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2 – A Aprendizagem Cooperativa

2.4 A Aula Cooperativa

A preparação de uma aula compreende diversas dimensões que podem ser mais ou menos delimitadas, tal como a planificação, a condução e a avaliação, ou reflexão, sobre a aula. E, para que a aula seja cooperativa pode simplesmente contemplar o trabalho a pares ou, por outro lado, ser bastante complexo pois pressupõe desenvolver equipas de alunos que engloba actividades complexas de construção do espírito de grupo;

UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA desenvolvimento de um ambiente de sala de aula cooperativo, que incluem actividades que o promovem; treino específico nos papéis sociais dentro do grupo; competências de comunicação e de trabalho em grupo; tarefas específicas para trabalho em grupo; aulas planificadas com objectivos múltiplos no âmbito do desenvolvimento do currículo e de competências de raciocínio; e um sistema de reconhecimento pelo trabalho realizado e ainda um sistema de reforços positivos para o indivíduo, para os grupos e para a turma (Kagan, 1994).

Planificar uma aula cooperativa, passa por decidir qual o conteúdo académico a desenvolver e que actividade propor aos alunos e, paralelamente que competência social se visa incrementar. Depois destas duas etapas, a planificação não será confundida com a de uma aula individualizada ou competitiva (Ellis e Whalen, 1990). Apesar de serem diferentes, elas não podem ser consideradas individualmente, pois é na construção das tarefas de resolução de problemas, ou de actividades de investigação, e de como elas se vão operacionalizar, através da constituição dos grupos e da forma como funcionam que depende o sucesso académico de todos, e portanto estamos perante um ciclo.

A formação dos grupos deve ser ponderada aquando da planificação da aula, uma vez que trabalhar em grupo, em situação de sala de aula, verifica-se difícil pois os alunos estão voltados para dentro de si próprios e não desenvolveram competências de socialização, como por exemplo, a capacidade de negociação entre pares, pelo que esse é também um papel da escola (Ellis e Whalen, 1990). É de salientar que quando as competências sociais não estão muito desenvolvidas, no trabalho a quatro pode emergir dois grupos de dois, ou mais grave, um grupo de três e um aluno a trabalhar sozinho. Quando maior for a dimensão do grupo mais competências sociais os alunos devem ter adquirido (Ib, 1990). Também, a actividade do grupo de trabalho é uma peça essencial deste xadrez e deve ser muito equacionada, pois deve potenciar as competências de todos, e por isso dividir os alunos pelos diferentes grupos poderá ser uma jogada de bastidores. Caso a actividade seja acessível a todos os alunos da turma, então a distribuição dos alunos pelos grupos poderá ser aleatória (Ib, 1990). No entanto, grupos heterogéneos maximiza as relações sociais, uma vez que favorece as relações entre

UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA raças diferentes, promove as relações interpessoais entre sexos, e potencia a gestão da sala de aula. Por outro lado, desta forma os alunos com o mesmo nível de conhecimentos e competências nunca se encontram no mesmo grupo, tal como acontece com os alunos com um grau de conhecimentos e competências fraco (Kagan, 1994).

Gestão Cooperada:

Para que o trabalho no seio de um grupo seja cooperativo todos os seus elementos devem contribuir no desempenho das tarefas, como sublinha uma das características da aprendizagem cooperativa atrás descrita. Ou seja, o funcionamento do grupo deve ser equacionado e partilhado pelo que para além das tarefas decorrentes da própria actividade, os alunos têm também de desempenhar funções de organização do grupo (Davidson, 1994; Johnson e Johnson, 1994). Existem quatro papéis de base do grupo cooperativo: Facilitador ou animador, que coordena as actividades do grupo, ou seja assegura que todos compreendem as instruções, orienta a elaboração e a execução do plano do trabalho, providencia que todos possam participar. É ao facilitador que o professor se dirige quando quer saber como está a decorrer o trabalho; Relator ou Porta- Voz, que em qualquer ocasião deve estar preparado para apresentar o ponto da situação dos trabalhos, pelo que deve ir combinando com os colegas a forma como o fará. Faz as apresentações do grupo, faz o elo de ligação entre as diferentes fases da apresentação, no entanto deve fazer com que todos os elementos do grupo participem na apresentação do trabalho; Mediador ou Negociador ou Pára-Brigas que deve estar atento à interacção entre os elementos do grupo e procura harmonizar os conflitos que podem surgir, encoraja comportamentos positivos; Gestor de recursos que é o responsável por manter acessíveis os materiais necessários ao trabalho; procura os materiais, faz contactos, pesquisas, etc. Pode fazer mais sentido este papel seja substituído pelo gestor do tempo, essencialmente quando a tarefa tem uma curta duração e não existe necessidade de fazer uma pesquisa grande (Cochito, 2004). Também a disposição da sala de aula deve proporcionar que os estudantes que trabalham no mesmo grupo estejam o mais próximo

UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA possível, enquanto que os grupos devem estar o mais separado possível. (Ellis e Whalen, 1990).

Como já foi referido, os materiais podem, ou não, fomentar a interdependência positiva. Assim, pode fornecer-se apenas uma ficha de trabalho, ou um papel e um lápis, ou um conjunto de materiais manipuláveis a cada grupo de trabalho (Ellis e Whalen, 1990). Por outro lado, esta estratégia pode produzir nos alunos aquilo que Slavin (1995) denominou de difusão de responsabilidades, ou seja, quando os alunos não identificam o trabalho individualmente, o seu esforço diluí-se no produto que o grupo apresenta e, consequentemente não representar o empenho individual de cada elemento que constitui o grupo. Como forma de evitar este tipo de situações, o mesmo autor propõe que cada elemento do grupo seja responsabilizado por uma parte do trabalho (como em Jigsaw, ou na Investigação de Grupo), ou ainda pela sua aprendizagem, realizando posteriormente fichas de questões para avaliar o desempenho individual dos alunos (como em STAD, TGT e TAI).

No inicio da aula o professor deve esclarecer a actividade que está a propor aos alunos e sublinhar a importância que os alunos aprendam o conteúdo académico e a competência social, deve salientar que uma actividade cooperativa tem sempre estas duas vertentes, e que ambas são valorizadas e que se espera que todos tenham sucesso em ambas as vertentes. É ainda importante enfatizar a necessidade de cada aluno da turma trabalhar com os seus pares, e portanto o respeito pelas regras é a chave do trabalho cooperativo. Para além disso, trabalhar com qualquer aluno da sala de aula, independentemente das afinidades pessoais tem de ser explícito (Ellis e Whalen, 1990).

No decurso da aula os alunos estão a trabalhar no seio dos seus grupos, centrados nas investigações, ou actividades de resolução de problemas propostos pelo professor. Em consequência da dinâmica implementada o professor ganha tempo dentro da sala de aula, que é utilizado na recolha de informação sobre o trabalho dos alunos, quer ao nível dos conteúdos académicos, quer ao nível das competências sociais que foram estabelecidas no inicio da aula, com o intuito de se dar ao grupo um feedback, que se

UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA deseja de carácter positivo. Relativamente à competência social que se pretende desenvolver, a recolha de informação é feita através da observação de como o grupo funciona, e estes registos fornecem matéria-prima para uma discussão em grande grupo (Ellis e Whalen, 1990). De facto, os alunos que experienciaram apenas aulas do tipo organizacional expositiva devem ter oportunidade de aprender e desenvolver competências sociais.

Para o sucesso do trabalho em grupo é essencial tomar em linha de conta que a gestão da sala, com estas características, passa também por dar indicações de organização dos grupos (posicional), de níveis de barulho permitido, dar instruções claras e métodos para ir moldando o comportamento dos grupos (Kagan, 1994). Este autor refere ainda como estratégia eficaz para a gestão da sala de aula um sinal (levantar uma mão) para que a turma fique em silêncio, sempre que o professor considere necessário; clarificar as expectativas que o professor têm relativamente ao comportamento dos alunos, reforçando os aspectos positivos, tais como tomar atenção rapidamente, quando o professor faz o sinal de silêncio, aprecia comportamentos de inter-ajuda, de validação entre colegas, de estar atento às necessidades, opiniões e desejos dos outros.

A Avaliação Cooperada:

Ao se concluir a aula é importante fazer com que a avaliação emirja e se torne natural e reguladora, com o objectivo de que a próxima aula seja sempre melhor. Ora, a aula cooperativa tem duas vertentes, logo dá-se também duas avaliações diferentes: a avaliação do conteúdo académico e a avaliação das competências sociais. A primeira diz respeito a conteúdos matemáticos, à resolução de problemas, a actividades exploratórias, ou ainda a actividades de investigação. Todas estas formas de aprender têm diferentes verificações das aprendizagens, e que serão accionadas, nesta fase da aula. É importante salientar que a avaliação pretende-se rápida pois aqui o objectivo é fazer um resumo do trabalho realizado. No segundo caso, a avaliação das competências

UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA sociais, surge pela observação dos grupos, pela avaliação elaborada no interior do grupo e pela sua produtividade. A avaliação deve ser voltada para os alunos, para reflectirem sobre as suas acções, e sobre as dos colegas, para compreenderem que ajudar o grupo a concretizar a actividade potencia a aprendizagem das competências sociais, e pode dirigir as actividades futuras para uma determinada competência que os alunos considerem que devem treinar (Ib, 1990). De facto, a competência para utilizar a aprendizagem cooperativa consegue-se através do seu uso na prática lectiva, ao longo de bastante tempo, fruto da reflexão sobre essa prática e de pôr novamente em prática os ensinamentos resultantes dessa reflexão (Freitas e Freitas, 2002). Num estudo sobre as interacções em grupos em Matemática, o investigador sublinha que no início da experiência os alunos tinham dificuldades em trabalhar em conjunto, mas que depois de um período alargado no tempo os alunos valorizaram mais os processos de resolução das tarefas matemáticas do que os produtos a que chegavam; verificou-se uma maior persistência e envolvimento no trabalho, mesmo por parte dos alunos com maiores dificuldades; na organização do trabalho assumiram as regras para o trabalho de grupo, adoptaram forma de organização interna no grupo (como a leitura parcelar das fichas, divisão das tarefas e dos papéis); revelaram, no final da experiência, uma relação positiva entre o trabalho em grupo, a aprendizagem e o prazer de aprender Matemática (Machado, 1997).