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A argumentação no discurso sobre as cotas

O autor busca mostrar a reprodução da dominação étnico-racial por meio de padrões diferenciados de acesso ao discurso, distinguindo a população majoritária e as minorias, argumentando, assim, que o racismo se manifesta ali também e não apenas por causa do acesso diferenciado à moradia, empregos, aluguéis, educação ou bem-estar. Ele arremata demostrando que o poder de acesso preferencial à mídia está intimamente ligado ao poder que as elites têm de definir a situação das relações étnicas e de, portanto, contribuir para a reprodução do racismo.

Para analisá-lo, devemos identificar a estrutura argumentativa aí presente que é composta de uma tese, dois argumentos principais e argumentos subjacentes:

Tese: a criação de cotas é problemática.

Argumento – no plano teórico, o problema está em tentar reparar uma injustiça, criando outra.

. – Trata-se de manobra que raramente dá certo.

Argumento – a criação de cotas tem dificuldades práticas.

. . – É difícil definir quem é negro no Brasil.

. . – A auto-declaração pode ser usada por oportunistas.

. . – Não se sabe que grau ou tonalidade de negritude em uma pessoa permitiria o benefício da medida.

A estratégia argumentativa presente ao longo do texto visa a combater a política de cotas, atribuindo-lhe problemas teóricos e práticos que, de tão graves, a inviabilizam. A argumentação é precedida pelo reconhecimento da realidade da discriminação na sociedade brasileira, o que atingiria não somente os negros como também as mulheres. Paralelamente a esse pensamento, aparecem números que ilustram a opinião. Constrói-se aqui uma imagem positiva para o jornal, já que fir-ma de imediato a posição de reconhecimento da realidade da discriminação e deixa explícito o repúdio a essa política.

Já na contextualização inicial do problema, o texto lança mão de uma estra-tégia retórica, qual seja, a de igualar situações distintas, isto é, busca-se apresentar como semelhantes, realidades que procedem de contextos diferenciados. Nesse caso, a discriminação racial e a discriminação de gênero são postas lado a lado como se fossem de um mesmo tipo quando, na verdade, cada qual tem causas, conjunturas e processos distintos. O enfrentamento de cada uma, portanto, remete a soluções próprias.

Uma vez que o restante do texto dedica-se apenas à análise de uma medida que emerge da luta contra o racismo, silenciando-se quanto a medidas de combate ao sexismo, torna-se evidente que o texto está voltado essencialmente para a questão do combate ao racismo, sendo o propósito da estratégia mostrar que a discrimina-ção racial é apenas mais uma entre outras discriminações que se deve combater.

Após esse reconhecimento do problema, o texto volta-se então para a apre-sentação do problema. Esta é feita sem dar o devido crédito a quem seria o au-tor/formulador da medida: “Sempre que se percebem distorções tão gritantes, a primeira idéia que vem à cabeça é a criação de cotas para minorias, seja na universidade ou no

trabalho.” A política de cotas é apresentada assim como uma idéia que simplesmente vem à mente. Nota-se aí mais um recurso lingüístico, qual seja, o de silenciar sobre o contexto das políticas afirmativas, sobre quem as propõe, com que propósito e com que finalidade. A política emerge assim como algo descontextualizado, que surge do nada, de forma apressada, construção essa que vai facilitar a caracterização da mesma como medida problemática, cerne do argumento que embasa o texto.

A tese da argumentação é a idéia de que a criação de cotas é problemática, do que se pode depreender que é algo ruim e que deve ser evitado. A argumentação jus-tifica-se em dois pilares (os dois argumentos), sendo um de ordem teórica e, outro, de ordem prática. O primeiro aspecto remete a uma questão de justiça; ou seja, a medida é problemática porque tenta reparar uma injustiça cometendo outra, o que “raramente dá certo”. Um dos focos da argumentação é encerrado aí, não se alongando a discussão.

Resta implícita a discussão sobre a relevância político-jurídica das cotas, em especial o debate sobre a pertinência de direitos para minorias frente a direitos universais.

O uso da expressão ‘manobra’ faz lembrar outros termos assemelhados, fre-qüentemente utilizados nesse discurso, tais como ‘expediente’, ‘artifício’, ‘invenção’, o que ajuda a caracterizar a medida como fruto de uma estratégia política ardilosa, descaracterizando-a como política pública relevante.

O segundo aspecto da argumentação diz respeito a questões de ordem prática.

O texto as apresenta como “sérias dificuldades práticas”. As dificuldades apresenta-das derivam de uma mesma conjuntura: o que é ser negro no Brasil. Esse enfoque discursivo é bastante recorrente no discurso da imprensa sobre as cotas, ou seja, a mestiçagem figura como o grande distintivo étnico da sociedade brasileira. E, uma vez que negros puros (negros mesmo, sem mistura) são bem poucos no conjunto da população brasileira, não se justificaria, portanto, a adoção de uma política social.

Já na questão lançada – “como definir um negro no Brasil?” – há o implícito de que não é fácil se saber quem é negro no Brasil. Ora, se se pergunta “como definir” é porque a questão está sujeita a controvérsias, não sendo possível definir com segurança quem efetivamente é negro(a) e portanto potencial candidato(a) à política.

Existe aí também uma referência implícita ao racismo à brasileira, pois a dificuldade não é quanto a se definir um branco no Brasil. Com base nessa linha de argumentação, pode-se notar o apagamento da identidade negra como uma rea-lidade positiva. Se há dificuldade em se definir quem é negro, é porque assumir-se como negro pressupõe uma escolha que tem seus próprios riscos, não sendo uma questão pura e simples de livre manifestação.

A política adotada pelo IBGE, ao tempo que é elogiada, é também descartada por uma suposta ineficácia em combater o oportunismo de alguns. Nessa linha de argumentação, a identidade étnica de uma pessoa é coisa de somenos importância, algo que pode ser alegado ao sabor dos contextos e que pode ser utilizado por pessoas oportunistas para se beneficiar de determinadas políticas públicas. Implicitamente, o texto promove o apagamento das identidades étnicas que compõem o povo brasileiro, estratégia essa perfeitamente coerente com o senso comum de que ‘a fusão’ das ‘três raças’ – a raça indígena, a raça branca e a raça negra – teria resultado no surgimento do povo brasileiro; fusão que necessariamente fez com que ‘as três raças’ deixassem de existir, restando apenas o povo brasileiro, como amálgama dessa mistura racial.

Por fim, a argumentação critica a política de cotas porque esta não faz re-ferência ao grau ou tonalidade de negritude que seria preciso para que uma deter-minada pessoa fizesse jus ao benefício. Existe aí o implícito de que a identidade de uma pessoa negra define-se pela precisão cromática.

O desenvolvimento da argumentação ao mesmo tempo que serve para des-prestigiar a política de cotas deixa o povo negro sem opção. A auto-declaração não serve porque dá margem à ação de oportunistas. Por sua vez, o alto grau de mestiçagem na sociedade brasileira conduz à interpretação de que negros mesmos existem bem poucos e quem mais pretender se assumir como tal correrá o risco de ser acusado de estar fazendo assim tão somente como pretexto de figurar como candidato potencial à política de cotas.

Na crítica a uma política pública para um segmento excluído, o texto acaba con-tribuindo para o reforço da baixa auto-estima imposta à comunidade negra, negando-lhe assim um direito fundamental qual seja, o da afirmação da própria identidade.