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6. Discussão dos Resultados

6.8 A ausência de parceria e intersetorialidade

Quanto às ações intersetoriais, uma atitude ficou bem caracterizada, a de auto-suficiência dos técnicos da saúde, principalmente ao dispensarem ajuda de setores institucionais, representados pelo professores, que se ofereceram, mas foram dispensados; e de entidades comunitárias, como a Associação de Pais, que se apresentou para colaborar, mas foi subutilizada.

Quando grupos técnicos tomam esse tipo de atitude, estão agindo de forma estritamente redutora do campo de conhecimento, pois ao dispensarem as experiências acumuladas em processos de “ organização do conhecimento” dos professores, abrem mão ainda da compreensão que estes profissionais têm dos padrões culturais da comunidade de interesse das ações, adquirida no trabalho diário com as crianças e, conseqüentemente, no contato com seus pais.

Este comentário não implica dizer que técnicos de saúde desconhecem os padrões culturais da comunidade, pois também têm a prerrogativa de conviver com ela. No entanto, não só os educadores, mas os próprios grupos comunitários, como o grupo de pais e o grupo de jovens alijados do processo, possuem certamente outras experiências em trocas de conhecimento que poderiam levar os participantes do processo a um diálogo mais efetivo sobre os reais problemas daquela comunidade, o que, acredita-se, poderia despertar muito mais o interesse pelas ações educativas.

Entretanto, essa atitude de isolamento setorial não é de exclusividade de áreas técnico-científicas, pois segundo Rozemberg & Minayo (2001), os olhares reducionistas podem está onde menos se espera. Muitas vezes, os próprios grupos sociais também se enclausuram em seus discursos competentes, como o grupo de jovens do qual participa a agente de saúde que, segundo ela, faz visita ao hospital, mas não discute saúde do corpo, apenas do espírito. Cabe ressaltar, neste caso, a distinção feita entre vida interior (espírito) e exterior (saúde entendida como externalidade).

Esse distanciamento do Pesms em relação aos setores e aos grupos sociais evidencia a dificuldade de se alcançar a intersetorialidade, entendida como a participação de vários setores na articulação de saberes e experiências para alcançar efeitos sinérgicos em situações complexas, na compreensão de Junqueira (1998).

A ausência de práticas intersetoriais na aplicação do Pesms pode ser reflexo da falta de intra-setorialidade das áreas que atuam nas intervenções de saneamento (MSD e Pesms), o que teria os mesmos objetivos da intersetorialidade, mas voltados para os setores internos das instituições envolvidas.

Essa falta de intra-setorialidade é reflexo do “ insulamento” dos setores institucionais, também recorrente entre as áreas técnicas da Funasa, tanto os que supervisionam as obras de MSD quanto os que orientam as ações do Pesms, ações conjugadas em um mesmo projeto, que, no entanto, jamais são postas em uma mesa composta pelas duas áreas.

As visitas técnicas são realizadas em momentos distintos, e quando ocorrem concomitantemente é apenas pró-forme; uma área não pode “ opinar” sobre as atribuições da outra, por não ser de sua competência, como se o mundo da informação não estivesse aberto a todos; como se os técnicos da área social soubessem apenas ‘ler mapas’ e os profissionais da área técnica trabalhassem apenas em ‘territórios’, para usar uma metáfora de Rozemberg &

Minayo (2001), ao tratar de um outro mito que dicotomiza o mundo do saber entre os que

‘pensam’ e os que ‘fazem’.

Desta forma, o fato de a participação não ser estimulada, nem mesmo por aqueles que a propõem, repercute-se nos demais níveis relacionados ao Programa - regional, local, institucional, social e comunitário.

Esse desvio da “ lógica intersetorial” representa sério risco para os objetivos de mobilização social do Pesms, pois, segundo Inojosa (1998), esta lógica pode ser bem mais

permeável à participação do cidadão já que suas necessidades se apresentam como no mundo real, intrinsecamente integradas, contribuindo para a reformulação da relação Estado Sociedade.

6. 9 Outras reflexões sobre a opção pedagógica dos Pesms

A falta de uma reflexão pedagógica que fundamente as ações educativas, conforme detectado nesta Pesquisa, está muito ligada a uma espécie de ditadura da urgência (Valla, 1993), em que os técnicos do governo são levados a aplicarem os recursos apressadamente, sem o planejamento e sem as consultas populares necessárias para a detecção das verdadeiras necessidades sociais.

Segundo Valla (1993), após décadas de dívida social, notadamente pela falta de investimentos federais, estaduais e municipais em saneamento básico, esses governos trabalham sempre com questões emergenciais, principalmente culpabilizando as próprias vítimas, as classes subalternas (Valla, 2000), pela sua própria desqualificação do saber técnico.

A desqualificação não só do saber técnico mas do próprio saber popular leva os aplicadores de ações educativas, preocupados com mudanças comportamentais em relação às atitudes saudáveis e à adesão às intervenções governamentais, a se preocuparem simplesmente com a transmissão da informação ao seu público.

O uso das técnicas educativas identificadas nesta Pesquisa ilustra a adoção da pedagogia tradicional, baseada na simples transmissão dos conteúdos, ou educação bancária, como diria Paulo Freire (1988), a qual parte do pressuposto de que o educando é um recipiente vazio de informações.

Essa pedagogia desvaloriza os saberes, valores, crenças, enfim, os padrões culturais dos sujeitos da aprendizagem, promovendo o “ etnocentrismo” , em que somente são válidos os conhecimentos acadêmicos legitimados pela classe hegemônica.

A fim de superar o etnocentrismo, Paulo Freire propunha a “ síntese cultural”

(Wesphal, 1998), na qual não se nega “ visões de mundo diferentes” entre os que ensinam e os que aprendem nem a “ invasão cultural” por parte daqueles que assumem posturas dominadoras, mas permite que numa relação dialógica ambas as partes colaborem no desenvolvimento de prioridades e na escolha da direção das ações.

O Pesms teria avançado mais se partisse dos pressupostos freirianos, pois como pedagogia crítica, o modelo de Freire tem sido apontado por diversos autores como uma importante contribuição para a promoção da saúde, especificamente para a educação em saúde (Kickbusch, 2001, McQuiston et al., 2001; Nutbeam, 2000; Wang, 2000 apud Pereira, 2003;

Rozemberg & Minayo, 2001; Wesphal, 1998).

Não obstante à contribuição da pedagogia crítica, numa perspectiva integradora do indivíduo com seu grupo social, as práticas educativas/comunicativas necessitam avançar para além da discussão coletiva (Assis, 1998; Rozemberg, 2002), a fim de atingir os níveis individuais de manifestação dos sentidos produzidos não só pelas lideranças ou representantes, mas por todo sujeito comunicativo envolvido na ação educativa.

Os processos educativos necessitam desenvolver-se por meio da Ação Comunicativa, numa postura integradora de sujeitos e coletividade, em que o técnico é não mais que um facilitador do processo e não menos que um sujeito dessa “ comunidade de aprendizagem” , na qual os “ sentidos” ali produzidos sejam negociados, negados ou compartilhados, tanto no nível individual quanto no coletivo, de forma que o produto nascido dessa relação dialógica seja legitimado pelas “ consciências” individual e coletiva, e não só por regras supostamente democráticas.

Não se trata aqui de culpabilizar um grupo por utilizar métodos que já não se adequam à realidade, como a transmissão de conteúdos de forma unidirecional, mas de alertar para o fato de que esse uso é apenas reflexo de atuações empíricas, baseadas na repetição de práticas recorrentes que não produzem os efeitos esperados, mas vêm se perpetuando pela falta de uma

“ reflexão pedagógica” sobre as práticas supostamente educativas em curso.

O estudo evidenciou a importância da interação direta entre técnicos e população. Os efeitos positivos das visitas domiciliares são percebidos nas falas de todos os grupos de entrevistados: gestores, técnicos e beneficiários, evidenciando a aprovação dessa técnica educativa/informativa, que foi desenvolvida historicamente pelos guardas de endemias e divulgadoras sanitárias da Sucam, pelos auxiliares de saneamento e visitadoras sanitárias da FSESP, e, hoje, são mantidas pelos agentes de saúde do SUS (PACS, PSF, FUNASA).

Passávamos nas casas, orientava o modo de lavar os banheiros, cuidar direitinho dos banheiros, lavar a pia, o vaso e lavar bem o chão, porque eles tinham era privada, depois construiu os banheiros. Quando eles tinham privada nós falávamos pra eles que tinha que lavar a privada, jogar desinfetante dentro da privada, pra não deixar aqueles mosquitos na privada. (Entrevista VI, agente de saúde)

Os agentes foram envolvidos, os médicos foram envolvidos, então quando chega um agente ou um médico os usuários escutam bem. Eles dão um pouco mais de atenção, dá mais crédito. Em melhoria sanitária durante a minha gestão nunca teve.

Primeiro foi esse de 2001. O que eu tenho observado é das melhorias que o Município faz para o usuário. Então eu vejo que eles davam menos valor que dão hoje, com o PESMS desses usuários que tiveram o programa (refere-se à MSD). (Gestora)

O povo da SUCAM chega aqui e fala que meu lote aqui é bem cuidado. (Entrevista 18) (Esta frase, que parece muito simples, revela um referencial de cuidado ambiental para o morador:

o agente de saúde, aquele que lhe cobra o cuidado e, neste caso, o aprova.)

Confirma-se, entretanto, nos depoimentos colhidos nesta Pesquisa, uma postura comunicativa unilateral, em que o usuário somente ouve. Essa postura permanece, para todos, inclusive para ele como adequada. Mas, ao se analisar esta situação comunicativa, percebe-se que não há interlocução, ato essencial no processo educativo, pois, segundo Freire (1988:69),

a educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados” .

Cabe, então, um questionamento: os depoimentos estão equivocados quando demonstram esta postura passiva do morador no ato comunicativo? Ou seria a própria situação de submissão do beneficiário ao técnico, já compartilhada por ambos, que mascara um possível diálogo existente, o qual não é exposto, tendo em vista que a intenção do técnico é mostrar que informou e ensinou, enquanto a postura do usuário é demonstrar que ouviu com atenção tudo que lhe foi dito, a fim de agradar o entrevistador?

Isto caracterizaria mais uma vez a concepção tradicional de aprendizagem, também admitida como padrão no meio popular, tanto pelo usuário como pelo agente, em que aquele que ensina é um sujeito ativo e dono do saber, enquanto aquele que deve aprender é passivo e submisso, embora não seja exatamente isso que ocorra no contexto atual, principalmente quando o usuário encontra-se no seu ambiente, sua casa, possuindo domínio do seu “lugar de fala” .

Entretanto, esses sujeitos têm essa concepção educativa tão arraigada que, mesmo tendo, possivelmente, vivenciado situações de diálogo, o que muitas vezes ocorre numa visita domiciliar (se não, por que seriam tão valorizadas?), ainda permanecem demonstrando a idéia de um processo comunicativo equivocado em que um sujeito somente fala e o outro somente escuta.

É possível inferir ainda que esses sujeitos acreditam que esta seria a “ resposta adequada” para dar ao entrevistador, que para ele é um representante institucional, que

necessita ser, de certa forma, “ agradado” , pois as pessoas procuram adaptar sua fala à das instituições, identificando um lugar de fala para lidar com cada uma delas (Araújo, 2003).

Assim, são inócuas as recomendações de diálogo e de escuta mútuas quando o que se ouve da população parece eco da fala técnica, os atores estão em um jogo de fala, marcado por desmotivação ou hábitos gerados por práticas clientelistas e paternalistas.

É provável, contudo, que a visita domiciliar, única ação que permite que as orientações sejam passadas individualmente, ao permitir o contato dos técnicos com os beneficiários, gere nestes uma expectativa de que, atendendo à solicitação daqueles, ampliarão suas chances de se manterem nas listas de beneficiários de outras ações que venham a ser executadas pelo Município.