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2.5 “A C ASA DA V IDA ”: O C EMITÉRIO J UDAICO DO R ECIFE

Estrutura do Trabalho

2.5 “A C ASA DA V IDA ”: O C EMITÉRIO J UDAICO DO R ECIFE

“Assim como Ele enterra aos mortos, tu enterrarás aos mortos”

Talmud

Bet Chaim é o termo hebraico mais comum185 para designar um cemitério. Significa “Casa da Vida” e é comumente citada como uma designação “eufemística” por autores especializados. Os cemitérios recebem, naturalmente, nomes próprios que os referenciem especificamente, mas este não foi o caso dos cemitérios das jovens comunidades de judeus portugueses, surgidas nos Países-Baixos, no final do século XVI, e nas Américas, ao longo do século XVII. Suas referências são simples e nominalmente ao Bet Chaim, talvez numa mostra da vivacidade com que procuravam ater-se da maneira mais detalhada possível às práticas que seus antepassados haviam sido proibidos de exercer e que precisavam ser piamente observadas para marcar sua identidade perante outros judeus, perante os não-

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DNJH 08/02/1641

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Bet Kvarot, “Casa de Tumbas”; Bet Olam, “Casa Eterna”; e Bet Avot, “Casa dos Pais” também são usados.

judeus e perante si mesmos, numa época em que o maior crime de consciência seria não ser religioso.

“Assim como há um modo judaico de viver, há um modo judaico de morrer”, sentencia o rabino Alfred J. Kolatch (2001, p. 53). E este modo envolve parâmetros tão específicos, que desde muito entendeu-se que é preciso um lugar judaico para enterrar-se. A instalação de um cemitério judaico é sem dúvida uma segregação almejada tanto pela parte do Estado onde a comunidade judaica localiza-se, quanto por esta. No caso neerlandês, evita-se o enterro de apóstatas num cemitério cristão. Por outro lado, os judeus podem – e precisam – desfrutar de um espaço onde o modo judaico de morrer possa se processar – de forma que, sem dúvida, a ausência de não-judeus é recomendável.

A necessidade de terra virgem, a existência de especificações a respeito da localização de tumbas de apóstatas, suicidas e coanim186, a própria especificidade das cerimônias funerárias, tudo isso concorre para que uma comunidade judaica busque um espaço para o enterro de seus mortos.

Na Holanda, em 1614, o cemitério Bet Chaim na localidade de Ouderkerk aan de Amstel, veio a ser, em 1614, o primeiro reconhecimento institucional do judaísmo nos Países Baixos. Antes disso o Estado recusou pedidos de concessão de estabelecimento de um cemitério, e os judeus eram obrigados a enterrar seus mortos em Groet, próximo a Alkmaar, 50 km distante de Amsterdam. Não obstante, a municipalidade de Amsterdam tinha plena consciência da prática judaica em casas particulares na cidade.

No Brasil o caso foi correlato. A imigração judaica – e o retorno de marranos aqui antes residentes – intensificou-se a partir de 1635, com a consolidação do domínio holandês. Até 1639, quando aparece a primeira referência ao cemitério judaico, já se faziam reuniões religiosas na casa do comerciante Duarte Saraiva, na rua dos Judeus, mas não havia ainda sinagoga. O cemitério foi também a primeira instituição reconhecida na Nova Holanda.

Naturalmente os judeus estariam impedidos de enterrar seus mortos nas Igrejas ou cemitérios cristãos, anexos às igrejas187

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O cemitério judaico do Recife foi

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Plural de Coen, o que significa ser de linhagem sacerdotal e implica em obrigações diferenciadas nos serviços religiosos.

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Durante o período holandês, cristãos no Recife eram enterrados na Igreja do Corpo Santo e seu cemitério, em Maurícia, no antigo Convento do Carmo ou na igreja Francesa e seus cemitérios.

estabelecido, em outro paralelo com o amsterdamer, de forma que o acesso a partir do Recife precisasse ser feito via fluvial – ou por um tortuoso caminho passando pelo istmo de Olinda e retornando no Varadouro. Uma gravura de Romeyn de Hooghe datada de 1680 188 mostra o sítio do cemitério em Ouderkerk, reproduzindo uma cena que deve ter sido bem parecida com os enterros e cortejos realizados no Recife. Observe-se a ausência de mulheres no cortejo, um assinalado costume sefaradi189. Neste cemitério está enterrado o famoso rabino da congregação recifence Zur Israel, Isaac Aboab da Fonseca.

A fundação do cemitério assinala também um primeiro marco de organização institucional judaica. Normalmente há uma Sociedade de Enterros – amplamente conhecida em nossos dias por Khevra Kadishah -, que nas comunidades espanholas e portuguesas são conhecidas como Khevrah Chesed Veemet “Sociedade de Caridade e Verdade”, responsável pelo trato dos defuntos de acordo com as leis judaicas. Há uma menção rápida à Sociedade no Recife, nos estatutos da congregação, conhecidos como Haskamot: é assinalada a eleição do Gabay de

Hebra (tesoureiro da sociedade de enterros). Os mesmos estatutos deixam bastante

explícita a necessidade de uma atenção especial para os ritos funerários, prevendo a eleição de um administrador do cemitério:

(...) e véspora de Sabath Hanukah ditos senhores do Mahamad farão eleição de Parnas e Gabay de Hebra, e Administrador de

Bethaym, (...) (WIZNITZER, 1953, p. 222) 190 [o grifo é meu]

Entretanto, não fica anotada, na seqüência do documento, nenhuma eleição para tal cargo. Possivelmente o pequeno número de óbitos fez com que a comunidade não agisse no sentido de eleger alguém para uma atividade tão específica. Até 1648, data das Haskamot, certos autores estimam apenas 16 óbitos

(MELLO, 1978, p. 114). Já o cemitério judaico foi instalado numa área continental, acessível apenas via fluvial (pelo menos até 1644, com a construção das pontes), o que também atendia uma especificação judaica de que o cemitério deve ficar pelo menos a 50m do perímetro urbano.

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Anexo 16

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Costume este originado de uma crença de que as mulheres num funeral atraem o Anjo da Morte.

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Sabath Hanukah é o sábado que precede a Festa das Luzes, Khanukah, que celebra uma vitória dos judeus contra os romanos, na Antiguidade. Hebra é a transliteração para Khevra feita pelos dos sefaradim neerlandeses do século XVII. É interessante observar como as eleições e o recolhimento da imposta sempre eram marcadas em festividades religiosas: articula-se desta forma a atividade político-finnceira com a prática religiosa. No caso da eleição para administrador do cemitério (assim como para Gabay de Hebra) não constam reuniões à véspera de Chanukah, como ficara indicado, para eleições. Daí o documento não nos fornecer informação a respeito da administração do cemitério.

judaicos no Brasil Neerlandês (WOLFF, 1991). Um estudo mais recente (RIBEMBOIM, 2005)ofereceu uma lista díspar daquela dos Wolff. Comparei as duas listas e investiguei os listados em outra obra (MELLO, 1996) e ofereço, no Quadro 9, uma nova listagem, constando de 20 judeus falecidos no Brasil neerlandês. É importante notar que isto não implica estarem todos enterrados no cemitério da comunidade, uma vez que alguns morreram longe do Recife, casos estes que foram assinalados no Quadro 9. Por outro lado, desconhecem-se os óbitos infantis, que poderiam ser muitos.

Quadro 9 – Óbitos judaicos no Brasil Neerlandês

Nome Ano de óbito e observações

Moisés Abendana 1642

David Sênior Coronel, aliás Duarte Saraiva

Provavelmente 1651 David Sênior Coronel, o moço Esposa falecida no Brasil Antônio da Costa Cortizes, aliás Isaac

Semah.

? Manuel Mendes de Crasto, aliás Manuel Nehemias

1638

Baltazar da Fonseca Antes de 1649

Benedictus Jacobs 1641, enterrado em Antônio Vaz (razão desconhecida)

Antônio Montesinos 1646-7

Salamã Musaphia 1651

Simon bar Mayer Palache 1652-3

Benjamin Pereira 1644 na Paraíba

Francisco Gomes Pina 1636

Vicente Rodrigues Vila Real 1642

Joana Soeira Antes ou em 1642

Salomão Valero Antes ou em 1642

Isaac Russon 1645-6 capturado por portugueses David Henriques 1648 capturado por portugueses em

Maria Farinha

David Barassar 1648 capturado por portugueses em Maria Farinha

Mosés Mendes 1645 capturado por portugueses Jacob Delian (Ilhão) 1649, 2ª Batalha dos Guararapes

Quadro elaborado a partir de: MELLO, 1996; RIBEMBOIM, 2005; e WOLFF, 1991.

O Estatuto da congregação não previa taxas para enterro, mas a não contribuição com as fintas anuais poderia implicar na proibição do uso do cemitério:

se com tudo não se emendar por espaço de outro mês antes continuar em seu erro que Deus o leve para si, qualquer pessoas de sua casa não será enterrada em Betahayim. (WIZNITZER, 1953, p. 223)

2.5.1 “DE JODEN BEGRAEF PLAETS” E “‘T JODEN KERKHOFF”: O CEMITÉRIO NA