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3 CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO E OS INFLUXOS SOBRE A EDUCAÇÃO

3.1 Para uma crítica radical da educação profissional

3.2.1 A força de trabalho: o controle e o mercado

Analisaremos as mudanças operadas no controle, na força e no mercado de trabalho, pois estas categorias se afinam diretamente com as Escolas Estaduais de Educação Profissional. Seguindo ainda a matriz teórica da acumulação flexível, iremos refletir sobre alguns aspectos universais, particulares e singulares dessas dimensões do trabalho capitalista.

Ambos estão estreitamente ligados. Para Marx, força de trabalho é “o conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie” (2012, p. 197)

Mais adiante, Marx define como a qualificação da força de trabalho e a aprendizagem (e podemos inferir a própria escolarização) influenciam diretamente na produção desta força, que no modo de produção capitalista torna-se mercadoria:

A fim de modificar a natureza humana, de modo que alcance habilidade e destreza em determinada espécie de trabalho e se torne força de trabalho desenvolvida e específica, é mister educação ou treino que custa uma soma maior ou menor de valores em mercadorias. Esta soma varia de acordo com o nível de qualificação da força de trabalho. Os custos de aprendizagem ínfimos para a força de trabalho comum, entrem, portanto, no total dos valores despendidos para sua produção (2012, p. 202).

Em outro texto, Trabalho Assalariado e Capital, Marx (2006) relaciona diretamente os custos de produção da força de trabalho, o tempo de formação profissional e o salário:

Os custos de produção da força de trabalho] são os custos necessários para manter o operário como operário e para fazer dele um operário. [...] Por isso, quanto menos for o tempo de formação profissional exigido por um trabalhador, menores serão os custos de produção do operário, menor será o preço do seu trabalho, o seu salário (p. 44).

O salário é, pois, o preço desta mercadoria especial chamada força de trabalho – mercadoria esta comprada pelo capitalista, não sendo, portanto, uma cota-parte do operário no produto por ele produzido.

Desse modo, podemos concluir que: a) cursos aligeirados de formação profissional muitas vezes substituem a força de trabalho com maior grau de escolarização, como no caso do Ensino Superior (que, por sua vez, também passa por processos de minimização de conteúdos e aligeiramento da formação24); b) a substituição dos gastos na formação da mão-de-obra a cargo dos empresários para o Estado, a exemplo das EEEPs e do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – PRONATEC25, vem formando massas de trabalhadores; c) esse mesmo tipo de formação profissional também inclui, nos termos da inclusão excludente de Kuenzer (2002)26, o EIR que pressiona a queda de salários e a concorrência entre os trabalhadores (a exemplo também das EEEPs e cursos para quem recebe o Seguro-Desemprego)27. Todos esses aspectos da atual formação profissional condizentes com as mudanças operadas no trabalho no atual padrão de acumulação flexível, junto à condição de capitalismo dependente do Brasil, tendem, como afirma Pochmann (2012), a rebaixar o padrão de uso da força de trabalho, correlacionado com a maior divisão do trabalho e com a Divisão Internacional do Trabalho.

Pochamann (2012) também apresenta e analisa alguns aspectos relevantes das transformações do trabalho ocorridas durante o último quartel do século XX. O autor também observa principalmente o curso da nova Divisão Internacional do Trabalho diante da expansão mundial do excedente estrutural de mão de obra e da reconcentração dos melhores postos de trabalho nos países ricos.

24 Ver LEHER, Roberto. Um novo senhor da educação? A política educacional do Banco Mundial para a

periferia do capitalismo. Outubro, São Paulo, n. 1, p. 19-30, 1999.

25 O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) criado pelo Governo Federal em

2011, por meio da Lei 11.513/2011, com o objetivo de expandir e interiorizar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica no país. Dentre suas iniciativas, encontra-se o Programa Brasil Profissionalizado, que fornece recursos para o fortalecimento e ampliação das redes estaduais de ensino médio integrado à educação profissional, como no caso das Escolas Estaduais de Educação Profissional do Ceará.

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Reafirmando o que ficou registrado no primeiro capítulo deste trabalho: “Como assegura Kuenzer (2002), as estratégias para excluir o trabalhador do mercado formal e incluí-los no mundo do trabalho em condições precárias, a chamada ‘exclusão includente’; assim como as estratégias de incluir o exército de reserva na escolarização básica e em cursos aligerados de formação profissional, que lhes confere o status de empregabilidade, como meio de justificar sua exclusão no mercado de trabalho pela ‘incompetência’- inclusão excludente -, passa também por processos de persuasão e coerção, no qual o trabalhador compreende sua própria alienação como resultante de sua prática pessoal.”

27 As EEEPs formam preferencialmente a força de trabalho jovem que hoje corresponde a uma grande parcela de

desempregados no País. O desemprego de jovens entre 18 e 24 anos subiu de 12,9% em 2014 para 18,5 em 2015, segundo dados do IBGE. A queda de 2,4 na média da renda real do trabalhador, em um ano, revela que mais jovens estão buscando emprego para complementar a renda familiar. Disponível em:

<http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2015/08/para-reforcar-renda-familiar-jovens-pressionam- mercado-de-trabalho.html>. Acesso em 18/10/2015.

Os requerentes do Seguro-Desemprego, para receber seus benefícios, devem participar dos cursos de formação inicial e continuada ou qualificação profissional concedidos no âmbito do Programa Nacional de Acesso ao

Ensino Técnico e Emprego – Pronatec. Disponível em:

<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14901-portint17- pdf&category_slug=dezembro-2013-pdf&Itemid=30192>. Acesso em 18/10/2015.

Apesar da periferização industrial, ocorrida a partir do pós-guerra, responsável pela difusão de postos de trabalho de maior qualidade, recentemente parte dos países pobres passou a enfrentar maiores dificuldades para com a produção e o emprego nacionais. Emerge, assim, um quadro de desestruturação do mercado de trabalho, e Pochamann (2012) revela, através de dados oficiais, uma maior presença de altas taxas de desemprego aberto, decrescente participação do emprego assalariado no total da ocupação e a generalização dos postos de trabalho precários.

Ao analisar sistematicamente dados de dimensão internacional a respeito do trabalho, obtidos a partir de fontes primárias produzidas por instituições multilaterais como Organização das Nações Unidas, Organização Internacional do Trabalho, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outros, Pochmann (2012) capta com clareza as tendências centrais que ocorrem no atual processo de mundialização das economias.

Contrariando a propaganda oficial, o autor observa que a globalização não vem produzindo um mundo mais homogêneo, com melhor repartição de riqueza, produção, trabalho e poder. Na verdade, o que vem ocorrendo desde as últimas décadas do século XX é um reforço na concentração da pobreza, do desemprego e dos postos mais simples e mal remunerados nos países pobres. Nesse sentido,

A integração das economias transformou-se no caminho mais simples de potencialização do império norte-americano e das finanças internacionais no comando do processo de acumulação mundial do capital que rebaixa o padrão de uso e remuneração da força de trabalho. (POCHMANN, 2012, p.8)

A consolidação de grandes oligopólios mundiais ganha importância cada vez maior. Passa a ter destaque, por meio de frequentes fusões de empresas, o papel das corporações transnacionais na redefinição da produção e do emprego no mundo. Desse modo, uma divisão do trabalho intelectual e manual em escala global se acentua:

Por concentrarem os investimentos em pesquisa e tecnologia nos países de origem, as grandes corporações transnacionais centralizam grande parte do poder de criação e redirecionamento geográfico dos postos de trabalho de maior qualidade e remuneração, responsáveis pelas funções de comando e planejamento. Em contrapartida, a possibilidade de organização da produção em rede mundial motiva o deslocamento de parte do processo produtivo dos países ricos para os pobres, geralmente vinculados às atividades de execução e produção, que demandam ocupações mais simples e rotineiras28 (POCHMANN, 2012, p.8).

28 Fazendo uma breve comparação, podemos afirmar que o mesmo ocorre com a educação, seja ao nível da

política educacional ou do trabalho pedagógico. Organismos multilaterais como Banco Mundial, empresas ou corporações planejam e organizam a educação dos países periféricos, cabendo a estes a simples e rotineira execução de sua posição subordinada.

Sob a ótica da macroeconomia, Pochmann (2012) assegura que “as economias não desenvolvidas transformam-se em uma grande feira mundial de concorrência pelos menores custos de trabalho possível, a ser visitada por compradores de força de trabalho que representam as grandes corporações transnacionais” (p. 8). Desse modo, o caráter de dependência do capitalismo brasileiro tem por base governos dóceis e submissos à lógica de exploração intensiva do trabalho. Pretende-se, assim, atrair investimentos estrangeiros colocando em marcha programas macroeconômicos de integração subordinada por meio da adoção de políticas neoliberais “de liberalização comercial sem critério, de desregulamentação financeira, de enxugamento do Estado (desvio de funções e dilapidação do patrimônio), de desnacionalização econômica e especialização produtiva” (p.8).

De outro lado, são formuladas as políticas sociais e trabalhistas, com vistas

ao rebaixamento ainda maior do padrão de uso e remuneração do trabalho. A descentralização e a focalização do gasto social são medidas utilizadas, em geral, como forma de ajuste fiscal (contenção de recursos públicos), assim como a desregulamentação do mercado de trabalho serve de caminho para a flexibilização dos contratos, redução do poder sindical, retirada de direitos, corte de salários e substituição de custos empresariais por benefícios públicos na qualificação de mão de obra. Tudo isso tem levado à geração de um excedente de mão de obra mundial, como parte da manifestação da subutilização da força de trabalho, que redunda na estratégia de sobrevivência, responsável, na maioria das vezes, pelo disfarce do próprio desemprego nacional. Da mesma forma, os novos procedimentos vinculados à produção e ao desenvolvimento tecnológico, como as atividades em rede, parecem mais contribuir para a formação de uma nova condição de exclusão de países e de um conjunto da população, por meio da infoexclusão. (p.9)

A força de trabalho como mercadoria, existente na carne e no sangue do trabalhador, também demanda mercado. Contudo, como bem observamos no primeiro subitem em que falamos da passagem do fordismo à acumulação flexível, o mercado de trabalho na época fordista era, para alguns segmentos, regulamentado e tinha sob o poder dos sindicatos um certo controle.

Os poderes aumentados pela flexibilidade e mobilidade decorrentes da desregulamentação do mercado de trabalho possibilitam uma maior pressão dos empregadores diante de uma força de trabalho enfraquecida pelo desemprego, pela perca de poder dos sindicatos, pelas estratégias de emprego de força de trabalho sem experiências de luta, em locais favoráveis a este emprego. Também vale frisar a rápida destruição de habilidades, o que justifica a pedagogia do aprender a aprender e de uma educação flexível, ao modo das EEEPs. Tudo isso tem efeitos diretos nos ganhos modestos (quando há) de salários reais.

O mercado de trabalho passou por uma radical reestruturação. Diante da sua forte volatilidade, do aumento da competição e do estreitamento das margens de lucro, os patrões

tiram vantagem da diminuição do poder sindical e da grande quantidade de mão-de-obra excedente (desempregados ou subempregados) para impor regimes e contratos de trabalho mais flexíveis.

[...]É difícil esboçar um quadro geral claro, visto que o propósito dessa flexibilidade é satisfazer as necessidades com frequência muito específicas de cada empresa. Mesmo para os empregados regulares, sistemas como “nove dias corridos” ou jornadas de trabalho que tem em média quarenta horas semanas ao longo do ano, mas obriga o empregado a trabalhar bem mais em períodos de pico de demanda, compensando com menos horas em períodos de redução de demanda, vêm se tornando muito mais comuns. Mais importante do que isso é a aparente do emprego regular em favor do crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário, ou subcontratado” (HARVEY, 2006 p.143).

Harvey (2006) conceitua as estruturas do mercado de trabalho em condições de acumulação flexível:

[...]. O centro – grupo que diminui cada vez mais, segundo notícias de ambos os lados do Atlântico – se compõe de empregados “em tempo integral, condições permanentes e posição essencial para o futuro de longo prazo da organização“. Gozando de maior segurança no emprego, boas perspectivas de promoção e de reciclagem, e de uma pensão, um seguro e outras vantagens indiretas relativamente generosas, esse grupo deve atender à expectativa de ser adaptável, flexível e, se necessário, geograficamente móvel. Os custos potenciais da dispensa temporária de empregados do grupo central em época de dificuldade podem, no entanto, levar a empresa a subcontratar mesmo para funções de alto nível (que vão dos projetos à propaganda e à administração financeira), mantendo o grupo central de gerentes relativamente pequeno. A periferia abrange dois subgrupos bem distintos. [a]O primeiro consiste em “empregados em tempo integral com habilidades facilmente disponíveis no mercado de trabalho, como pessoal do setor financeiro, secretarias, pessoal das áreas de trabalho rotineiro e de trabalho manual menos especializado”. Com menos acesso a oportunidades de carreira, esse grupo tende a se caracterizar por uma alta taxa de rotatividade, “o que torna as reduções da força de trabalho relativamente fáceis por desgaste natural”. [b]O segundo grupo periférico “oferece uma flexibilidade numérica ainda maior e inclui empregados em tempo parcial, empregados casuais, pessoal com contrato por tempo determinado, temporários, subcontratação e treinamentos e treinados com subsídio público, tendo ainda menos segurança de emprego do que o primeiro grupo periférico”. Todas as evidências apontam para um crescimento bastante significativo desta categoria de empregados nos últimos anos” (HARVEY, 2006, p.144).

No que tudo indica, os estagiários das EEEPs se encontram no segundo grupo periférico por serem “contratados” por tempo determinado e treinados com subsídio público. E, para além dos estágios, a referida formação profissional vem preparando trabalhadores dentro da esfera da periferia do mercado de trabalho. Para Harvey (2006), as atuais tendências do mercado de trabalho apontam para uma diminuição no número de trabalhadores “centrais” e um aumento na contratação de trabalhadores “periféricos”, que entram e saem facilmente do emprego sem custo às empresas quando as coisas ficam ruins.

Observando a criação desses arranjos flexíveis de trabalho, Harvey (2006) afirma que esses não apresentam insatisfação trabalhista forte, pois do ponto de vista individual do

trabalhador, às vezes benefícios são apresentados. Mas do ponto de vista da classe, da população trabalhadora como um todo, os efeitos agregados de quando se considera a cobertura de seguro, os direitos de pensão, os níveis salariais e a segurança no emprego, de modo algum o trabalho flexível parece positivo.

Deste modo, olhando em seu conjunto, os estágios dos alunos das EEEPs representam um malefício à classe trabalhadora – de forma direta, na diminuição dos níveis de salário e indiretamente, embutindo uma cultura de naturalização nas relações cada vez mais precárias de trabalho, elemento central na reprodução e no aumento da exploração.

Ao ponderar os problemas decorrentes de um mercado de trabalho “dual” – trabalhadores brancos, do sexo masculino, de setores monopolistas e sindicalizados em comparação a trabalhadores do sexo feminino, negros e de outras minorias excluídas –, típico dos anos 1960 e sob os arranjos flexíveis de trabalho, Harvey (2006) nos auxilia a rebater o discurso oficial do Governo do Ceará. Este diz que com a advento das EEEPs, de maior acesso à uma educação profissional, segmentos excluídos como os “jovens pobres do interior” do Estado estão tendo uma boa oportunidade de se qualificar e conseguir emprego. Na verdade, eles estão sendo inseridos em um mercado de trabalho cada vez mais desvantajoso para sua classe.

Evidentemente, isso não mudou de maneira radical os problemas, surgidos nos anos 60, dos mercados de trabalho “duais” ou segmentados, mas o reformulou segundo uma lógica bem diferente. Embora seja verdade que a queda da importância do poder sindical reduziu o singular poder dos trabalhadores brancos do sexo masculino nos mercados do setor monopolista, não é verdade que os excluídos desses mercados de trabalho – negros, mulheres, minorias étnicas de todo tipo – tenham adquirido uma súbita paridade (exceto no sentido de que muitos operários homens e brancos tradicionalmente privilegiados foram marginalizados, unindo-se aos excluídos). Mesmo que algumas mulheres e algumas minorias tenham tido acesso a posições privilegiadas, as novas condições do mercado de trabalho de maneira geral reacentuaram a vulnerabilidade dos grupos desprivilegiados [...] (HARVEY, 2006, p.144).

Vamos entender o significado de uma educação profissional, voltada ao mercado, dentro deste percurso de desregulamentação do mercado de trabalho, de altas taxas de desemprego, de flexibilização de contratos, de nova divisão internacional do trabalho e de inserção subordinada do capitalismo dependente brasileiro, que tendencia a superexploração do trabalho e rebaixa o padrão de uso da mercadoria força de trabalho, causando arrocho salarial. Devemos inferir o que tudo isso acarreta para o conjunto da população de trabalhadores, tendo em vista as novas gerações e sua formação humana, suas condições de trabalho e vida e a função social da escola como meio de socialização e produção de conhecimento.

4 O ESTÁGIO NAS ESCOLAS ESTADUAIS DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DO