1.3 Experiências internacionais de turismo em espaço rural
1.3.2 A "Association d Agrotourisme Accueil Paysan"
As informações a seguir foram extraídas do documento "Memento Accueil Paysan", publicado pela Associação em 2002.
Em 1979, na França, em meio a um contexto de crise das economias ocidentais, a Associação de Educação Popular Povo e Cultura (PEC) de Isère, com o objetivo de pensar novas possibilidades de sobrevivência e mesmo desenvolvimento da pequena agricultura nas montanhas, criou uma Comissão de Estudos e de Propostas (CEP) para o desenvolvimento de novas atividades rurais.
A presença de explorações agrícolas praticando uma agricultura diferente do modelo dominante e, pautadas na máxima valorização de sua autonomia frente ao sistema econômico, incentivaram a formação de um grupo de estudos sobre as práticas existentes nos massivos montanhosos de Isère (Chartreuse, Belledonne, Matheysine, Triève, Oisans, Vercors e mais tarde Savoie e Hautes Alpes), e que se diferenciavam daquelas preconizadas pelo sistema. Desse grupo de estudos fizeram parte: agricultores, pesquisadores do INRA (Institut National de Recherche Agronomique15), pesquisadores do IREP (Institut de Recherche et d’Études Politique16) e animadores da PEC Isère.
A partir das experiências vivenciadas pelo grupo de estudos, percebeu-se que a profissão de agricultor não se restringia à função estritamente produtiva preconizada pelo modelo dominante, mas ia muito além e estava diretamente ligada ao saber fazer do homem do campo. Dentre as funções levantadas nos estudos, a "acolhida17" em propriedades rurais despertou o interesse e, em 1985-1986 constituiu-se uma comissão específica para discutir a possibilidade de criar uma rede onde a acolhida seria um real produto rural.
Para dar andamento à proposta, a comissão reuniu um grupo de agricultores do Massivo de Chartreuse Isère-Savoie que já trabalhava com este tipo de atividade em suas propriedades e levantou, entre outros, as possíveis ofertas e ganhos econômicos.
Em janeiro de 1987 aconteceu em St. Laurent du Pont, em Isère, o primeiro encontro nacional para discutir o tema. As questões levantadas nesse encontro para a criação de uma rede de "acolhida rural" foram: elaboração de uma carta definindo as especificidades da atividade; elaboração de um caderno de normas para definir quem eram os agricultores que poderiam fazer parte da rede, quais as exigências em termos de conforto, segurança, qualidade, etc; qual estrutura escolher para se constituir (associação local ou nacional). O principal resultado desse encontro foi a constituição da "Association Nationale Accueil Paysan" cuja principal concepção é de que a "acolhida" seria parte integrada a um sistema de exploração coerente e constituído por uma associação de atividades agrícolas e não agrícolas.
A partir do momento da sua constituição e do primeiro encontro nacional, a cada ano é realizado um novo encontro com o objetivo de aprofundar as questões concernentes ao trabalho da Associação, fortalecendo e ampliando espaços. Dentre os assuntos abordados estão: o reconhecimento da cultura rural e a necessidade de afirmar a existência de valores imateriais no processo de acolhida; divulgação e reconhecimento do trabalho; elaboração do estatuto do agricultor associado; re-apropriação do futuro dos agricultores; o papel da Associação no desenvolvimento rural; aspectos sociais e ambientais da agricultura; etc. Hoje formalmente reconhecida, a Associação "Accueil Paysan" conta com vários parceiros entre associações, centros de pesquisa, movimentos rurais, Secretarias, Ministérios, etc.
A Associação desenvolve seu trabalho apoiado nos seguintes princípios (Memento Accueil Paysan, 2002):
16 IREP – Instituto de Pesquisa e Estudos Políticos
17 Usaremos a simples tradução da palavra, por não haver outra que defina tão bem o termo, que resume o conjunto
- Accueil Paysan é parte integrante da atividade agrícola;
- O agricultor que pratica este tipo de acolhida deseja mostrar sua profissão, seu saber fazer, seu ambiente (contato com os animais, conhecimento sobre plantas, ritmo das estações). O que vale é a especificidade da sua acolhida;
- A acolhida se faz num ambiente de troca e de respeito mútuo;
- Este tipo de acolhida deve ser acessível a todas as camadas da população;
- O Accueil Paysan é um fator de desenvolvimento local; ele mantém a vida no meio rural;
- O agricultor garante a qualidade dos produtos oferecidos na propriedade; - O Accueil Paysan propõe conforto adaptado ao ambiente local;
- O Accueil Paysan é pensado e organizado por aqueles que o vivem;
- Outros atores permitem, se filiando à Accueil Paysan, enriquecer a dinâmica local. Uma questão importante que norteou os debates da Associação desde de sua constituição, foi a associação de não agricultores. Apesar de certa resistência, resultante da própria reflexão do grupo sobre o comprometimento com a principal base ética dos cadernos de normas, a produção agrícola, nos encontros de 1999 e 2000, cedeu-se a esse dilema abrindo espaço à associação de outros atores rurais, através do artigo 5:
Os rurais, por seus atos de vida (escolha econômica, cultural e social) nos interpelem, em suas demandas de adesão ao Accueil Paysan. Essas pessoas, por uma atividade agrícola cobrindo as necessidades da acolhida (mesa colonial), por uma escolha ambiental (valorização da floresta, fauna, etc.), de patrimônio arquitetônico e de revitalização de uma cidade, contribuem para a valorização do espaço rural e formação de uma rede que vai do econômico ao cultural (MEMENTO ACCUEIL PAYSAN, 2002).
A partir do encontro de 2001 é votado e aprovado o artigo 5, dando lugar aos novos atores do mundo ¥ral, engajados em projetos atípicos, fora das normas do sistema atual. A Federação Nacional afirma assim, a importância de um conjunto dos atores, entre eles os neo-rurais, na recomposição da ruralidade, mostrando que o rural torna-se maior do que o agrícola.
Hoje, na França, a Associação conta mais de 500 propriedades que oferecem vários produtos como: pousadas, quartos coloniais, camping, refeições coloniais, acompanhamento de atividades agrícolas, caminhadas, entre outros. Na Europa atua em países como Itália, Espanha,
Portugal, Romênia, Polônia, Croácia, Armênia, Hungria, Bulgária, Croácia; na África atua no Marrocos, Togo, Tunísia, com demandas na Argéria, Benin Mali, Senegal; na América Latina contempla Brasil, Costa Rica e Chile, com demandas na Nicarágua; e na Ásia tem demandas no Japão e Vietnã. Na América Latina a primeira experiência vinculada à Associação francesa Accueil Paysan foi a Acolhida na Colônia, sediada em Santa Rosa de Lima, SC, Brasil.