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1.3 SOBRE PODER, ARQUITETURA E SENTIDOS

1.3.2 O Poder Arquitetado e os Sentidos

Discutido brevemente como a noção de poder se modificou ao longo do tempo, principalmente na História, e considerando que o estudo da paisagem, do espaço, como já foi colocado, envolve também o estudo de estratégias e discursos de poder, agora será discutida a relação entre Arquitetura e poder.

Como já foi mencionado neste capítulo, a paisagem é carregada de significados que são vivenciados sensorialmente, por meio de eventos e práticas socioculturais, e que se modificam ao longo do tempo a partir da (re)constituição de memórias, de narrativas e de discursos de poder.

The meanings that are given to places and the spatial order are not fixed or invariant givens but must be invoked in the context of practice and recurrent usage. Meanings adhere to a spatial frame only through the medium of human activity. However the capacity to reinterpret and change meanings and ideologies is constrained by the already existing spatial order (…) The relationship between spatial form and human agency is mediated by meaning. People actively give their physical environments meanings, and then act upon those meanings. (PEARSON & RICHARDS, 1994: 5).

Delle (1998), por exemplo, afirma que o espaço construído/utilizado pelo ser humano contém múltiplos significados que mudam com o tempo e com o contexto social, refletindo e construindo relações sociais. Ou seja, a paisagem não é apenas um produto/objeto derivado de uma determinada estrutura social e histórica, ela também é um agente nessas estruturas, influenciando a própria constituição da sociedade (PEARSON & RICHARDS, 1994). Como McGuire (2008) argumenta, a paisagem não é só um pano de fundo da experiência humana, ela tem um papel ativo na (re)formulação de relações sociais e de poder, estando atrelada a determinadas ideologias. Já Troncoso (2001), ao discutir a relação entre espaço e poder, considerando tanto o marxismo como o trabalho de Foucault, afirma que a paisagem é

historicamente condicionada, construída socioculturalmente de acordo com determinados sistemas de poder-saber, sendo também um elemento socialmente ativo.

Batendo de frente com o viés universalista e positivista, podemos afirmar que essa concepção da paisagem - entendida como resultado de e agente em práticas e relações sociais, sendo por isso atrelada a processos de significação, mnemônicos, identitários e ao saber-poder - já se consolidou dentro da Arqueologia, especialmente se levarmos em consideração as diversas pesquisas já realizadas que debatem essa temática, sejam elas de influência marxista, da teoria crítica ou de influência fenomenológica (ver ASHMORE, 2004). Por isso, se entendermos arquitetura enquanto materialidade que faz parte da constituição da paisagem (ZARANKIN, 2002), então é possível afirmar que o estudo arqueológico da mesma, abordando essas problemáticas relacionadas à paisagem, é essencial.

Mas o que seria uma Arqueologia da Arquitetura?

A Arqueologia da Arquitetura é um campo de pesquisa que estuda as construções/edifícios a partir de uma perspectiva arqueológica (COPÉ, 2006; SANTOS, 2013, 2015; VILLELA & TIRELLO, 2014; ZARANKIN, 1999, 2002, 2003) e que teve início na década de 70, na Espanha e na Itália, segundo Tirello (2007), com estudos voltados para a arquitetura medieval:

A “Arqueologia da Arquitetura” (AA) é uma disciplina introduzida na década de 1970 que estuda edifícios históricos a partir de princípios e métodos arqueológicos. Diversas experiências se voltaram à investigação do objeto tridimensional arquitetônico, principalmente na Itália e na Espanha, países em que foram publicadas as primeiras revistas dedicadas ao tema. Destacaram-se os nomes de arqueólogos como o italiano Gian Pietro Brogiolo, o espanhol Luis Caballero Zoreda e do arquiteto Francesco Doglioni. A “AA” é uma instância de investigação complexa que, além da pesquisa histórica tradicional, lida com dados obtidos a partir do estudo direto da matéria arquitetônica, com a acuidade que a Arqueologia dedica aos artefatos. (VILLELA & TIRELLO, 2014: 3).

De acordo com Copé (2006), as raízes da Arqueologia da Arquitetura se encontram no desenvolvimento da Arqueologia Urbana e Medieval na Europa ainda no final da década de 50. Para a autora, assim como para Santos (2013, 2015) e Villela e Tirello (2014), essa linha de pesquisa nasceu com o objetivo de aplicar métodos arqueológicos na reconstrução da história de edifícios a partir da análise de dados arqueológicos obtidos em escavação (estratigrafia, coleção artefatual etc.), como também a partir da análise dos materiais e das técnicas de construção e de análises estilísticas, montando uma cronologia evolutiva dos edifícios que

estaria relacionada a contextos históricos e sociais. Ao mesmo tempo, a Arqueologia da Arquitetura também se desenvolveu a partir de um caráter preservacionista, com o objetivo de atender às demandas de restauro e conservação de patrimônios históricos edificados, ligados, por exemplo, à arquitetura militar e religiosa (BOMFIM et al., 2016; SANTOS, 2013, 2015; VILLELA & TIRELLO, 2014).

No entanto, para Steadman (1996), a arqueologia de assentamento também foi um dos campos de estudos responsáveis por aproximar a Arqueologia à Arquitetura:

(…) recent studies do not represent the first attempts to investigate settlements and architectural remains in the archaeological record. Scholars working in the field of "settlement archaeology," initially in the New World (Steward, 1937; Willey, 1953) and then in the Old World (Adams, 1965, 1972; Braidwood, 1974; Butzer, 1976; Chang, 1968), were partially responsible for "setting the stage" for more recent attempts to examine the built environment for the economic, ecological, and social information it clearly holds. Interest in such topics reached even beyond the archaeological discipline; Amos Rapoport has had an interest in topics that address architecture and its relationship to human culture, past and present, for over 25 years (Rapoport, 1969, 1976, 1982, 1990a). Early ethnoarchaeological work by researchers such as Carol Kramer and Patty Jo Watson used architecture to address issues such as social organization, economic rank (Kramer, 1979, 1982), and subsistence patterns (Watson, 1979). (STEADMAN, 1996: 52).

De qualquer forma, ao longo dos anos, a Arqueologia da Arquitetura se diversificou. Se primeiramente as pesquisas eram voltadas mais para Arqueologia Histórica, a partir da década de 80, a Arqueologia da Arquitetura também passou a abranger de forma mais consistente estudos relacionados à Pré-História. Entendendo a arquitetura enquanto cultura material, pré- historiadores norte-americanos passaram a desenvolver trabalhos nessa área estudando estruturas semi-subterrâneas (pithouses) nos Estados Unidos, abrindo assim um caminho mais definitivo para a Arqueologia da Arquitetura na Pré-história. (COPÉ, 2006).

Para Zarankin (1999, 2002, 2003), a Arqueologia da Arquitetura é uma linha de pesquisa bastante heterogênea, envolvendo, por exemplo, abordagens funcionalistas, que vêm a arquitetura enquanto resultado de adaptação ambiental, abordagens que relacionam as mudanças arquitetônicas a processos sociais e abordagens simbólicas e ideológicas da arquitetura.

Mas, para Moreira e Soares (2015), o estudo arqueológico da arquitetura precisa necessariamente envolver uma abordagem simbólica:

(...) fazer uma arqueologia da arquitetura não é fazer uma história da arte ou da própria arquitetura. Embora alguns trabalhos dessa área detenham-se, sobretudo, na classificação e sistematização de estilos e fases construtivas, o objetivo dessa linha de pesquisa vai além, tendo em vista que entende a arquitetura como um artefato carregado de signos compartilhados culturalmente e que está em constante relação dialética com as pessoas. (MOREIRA & SOARES, 2015: 128).

Pearson e Richards (1994) também defendem que o estudo simbólico da arquitetura, apesar de ser considerado quase impossível de ser realizado por arqueólogos, por ser supostamente muito subjetivo, é imprescindível para entender as configurações e transformações arquitetônicas, tendo que ser levado em consideração junto aos estudos funcionais (não funcionalistas), sociais, históricos. Para os autores, essas abordagens, ao invés de serem excludentes, se complementam.

Segundo Markus (1993), a forma de uma construção (‘building’) e sua organização espacial, o material com o qual é construída, o tamanho e a forma dos aposentos, as decorações, a sua entrada e a forma como se dá o acesso de um cômodo ao outro, tudo isso está ligado à maneira pela qual esse espaço é significado socialmente e, assim, também está ligado a determinadas práticas e relações sociais.

Three domains of society-in-history were identified: social practices, social relations and the subject. I suggested that people (‘subjects’) discover and create meanings in social relations, and these forms and are formed by their social practices – the things they do together. Designing and producing buildings are social practices. / A building’s form, function and space each has meanings in the field of social relations, each is capable of signifying who we are, to ourselves, in society and in the cosmic scheme of things. (MARKUS, 1993: 30).

Ou seja, os aspectos funcionais, simbólicos e sociais das estruturas arquitetônicas se interconectam e, sendo assim, não podem ser estudados de forma completamente isolada. Por isso Steadman (1996) afirma que a Arqueologia da Arquitetura envolve uma diversidade de pesquisas que relacionam o uso do espaço tanto a fatores econômicos, funcionais, sociais, como também a fatores simbólicos e psicológicos e que discutem inúmeros aspectos das estruturas sociais estudadas, como, por exemplo, relações de gênero.

Ao mesmo tempo, as características das construções arquitetônicas (como as características citadas por Markus), segundo Hodder (1994), têm uma ação direta no corpo, controlando, por exemplo, o movimento, o acesso e a interação das pessoas com o espaço arquitetônico e com o mundo a sua volta, sendo embebidas por significados específicos. Por isso, Pearson e Richards (1994) defendem uma arquitetura fenomenológica, já que a relação das pessoas com a arquitetura é baseada na experiência corporal, na qual a arquitetura estabelece rotas, gestos e movimentos corporais específicos. Sendo que, ainda de acordo com os autores, a agência da arquitetura na experiência corporal sempre está ligada a significados e discursos de poder determinados.

Considerando essa relação entre arquitetura, poder e ideologia, Zarankin (2002) concebe arquitetura como uma forma de comunicação ou discurso não-verbal:

Os prédios são objetos sociais, e como tais são carregados de valores e sentidos próprios de cada sociedade. No entanto, não são um simples reflexo passivo desta, pelo contrário, são partícipes ativos na formação das pessoas. Dito de outra forma, a arquitetura denota uma ideologia, e possui a particularidade de transformá-la em “real” (material), para desta forma transmitir seus valores e significados por meio de um discurso material. Assim, se considerarmos que os prédios são formas de comunicação não- verbal, então estes podem ser lidos. (ZARANKIN, 2002: 39).

Moreira e Soares (2015) também defendem essa visão da arquitetura enquanto um discurso não-verbal relacionado a ideologias que formam/domesticam as pessoas e as relações sociais. Sendo assim, como a arquitetura denota ideologia, estando relacionada aos sistemas de poder-saber, se baseando nos preceitos de Foucault, Zarankin deixa claro que a arquitetura pode funcionar como um mecanismo, estratégia ou tecnologia de poder (ZARANKIN, 1999, 2002, 2003). A análise do Foucault sobre a arquitetura panóptica (exemplificada por escolas, hospitais, quartéis, prisões), que possibilita em seu espaço o controle e a vigilância constante dos supervisores sobre cada indivíduo (criança, doente, detento, soldado etc.), demonstra, antes de mais nada, como a arquitetura pode servir enquanto um mecanismo de poder e de disciplinação dos corpos:

Este espacio cerrado, recortado, vigilado, en todos sus puntos, en el que los individuos están insertos en un lugar fijo, en el que los menores movimientos se hallan controlados, en el que todos los acontecimientos están registrados, en el que un trabajo ininterrumpido de escritura une el centro y la periferia, en el que el poder se ejerce por entero, de acuerdo con una figura jerárquica continua, en el que cada individuo está constantemente localizado, examinado y distribuido (...) todo esto constituye un modelo compacto del dispositivo disciplinario. (...) Prescribe a cada cual su lugar, a cada cual su cuerpo (...) por

el efecto de un poder omnipresente y omnisciente que se subdivide él mismo de manera regular e ininterrumpida hasta la determinación final del individuo, de lo que lo caracteriza, de lo que le pertenece, de lo que le ocurre. (FOUCAULT, 2002: 201).

No entanto, por mais que a arquitetura esteja intrinsecamente relacionada a ideologias, discursos de poder e relações sociais, como Foucault e Zarankin colocam, ela não deve ser entendida, a meu ver, enquanto uma forma de comunicação ou de discurso não-verbal. Como já foi discutido neste capítulo, essa ideia, muito presente na primeira fase do Pós- processualismo, de que a cultura material é como um texto que pode ser lido, acaba por desconsiderar que a base da experiência humana é sensorial. Sendo assim, essa noção acaba limitando, inevitavelmente, o estudo da cultura material, nesse caso, da Arquitetura, a uma análise linguística (seguindo os passos estruturalistas) e, portanto, não dando a atenção devida às experiências sensoriais; ignorando que a Arquitetura é, sobretudo, corporal, sensorial.

Pallasmaa (2011), por exemplo, afirma que o significado da arquitetura está atrelado às reações que provoca e que são lembradas corporalmente, sensorialmente. Para o autor, não é possível falar de arquitetura sem falar do corpo, de seu movimento e dos sentidos, pois a arquitetura envolve a experiência existencial humana, que é sensorial. Ainda segundo o autor, a arquitetura não é um artefato independente e isolado, ela guia nossa experiência existencial, nossa vivência e compreensão multissensorial de mundo, estruturando nossa sociedade e vida cotidiana. Por isso, Pallasmaa (2011) afirma que a arquitetura não é apenas visual e abstrata/mental, é corporificada, é física, e que, por isso, toda experiência com a arquitetura é multissensorial. Sendo assim, porque tentar reduzir essa fisicalidade, corporeidade, sensorialidade à palavra, à linguagem?

(...) as características de espaço, matéria e escala são medidas igualmente por nossos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos. A arquitetura reforça a experiência existencial, nossa sensação de pertencer ao mundo, e essa é essencialmente uma experiência de reforço da identidade pessoal. Em vez da mera visão, ou dos cinco sentidos clássicos, a arquitetura envolve diversas esferas da experiência sensorial que interagem e fundem entre si. (PALLASMAA, 2011: 39).

É importante ressaltar que, por mais que haja determinadas arquiteturas que tentam realçar experiências relacionadas a alguns sentidos específicos, como a arquitetura moderna que valoriza a visão (arquitetura da retina), a experiência arquitetônica sempre é multissensorial (PALLASMAA, 2011). Por exemplo, os centros de detenção da ditadura civil-militar foram construídos dentro do modelo sensorial ocidental, moderno e ocularcentrista; ou seja, fazem

parte da arquitetura da retina. No entanto, isso não significa que outros sentidos não tenham composto as experiências cotidianas desses espaços, muito pelo contrário. Por isso, uma abordagem sensorial que quebre com uma prática científica primariamente visual é importante até mesmo no estudo de grupos, pessoas, sociedades e arquiteturas ocidentais e modernas.

Me baseando então na ideia de arquitetura sensorial e arquitetura do poder, eu analisei os centros de detenção oficiais e clandestinos da ditadura civil-militar no Brasil a partir da perspectiva arqueológica e sensorial, tentando entendê-los enquanto mecanismos de poder estatal (ligados a Doutrina da Segurança Nacional e ao Terror ou Terrorismo de Estado) através da interpretação das experiências sensoriais vivenciadas pelos detentos nesses lugares. Foi por meio da abordagem sensorial que eu analisei como essa arquitetura ditatorial repressiva buscava disciplinar os corpos dos “subversivos”, “lindos” e “perigosos”, como Raul e Paulo Coelho colocaram na letra de Rockixe.

Só que, para entender os centros de detenção, é necessário primeiramente refletir sobre as principais características dessa materialidade arquitetônica tão específica na qual eles se enquadram: a arquitetura prisional, construída, adaptada e utilizada especificadamente, como Foucault (2002) coloca, para o castigo e para a punição estatal e legal.