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2 AS ESCOLAS ESTADUAIS DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO CEARÁ: O

2.4 A atualidade da proposta educativa de Marx

Ao nosso entender, a proposta educativa de Marx vislumbra a integração do sujeito amputado, fragmentado e dilacerado pela atividade produtiva do capital, combatendo aquilo que “Lenin chamou de o ‘traço mais repugnante da velha sociedade burguesa’: a dissociação entre prática e teoria” (BENJAMIN, 2009, p.123).

Durante a segunda metade do século XIX, quando o capitalismo apresentava ainda suas formas mais selvagens e visíveis de acumulação (Primeira Revolução Industrial), o uso da força de trabalho de crianças era muito bem-vista pelos industriais, e o nível de instruções dessas crianças e da classe trabalhadora em geral era mínimo ou inexistente. Eis o que escreve Engels sobre o grau de instrução dos trabalhadores da Inglaterra:

Se a burguesia só lhes deixa na vida o estritamente necessário, não devemos nos espantar ao constatar que ela só lhes concede a dose de cultura que o seu próprio interesse exige; o que não é muito, na realidade. Comparados a população, as verbas para a instrução são incrivelmente baixas. Os raros cursos que funcionam durante a semana e que estão à disposição da classe trabalhadora só podem ser freqüentados por um público extremamente reduzido e, ainda por cima, não valem nada. Os mestres – operários aposentados ou pessoas inválidas para o trabalho que se tornam professores para ganharem a vida – não possuem, na sua grande maioria, nem os conhecimentos mais rudimentares; são desprovidos dessa formação moral tão necessária ao mestre, e não existe qualquer controle público sobre esses cursos [...] a burguesia tem pouco a esperar e muito a temer da formação intelectual do operário (ENGELS apud NOGUEIRA,1993, p. 71).

Uma certa atualidade no que foi escrito por Engels não deve nos espantar. Como bem considerou Harvey10, o capitalismo recua em alguns de seus progressos históricos, principalmente no que concerne aos direitos democráticos dos trabalhadores – entre eles, a bandeira de uma educação pública, gratuita e de qualidade. Harvey faz um paralelo na história do capitalismo clássico, do Livro I de O’ Capital de Marx, no qual este descreve alguns princípios da produção capitalista em uma de suas fases mais selvagens, quando havia pouca ou quase nenhuma legislação e regulação que protegesse de algum modo a classe laboriosa. Já no Livro II de O’ Capital, Marx reconhece uma necessária contenção do caráter predatório do sistema, que destrói sua fonte de riqueza, a classe trabalhadora, junto às necessidades de consumo e reprodução desta. Assim, Harvey faz um paralelo que demonstra que o Livro I está mais relacionado aos primórdios do capitalismo, enquanto o Livro II reflete, por exemplo, a fase do fordismo-keynesianismo, na qual algumas concessões foram cedidas à classe trabalhadora.

Hoje, principalmente com o elevado uso do crédito (que pode antecipar o consumo e a reprodução dos trabalhadores sem, contudo, haver ganho real de salários), o capitalismo resolve, de certo modo, o problema do consumo e pode voltar aos níveis de exploração descritos no Livro I, dispondo de um enorme excedente populacional e do consentimento da “barbárie honesta”, outorgada por todo o aparato legitimador do capital (Direito, Estado, etc.).

Desse modo, observamos uma “reedição” do trabalho infantil, escravo, de longas jornadas e a retirada de direitos. No mesmo sentido, vemos a educação retrocedendo em suas conquistas democráticas.

Na divisão manufatureira do trabalho, um ser humano, com todas as suas faculdades e por toda a sua vida, fica prisioneiro a uma tarefa parcial. Já na forma capitalista da indústria moderna, o trabalhador se transforma no acessório consciente de uma máquina parcial. Nos velhos sistemas de manufatura e artesanato, os aprendizes evoluíam gradativamente das tarefas mais fáceis para as mais complexas. Saber ler, escrever e contar eram exigência para certos ofícios. Para o trabalho na indústria moderna, a criança não precisava de nenhum treino intelectual e, neste mesmo trabalho, não havia margem para o emprego de nenhuma habilidade e nem de discernimento. As crianças iam se brutalizando neste processo produtivo e, quando ficavam velhas para o trabalho fabril, muitas vezes entravam na delinquência. Algumas tentativas para arranjar-lhes ocupação noutras atividades

fracassavam diante da sua ignorância, brutalização e degradação física e espiritual (MARX, 2012).

As formas de produção anteriores à indústria moderna tinham um “mistério” por detrás de seus ofícios, assim como a cristalização de suas técnicas demorava muito a ser modificada; o tempo para aprender esses ofícios também era arrastado. Já a indústria moderna rasga o véu deste mistério da produção e precisa constantemente revolucionar sua base técnica; com isto, modifica continuamente as funções dos trabalhadores e as combinações sociais do processo de trabalho. As coisas se tornam obsoletas antes mesmo de se cristalizarem. A variação do trabalho, isto é, a fluidez das funções, exige a mobilidade do trabalhador em todos os sentidos. A velha divisão do trabalho continua; esta contradição elimina toda a tranquilidade, a solidez e a segurança do trabalhador (MARX, 2012).

Contudo, Marx (2012) já afirmava que a indústria moderna, com suas catástrofes, torna questão de vida ou morte reconhecer como lei geral e social da produção a variação dos trabalhadores, e adaptar as condições à efetivação normal dessa lei. O autor assinalava, em pleno século XIX, que a própria burguesia reconhecia a necessidade de substituir a monstruosidade de uma população operária miserável, disponível, mantida em reserva para as necessidades flutuantes da exploração capitalista, pela disponibilidade absoluta do ser humano para as necessidades variáveis do trabalho; substituir o indivíduo parcial, mero fragmento humano que repete sempre uma operação parcial, pelo indivíduo integralmente desenvolvido, para o qual as diferentes funções sociais não passariam de formas diferentes e sucessivas de sua atividade. Marx sustenta ainda que seria uma conquista política dos trabalhadores uma educação que relacionasse educação tecnológica (teórica-prática), intelectual e ginástica, levando em conta, porém, que no mando do capital esses fermentos da transformação social, junto às conquistas econômicas e políticas dos trabalhadores e a eliminação da velha divisão do trabalho, se opõem à própria lógica capitalista. Mesmo assim, reforça que o desenvolvimento das contradições de uma forma histórica de produção é o único caminho de sua dissolução e do estabelecimento de uma nova forma.

Apesar da aparência mesquinha que apresentam em seu conjunto, as disposições da lei fabril [inglesa de 1864] relativas à educação fizeram da instrução primária condição indispensável para o emprego de crianças. Seu sucesso demonstrou, antes de tudo, a possibilidade de conjugar educação e ginástica com o trabalho manual, e, conseqüentemente, o trabalho manual com educação e ginástica. Os inspetores de fábrica logo descobriram, através dos depoimentos dos mestres-escolas, que as crianças empregadas nas fábricas, embora só tivessem meia freqüência escolar, aprendiam tanto e muitas vezes mais que os alunos regulares que tinham a freqüência diária integral (MARX, 2012, p. 547).

Marx (2012) conferia que o dia escolar prolongado, monótono e improdutivo para crianças das classes mais abastadas aumentava em vão o trabalho do professor, assim como desprezava a saúde, o tempo e a energia das crianças. Desse modo, concluía que

Do sistema fabril brotou o germe da educação do futuro, que conjugará o trabalho produtivo de todos os meninos além de uma certa idade com o ensino e a ginástica, constituindo-se um método de elevar a produção social e em único meio de produzir seres humanos plenamente desenvolvidos (MARX, 2012, p. 548).

Apesar de compreender os limites da ordem burguesa, Marx parece conceber um progresso, em comparação aos outros modos de produção, na educação da classe trabalhadora na medida em que esta abriria portas para um sistema educacional mais elevado e completo na formação de um ser humano integral. Sabemos, porém, que esta educação que conjuga trabalho produtivo, ensino e ginástica, como afirma Jimenez (2001), por mais simples e básica que pareça, “essa ‘receita’ jamais veio a se efetivar em nossa sociedade”.

Marx, com sua proposta de trabalho produtivo remunerado para os jovens, conjugado com educação intelectual, física e tecnológica, consegue captar as contradições do processo produtivo capitalista a favor de aprofundar as características próprias do proletariado, como “o homem novo” que já existe (MAZZOTTI, 2001).

Para Marx, era claro que o trabalho assalariado para os filhos dos trabalhadores não era questão de escolha, e sim de necessidade11. O autor também afirma que, apesar do degradante trabalho infantil e feminino, essas são bases para uma formação superior da família e da relação entre os sexos, ao tornar possível a negação, com base numa equidade econômica, do patriarcado (MARX, 2012), retirar da esfera privada e elevar a discussão pública questões como o direito da criança e a desigualdade de gênero. É por isso que Marx defende a regulamentação do trabalho juvenil, e não sua abolição. Esse contato com o mundo da produção capitalista seria educativo aos jovens no sentido de apreenderem as relações de trabalho (divisão social, exploração de classe, etc); a luta dos trabalhadores (greve, partido, sindicato); enfim, a contradição trabalho e capital. Isso tudo nos parece mais formador do que extrair algo educativo da alienante atividade do trabalho na forma social do capital. Mesmo aí, podemos sim dizer que há um princípio educativo do trabalho, pois a alienação é o pressuposto para desalienação, dado que a alienação não é um processo findável, mas um

11 Não é forçoso para nós crer que a motivação central da procura das EEEPs seja também a necessidade de

ingresso mais rápido ao mercado de trabalho, dada às necessidades materiais de nossos estudantes. O trabalho assalariado é compreendido como o passaporte para a sobrevivência, numa sociedade esteirada em relações socioeconômicas profundamente desiguais.

mecanismo que deve ser acionado, pelo sociometabolismo do capital, a todo instante na práxis produtiva e cotidiana.

Para amenizar o caráter degradante da divisão do trabalho, residiria a ideia de educação tecnológica. Por isso, Marx a defende na Crítica ao Programa de Gotha (2004). Já a educação intelectual amenizaria a divisão social do trabalho em que uns pensam e comandam e outros executam. A atividade física também atenuaria a degradação do corpo, tornando os jovens trabalhadores mais fortes e saudáveis. Uma geração assim educada demonstraria um grande progresso no desenvolvimento histórico.

Contudo, Marx nunca defendeu uma educação profissional. Pelo contrário, esta sempre foi duramente criticada por boa parte da tradição marxista. Até mesmo a palavra- conceito de politecnia foi questionada por Manacorda (2007) e Nosella (2007) por se assemelhar ao pluriprofissionalismo, diferentemente de educação tecnológica, que implicaria a união teoria e prática. Mas para além das questões semânticas, o que fica é o cuidado em não defender e confundir uma educação profissional de caráter burguês com a luta por uma educação politécnica de interesse proletário.

Mazzotti (2001) diferencia a proposta educacional de Marx da proposta de escola única do trabalho. Para Mazzotti, a escola única do trabalho, ou escola politécnica, era uma posição da social-democracia alemã no período da Segunda Internacional. Tal proposta seria uma condição para a formação do “homem novo” demandado pela sociedade socialista. Já para Marx

o homem novo já existia, era o proletariado, sendo necessário libertá-lo do trabalho assalariado, tendo por medida imediata a redução da jornada de trabalho, pois o tempo é condição para o desenvolvimento humano. [...] No mesmo movimento, requereria a regulamentação do trabalho das mulheres, crianças e jovens de ambos os sexos, neste último caso combinando-a com a educação escolar. (MAZZOTTI, 2001, p.51)

A ideia de Marx em conjugar trabalho produtivo com educação intelectual, tecnológica e ginástica, parece realmente divergir da ideia de escola única do trabalho, que baseia-se apenas no conceito de trabalho genérico. Marx se apoia na contradição do trabalho capitalista e no movimento político do trabalhador (MAZZOTTI, 2001), ou como insiste Sousa Junior (2012), no amplo conjunto da práxis político-educativa, no qual escola e trabalho são um dos momentos na luta por uma vida digna, contraria à imposta pelo capital.

A relação trabalho e educação é fecunda e polêmica. Ela perpassa o princípio educativo do trabalho como atividade vital do homem, que produz o mundo à sua volta e, neste movimento, produz/forma/educa a si mesmo. Este mesmo processo se constitui até nossos dias, mas dada as contradições do trabalho sob a égide do capital, compreender suas

variações torna-se imprescindível para a tarefa histórica de libertar a humanidade deste poder dominador e fetichista.

É no intuito de alertar para o caráter degradante e deformador do trabalho na forma social do capital que Tumolo (2005) o recusa como princípio educativo. A política educacional voltada para as Escolas Estaduais de Educação Profissional do Estado do Ceará, assim como a política educacional de alguns sindicatos como a CUT – Central Única dos Trabalhadores, e de movimentos sociais, como o MST- Movimento dos Trabalhadores sem Terra, como cita Tumolo (op. cit.), se fundamenta no trabalho como princípio educativo, condizente com os interesses da burguesia.

Contudo, exigir um programa educacional superior ao da burguesia é também agir dentro de suas contradições. Assim pensa Marx ao analisar o movimento histórico da luta de classes. Tendo em vista o aprofundamento das características do sujeito revolucionário proletário é que este propõe a conjunção de trabalho produtivo com educação intelectual, tecnológica e ginástica.

Ao nosso ver, ao propor trabalho produtivo, regulamentado para crianças de certa idade e unido à educação intelectual, Marx percebe o caráter contraditório do trabalho no capitalismo que, ao mesmo tempo que deforma ao nível da divisão social do trabalho, também põe o trabalhador em luta. Daí, podemos deduzir que diferente do que diz Tumolo (Idem), o trabalho como princípio educativo tem validade desde que regulamentado e conjugado com educação intelectual.

Para Mazzotti (2001), esta proposta se diferencia da escola única do trabalho, que leva em consideração apenas o trabalho como conceito genérico e que, numa visão quase “culturalista”, perde de vista a luta econômica e política dos trabalhadores.

3 - CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO E OS INFLUXOS SOBRE A EDUCAÇÃO