memória multissensorial em Chapeuzinho Vermelho.

Uma floresta não é só uma junção de árvores, como uma menina não é somente uma criança, e um lobo não é mais um animal quando juntamos uma floresta atravessada por uma menina de capuz/chapéu vermelho e que conversa com um lobo. A evidência metafórica mais importante, porém, reside no famoso diálogo entre Chapeuzinho Vermelho e o lobo. Essa figura

de linguagem, guarda, em sua simbologia, uma explosão de sensações e move-nos a sentir e pensar – sinto e penso: logo existo –, além de interpretar, avaliar, relacionar e compreender, para, então, expressarmo-nos. É na interação de tantos movimentos sensíveis e sensoriais que a memória multissensorial se manifesta.

Para chegarmos à proposta de um conceito que colocasse a corporeidade na Retórica, provocada pela sinestesia, partimos de um estudo mais profundo da memória, em seu estado de arte, como forma de percebermos como a memória foi estudada ao longo de muitos anos e que contorno recebeu no desenrolar dessa trajetória. Assim, trouxemos a memória multissensorial, que já identificamos estar presente em outras manifestações narrativas, como o mito – outro assunto que mereceu uma atenção especial em nossa pesquisa. Foi preciso debruçarmo-nos sobre esse estudo para compreendermos a relação do mito com o conto Chapeuzinho Vermelho e a manifestação da memória multissensorial.

Percorremos o mito em conceito, origem e constituição para nos apropriarmos dessa arte do dizer sagrada, que ocorria in illo tempore, cuja memória manifestada pelos oradores se dava em forma de criatividade de imaginação. A corporeidade permitia o aflorar da memória multissensorial que se desenhava no estilo da narração, em seus detalhes e, em cada momento de aqui e agora, renovados. Por isso, a função heurística da Retórica se destaca no mito, que aponta preponderantemente para o pathos, pois exala religiosidade, inserida na memória da crença de um povo; é a poesia dos povos antigos. Portanto, o mito apresenta a exposição de um mundo que se descobre por meio de uma genealogia e suas ordens cósmicas. Expusemos o nascimento de Mnemósina, a deusa da memória, e da sua prole, uma forma de perpetuação da memória, já que as musas são a própria arte.

Da Grécia, reverbera o mito na recriação de Chapeuzinho Vermelho dos Irmãos Grimm. Depois de devassarmos as funções heurística, persuasiva e hermenêutica, faltava chegarmos à pedagógica, alcançada na exposição das recriações do conto, evidência majoritária de logos. Mas o caminho não foi retilíneo; também entramos em uma floresta e, ao pararmos para pegar flores, percebemos que os ritos e o ritual se constituem em ações e sequência de ações respectivamente. No entanto, o mito se cria depois, é conceito, da mesma forma que ocorre com o conto.

Encontramos Chapeuzinho Vermelho com a mão cheia de flores no meio da floresta.

Essa menina, ao mesmo tempo tão simples e tão complexa, permitiu-nos apresentar o conto, em conceito, origem, constituição e fontes. Na fonte greco-latina, já havia uma menção aos textos moralizantes, e achamos o percurso que nos levou à função pedagógica da Retórica nos contos. Essa é uma intencionalidade presente e que vai ao encontro, de acordo com os contextos

retóricos dos séculos XVII e XIX, de cada recriação, momento em que ganha novos contornos didáticos, utilitários e pedagógicos.

Percebemos, então, que a memória, no conto, relaciona-se com a tradição e os costumes e efetivamente é a manifestação de uma forma de ser social que costuma ser transmitida de geração a geração. Dessa forma, cristalizam-se os ensinamentos contidos no discurso, para se manter um hábito; a memória multissensorial acolhe a tradição e os costumes.

Como estratégia de análise, selecionamos com cuidado quais pontos seriam mencionados; ao mesmo tempo, indagávamo-nos se estávamos mesmo no caminho para responder à nossa pergunta inicial, aquela do primeiro parágrafo desta conclusão. Por conseguinte, agrupamos algumas palavras colhidas do conto e montamos um frame, para uma melhor visão do conto sob a perspectiva de cada recriação.

A partir do quadro montado, pudemos destacar e perceber as escolhas lexicais em cada recriação e de que maneira o uso no discurso direcionava ou não a uma determinada sensação, para a condução a uma determinada interpretação, que é a racionalização do percurso. Cada palavra abriga também as suas simbologias, o que requer liberdade para uma melhor compreensão do discurso. Apesar de carregarem uma forte função pedagógica, as metáforas simbólicas, no conto, não são herméticas e possibilitam o alargamento de novos sentidos. A memória multissensorial se refestela a cada nova sensação que pode ser proporcionada pelo conto e também apresenta afetividade.

Por fim, como resultados obtidos, evidenciamos que é pela composição das narrações que a memória multissensorial se manifesta tanto no conto quanto no mito. Embora o trajeto tenha firmado compromisso com a busca de resposta para a identificação da memória multissensorial apenas no conto. O mito, que tem um grande alcance na Grécia, berço da democracia, desperta a criatividade, pois revela a alma desse povo, em determinado momento histórico. Importante é, para os gregos, a renovação, a manifestação espontânea de quem se apercebe na Ágora, com o intuito de contribuir nas decisões políticas da pólis.

Quando destacamos o conto, desde a sua concepção conceitual, reconhecemos uma estrutura de narrativa simples, sem pretensões criativas, cuja brevidade é o maior trunfo para que circule em diversas comunidades diferentes. Com um propósito, na maioria das vezes, moralizante, há um compromisso no conto de se registrar a tradição, de maneira a proporcionar que um determinado legado de conhecimento passe a uma descendência. É na composição e na forma da narração, por meio da descrição dos detalhes sensoriais, que a memória multissensorial protege hábitos e costumes. Os efeitos lógicos do conto são a racionalidade e a apodicidade.

Uma pesquisa é a oportunidade de comunicação, é o momento em que abandonamos as crenças limitantes e buscamos, na ciência, respostas como uma forma de contribuir para o crescimento do diálogo. Muito há o que se falar, mas há que selecionar, pensar, repensar, fazer, desfazer e refazer para preenchermos algumas lacunas. Não enxergamos buracos nessas lacunas, enxergamos oportunidade. A escrita dessa comunicação é a manifestação de uma contribuição para os estudos da Literatura Infantil e da Retórica. Iniciemos os trabalhos...

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