Estrutura do Trabalho
1.3.1 “P ESSOAS VINDAS DA H OLANDA ” O C ASO DE O LINDA , R ECIFE E A NTÔNIO
1.4.3 A G EOGRAFIA M ORAL
Os prédios levantados, as linhas de cais definidas, enfim, o enrobustecimento urbano, foi uma magnífica expressão plástica do poder revolucionário do capitalismo em termos de transformações espaciais. A Companhia, como expressão desse capitalismo, produziu uma estrutura ampla, era dona dos terrenos, dona do público, governadora do público, e, por conseguinte, emanadora de certas regras sociais (HARVEY, 1993, p. 209). Os “particulares”, vrijeluiden, foram responsáveis por uma quase mítica produção de terreno, de luta contra a água, luta contra o afundar o pé na porosidade do areal, contra o descompasso, contra a erosão das estruturas físicas tão custosamente adquiridas. O empreendimento Nassoviano, trouxe o discurso barroco para a prática urbanística. Tudo isso fazia circular uma cultura urbana de produção espacial recorrente ao ideal de civilidade neerlandesa.
É preciso ter em mente aqui o que nos ensina Simon Schama, em seu “O Desconforto da Riqueza”, a respeito da geografia moral holandesa. Tratava-se de uma verdadeira noção de ação coletiva numa luta contra inundações e pela conquista de novas terras ao mar, ao mesmo tempo em que se formava a própria a própria autonomia política neerlandesa. “A guerra pela independência”, explica Schama, “ocorreu de modo simultâneo a uma fase particularmente feroz da luta contra o mar” (SCHAMA, 1992, p. 45). O patriotismo emergente daí teve, portanto dois antagonistas: o Império Espanhol e a Natureza.
A construção do espaço físico no Recife esteve evidentemente composta de semelhantes elementos: a luta com os súditos da Espanha e a luta contra a água diante da magnetização da população nos exíguos espaços próximos ao porto. É
difícil, não obstante, reconhecer este discurso mítico em documentação tão técnica quanto aquela produzida pelos administradores neerlandeses no Recife; escritos burocráticos com pouco espaço para enunciações de expressões culturais. Todavia a geografia moral implicava mesmo numa racionalidade técnica, trata-se de um mito técnico, celebrador da vitória humana sobre os perigos naturais – discurso típico da modernidade.
Mas os discursos de homens mais cultos e com propósitos mais eloqüentes trazem enunciados que evidenciam esta vivência: “mandamos aterrar os terrenos baixos e pantanosos, fazendo-os próprios à construção de casas, delimitando todo o terreno com ruas e canais” retira-se do Edital publicado por Nassau em 1641 (MELLO, 2001, p. 92-93). Barleus chega à enunciação: “Desde que começaram, porém, a senhorear o Brasil os holandeses, subjugadores das terras e das águas, aprouve escolher-se o Recife e a ilha de Antônio Vaz para sede do governo” [grifo nosso] (BARLEUS, 1974, p. 154).
Não que se pretenda que este mito e esta cultura fossem determinadores de uma relação íntima com o espaço, uma relação que redundasse numa identidade local. Sabemos o drama da condição colonial, da provisoriedade do projeto brasileiro na cabeça dos colonos; o enriquecer e voltar à Pátria que Emanoel Araújo (1997) tanto insiste ser o caráter da cultura urbana colonial como um todo. A própria extinção do Recife neerlandês permitiu basicamente que o episódio neerlandês se expressasse majoritariamente como um projeto de exploração rápida. Uma verdadeira incursão de saque, regida em diversos sentidos por uma lógica capitalista de acumulação rápida, produção material tecnicista e compressão espaço-tempo.
A política urbana do governo do Recife é facilmente reconhecível como tipicamente neerlandesa, basta observar as descrições feitas por Zumthor (1989, passim). Este padrão de civilidade expressava, por um lado, um know-how com terrenos alagadiços, planos e cercados de água, e por outro, um discurso asséptico, quase clínico, que coroava a vitória humana sobre a natureza.
Mas o resultado final desta operação cultural era a definição de um padrão de civilidade burguesa. A compreensão de burguês aqui diz respeito ao um processo cívico-jurídico, e não econômico-jurídico, como em Karl Marx. Para este autor, o burguês é o homem do grande empresariado ou o grande financista. Marx opõe ao conceito de burguês os artesãos e os camponeses, como uma “classe média inferior” (MARX, 1973, p. 306). Esta definição não pode ser aplicada aos Países
Baixos e ao conceito que aqui adotamos. Simon Schama afirma que “Em outros países da Europa, o termo abrange tão poucos tipos sociais que sua capacidade de definição pode ser muito grande. Nos Países Baixos, é tão abrangente que se torna inútil” (SCHAMA, 1992, p. 557), porquanto neste país a palavra “burguês” tinha um sentido de “cidadania”, ou seja, de inserção no mecanismo de direitos assegurados pela municipalidade, e, associado a isto, o sentimento de identidade com a causa nacional. 106
Até aqui referimo-nos a cidadão, burguês e civil, palavras que merecem melhores explicações. A palavra neerlandesa burger (burguês), tem, ainda hoje. o sentido de “cidadão”, indivíduo constituinte de uma comunidade cooperativa. Em neerlandês, “direitos civis” traduz-se por “burgerrechten”, e o civismo e patriotismo por “burgerzin”. Burguesia é “burgerij”, mas o sentido marxista da palavra é sublinhado no neerlandês contemporâneo como “burgerklasse” (BALTAZAR, 2002a). Falando dos termos, Schama explica que “Se traduzirmos “bourgeois” [francês, inglês] por “burgerlijk” [neerlandês], alteramos mais que a forma lingüística. “Protocapitalista” torna-se então “cívico”.
Portanto, na República das Províncias Unidas dos Países Baixos, no século XVII, a idéia cívica era estendida pelos regulamentos da cidade para todos os seus moradores, os burgueses, fossem pobres, das classes médias (artesãos, comerciantes de pequeno porte) ou ricos (os grandes proprietários, empresários e nobres). Para contrastar com o conceito marxista, alguns autores utilizaram, como tradução para o neerlandês “burger” e “burgerlijk”, as palavras inglesas “burgher” e “burghership” (SWETSCHINSKI, 2002, p. 71)
Esta concepção transparece também nos documentos neerlandeses do período aqui estudado. Por exemplo, um documento de 13 de maio de 1644 menciona em neerlandês: “De ouderlingen van de Joodse natie binnen staende verthoonen; dat het tegen hare wet ende religie strijt op Saterdach nevens de andere
Borgers de wacht waer te nemen”107, cuja tradução é “Os anciãos da nação judaica aqui estabelecida monstraram que é contra a sua lei e religião fazer a guarda ao lado dos outros burgueses no sábado”. Estes outros burgueses não eram os altos
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Em “História do Anti-semitismo”, Leon Poliakov (1979, p. 79) refere que a palavra “bürger” aparece em documentos de cidades alemãs do século XII. O historiador a traduz por cidadão, mencionando que o judeu que conseguia tal status, era “um homem livre, autorizado a portar armas, o que lhe dá o direito de se defender se é atacado, o dever também de defender sua cidade, em caso de necessidade, em conjunto com seus concidadãos cristãos.” (POLIAKOV, 1979, p. 79) [grifo nosso]
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funcionários da WIC e os grandes comerciantes, mas sim os diversos civis arregimentados em milícias urbanas oficiais, que constavam com hierarquia militar. No mesmo documento, menciona-se mais adiante o “Majeur van de Borgerie”, ou seja, o “major da burguesia”, isto é, da milícia burguesa, ou cidadã. A palavra também é usada, ao lado de “população” ou “povo”, pelos cronistas da época (cf. NIEUHOF, 1981, p. 366).