1.3 SOBRE PODER, ARQUITETURA E SENTIDOS
1.3.3 A Arquitetura Repressiva e Disciplinar
O estudo de Foucault sobre a disciplinação dos corpos na sociedade ocidental contemporânea e capitalista e o papel que o panóptico desempenha nesse processo é fundamental para discutir a arquitetura prisional. Ao debater o papel disciplinar que instituições como escolas, hospitais, quartéis e até mesmo fábricas desempenham na sociedade, o autor apresenta a prisão, o carcerário, como um modelo de justiça, de disciplina, para todas as outras instituições sociais. Afinal, é na “forma-prisão” que se aprende, se desenvolve e se transmite técnicas, práticas e, consequentemente, saberes voltados para a normalização do comportamento daqueles que são “indisciplinados” e “perigosos”. (FOUCAULT, 2002).
De un extremo a otro de este sistema, que comprende tantas instituciones "regionales", relativamente autónomas e independientes, se trasmite, con la "forma-prisión", el modelo de la gran justicia. Los reglamentos de las casas de disciplina pueden reproducir la ley, las sanciones imitar los veredictos y las
penas, la vigilancia repetir el modelo policíaco; y por encima de todos estos establecimientos múltiples, la prisión, que es respecto de todos ellos una forma pura, sin mezcla ni atenuación, les da una especie de garantía estatal. Lo carcelario, con su largo desvanecido que se extiende del presidio o de la reclusión criminal hasta los encuadramiento difusos y ligeros, comunica un tipo de poder que la ley valida y que la justicia utiliza como su arma preferida. (FOUCAULT, 2002: 308-309).
Ou seja, a prisão, na sociedade capitalista, se transformou em um importante mecanismo de controle social e o panóptico, para Foucault, foi crucial nesse processo (FOUCAULT, 2002; DAMÁZIO, 2010).
O panóptico foi desenvolvido no final do século XVIII pelo filósofo Jeremy Bentham e se tornou o modelo arquitetônico para uma prisão “perfeita” (FOUCAULT, 2002). Seguindo preceitos iluministas, Bentham, assim como Cesare Beccaria e John Howard, vão implementar o que é conhecido como o “Período Humanitário do Direito Penal” (ESTECA, 2010), no qual se defendia o fim das “punições corporais” (torturas, execuções etc.) vigentes durante a Idade Média e o início da punição dos transgressores sociais com o cárcere (DAMÁZIO, 2010; ESTECA, 2010). É o que Foucault coloca como a transformação da economia do poder do castigo, onde o suplício é substituído pelo aprisionamento (FOUCAULT, 2002). De acordo com Esteca (2010), se o cárcere antes era um meio para se conseguir punir, ele passou a ser a punição em si.
Essa reforma jurídica, moral e institucional ocorreu tendo como justificativa premissas humanitárias que defendiam que o “transgressor” é também sujeito de direito (FOUCAULT, 2002). Sendo assim, em vez do castigo ser aplicado por meio de agressões físicas, ele era aplicado com a privação da liberdade do sujeito e com a disciplinação comportamental do mesmo, objetivando a sua “reabilitação”, a sua “cura” (FOUCAULT, 2002; SUN, 2008). Como Foucault (2002) coloca, o castigo que antes se concentrava no suplício do corpo passou a se concentrar na transformação da “alma”, da conduta do detento, que então era “corrigida”, “coagida”, “educada”.
No entanto, a ideia de recuperação da “alma” por meio do encarceramento não surgiu com a Reforma, ela é mais antiga e veio da penitência eclesiástica, realizada através da reclusão de transgressores em mosteiros e conventos na Idade Média, com o objetivo de fazê-los reconhecer os próprios erros e pecados (ESTECA, 2010). Inclusive, foi com base nesse conceito de penitência que foram construídas as primeiras prisões em contexto laico, as Casas de Correção (Houses of Correction), que surgiram no séc. XVI (ex.: prisão Bridewell na Inglaterra;
prisão Rasphuis na Holanda) (ESTECA, 2010) e se espalharam pela Europa perdurando até o século XIX (ex.: Casa de Correção de São Miguel, 1703, Roma; a Casa de Força de Ghent, 1773, Bélgica) (ESTECA, 2010; GAVAZZA, 2014).
As Casas de Correção tinham como escopo recuperar os indivíduos por meio do aprisionamento que, aliado ao trabalho e à disciplina (CIGEL et al., 2018; DAMÁZIO, 2010; GARBELINI, 2005; GAVAZZA, 2014; MONTARROYOS, 2014), se tornou útil economicamente e socialmente devido à possibilidade de exploração do trabalho de uma mão- de-obra barata e ociosa (GAVAZZA, 2014; MONTARROYOS, 2014; PASTANA, 2012), acompanhando o desenvolvimento da economia mercantil (FOUCAULT, 2002).
Foi tomando então como referência esse novo modelo de castigo - a prisão laica - implementado pelas Casas de Correção, que a Reforma se iniciou (ESTECA, 2010; GAVAZZA, 2014; PASTANA, 2012). Por isso, o nascimento da prisão enquanto novo poder de castigo, para Pastana (2012), mesmo relacionado publicamente apenas ao seu caráter reformador e humanista, foi também uma tática econômica ao disciplinar os desordeiros e transformá-los em mão de obra; tática que persistiu no capitalismo industrial com a disciplinação das massas carentes para o trabalho fabril.
Foucault (2002), por exemplo, esclarece que a mudança do castigo para o aprisionamento não envolve apenas a correção da conduta do sujeito de direito, como defendido pelos reformistas, envolve principalmente a constituição de corpos dóceis e úteis:
Y finalmente lo que se trata de reconstituir en esta técnica de corrección, no es tanto el sujeto de derecho, que se encuentra prendido de los intereses fundamentales del pacto social; es el sujeto obediente, el individuo sometido a hábitos, a reglas, a órdenes, a una autoridad que se ejerce continuamente en torno suyo y sobre él, y que debe dejar funcionar automáticamente en él. Dos maneras, pues, bien distintas de reaccionar a la infracción: reconstituir el sujeto jurídico del pacto social, o formar un sujeto de obediencia plegado a la forma a la vez general y escrupulosa de un poder cualquiera. (FOUCAULT, 2002: 134).
O autor ainda completa afirmando que o verdadeiro objetivo da reforma não foi garantir a implementação definitiva do aprisionamento na sociedade por esse ser mais humanitário, mas por ser um poder de castigo mais regular, eficaz, constante e com um custo econômico e político menor, sendo o panóptico o dispositivo arquitetônico desse poder. O panóptico na época se apresentou como o aprimoramento da prisão, como a prisão perfeita, se tornando o principal
modelo de prisão, ou seja, o principal modelo da tecnologia do poder vigente (FOUCAULT, 2002). Mas o que exatamente é o panóptico?
A Reforma envolveu não apenas uma transformação moral e social. Para Esteca (2010), ela envolveu também, a partir da sistematização e aprimoramento de todo o conhecimento adquirido com as experiências das Casas de Correção, a criação de um saber científico que “(...) tinha como objeto a administração da prisão (o edifício na arquitetura, construção, manutenção e planos de funcionamento, incluindo esquemas contra fugas) e o tratamento dos presos (o isolamento, o trabalho, a instrução e a assistência para sua subsistência)” (ESTECA, 2010: 13). Com isso, as construções das prisões passaram a seguir critérios e modelos técnicos específicos, entre eles, o próprio panóptico (Figura 1) (CORDEIRO, 2005; ESTECA, 2010; GARBELINI, 2005; SUN, 2008):
Conocido es su principio: en la periferia, una construcción en forma de anillo; en el centro, una torre, ésta, con anchas ventanas que se abren en la cara interior del anillo. La construcción periférica está dividida en celdas, cada una de las cuales atraviesa toda la anchura de la construcción. Tienen dos ventanas, una que da al interior, correspondiente a las ventanas de la torre, y la otra, que da al exterior, permite que la luz atraviese la celda de una parte a otra. Basta entonces situar un vigilante en la torre central y encerrar en cada celda a un loco, un enfermo, un condenado, un obrero o un escolar. Por el efecto de la contraluz, se pueden percibir desde la torre, recortándose perfectamente sobre la luz, las pequeñas siluetas cautivas en las celdas de la periferia. Tantos pequeños teatros como celdas, en los que cada actor está solo, perfectamente individualizado y constantemente visible. El dispositivo panóptico dispone unas unidades espaciales que permiten ver sin cesar y reconocer al punto. En suma, se invierte el principio del calabozo; o más bien de sus tres funciones —encerrar, privar de luz y ocultar—; no se conserva más que la primera y se suprimen las otras dos. La plena luz y la mirada de un vigilante captan mejor que la sombra, que en último término protegía. La visibilidad es una trampa. (FOUCAULT, 2002: 203-204).
Percebe-se que um dos princípios básicos do panóptico era a vigilância ótica constante dos detentos, que ficavam isolados em celas individuais; até o nome do modelo arquitetônico reflete esse princípio: ótico=ver + pan=tudo (CIGEL et al., 2018). No entanto, essa vigilância possuía uma especificidade: para o detento ela se apresentava como total e constante, mesmo se na prática não o fosse; pois da torre central era possível visualizar todas as celas, mas os detentos nas celas não conseguiam visualizar se realmente havia guardas na torre (Figura 2). Para isso, Bentham propunha o uso de persianas nas janelas e de biombos na passagem de um cômodo para outro dentro da torre (compartimentada por divisões que a cortavam em ângulos retos). (FOUCAULT, 2002; GARBELINI, 2005). Dessa forma, no panóptico, para os detentos sempre havia a possibilidade de estarem sendo vigiados por alguém na torre central.
(ADRIANO, 2010; BUCHLI, 2013; CIGEL et al., 2018; CORDEIRO, 2005; ESTECA, 2010; GARBELINI, 2005; FOUCAULT, 2002). Com isso, segundo Foucault (2002), criava-se um estado de consciência no detento de uma vigilância permanente, garantindo assim um funcionamento automático do poder disciplinar. Buchli (2013: 94) corrobora com essa ideia e afirma que:
The architectural innovation produced a new sensorial dimension with profound effects. It produced a new form of visuality wherein a single watchtower in the center produced an omniscient, “Godlike,” all-seeing eye peering into each individual cell (Werrett 1999: 17). The prisoners did not know whether they were actually being watched but could only presume they were. Enclosed within a cell observed by an all-seeing eye, prisons were designed not so much to punish as to produce a sense of conscious interiority—in short, a “conscience” or, as Foucault phrased it, produced the idea of the modern soul.
Figura 2 - Interior da Penitenciária Stateville, EUA, séc. XX. Fonte: Foucault (2002).
De acordo com Foucault (2002), Bentham também chegou a pensar em incluir uma vigilância acústica no panóptico, com a utilização de tubos que sairiam das celas e iriam até a torre. Entretanto, como os tubos também permitiriam aos detentos escutar o que os guardas estivessem falando, ele descartou a ideia (FOUCAULT, 2002).
Além da vigilância ótica, outra característica relevante do panóptico era o isolamento dos prisioneiros (ADRIANO, 2010; ESTECA, 2010; FOUCAULT, 2002). No panóptico, os detentos ficavam em celas individuais com portas direcionadas para a torre central; o que além de permitir a vigilância, deveria dificultar a comunicação sonora e, principalmente, visual de um detento com qualquer outro, assim como, o contato físico. As celas no panóptico eram construídas com o objetivo de não permitir a comunicação entre os presos (SOUSA, 2014):
Cada cual, en su lugar, está bien encerrado en una celda en la que es visto de frente por el vigilante; pero los muros laterales le impiden entrar en contacto con sus compañeros. Es visto, pero él no ve; objeto de una información, jamás sujeto en una comunicación. La disposición de su aposento, frente a la torre central, le impone una visibilidad axial; pero las divisiones del anillo, las celdas bien separadas implican una invisibilidad lateral. Y ésta es garantía del orden. Si los detenidos son unos condenados, no hay peligro de que exista complot, tentativa de evasión colectiva, proyectos de nuevos delitos para el futuro, malas influencias recíprocas; si son enfermos, no hay peligro de contagio; si locos, no hay riesgo de violencias recíprocas; si niños, ausencia de copia subrepticia, ausencia de ruido, ausencia de charla, ausencia de disipación. Si son obreros, ausencia de riñas, de robos, de contubernios, de esas distracciones que retrasan el trabajo, lo hacen menos perfecto o provocan los accidentes. La multitud, masa compacta, lugar de intercambios múltiples, individualidades que se funden, efecto colectivo, se anula en beneficio de una colección de individualidades separadas. Desde el punto de vista del guardián
está remplazada por una multiplicidad enumerable y controlada; desde el punto de vista de los detenidos, por una soledad secuestrada y observada. (FOUCAULT, 2002: 204).
Para completar, nas prisões da época, se os presos tivessem contato entre si, em horários de exercícios, refeições, trabalho etc., esse contato era completamente vigiado e controlado pelos agentes institucionais, com o intuito não só de evitar complôs e revoltas, mas de impedir que se formasse cumplicidade entre eles e, com isso, uma população solidária. Todas as relações entre os presos eram vigiadas. (FOUCAULT, 2002). Segundo Foucault (2002), o isolamento e a solidão (resultante do isolamento) eram estratégias utilizadas para fazer o detento refletir sobre seus atos e, assim, sentir remorso; ou seja, eram estratégias para disciplinar a “alma” do detento. Além do mais, se o prisioneiro ficava isolado, era mais fácil observá-lo, conhecê-lo, categorizá-lo e, consequentemente, controlá-lo e discipliná-lo (FOUCAULT, 2002). De acordo com o autor, o isolamento permitia que o poder disciplinar fosse a influência mais forte sobre o preso, sendo a solidão uma condição básica para a submissão.
A vigilância constante e o controle da comunicação e da relação entre os detentos (possível por meio do controle da distribuição espacial dos mesmos) eram combinados com a imposição de um cotidiano rígido, repetitivo e regular (FOUCAULT, 2002):
El punto de aplicación de la pena (…) es el cuerpo, es el tiempo, son los gestos y las actividades de todos los días; el alma también, pero en la medida en que es asiento de hábitos. El cuerpo y el alma, como principios de los comportamientos, forman el elemento que se propone ahora a la intervención punitiva. (…) En cuanto a los instrumentos utilizados (…) [son] formas de coerción, esquemas de coacción aplicados y repetidos. Ejercicios, no signos: horarios, empleos de tiempo, movimientos obligatorios, actividades regulares, meditación solitaria, trabajo en común, silencio, aplicación, respeto, buenas costumbres. (FOUCAULT, 2002: 133).
Ou seja, para o autor, por mais que a detenção almejasse a correção da “alma” do sujeito de direito, ela era alcançada por meio da materialidade da prisão e de seus efeitos nos corpos, nos gestos, nos movimentos dos detentos; para ele, essa tecnologia de poder sobre o corpo (a materialidade da prisão) era um instrumento central na disciplinação da “alma” do detento. Nesse contexto, Foucault (2002) apresenta o trabalho na prisão como uma das ferramentas disciplinarias mais importantes devido aos seus efeitos na mecânica humana:
[El trabajo penal] No es como actividad de producción por lo que se considera intrínsecamente útil, sino por los efectos que ejerce en la mecánica humana. Es un principio de orden y de regularidad; por las exigencias que le son propias, acarrea de manera insensible las formas de un poder riguroso; pliega los cuerpos a unos movimientos regulares, excluye la agitación y la
distracción, impone una jerarquía y una vigilancia que son tanto más aceptadas, y se inscribirán tanto más profundamente en el comportamiento de los penados, cuanto que forman parte de su lógica (…) (FOUCAULT, 2002: 245).
Além disso, mesmo se concentrando na “alma” do detento, as táticas disciplinares nas prisões sempre envolveram alguma escala de suplício corporal mais direto, como racionamento alimentar, violência física, privação sexual etc. (FOUCAULT, 2002).
Conclui-se então que a disciplinação da “alma” dos presos - envolvendo o controle de quando, onde e como os presos dormiam, acordavam, trabalhavam, se alimentavam, se movimentavam, se exercitavam etc. - era corporal e, portanto, sensorial e espacial. Por isso, é importante ressaltar que não só no panóptico, mas em outros modelos prisionais a ele contemporâneo, como os americanos Auburn e Filadélfia (Figura 3), que compartilhavam das mesmas táticas básicas para disciplinar as condutas dos “malfeitores” - a vigilância, o isolamento e o trabalho - (ADRIANO, 2010; CORDEIRO, 2005; ESTECA, 2010; FOUCAULT, 2002; GARBELINI, 2005; SUN, 2008), a disciplinação só se fazia possível através da materialidade arquitetônica desses locais e da sua influência na distribuição espacial dos indivíduos (FOUCAULT, 2002; ESTECA, 2010).
Figura 3 – Plantas Baixas da Penitenciária de Auburn (1825) e da Penitenciária Estadual do Oriente da Filadélfia (1829) respectivamente. Fonte: Esteca (2010).
Hancock e Jewkes (2011) corroboram com essa ideia e afirmam que a arquitetura celular das prisões do século XIX, além de colocar os detentos como “objects of maximum observation and knowledge”, formava um ambiente de compressão física que resultava na deprivação sensorial dos presos e na compressão psicológica dos mesmos, permitindo assim a produção de
uma subjetividade institucionalizada, dócil e dependente na população carcerária. Em outras palavras, o poder disciplinar é material, corporal/sensorial, espacial, arquitetônico; e a arquitetura, por sua vez, como discutido, também é ideologia e poder.
Isso significa que, quando se fala de uma sociedade disciplinar e da produção de corpos dóceis e úteis, se fala também de uma arquitetura repressiva/controladora e de sensorialidade. Se pensarmos que, nessa época, como já foi abordado, se constrói na sociedade ocidental um modelo sensorial científico, cartesiano - onde a visão é tida como o sentido pelo qual é possível estabelecer a distância entre observador/objeto e, assim, alcançar a objetividade e construir um conhecimento verdadeiro sobre o mundo - então não é de se estranhar o papel central que a visão e o distanciamento entre observador/objeto exerceu na formação do modelo arquitetônico e disciplinar do panóptico. Por isso, também não é de se estranhar que o panóptico não só tenha sido o modelo de prisão mais utilizado em 1830-1840 (FOUCAULT, 2002), como tenha se tornado o mecanismo central do poder disciplinar da nossa sociedade, sendo implementado e adaptado em diversas instituições sociais:
El Panóptico (…) debe ser comprendido como un modelo generalizable de funcionamiento; una manera de definir las relaciones del poder con la vida cotidiana de los hombres. (…) El hecho de que haya, aun hasta nuestros días, dado lugar a tantas variaciones proyectadas o realizadas, demuestra cuál ha sido durante cerca de dos siglos su intensidad imaginaria. Pero el Panóptico no debe ser comprendido como un edificio onírico: es el diagrama de un mecanismo de poder referido a su forma ideal; su funcionamiento, abstraído de todo obstáculo, resistencia o rozamiento, puede muy bien ser representado como un puro sistema arquitectónico y óptico: es de hecho una figura de tecnología política que se puede y que se debe desprender de todo uso específico. / Es polivalente en sus aplicaciones; sirve para enmendar a los presos, pero también para curar a los enfermos, para instruir a los escolares, guardar a los locos, vigilar a los obreros, hacer trabajar a los mendigos y a los ociosos. Es un tipo de implantación de los cuerpos en el espacio, de distribución de los individuos unos en relación con los otros, de organización jerárquica, de disposición de los centros y de los canales de poder, de definición de sus instrumentos y de sus modos de intervención, que se puede utilizar en los hospitales, los talleres, las escuelas, las prisiones. Siempre que se trate de una multiplicidad de individuos a los que haya que imponer una tarea o una conducta, podrá ser utilizado el esquema panóptico. (FOUCAULT, 2002: 208-209).
A importância do panóptico na construção dessa nova economia de castigo e da nossa sociedade disciplinar foi tão grande que os seus princípios básicos – de vigilância e controle permanentes e onipresentes – ainda estão presentes na arquitetura prisional (CIGEL et al., 2018; ESTECA, 2010; GARBELINI, 2005). Para Esteca (2010: 48), a “essência do modelo prisional permanece a mesma”, ou seja, a essência da arquitetura repressiva ainda se conserva mesmo
depois de tanto tempo. O controle dos horários, da comida, da movimentação, do contato entre os detentos, tudo isso ainda faz parte do cotidiano de instituições carcerárias atuais como delegacias, presídios, colônias penais etc. E a utilização de câmeras de segurança nesses locais pode ser entendida como um dos grandes exemplos da continuidade do “olhar vigilante” do século XIX (CIGEL et al., 2018). Como Esteca (2010: 52) coloca, as prisões ainda apresentam os princípios de controle do panóptico: “(...) a separação física entre o funcionário e o preso (vigilância indireta plena), um número mínimo de postos de controle para a maior área controlada possível e, em cada posto, o domínio máximo e absoluto do espaço, além da “invisibilidade do poder””.
Isto é, por mais que ao longo dos anos tenha surgido diferentes tipos de regimes de detenção (regime aberto e regime semiaberto), diferentes níveis de segurança (prisão de segurança mínima, média e máxima) e diferentes modelos arquitetônicos com distribuições espaciais específicas (como, por exemplo, prisões em esquema pavilhonar, espinhal etc.) (SUN, 2008), a prisão permaneceu com o objetivo de corrigir a “alma”, o comportamento dos seus detentos. A arquitetura prisional continuou sendo uma tecnologia de poder para a desconstrução do eu dos transgressores sociais através da disciplinação sensorial, da disciplinação de seus corpos, na tentativa de torná-los dóceis.
Foi a partir dessa premissa básica sobre a arquitetura prisional que desenvolvi as