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Um financiador de campanhas que busca assegurar acesso aos detentores do poder político por meio de suas doações tem uma meta relativamente simples e direta: ele deve bancar de maneira significativa a campanha do(s) vencedor(es). Ser reconhecido pelo mandatário como um agente que foi importante para assegurar a vitória, por meio da doação de recursos para a campanha, é, certamente, o objetivo fundamental do financiador “precavido”.

Apesar dessa ideia ser bastante clara, dela não decorre apenas a atitude básica, já analisada, de dispersar as doações entre diferentes campanhas no mesmo distrito. Como os recursos são finitos mesmo quando se trata dos líderes de setores imensamente rentáveis no Brasil, como o de construção civil e o financeiro, é preciso fazer escolhas. O financiador em busca de acesso, portanto, deve não apenas dispersar as suas doações entre as diferentes campanhas, mas também, paralelamente, direcioná-las, tanto quanto possível, a candidatos que venham a se sagrar vencedores72.

Em outras palavras, os financiadores que buscam acesso traçam uma estratégia que se equilibra entre dois extremos: a precaução e a assertividade. Eles não podem simplesmente dividir rigorosamente os recursos entre todas as campanhas, sob o risco de “desperdiçar” boa parte dos investimentos, mas também não devem pretender dirigir recursos única e exclusivamente a um ou poucos candidatos, prevendo que ele(s) vencerá(ão), sob o risco de deixar de assegurar acesso ao eleito, em caso de derrota do(s) escolhido(s). Se são agentes em busca de acesso aos mandatários, os financiadores empresariais mais centrais devem ponderar as necessidades de não deixar de financiar os vencedores e de não desperdiçar recursos com o financiamento de candidatos que não exercerão mandatos.

Para analisar a hipótese segundo a qual os financiadores empresariais mais centrais das redes de financiamento estabelecidas para as eleições de 2010 e de 2014 são mais assertivos do que os demais, ou seja, são capazes de dirigir uma parcela maior de suas doações a candidatos que se sagram vencedores, será feito um segundo tipo de análise da estratégia dos 15 doadores mais centrais nas duas oportunidades. Em relação a cada sociedade empresária, será calculado o percentual de recursos destinado a candidatos que se sagraram vencedores e, em seguida, esse

72 É verdade que, na prática, muitos financiadores empresariais, mesmo entre os que priorizam acesso aos eleitos, fazem investimentos em candidatos pouco competitivos por motivações diversas. É possível que um candidato que conte com a simpatia pessoal de dirigentes da empresa, ou que tenha alguma relação especial com ela, receba doações, independentemente de suas chances. No entanto, os dados analisados pela tese mostram que essa situação não corresponde à generalidade dos casos, pelo menos em relação às sociedades empresárias mais centrais da rede de financiamento.

percentual será comparado com a proporção geral de recursos injetados na campanha que foram dirigidos a candidatos que saíram vitoriosos.

A partir dessa análise, será possível definir, por exemplo, que parcela do total de recursos doados pela Construtora Norberto Odebrecht S/A, financiadora empresarial mais central na rede de financiamento das eleições de 2014, foi dirigido a candidatos que vieram a ser eleitos. Além disso, e de maneira mais importante, será possível comparar essa parcela com a proporção destinada a vencedores pelos financiadores em geral, sendo possível, a partir desse tipo de análise, estimar a assertividade de cada uma das principais financiadoras políticas do país.

Compilando os dados referentes às eleições de 2010, na forma do Apêndice 11, temos os seguintes resultados, para as 15 sociedades empresárias que registraram os maiores índices de centralidade de autovetor naquela oportunidade:

Quadro 16 – Financiadores empresariais mais centrais e assertividade nas eleições de 2010 (proporção de recursos investidos em candidatos vencedores)

Financiador Índice de

Multiplan Negócios Imobiliários S/A 76,44% 136,21%

Suzano Papel e Celulose S/A 37,74% 67,25%

Itaú Unibanco S/A 55,33% 98,59% destinados diretamente a candidaturas – ou seja, excluídas as doações a agentes partidários – que foi aplicada em candidaturas que se sagraram vitoriosas.

74 Relação entre o índice de assertividade de cada sociedade empresária e a assertividade média na rede de financiamento para as eleições de 2010, que foi de 56,12% (ver Apêndice 11).

Galvão Engenharia S/A 77,65% 138,36%

Klabin S/A 54,50% 97,11%

Bunge Fertilizantes S/A 62,53% 111,42%

Os resultados consolidados na tabela acima e no Apêndice 11 mostram que a assertividade dos financiadores mais centrais é, de uma maneira geral, superior à média da rede de financiamento. Relacionando a média da assertividade dos 15 financiadores mais centrais com a média geral, essa superioridade é de 13% (63,52% para os 15 financiadores principais ante 56,12% para a média geral), mas há picos de 48% (Metalúrgica Prada) e de 38% (Galvão Engenharia). Apenas em 4 dos 15 casos (26,6%) a assertividade é abaixo da média global, sendo que apenas no caso da Suzano Papel e Celulose o índice é significativamente inferior (nos demais 3 casos, a assertividade é sempre superior a 90% da média).

Nas eleições de 2010, portanto, pode-se dizer que os 15 financiadores empresariais com maior centralidade foram em geral mais assertivos do que os demais. Eles foram mais capazes de dirigir parcelas maiores de suas doações a candidaturas vitoriosas e, assim, uma parte menor de seus recursos foi “desperdiçada” com o financiamento de candidatos que não vieram a ocupar cargos públicos, em relação à média.

Essa assertividade, embora tenha sido maior do que a dos demais financiadores, ainda não se mostrou muito alta em termos absolutos, envolvendo, portanto, a destinação, em 2010, de uma quantidade significativa de recursos oriundos de sociedades empresárias a candidaturas derrotadas. Afinal, as principais financiadoras empresariais destinaram em média 50,81% de seus recursos diretamente a candidaturas e uma média de 36,48% desses recursos foram para candidaturas que não resultaram no exercício de cargos públicos. Por essa razão, dos mais de R$ 411 milhões injetados nas eleições de 2010, pelos financiadores empresariais mais centrais, R$ 78,3 milhões (parcela equivalente a pouco mais de 19%) foram “desperdiçados”.

A assertividade dos financiadores empresariais mais centrais nas eleições de 2014, por sua vez, foi calculada na forma do Apêndice 12. Os principais resultados dessa análise são os seguintes:

Quadro 17 – Financiadores empresariais mais centrais e assertividade nas eleições de 2014 (proporção de recursos investidos em candidatos vencedores)

Financiador Índice de

assertividade

Diferença para a assertividade média dos financiadores75

Construtora Norberto Odebrecht S/A 50,76% 81,10%

Bradesco Vida e Previdência S/A 51,24% 81,87%

JBS S/A 93,68% 149,67%

Itaú Unibanco S/A 53,38% 85,29%

Gerdau Aços Especiais S/A 82,12% 131,20%

Braskem S/A 53,79% 85,94%

Mineração Corumbaense Reunida S/A 70,63% 112,85%

Os resultados da análise de assertividade dos principais financiadores empresariais das eleições de 2014 mostram novamente uma superioridade em relação à média geral, inclusive maior do que a observada em relação a 2010. No caso das eleições mais recentes, a média de assertividade dos 15 financiadores empresariais com maior centralidade de autovetor foi 19%

superior à geral (74,73%, ante 62,59%). Se a assertividade total dos financiadores subiu significativamente, de 56,12% para 62,59% (alta de 11,52%), a dos 15 financiadores mais centrais aumentou ainda mais, de 63,52% para 74,73% (aumento de 17,64%).

75 A assertividade média na rede de financiamento para as eleições de 2014 foi de 62,59% (ver Apêndice 12).

Assim, a diferença entre a assertividade de cada financiador e esse índice médio será alcançada pela divisão de um percentual pelo outro – no caso da Odebrecht, por exemplo, a assertividade de 50,76% é inferior à média dos financiadores mais centrais nas eleições de 2010, alcançando apenas 81,1% do índice médio.

É interessante observar que essa ampliação, em média, da assertividade dos financiadores mais centrais, representou também um aumento na variação dentro do próprio grupo de financiadores mais influentes. Se no caso de 2010, apenas 4 registravam assertividade inferior à média global, em 2014 foram 5 (33% dos casos). Os picos de assertividade, por outro lado, foram mais elevados, havendo duas sociedades empresárias com índices quase 60%

superiores à média (Construtora OAS e CRBS) e outras duas com assertividade quase 50%

superior à média (JBS e Cosan). Em 2010, apenas uma sociedade empresária (Metalúrgica Prada) registrara assertividade quase 50% superior à média geral.

É possível dizer, assim, que em 2014 foram atingidos resultados mais significativos pelas principais sociedades empresárias, em relação ao desafio de destinar a maior parcela possível de recursos a candidaturas vitoriosas. Esses resultados foram alcançados mesmo num contexto em que a corrida presidencial foi decidida por uma margem muito pequena e em que uma terceira candidatura, que não foi ao segundo turno, chegou a liderar as intenções de voto76. A capacidade dos financiadores de alocar eficientemente seus recursos parece ter se aprimorado, portanto, entre as duas corridas eleitorais analisadas.

Esse aprimoramento na alocação de recursos por parte dos financiadores parece ficar ainda mais claro, no entanto, se se dirige o foco a outro dado, também consolidado nos Apêndices 11 e 12. Cuida-se do direcionamento das doações das pessoas jurídicas, diretamente a candidatos ou a agentes partidários que, posteriormente, o distribuem. A mudança mais significativa entre os dois cenários, que repercutiu com mais força na capacidade dos principais financiadores de “não desperdiçar” recursos, foi nesse direcionamento inicial das doações, e não na assertividade propriamente dita.

Conforme já apontado, nas eleições de 2010 uma quantidade significativa de recursos oriundos de sociedades empresárias acabaram sendo dirigidos, diretamente, a candidaturas derrotadas. Levando em conta que as 15 principais sociedades empresárias direcionaram diretamente a candidatos, naquela oportunidade, 50,81% de seus recursos e que uma média de 36,48% desses recursos foram para candidaturas derrotadas, o “desperdício” girou em torno de 19%. Isso se deu mesmo com o alcance, pelos principais financiadores, de uma assertividade cerca de 13% superior à geral.

Em 2014, por outro lado, as sociedades empresárias mais centrais direcionaram uma quantidade muito menor de recursos diretamente a campanhas, apenas 33,94%, em média. A assertividade média de 74,73% representou a destinação, também em média, de 25,27% dos

76 Ver nota 68, supra.

recursos diretamente alocados em candidaturas a derrotados. Com isso, a proporção de recursos alocados pelos 15 financiadores mais centrais em campanhas que não obtiveram sucesso caiu vertiginosamente, de 19% para 5,3% dos recursos totais doados – dos quase R$ 800 milhões doados pelos 15 financiadores mais centrais em 2014, apenas R$ 42,6 milhões foram

“desperdiçados”.

O crescimento na assertividade dos financiadores empresariais centrais entre 2010 e 2014 foi discreto, mas significativo, suficiente para manter a capacidade desse grupo de financiadores de alocar eficientemente suas doações acima da capacidade média dos doadores e inclusive para ampliar essa diferença. Chama a atenção, porém, a conjunção entre essa maior assertividade e a concentração das doações nos agentes partidários, responsável por fazer com que a aplicação direta de recursos em candidaturas derrotadas, por esses financiadores, fosse reduzida drasticamente, em mais de 72% (de 19% para 5,3%).

Lançando mão de uma metáfora, pode-se dizer que os financiadores empresariais mais centrais estabeleceram uma maneira de investir com mais segurança em capital político, utilizando os agentes partidários como uma espécie de seguro. Destinando a maior parte dos recursos às agremiações, e não às campanhas, diretamente, eles não assumem o ônus (ou assumem menos o ônus) de escolher um candidato para ser apoiado, em detrimento dos demais.

Ao mesmo tempo, se valem de informações que os agentes partidários têm, a respeito das chances de êxito de cada candidatura, para distribuir mais eficientemente os recursos e abrem um canal de comunicação com a agremiação que talvez possa ser utilizado, mais adiante, para veicular as demandas sobre os mandatários. Como se verá no item subsequente, essa intermediação dos agentes partidários se ampliou em relação a todos os financiadores empresariais, mas foi especialmente intensificada no caso dos mais centrais.

Os dados coletados pela tese sugerem, desse modo, que as sociedades empresárias com maior influência sobre a rede de financiamento, entre 2010 e 2014, modificaram as suas estratégias em busca de maior precaução e assertividade e obtiveram esses resultados por meio do aumento de suas conexões com agentes partidários, em detrimento de conexões diretas com os candidatos.

Para compreender melhor esse mecanismo e sustentar melhor essa afirmação, é útil observar o teste da última hipótese formulada pela presente tese, a única delas que se dirige não aos financiadores empresariais, mas aos agentes partidários.

6.3 A evolução da atuação dos agentes partidários centrais como canais de influência dos

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