2.2 A aproximação entre o rural e o urbano
2.2.3 A multifuncionalidade como novo foco de debates
A Multifuncionalidade é uma noção recente e visa abordar o campo diversificado das funções sociais da agricultura ao meio rural, que deixa de ser entendido apenas como produtor de bens agropecuários, para ser reconhecido também pelo seu papel na conservação dos recursos
naturais (água, solo, biodiversidade, etc.), do patrimônio cultural e natural (paisagens), e da segurança alimentar.
Essa noção surge efetivamente na Europa indo de encontro às práticas e políticas voltadas à produtividade e ao crescimento econômico. O modelo de crescimento adotado e fomentado pela Comunidade Econômica Européia (CEE) no pós Segunda Guerra Mundial provocou entre outros, o esvaziamento de algumas áreas rurais, o desgaste dos recursos naturais, o aumento da produção para além da capacidade de absorção do mercado, e o alto custo com medidas de apoio à agricultura modernizada.
Diante destas constatações, o modelo adotado foi pouco a pouco sendo questionado, a ponto de motivar a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) em 1992. Essa reforma se caracterizou pela substituição da sustentação de preços por ajudas diretas, e apesar de continuar protegendo uma minoria, abriu espaço para ajudas voltadas ao desenvolvimento rural, substituindo aos poucos o discurso voltado ao crescimento e a produtividade.
Além das mudanças propostas pela reforma da PAC, Hervieu (2002 p.416) ressalta que em nível internacional e europeu também colaboraram para o desenvolvimento da noção de multifuncionalidade: o princípio do desenvolvimento sustentável homologado na "Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento" em 1992 no Rio de Janeiro – Brasil; o acordo do GATT21 (General Agreement on Tariffs and Trades) em Marrakech em 1994; a discussão sobre política rural integrada da Conferência de Cork em 1996, e retomada em parte pelo acordo de Berlim em 1999.
A conscientização sobre o agravamento dos problemas ambientais, assim como, da necessidade de pensar o desenvolvimento para os espaços rurais, mobilizou um conjunto variado de atores questionando cada vez mais o destino puramente agropecuário das subvenções estatais (ABRAMOVAY, 2002). Nesse contexto, a noção de multifuncionalidade se desenvolveu na Europa na década de 1990, sendo a França o país que encaminhou os primeiros dispositivos institucionais para fomentá-la, através dos Contratos Territoriais de Estabelecimentos incorporados na Lei de Orientação Agrícola (LOA) em 1999. Nesses contratos, "os subsídios deixam de ser simplesmente uma compensação pela renda perdida em virtude da redução nos
21 As negociações do GATT levaram a um interesse crescente por formas de sustentação à agricultura "descasada" da
produção, nomeadamente por ajudas financeiras aos agricultores que pudessem ser subordinadas ao fornecimento de serviços ambientais (ABRAMOVAY, 2002).
preços, e passam a condicionar-se ao preenchimento de funções sociais e ambientais contratualmente regulamentadas" (ABRAMOVAY, 2002 p.4).
Conforme alerta Carneiro (2003 p.88):
Ainda que a noção de multifuncionalidade tal como tem sido definida (Laurent, 1999; FAO, 1999) enfatize a valorização da dimensão não mercantil e não diretamente produtiva da agricultura, é bem verdade que, na prática, a sua instrumentalização na esfera da política pública (como os CTEs, na França por exemplo) tem sido centrada, em grande parte, na valorização econômica de atividades associadas ao fazer agrícola, tais como a qualidade dos produtos, a diversificação das atividades no interior do estabelecimento e a criação de empregos. Além disso, muitas vezes, essas medidas estão limitadas à conquista de novos segmentos de mercados diversificados – os nichos de mercados – reservados a uma minoria de produtores muito competitivos.
Independente da eficiência (ou não) das políticas de fomento à multifuncionalidade, a noção vem proporcionando uma nova abordagem para o tema do desenvolvimento rural em vários países, entre eles o Brasil22. A abordagem é repensar o papel da agricultura e a sua relação com outros componentes da sociedade, examinando o aspecto multidimensional das atividades humanas e o que elas trazem para o desenvolvimento social e econômico.
Segundo Cazella e Mattei (2002), "não se trata de um novo modelo a ser construído, mas de uma forma de existência real de unidades familiares de produção agrícola". Essas "novas" funções que vem sendo atribuídas à agricultura familiar já eram realizadas pelos agricultores, o que muda é o atual "reconhecimento" das mesmas, e a valorização de outras dimensões além da produtivista. Nesse sentido, Carneiro (2002 p.233) argumenta que:
É possível dizer que a noção de multifuncionalidade da agricultura surge no contexto de busca de soluções para as "disfunções" do modelo produtivista e inova ao induzir uma visão integradora das esferas sociais na análise do papel da agricultura e da participação das famílias rurais no desenvolvimento local. Ao privilegiar a integração das diversas esferas sociais e econômicas, essa noção provoca um redimensionamento dos procedimentos analíticos, de maneira a resgatar (e tornar visível) a condição humana (e não apenas econômica) dos agricultores e suas famílias. Assim, promove-se uma quebra da
22 O PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), em suas várias linhas de atuação, já
express,[uma abordagem mais ampla sobre o papel da agricultura no desenvolvimento e sobre as características desta atividade, embora sem fazer utilização explícita da noção de multifuncionalidade (MALUF, 2002 p.302).
hegemonia e da exclusividade da "função" (ou melhor lógica) econômica sobre as demais.
Na intenção de estudar a noção de multifuncionalidade no Brasil, pesquisas vêm sendo realizadas em diversas regiões do país, através do Projeto "Estratégias de desenvolvimento rural, multifuncionalidade da agricultura e agricultura familiar: identificação e avaliação de experiências em diferentes regiões brasileiras", apoiado pelo CNPq. Essas pesquisas constataram quatro dimensões principais da multifuncionalidade no Brasil (CARNEIRO e MALUF, 2003, p.22):
a) Reprodução sócio-econômica das famílias: os principais aspectos
abordados são as fontes geradoras de ocupação e de renda para os membros das famílias rurais, as condições de permanência no campo, as práticas de sociabilidade, as condições de instalação dos jovens e as questões relativas à sucessão do chefe da unidade produtiva.
b) Promoção da segurança alimentar da sociedade e das próprias famílias rurais: este campo abrange a produção para o autoconsumo familiar e
também a produção mercantil de alimentos, bem como as opções técnico- produtivas dos agricultores e os canais principais de comercialização da produção.
c) Manutenção do tecido social e cultural: esse campo se refere à
preservação e ao melhoramento das condições de vida das comunidades rurais, levando em conta os processos de elaboração e legitimação de identidades sociais e de promoção de integração social.
d) Preservação dos recursos naturais e da paisagem rural: essa dimensão
foi observada tendo como referência o uso dos recursos naturais, as relações entre as atividades econômicas e a paisagem, e a preservação da biodiversidade.
Embora os estudos apontem o papel da agricultura familiar na realização dessas funções, o fato do rural ser mais amplo do que o agrícola e, do desenvolvimento rural depender cada vez mais de uma diversidade de atores sociais e atividades não-agrícolas coexistindo com a agricultura, a abordagem da multifuncionalidade passa a contemplar não apenas a agricultura, mas o espaço rural em si, incluindo as diversas atribuições dadas ao mesmo pelos distintos agentes, iniciando um debate sobre a multifuncionalidade do território ou do espaço rural.
Parece-nos mais adequado, reorientarmos o debate para a multifuncionalidade do território, incluindo assim as diferentes categorias sociais que são engendradas pelas novas dinâmicas econômicas e sociais das ruralidades contemporâneas. A agricultura, nesse caso, não deveria ser encarada como o foco central da multifuncionalidade, mas como uma atividade que se articula às demais no esforço de conservar o meio ambiente e de manter o tecido social (CARNEIRO, 2002 p.237).
A discussão sobre multifuncionalidade do espaço rural deve incorporar esta complexidade (diversas formas de agricultura e diversificação de atividades e atores), onde a relação rural/urbano, a expansão das oportunidades de trabalho para além da agricultura, a preservação ambiental e a valorização do rural como espaço de vida e de lazer são elementos fundamentais.
Neste sentido, cabe ressaltar que algumas funções como preservação ambiental, manutenção da paisagem, lazer e espaço de vida, vêm promovendo a localização de atividades de consumo nos espaços rurais, de forma que, o reconhecimento dessas funções não envolve apenas os valores de uso (terra, recursos hídricos, recursos vivos), mas também, os valores de troca (SILVA, 2004). A coexistência de função supõe interações inevitáveis, uma vez que são de natureza espacial; todo e qualquer uso estará afetando os outros mesmo que não exista nenhuma conexão produtiva entre eles.
O conflito entre funções como produção agrícola, consumo e proteção ambiental já foi evidenciado nos estudos de Flexor e Gavíria (2003) e Carneiro (2003), nos contextos rurais de Paraty e de Nova Friburgo respectivamente. O processo de multifuncionalidade nessas realidades é permeado por conflitos, exclusões e hierarquias, sendo que as relações entre agricultores e demais atores envolvidos nem sempre é harmoniosa. Dentre os aspectos abordados, os autores identificaram:
- A falta de motivação por parte dos agricultores em mudar seus sistemas produtivos (práticas tradicionais) em favor do meio ambiente, provocando conflito com turistas e órgãos ambientais;
- Os riscos e oportunidades oferecidos pela relação rural/urbano, já que a procura por serviços turísticos e ambientais, assim como a especulação imobiliária decorrente, pressionam o desenvolvimento das estratégias de reprodução das famílias rurais em direção à oferta de produtos e serviços turísticos, modificando a dinâmica das atividades econômicas antes baseadas na agricultura.
O conflito entre funções - resultado da disputa de interesses entre os atores sociais - é também a arena onde o agricultor redefine sua inserção nos sistemas produtivos. Isto se torna mais complexo com a expansão de atividades não agrícolas no espaço rural, pois a mobilização do conjunto de interesses e recursos correspondentes às funções implicadas, irá submeter o espaço rural a uma rotina estranha à anterior (SILVA, 2004).
NEAD (2001) acrescenta que, no Brasil as novas funções (principalmente as de moradia, lazer e turismo) se desenvolvem num ambiente que evidencia o esvaziamento do Estado, como por exemplo, a incapacidade de intervenção de instituições como INCRA e IBAMA. O autor expressa ainda que, "esse novo rural está exigindo uma nova institucionalidade e se isso não acontecer ele vai envelhecer prematuramente" (NEAD, 2001 p.22).