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Desigualdades raciais, racismo e discriminação

renda dos negros explica os expressivos índices de desigualdade educacional obser-vados entre negros e brancos, nem as desigualdades educacionais permitem explicar as gritantes disparidades de renda entre os dois grupos. E, como os baixos resulta-dos na esfera educacional limitam o espectro de oportunidades (o que impacta por sua vez nos baixos desempenhos educacionais), a população negra é fortemente penalizada pela incapacidade da escola em garantir aos grupos racialmente discri-minados uma efetiva igualdade de oportunidades.

Trata-se assim de uma tragédia em dois atos. Primeiro, os negros são discri-minados nas escolas, nunca conseguindo apresentar indicadores que se aproximam dos brancos. Segundo, os negros são discriminados no mercado de trabalho, onde recebem menos que os brancos mesmo tendo escolaridade idêntica à deles. A per-cepção da existência de discriminação na escola e no mercado de trabalho delineia algo maior e mais complexo: o racismo brasileiro.

Esse racismo, cuja presença ainda é tantas vezes negada, afronta diretamente o mito da democracia racial brasileira. Racismo perene que, ao mesmo tempo em que desconstrói o mito, serve de mote para a reconstrução de uma questão racial, recolocando o problema como área de ação do Estado. E, nessa perspectiva, sua especificidade engendra novos matizes para esta ação, pondo mesmo em questão os limites das políticas universais.

cendentes, mas sobretudo da existência ativa do racismo e da discriminação racial em todos os espaços da vida social.

Desta forma, refletir sobre as medidas a serem tomadas pelo poder público para enfrentar tal quadro de iniqüidades implica analisar o processo de reprodução do racismo e da discriminação racial, fenômenos que explicam tanto a existência dos atuais níveis de desigualdade entre brancos e negros no Brasil como, também, sua manutenção e reprodução ao longo do tempo.

A literatura recente tem ressaltado a diferença entre o preconceito racial e a discriminação. Enquanto o preconceito racial, e mesmo o racismo, têm sido clas-sificados como fenômenos de ordem subjetiva, expressando-se por meio de valo-res, idéias e sentimentos, a discriminação racial tem sido entendida como ação de exclusão, restrição ou preferência que impede o tratamento ou acesso igualitário a direitos e oportunidades em função da cor. E a própria discriminação, enquanto ato de distinção e exclusão, expressa-se por intermédio de diferentes formas, na vida social. A esses diferentes fenômenos, cabe interpor ações públicas igualmente distintas. Como já alertou Silva Jr.,

[...] tratar como sinônimos os termos preconceito e discriminação pode im-plicar não apenas uma perigosa e totalitária devassa na esfera da liberdade individual, como também – o que é mais freqüente e perverso – na omissão estatal pura e simples face da discriminação, motivada, entre outras razões, pela indefinição dos limites, do papel e dos instrumentos estatais destinados ao enfrentamento da desigualdade e à promoção da igualdade (000:).

Avançando na análise dos mecanismo de exclusão social que atingem os ne-gros, alguns autores têm insistido na diferenciação das formas de discriminação, destacando a discriminação direta e a discriminação indireta. Tem sido classificado como discriminação direta todo ato expresso de restrição ou exclusão baseado na cor. É a chamada prática do racismo em sua forma mais explícita. Já a discriminação indireta (algumas vezes também chamada de discriminação invisível ou discrimina-ção institucional) tem sido identificada como aquela cuja desigualdade de tratamen-to não se realiza através de manifestações expressas de racismo, mas sim de práticas aparentemente neutras. Esta forma dissimulada de discriminação é mais difícil de ser identificada e combatida, pois, como afirmou Barbosa Gomes, revestidas de as-pectos culturais e psicológicos, tais práticas ingressam no imaginário coletivo “ora tornando-se banais e, portanto, indignas de atenção salvo por aqueles que dela são

5 Ver Silva Jr. (2000 e 2001), Gomes (2001), Santos (2001) e Jaccoud e Beghin (2002).

6 Ver, por exemplo, Gomes (2001)

vítimas, ora se dissimulando através de procedimentos corriqueiros, aparentemente protegidos pelo Direito” (00: 0).

Ora, se a criminalização destaca-se como importante e insubstituível instru-mento de combate aos atos de discriminação, ela não pode, entretanto, ser o único meio de enfrentamento da prática do racismo. A discriminação indireta dificilmen-te é passível de punição legal. Dissimulada através de mecanismos aparendificilmen-temendificilmen-te neutros, como, por exemplo, processos de seleção de mão-de-obra onde diversos re-quisitos de qualificação são demandados, a discriminação indireta só se torna social-mente visível por meio de indicadores de desigualdade que apontam o desfavoreci-mento de um grupo étnico em relação a outro. O enfrentadesfavoreci-mento da discriminação indireta depende assim, de um lado, de ações específicas voltadas à “neutralização do efeito da desigualdade racial”, as chamadas ações afirmativas e, de outro, de políticas de combate aos preconceitos, estereótipos e ideologias que legitimam, sustentam e alimentam as práticas racistas.

As ações de combate ao preconceito e aos estereótipos de cunho racista devem se revestir de formas específicas: ações valorizativas e persuasivas (SILVA JR., 000:).

Essas ações têm como objetivo combater os estereótipos depreciativos, valorizar as di-versas etnias em bases de igualdade e valorizar a pluralidade étnica da sociedade brasi-leira. São ações que devem ser desenvolvidas especialmente dentro do sistema educa-cional e junto aos meios de comunicação. À diferença das políticas afirmativas, as ações valorizativas não devem ter uma temporalidade específica e não tratam de dispensar um tratamento diferenciado a um ou a outro grupo. Ao contrário, elas buscam combater o tratamento diferenciado e depreciativo que vem sendo dado, no caso brasileiro, ao negro, nas diversas esferas de construção e reprodução da imagem nacional.

As chamadas ações afirmativas, por seu lado, engendram um conjunto diferen-ciado de medidas que têm por objetivo igualar o acesso de grupos sociais discriminados a certas oportunidades sociais. As políticas afirmativas visam a estimular a participação destes grupos em determinados espaços sociais nos quais estão sub-representados. Po-dem ser elencadas como ações afirmativas o estabelecimento de cotas em concursos pú-blicos, a fixação de cronogramas e metas para ampliação da representação destes grupos em instituições ou empresas ou, ainda, programas diversificados de qualificação de que são exemplo as experiências de concessão de bolsas de estudo para afro-descendentes.

Dessa forma, duas constatações se impõem. Observa-se, de um lado, que ações afirmativas não se reduzem a políticas de cotas e, de outro, que elas não esgotam o

7 A criminalização da prática de racismo foi consagrada pela Constituição de 1988 e regulamentada por impor-tante legislação: Lei n° 7.716/1898 (Lei Caó), Lei nº 9.029/1995, Lei nº 9.455/1997 e Lei nº 9.459/1997.

conjunto de políticas públicas necessárias à promoção da igualdade racial. De fato, as ações afirmativas são políticas amplas que se inserem no campo da promoção da igualdade de oportunidades, facilitando o acesso dos grupos discriminados a certos espaços da vida social. Tais políticas podem ser entendidas como complementares às políticas universais, quando estas se mostram insuficientes para garantir, em uma dada sociedade, a igualdade de oportunidade aos diferentes grupos étnicos. Ou seja, são ações que devem ser promovidas em sociedades em que, a despeito do desen-volvimento de políticas universais, a discriminação racial, direta ou indireta, atua como obstáculo a que os diferentes indivíduos, independente de sua cor, acessem as mesmas oportunidades. Contudo, cabe ao Estado mais que promover o acesso: ele deve desenvolver políticas amplas de combate à discriminação e ao racismo.

Educação: um debate sobre a promoção da