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A ASSEMBLEIA DOS BICHOS

No documento Vida sob as agruras da seca (páginas 121-147)

Helvécio de Freitas Taubaté (SP)

M

eus antepassados diziam que há muito tempo o cerrado era de todos e ninguém era dono do cerrado. Foi assim até o dia em que algum humano estaqueou suas fronteiras e decretou: “até onde a vista alcança me pertence”. O resultado é que eu já nasci com dono e que ele pode fazer comigo o que bem entender.

Não quero parecer pessimista. Aliás, faço de tudo para que não me interpretem de maneira pessimista. Dizem que a gente atrai o que a gente pensa, por este motivo ando me esforçando tanto para não atrair pensamentos negativos. Considero-me realista. Mas esta atitude diante dos amigos que parecem sonhar com algo que possivelmente não verão acontecer me faz parecer, além de pessimista, alguém negativo demais. Agora mais esta: sou temida, pessimista e negativa.

Antes parecia mais simples. Matar, comer e depois ir embora sempre foi naturalmente compreensível e nunca ninguém protestou quanto a isso. Hoje, vendo-os se reunirem com certa frequência a cada novo incidente – e não são poucos –, preocupados com o futuro e a preservação da espécie, ficam ali tão próximos, mas tão próximos de mim que até me fazem perder a fome.

– Até onde eles querem chegar? – perguntou o tamanduá- bandeira – Isto aqui não é lugar para humanos.

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– Quem vai dizer isso a eles? – quis saber o cervo. – E nós? – perguntou o tatu-canastra.

– O que tem nós? – retrucou de imediato a capivara.

Como se vê os animais só tem dúvidas quanto ao destino de todos. Nenhuma certeza, nenhuma esperança, apenas questionamentos.

As nossas assembleias estão acima das necessidades vitais de cada um, por isso, presa e predador convivem naqueles momentos como se fossem parentes próximos que não se veem há muito tempo. Ninguém teme ninguém. Dá até para adaptar aqueles versos à nossa realidade: “a onça-pintada conviverá com a anta, a capivara, bem como a suçuarana e o novilho se alimentarão juntos pelo campo”. Só falta uma criança para nos guiar. Até mesmo as serpentes mais temidas brincam como crianças com os filhotes das outras espécies e nenhum animal tem receio de qualquer outro animal. Só os jacarés não aparecem nas assembleias e nem mandam representante por não confiarem de jeito nenhum nas onças, mesmo reconhecendo que numa assembleia o território é neutro.

E por falar em onça pintada, das que por aqui transitavam, algumas foram embora e não deixaram nem endereço; outras preferiram viver no limite da autodestruição ao preferirem se alimentar dos novilhos das fazendas de gado que adentram o cerrado. Viviam no fio da navalha, no limiar de pessoas que entendem e atuam por um equilíbrio nos reinos mineral, vegetal, animal e humano e outros que ignoram completamente esta necessidade e matam e esfolam as onças que atacam o gado de seus patrões. Da mesma forma os herbívoros, que na ilusão de terem comida farta e fácil, se tornam guisado junto com os legumes e verduras que tentaram comer.

Venho percebendo a cada assembleia que o número de animais que dela participam está diminuindo (como posso dizer?) de forma aritmeticamente progressiva. Ou muitos não querem participar por serem como eu que prefiro viver um dia após o outro, ou se foram embora do cerrado ou simplesmente desapareceram de forma natural (quase impossível no tempo atual) ou mesmo indiscriminada. Ou pode ser tudo isto junto, vai saber. O único fato concreto era o renitente tema da assembleia que antecede o período das chuvas.

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– Temos que fazer algo pelo cerrado – afirmou categoricamente o lobo-guará.

Coitado! Logo ele, o lobo-guará, o solitário, o caladão. Tem razão de manter o seu aparente desespero já que parece figurar no topo da lista dos animais em extinção no cerrado.

Uma vez fui tentar a sorte como as pintadas e encurralei um bezerro gordo. Quando me preparava para saltar sobre ele escutei um estampido e senti parte de minha anca queimando com a dor do fogo. Olhei e vi meu sangue escorrendo como nunca antes tinha visto e só tive tempo de saltar sobre a cerca e correr, correr, correr até cair desmaiada e acordar numa jaula praticamente recuperada daquele ferimento.

Aquelas pessoas vestidas de branco que me tratavam como seu fosse um deles olhavam por algo que chamam de televisor, de onde também pude ver outras espécies de animais vivendo como reis numa reserva, sendo atendidos em locais infinitamente mais sofisticados do que aquele onde me encontrava. Acho que tive uma ilusão: animal vivendo melhor do que gente, comendo melhor que elas e sem precisarem caçar. Animais feridos que normalmente seriam deixados à sua própria sorte eram recuperados. Esta minha cicatriz, hoje, serve para lembrar-me de duas coisas: primeiro, que alguns poucos humanos podem fazer a diferença para nós; segundo, que eu não posso cometer o mesmo erro se algum dia precisar tentar a sorte outra vez. Ademais, não posso reclamar da minha sorte porque também fui solta pelos homens de branco e aqui estou, nesta assembleia, ouvindo os mesmos discursos pela sobrevivência que depende da tal sustentabilidade, substantivo que até os animais agora fazem uso. De minha parte, acho muito simples entender este conceito: somos todos um, feitos a partir da mesma molécula atômica, com certos caracteres que nos distinguem, que se dependem uns dos outros para que todos possam ser salvos. E nesta cadeia estão também os humanos. Sei lá, é assim que eu vejo.

Ah, esses discursos intermináveis! A prova está aqui, bem na minha frente. O macaco-prego, o gambá, a ariranha e a preá que não cessam de falar um minuto sequer. Não sei como conseguem. Minha língua fica seca só de ouvi-los defendendo suas teorias, cada qual querendo estar mais certo que o outro. Por sorte nenhum papagaio apareceu desta vez. Sei que isto é preocupante porque

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pode ser um mau sinal, mas que um papagaio supera todos os outros animais juntos em matéria de falar, isto é um fato; além de não falarem coisa com coisa. E isto também é um fato.

Ninguém me dirige a palavra ou solicita a minha opinião porque me consideram “realista” demais. Por isso fico aqui, quieta, deitada à sombra do indaiá, tendo por único incomodo os filhotes da preá que me usam de escorregador e ficam deslizando pelo meu pelo, da cabeça até a cauda. Filhotes!

– O que temos de fatos? – perguntou o cachorro-vinagre. – O único fato é que verdadeiramente o humano parece não conseguir evoluir sem destruir – respondeu o cervo.

– Me deram uma estimativa de existência num período não maior que cem anos – emendou o lobo-guará.

– Você não viverá até lá para ver sua própria extinção – disse o macaco-prego em tom de troça, que não funcionou como ele previu, e todos o olharam com reprovação – Foi só uma brincadeira, gente. Eu quis dizer que o lobo-guará gozará de plena saúde até o fim dos seus dias e... Ah, deixa pra lá, foi de mau gosto mesmo, me desculpem.

Para mim, o fato é um só: se nós, animais do cerrado, nos reunimos em assembleia para discutir acerca do nosso futuro no planeta, os humanos também estão fazendo o mesmo. Discutem, discutem, discutem e continuam extinguindo a tudo e a todos. A diferença é que entre os humanos o extermínio é outra realidade porque eles matam também os da mesma espécie, portanto, os de outra espécie, para eles pouco importa. E como a eles foi dado o domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra, eles que assumam a inteira a responsabilidade pelo que estão fazendo.

– Acho que por hoje chega. Já podemos ir pra casa? – perguntou a anta.

– O censo já está pronto? Gritou a preá.

– Tá na mão – respondeu o tatu-canastra enquanto caminhava para o centro da assembleia, entre os animais, com a prancheta erguida sobre suas cabeças – Tá aqui, prontinho.

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– Com exceção das preás, todos os outros animais do cerrado sofreram acentuada queda na sua população.

A preá cerrou os olhinhos e levou as mãozinhas fechadas para a cintura para refletir naquelas palavras do tatu-canastra buscando entender o que ele quis dizer com “com exceção das preás”.

– E o nosso espaço?

– Estamos com menos de cinquenta por cento do tamanho original do cerrado.

É isso aí: população de animais do cerrado diminuindo, o próprio cerrado diminuindo, e esta assembleia que só serviu para confirmar o que já sabíamos. Agora a preá vai encerrar a assembleia, vai convocar a todos para a próxima quando encerrar a estação das chuvas e blá, blá, blá, blá, blá. Mas... o que é isso? Por que esse baixinho de mãozinhas na cintura está me encarando deste jeito?

– E você, suçuarana, vai entrar muda e sair calada?

– Mesmo que eu tivesse algo inteligente para dizer, não creio que somente palavras consigam reverter alguma coisa.

– Você está propondo fazermos uma guerra contra os humanos?

– Não, em guerra nós já estamos... E estamos perdendo. Entre numa sala de aula e peça para as crianças fazerem uma lista dos dez animais que elas mais gostam e duvido que apareça um único animal do cerrado! Vão figurar apenas os animais que aparecem naquilo que os humanos chamam de televisor. Nós nunca existimos para eles. Então, se se apaga o que nunca existiu, que diferença vai fazer?

E a suçuarana, usando as suas garras como pinça, ergueu a preá que ainda a encarava feio e de mãozinhas na cintura, pelo rabinho, e olhou para ela com aquele olhar aterrorizador de suçuarana acuada e com um sorrisão malévolo de orelha a orelha. Os outros animais silenciaram diante daquele ato inesperado da suçuarana. Até as serpentes contiveram a respiração.

– Quer, por favor, pedir aos seus filhos para saírem das minhas costas? – disse a suçuarana.

Sem perder a compostura, a preá deu um assobio fininho entre os dentes e sinalizou para os seus filhos descerem, ao que

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eles obedeceram meio a contragosto. E a suçuarana colocou a preá de volta no chão, ergueu-se pesadamente e seguiu o seu caminho a passos lentos. Despediu-se de todos e disse que voltaria para a próxima assembleia, exceto por um motivo de força maior, afinal, uma assembleia no cerrado é uma assembleia de animais com intenções nobres que se encontram para defenderem os seus interesses e os da coletividade.

– Deve ter sido bom viver naquele tempo em que o cerrado era de todos e ninguém era dono do cerrado – disse a suçuarana para que todos a ouvissem –. Tempo com o qual sequer podemos sonhar porque não sabemos como foi. Os humanos ainda podem fazer alguma coisa, mas para nós, os animais, resta apenas contar com a benevolência do destino. E que ele seja justo com todos.

E a preá deu por encerrada mais esta assembleia e todos seguiram seus rumos para se prepararem para mais uma temporada de chuva, se ela vier no tempo certo, claro.

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O CERRADO DO FUTURO

Igor de Carvalho Vecchi Paraíba do Sul (RJ)

J

oaquim e seu avô cruzavam as areias finas típicas do Cerrado há algumas horas em seus camelos. Saíram do vilarejo de Costa Rica pela manhã em um dia nublado, uma raridade interpretada pelo Vô como um sinal de boa viagem. Em qualquer direção que se olhasse via-se infinitas dunas, quilômetros de areia a perder de vista. Ambos usavam túnicas e cafias para protegerem-se do forte Sol de fevereiro e carregavam alguns pacotes de comida e cantis amarrados aos camelos. Quem os olhasse com olhos do século XXI diria que se tratavam de dois beduínos árabes.

– Conta a história do Pequi? – O menino rompeu o silêncio árido daquela imensidão desértica.

– Conto sim, meu neto. Há muito tempo o Pequi era uma árvore que não dava fruto e nem flores. Nesse tempo uma mulher grávida morreu sob a sombra do Pequi, pois ela não bebia e nem comia há muito tempo porque estava fugindo. Então o corpo dela foi se decompondo e alimentando o Pequi, era como se os dois se juntassem. Depois disso o Pequi passou a dar flores amarelas muito bonitas e um fruto delicioso.

– Mas ela estava fugindo de quem?

– Eu não sei, meu neto. Meu bisavô contou essa história pra mim e eu acabei me esquecendo de algumas coisas. Por isso eu quero que você estude, pra escrever as histórias que a gente sabe,

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porque elas vão se perdendo... E se você estudar bastante talvez até consiga trazer a água de volta.

O avô admirava a curiosidade do menino. Há algum tempo vinha conversando com sua filha e os dois acharam melhor mandá- lo para um vilarejo em Perolândia, onde tinha uma escola e o mais importante: três nascentes.

– E como era um tamanduá? – O menino adorava ouvir sobre os animais que antes caminhavam, nadavam e voavam pelo Cerrado. Sentia saudades de seres que ele nunca viu.

– Parece com um cachorro, só que mais comprido. – Respondeu o avô – Tinha um bicão e uma língua grande pra comer cupim. E tinha uns unhão e um rabo que parecia um espanador.

Joaquim riu consigo mesmo imaginando esse animal esquisito. E o avô continuava:

– Quando eu era pequeno eu vi um tamanduá perto de um rio.

– Que rio?

– Tem um riacho um pouco perto da gente, o Araguaia. – O avô pegou sua velha bússola e a olhou por um instante – Se a gente continuar por aqui – Apontou para o norte – A gente chega em menos de dois dias.

– Vamos um dia lá, vô? Eu quero nadar no rio.

– A água é muito suja, meu neto. Não dá Surubim-chicote, nem Piraíba. Os passarinhos não bebem lá. Não dá sapo, nada. Os rios tão tudo doentes.

Os dois prosseguiram em seus camelos por alguns minutos em silêncio. Subiram uma duna um pouco mais alta do que as outras e o avô pediu que o menino parasse.

– Olha, Joaquim, olha isso tudo – E fez um gesto com o braço mostrando a grande imensidão arenosa à frente dos dois – Dá pra acreditar que tudo isso um dia foi plantação? Tinha muita plantação antigamente, e tinha muita árvore que dava muita fruta gostosa. Os passarinhos vinham comer e as pessoas também. Meu avô dizia que botavam fogo, mas que o fogo era bom pra renovar a terra... mas fogo demais também faz mal. Se não tiver planta, não tem água, meu neto.

E ambos continuaram admirando aquela imensidão estéril por alguns segundos. O avô passou ao lado do neto e este pensou

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ter visto uma lágrima no olho do velho habitante do Cerrado, mas pensou ter imaginado. O avô sempre dizia que gente grande não chora porque é desperdício de água.

Seguiram em silêncio por cerca de dez minutos até pararem pra abastecer os cantis em um pequeno poço sombreado por algumas palmeiras. Havia também um velho e amplo bebedouro junto ao poço. O avô amarrou os camelos e deu-lhes água enquanto o menino retirou de suas trouxas a carne seca embalada pela mãe, e foi estender um lençol à sombra das palmeiras. Quando puxou o primeiro balde enferrujado do fundo do poço, o avô percebeu como a água estava ficando cada vez mais baixa ao longo dos anos, e à medida que retirava mais água, conjecturou que em breve aquele poço não serviria mais. O avô então sentou-se perto do menino para partilharem a refeição.

– Conta sobre o lobo-guará, vô. – Disse ele enquanto pegava mais um pedaço de carne de cabra.

– O lobo-guará era parecido com um cachorro, mas só que maior. Tem um pelo meio laranja, meio marrom. Tem as orelhas mais pontudas que o cachorro. Tem umas machas pretas na perna e nas costas também. Era um bicho muito bonito.

– E eles mordiam? – Perguntou o menino enquanto pegava o último pedaço de carne

– Aí eu não sei. Meu pai me mostrou uma vez a figura em um livro velho, mas ele não sabia muita coisa sobre o lobo-guará também não. Agora vamos seguindo viagem porque ainda falta um bocado.

Juntaram as coisas, montaram em seus camelos e prosseguiram viagem. O menino achava as viagens muito cansativas, mas achava que conversar ajudava a passar o tempo.

– Noite passada eu sonhei que eu tava comendo Pequi, vô. Juro que até sentindo o gosto na boca.

– E que gosto tem?

– Tem gosto de... parece com as frutas da palma. – Devem parecer mesmo.

O avô queria confessar que às vezes, quando mais novo, também sentia o gosto do Pequi em seus sonhos. Ele sentia o cheiro da Gabiroba e poderia jurar ser real o canto de um Bem-te- vi nos seus sonhos apesar de nunca ter ouvido um. Assim como

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todas essas riquezas desapareceram ao longo dos anos, também desapareceram seus sonhos.

Durante o resto da viagem o avô ainda contou sobre as emas, as ariranhas, as jaguatiricas, os bugios, seriemas e os ouriços. Contou sobre as maravilhosas árvores que um dia abundaram naquela terra: cagaitas, ipês, buritis, araçás, jatobás e quaresmeiras.

Após cruzarem uma última duna viram adiante um dos oásis de Perolândia, uma joia no meio do Cerrado. Um mutum-de- penacho passou voando e pousou em uma palmeira mais adiante e ambos se maravilharam pois não viam um pássaro há meses. O avô não compartilhou os pensamentos que cruzou furtivo como um Tucunaré em sua mente: até quando pequenos milagres como aquele ainda ocorreriam? Que histórias seu neto poderia contar um dia?

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A ORIGEM DO BÁLSAMO

João Wilson Savino Carvalho Macapá (AP)

O

tema daquela aula de psicologia era a inteligência humana, mas nem parecia, de tão tediosa que corria:

– Então, vejam... Se estimularmos o córtex visual de um sujeito com algumas figuras e medirmos a atividade cerebral, observamos que resultam estimuladas determinadas zonas do cérebro... E se mandamos que o sujeito feche os olhos e imagine o que viu, observamos que as mesmas zonas do cérebro aparecem com o mesmo nível de atividade cerebral... Sabem o que significa isso? Sabem? O professor agora se dirigia diretamente à turma, querendo transformar a aula em um mínimo de diálogo.

Contudo, a Zildinha parecia absorta, perdida em seus pensamentos, em seu lugar de sempre, lá na frente, junto à porta. Era um péssimo exemplo e o professor não podia deixar de ser irritar com tanto descaso:

– Zilda... Para você, o que é a imaginação, em relação à inteligência?

– Hein! O que? A imaginação? Bom... Ah!... Sim!... Deixe- me ver... A imaginação... O senhor conhece a história do bálsamo de Benet? Não? Pois é... Todo mundo pensa que o nome daquele bálsamo antigo, que vende naquele potinho verde, tem origem na península de Benet, que fica bem perto do golfo de Benet, por causa da ocorrência de uma planta da ordem das benelídeas e família da beneáceas, de cujas folhas se extrai um princípio ativo

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que, misturado com cânfora, mentol e arnica, dá um excelente bálsamo para baques, torções e outras coisitas mais... Muito bom!

– Sim, Zilda, e o que isso tem a ver com a pergunta? O professor começava a ficar impaciente...

– Calma, estou chegando lá... É que o senhor estava relacionando a imaginação com o sistema nervoso, e eu acho que não é bem por aí...

A Zilda era famosa por isso, pela sua fantástica criatividade. Contavam até que ela já havia conseguido um dez em uma prova de psicopatologia sem ter estudado nada, usando o mesmo sistema. Se a questão era: fale sobre a sintomatologia da psicose maníaco- depressiva, a Zilda simplesmente imaginava um doido bem doidão mesmo, e aí descrevia seus sintomas. Parecia mesmo mais uma das dela... Mas a verdade é que a turma, de repente, começou a ficar interessada na aula, e o professor não pode deixar de notar.

– Sim, Zilda, a origem do tal bálsamo, que eu nunca ouvi falar...

– Pois então, esse aí. Era muito usado nessa região da Indochina, um lugar muito remoto, onde fica situado o vale de Benet, que, aliás, não poderia ter outro nome, já que o vale só existe por conta do rio Benet, que nasce no planalto de Benet, corta toda a planície de Benet e vai desaguar em delta nessa região, enfim, uma região ótima para cultivo de plantas medicinais, como

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