3 AS MULHERES NA ALERJ: DA TRAJETÓRIA À REPRESENTAÇÃO
3.1 A Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro
Para contextualizar essa pesquisa precisamos rever a constituição da ALERJ desde sua criação até os dias atuais. Para tanto, propomos revisar um pouco de sua história a partir de 1975 – período da fusão dos estados do Rio e da Guanabara e a criação da ALERJ.
A fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara foi sancionada pela Lei Complementar nº 20, encaminhada ao Congresso no dia 3 de junho de 1974 pelo presidente Ernesto Geisel. No dia 15 de março de 1975, com a posse do governador Floriano Faria Lima, nomeado pelo governo federal, os dois antigos estados passaram a compor uma única unidade federativa, o que implicou uma completa reorganização de suas estruturas administrativa, jurídica, econômica e política. Desta forma, o novo estado passou a ter como capital a cidade do Rio de Janeiro. Com a instalação efetiva do novo Estado criou-se também a ALERJ – Assembléia Legislativa de Rio de Janeiro – que passou a funcionar no Palácio Tiradentes. Neste momento a ALERJ abrigava os/as 94 deputados e deputadas, eleitos/as em novembro de 197441 (ainda pelas duas antigas Unidades Federativas). Estes/as 94 parlamentares foram responsáveis pela elaboração da Constituição (1975) do novo Estado – diga-se ainda muito marcada pelos "anos de chumbo" que influenciaram a elaboração da Carta de 197542. Entre
40
Scott, Joan W, 2002, p.117. A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem. 41
Com a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara os /as deputados/as das duas casas legislativas foram abrigados/as na ALERJ.
42
Embora o MDB fosse a maioria esmagadora na ALERJ, 63deputados/as do MDB e 31 da ARENA, a supremacia Chaguista se impõe dentro do MDB. Dos/as 63 deputados/as eleitos/as, 38 pertenciam à corrente de Chagas Freitas. “Chagas Freitas, governador da Guanabara, representava oposição consentida aos militares do
poder central. Era o único governador (da Guanabara) que não pertencia à ARENA e, para o regime militar, servia como exemplo de que no Brasil a oposição também podia chegar ao poder. Chagas, segundo seus inimigos políticos, não passava de um aliado dos generais” (REZENDE, 1992).
eles/as estavam as deputadas Hilza Maurício da Fonseca do MDB43 (Movimento Democrático Brasileiro), Maria Rosa Silva Almeida (MDB), Sandra Martins Cavalcanti De Albuquerque (Aliança Renovadora Nacional – ARENA44) e Sandra Raggio Salim do MDB.
Estas deputadas integraram a Comissão Constitucional45, responsável pela elaboração da Carta Constituinte do Estado do Rio de Janeiro. O processo de elaboração da
43
O MDB era um partido formado por pessoas de diferentes orientações ideológicas, entre as quais pessoas que se opunham ao Regime Militar instituido no Brasil a partir de 1964
44
O partido da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) foi fundado em quatro de abril de 1966, com o objetivo de dar sustentação política ao governo militar instituído a partir do Golpe Militar de 1964.
45
Ademais, compunham esta Comissão os/as deputado/as membros da Mesa Diretora: José Pinto/MDB (presidente), Jayme Campos/ MDB (1º vice-presidente), Jorge Lima/ARENA (2º vice-presidente), Átila Nunes/ MDB (3º vice-presidente), Márcio Macedo/MDB (1º secretário), Wilmar Palis/ARENA (2º secretário), Jorge Leite/MDB (3º secretário), Silvério do Espírito Santo/MDB (4º secretário), Jorge David /ARENA (5º secretário), Sebastião Menezes/MDB (1º suplente), Hélio de Azevedo Gomes/MDB (2º suplente), Fidélis Amaral/ARENA (3º suplente); Comissão Especial de Normas Internas: Paulo Duque/MDB (presidente), Osires de Paiva/MDB (1º vice-presidente), Francisco Da Gama Lima/ARENA (2º vice-presidente), Amadeu Chácar/MDB (relator geral), Lázaro de Carvalho/MDB (relator adjunto), Hilza Mauricio da Fonseca/MDB (membro), Nadyr de Oliveira/MDB (membro), Geraldo André/ARENA (membro), Feliciano costa/ARENA (membro), Gil Marques/MDB (suplente), Juvêncio Sant’Anna/MDB (suplente), Henrique Pessanha/MDB (suplente), Aloysio Teixeira/MDB (suplente), Edésio Frias/MDB (suplente), Luiz Carlos Cruz/MDB (suplente); Comissão Especial
de Redação: Gilberto Rodriguez/MDB (presidente), Paulo Pfeil/ARENA (vice-presidente), Paulo Duque/MDB
(Relator/autor do Regimento Interno da Assembléia Constituinte), Alberto Torres/ARENA (membro), Dilson Alvarenga/MDB (membro), Flores da Cunha/MDB (membro), Francisco Lomelino/MDB (membro), Lázaro de Carvalho/MDB (membro), Silvio Lessa/MDB (membro); Comissão Constitucional: Frederico Trotta/MDB (presidente), Frota Aguiar/MDB (vice-presidente), Saramago Pinheiro/ARENA (vice-presidente), Alberto Dauaire/MDB (membro), Alberto torres/ARENA (membro), Aluísio Gama/MDB (membro), Alves de Brito/MDB (membro), Amadeu Chácar/MDB (membro), Antônio Gomes/MDB (membro), Délio dos Santos/MDB (membro), Dilson Alvarenga/MDB (membro), Edson Khair/MDB (membro), Emmanuel Cruz/MDB (membro), Fernando Leandro/ MDB (membro), Flores da Cunha/MDB (membro), Francisco Amaral/MDB (membro), Frederico Padilha/ARENA (membro), Francisco da Gama Lima/ARENA (membro), Geraldo Araújo/MDB (membro), Geraldo Di Biase/MDB (membro), Gil Marques/MDB (membro), Henrique Pesanha/MDB (membro), Ítalo Bruno/ARENA (membro), Jair Costa/MDB (membro), Joaquim Jóia/MDB (membro), Joel Vivas/MDB (membro), José Vaz/ARENA (membro), Júlio Louzada/ARENA (membro), Juvêncio Sant1Anna/MDB (membro), Marcelo Drable/MDB (membro), Maria Rosa/MDB (membro), Maurício Pinkusfeld/ARENA (membro), Nestor Nascimento/MDB (membro), Odair Gama/ARENA (membro), Otime dos Santos/MDB (membro), Paulo Albernaz/MDB (membro), Paulo Pfeil/ARENA (membro), Pedro Ferreira da Silva/MDB (membro), Rubens Ferraz/MDB (membro), Ruy Queiroz/ARENA (membro), Salomão Filho/MDB (membro), Sandra Salim/MDB (membro), Silvio Lessa/MDB (membro), Victorino James/ARENA (membro), Waldir Costa/MDB, Darcy Rangel/MDB (suplente), Paschoal Cittadino/MDB (suplente), Osires Paiva/MDB (suplente), Silbert Sobrinho/MDB (suplente), Mário Saldini/MDB (suplente), Lázaro de Carvalho/MDB (suplente), Fernando Leandro/MDB (suplente), Heitor Furtado/ARENA (suplente), José Miguel/ARENA (suplente), Paulo Nascimento/ARENA (suplente), Josias Ávila/ARENA (suplente), Flavio Palmier da Veiga/ARENA (suplente), Geraldo André/ARENA (suplente), Feliciano Costa/ARENA (suplente), Waldílio Vilas Boas/ARENA (suplente), Antônio Alexandre/ARENA (suplente); Lideranças do MDB: José Maria Duarte (líder da maioria), Cláudio Moacir (líder da bancada), Pedro Fernandes (vice-líder da maioria), Sérgio maranhão (vice- líder da maioria), Elcy de Carvalho (vice líder da maioria), Edésio Frias (vice líder da maioria), Luiz Carlos Cruz (vice líder da maioria), Aloysio Maria Teixeira (vice líder da maioria), Lázaro de Carvalho (vice-líder da bancada), Alves de Brito (vice-líder da bancada), Fernando Leandro (vice-líder da bancada), Silvio Lesa (vice-líder da bancada), Jorge Bedran (vice-líder da bancada), Marcelo Drable (vice-líder da bancada);
Lideranças da ARENA: Sandra Cavalcanti (líder da minoria), Luiz Fernando Linhares (líder da Bancada),
Edson Guimarães (vice-líder da minoria), Sant’Anna Filho (vice-líder da minoria), Paulo Pfeil (vice-líder da minoria), Flávio Palmier da Veiga (vice-líder da bancada), Josias Ávila (vice-líder da bancada), Paulo Nascimento (vice-líder da bancada). Ver em Rezende (1992).
Constituição do novo Estado do Rio de Janeiro teve início em 15 de março de 1975 e foi promulgada em sessão solene realizada no dia 23 de julho de 1975. O militar (almirante) Floriano Peixoto Faria Lima foi indicado por Geisel, em julho de 1974, (sendo empossado em 15 de março de 1975) para assumir o governo do Estado do Rio de Janeiro, quando da fusão deste com o Estado da Guanabara. Filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) manteve-se no cargo até 15 de março de 1979.
De 1975 para cá algumas coisas mudaram na ALERJ. Embora a passos curtos, outras mulheres começaram a figurar neste espaço e, sua presença ali, foi transformando, aos poucos, tanto a geografia quanto as pautas de discussão e a postura de homens e mulheres diante dos problemas apresentados. Questões como criar um banheiro feminino, uma sala para amamentação, associativismos entre as mulheres das diversas tendências partidárias e mesmo dos homens vão se desenhando neste espaço que, antes, era incapaz de imaginar tais coisas. Se essas mudanças ainda são diminutas, não se pode negar a importância e impactos que elas vão fazer surtir para além das paredes da Assembléia Legislativa.
A partir da fusão até os dias atuais são registrados quinhentos e treze (513) mandatos masculinos e setenta (70) mandatos femininos - o que caracteriza um percentual de 12,2% do total de mandatos. Nestes setenta mandatos, 37 mulheres ocuparam cadeira parlamentar na ALERJ. Estas mulheres, diversas entre si, de origem social diferentes, com trajetórias políticas diferentes e orientação políticas diferentes, vão deixando suas marcas, seja por estarem representando um grupo social sub-representado quantitativamente, seja por irem para além da representação de gênero e marcarem posição no plano das idéias.
Como espaço político, que como tal se insere num campo de poder, a ALERJ vem sendo historicamente ambientada por homens, herdeiros pretenciosamente natos deste espaço privilegiado. Pensar a partilha desta arena com mulheres é, no mínimo, imaginar situações inusitadas.
Madalena Guilhon, uma das assessoras da ex-deputada Lúcia Arruda, lembra, durante a entrevista que nos concedeu, que quando Lúcia Arruda assumiu o mandato parlamentar na ALERJ, sequer havia um banheiro feminino. O que comprova que, embora já tivessem passado por lá outras mulheres, a estrutura geográfica da Casa não foi alterada. Esta permanência reflete também na inalteração das relações de poder contidas ali.
Outro exemplo, também na fala de Madalena Guilhon, é do gracejo dos deputados com relação às intervenções de caráter feminista da então deputada Lúcia Arruda. Segundo Madalena Guilhon esta postura custou-lhe piadinhas dos deputados mais conservadores que diziam: “É, essa coisa de feminismo, de vocês mulheres, coisa de sapatão...”
No campo da organização mais burocrática a ALERJ possui comissões que devem discutir e votar projetos de lei que dispensarem, na forma do Regimento, a deliberação do Plenário (salvo recurso de um décimo dos membros da Assembléia Legislativa), realizar audiências públicas representativas da sociedade civil e convocar obrigatoriamente o “Fórum
Permanente de Participação Popular no Processo Legislativo” (para as reuniões que tenham
por objetivo a apreciação de processo legislativo de sua iniciativa ou que haja sido distribuído), convocar Secretário de Estado ou Procurador-Geral para prestar informações sobre assuntos inerentes a atribuições de sua pasta, receber petições, reclamações, representações ou queixas contra atos ou omissões das autoridades ou entidades públicas, solicitar depoimento de qualquer autoridade ou cidadão, apreciar programas de obras, planos estaduais, regionais e setoriais de desenvolvimento, e sobre eles emitir parecer, converter, se considerar necessário, em diligência qualquer proposição, para comprovação ou juntada de requisitos legais46.
As Comissões Permanentes que compõe a ALERJ atualmente são as seguintes: Comissão de Constituição e Justiça, Comissão de Orçamento, Finanças, Fiscalização Financeira e Controle, Comissão de Normas Internas e Proposições Externas, Comissão de Emendas Constitucionais e Vetos, Comissão de Legislação Constitucional Complementar e Códigos, Comissão de Indicações Legislativas, Comissão de Educação, Comissão de Saúde, Comissão de Trabalho, Legislação Social e Seguridade Social, Comissão de Agricultura, Pecuária e Políticas Rural, Agrária e Pesqueira, Comissão de Transportes, Comissão de Economia, Indústria e Comércio, com cinco membros; Comissão de Obras Públicas, Comissão de Prevenção ao Uso de Drogas e Dependentes Químicos em Geral; Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia; Comissão de Ciência e Tecnologia; Comissão de Servidores Públicos; Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania; Comissão de Assuntos Municipais e de Desenvolvimento Regional; Comissão de Defesa do Meio Ambiente; Comissão de Defesa do Consumidor; Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher; Comissão de Assuntos da Criança, do Adolescente e do Idoso; Comissão de Minas e Energia;
46
Comissão de Política Urbana, Habitação e Assuntos Fundiários; Comissão de Redação; Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional, Comissão de Esporte e Lazer, Comissão de Turismo; Comissão de Segurança Alimentar; Comissão de Saneamento Ambiental; Comissão de Defesa da PPD - Pessoa Portadora de Deficiência; Comissão de Tributação, Controle da Arrecadação Estadual e de Fiscalização dos Tributos Estaduais; Comissão de Cultura, com 05 membros; Comissão de Defesa Civil; Comissão para Prevenir e Combater a Pirataria no Estado do Rio de Janeiro.
Destas comissões as mulheres participam, majoritariamente, das comissões voltadas à proteção social, inclusive das mulheres, o que já vem sendo revelado por literaturas sobre o tema (PINTO, 2000; MIGUEL, 2001). Entretanto, não consideramos este fator como algo negativo nos mandatos femininos, ao contrário, a urgência em se tratar questões como os direitos reprodutivos, a saúde, uma política de creches, são demandas históricas do movimento de mulheres, e são, sem dúvida, uma luta encampada por muitas mulheres que assumem mandato no parlamento estadual.
O capítulo que segue propõe-se a descrever, na forma de verbetes (ordenado pela ordem alfabética dos nomes das deputadas), a biografia pessoal e política de cada deputada que cumpriu mandato na ALERJ a partir de 1975. Optamos em enunciar os verbetes pelo prenome das deputadas como mais um exercício de caracterizarmos essas mulheres por elas mesmas e não pelo nome do pai ou marido como tem sido feito corriqueiramente ao longo da história. Desta forma, o primeiro capítulo da dissertação traz um pouco da biografia das mulheres que elegeram-se deputadas estaduais.