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6. Discussão dos Resultados

6.3 Os objetivos do Pesms

Os módulos sanitários são valorizados pelo fato de significarem o acesso ao

conforto” de terem finalmente um banheiro, o que representa melhora de vida, deixando para trás o desconforto de tomar banho apertado, para não ser visto da rua, e fazer as necessidades em casinhas com buracos, sempre aperreado pelos mosquitos que se acumulam nesses ambientes insalubres. Certamente, nessa visão está inclusa uma nítida relação com o conceito ampliado de saúde, que corresponde ao desejo de viver em ambiente saudável.

Qualidade de vida para essa comunidade, entre outras coisas, pode estar no simples fato de possuir um banheiro, uma casa melhorada, e poder equiparar-se ao vizinho; de não se expor nas ruas ao tomar banho; nem às picadas de insetos, ao utilizar áreas inadequadas para o banho. O módulo sanitário pode não estar, para ela, relacionado ao significado de saúde, tão influenciado pela biomedicina, mas está ao de qualidade de vida, que supõe a visão ampliada e desejável da Saúde.

relacionadas com o paradigma da Promoção da Saúde, mas que, como demonstram, os resultados deste estudo, destoam da cultura partilhada por técnicos e gestores, o que pode ser extensivo a muitos municípios do País.

Outra diferença significativa que influenciou certamente a execução das ações educativas do Pesms está no objetivo específico que, na primeira versão, era o alcance de 100% dos beneficiários informados e orientados sobre a utilização adequada das instalações sanitárias em seus domicílios (Processo, 2001:50) e na segunda, além de “ uso adequado” , foi acrescentado “ adesão” e “ conservação” da melhoria habitacional implantada, promoção da saúde e prevenção de agravos evitáveis por essa ação de saneamento” (Brasil, 2003a).

Os objetivos do Pesms foram, então, ampliados, de forma a considerar explicitamente diretrizes da Promoção da Saúde, como habitação saudável, ações educativas continuadas e

‘participação e organização comunitária’, no objetivo geral, além de manter a diretriz epidemiológica voltada para a prevenção dos agravos evitáveis pela ação de saneamento, mas, neste caso, como objetivo específico.

Não se pode, desse modo, analisar a visão dos técnicos considerando os objetivos atuais do Programa, tendo em vista que eles oficialmente trabalhavam com a versão anterior, centrada numa visão da Epidemiologia, e não da Promoção da Saúde, como traz a versão atual. Vale, entretanto, considerar que as ações desse Programa, em Nerópolis, foram desenvolvidas nos meses de junho, julho e agosto de 2003, quando já se havia feito a revisão desses objetivos.

Cabia, portanto, à Supervisão do Pesms, por parte da Funasa, reorientar essas diretrizes aos técnicos e gestores do Município, ou, pelo menos, informá-los oficialmente das mudanças, a fim de que estes procurassem se atualizar a nova diretriz do Programa. Porém, seria ingênuo supor que a mera revisão dos objetivos fizesse frente a uma cultura arraigada na biomedicina e no tecnicismo, com pouca tradição de envolvimento e participação comunitária.

Outra diferença a ser considerada é o novo direcionamento dado às ações educativas em relação às orientações sobre as melhorias sanitárias, que antes se atinham ao uso adequado das instalações, acrescentando-se, na revisão, orientações sobre adesão e conservação.

A palavra adesão implica a idéia de anterioridade da ação educativa em relação à ação de saneamento, remetendo à necessidade de participação da comunidade na escolha da ação de saneamento que ela gostaria de receber.

Porém, o Pesms é orientado para ser aplicado no período de execução da ação de saneamento, quando não mais é possível qualquer interferência da comunidade quanto ao tipo de empreendimento a ser implantado, tendo em vista que tudo já fora contratualizado com a instituição financiadora, em obdiência à Instrução Normativa n.0 01/97, da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), que disciplina a celebração de convênios de natureza financeira, não admitindo alteração do seu objeto (Brasil, 2000, 2001, 2002).

Por esse motivo, o Pesms de Nerópolis não teve suas atividades orientadas para a adesão da comunidade à intervenção de saneamento, além do que esse objetivo não era conhecido pela equipe de aplicadores das ações educativas.

Por outro lado, há questões que poderiam ter sido melhor encaminhadas se a equipe tivesse possibilitado a participação da comunidade nas decisões mínimas como, por exemplo, na definição do local mais adequado para implantação do módulo no domicílio, pois ao longo das entrevistas observou-se que alguns beneficiários, depois da implantação, retiraram a pia de cozinha da proximidade do módulo e a instalaram na cozinha, local mais adequado à utilidade dessa melhoria.

Assim, os técnicos centraram-se na orientação sobre uso adequado, embora os próprios usuários tenham demonstrado ser uma orientação desnecessária, pois, segundo eles, não houve dificuldades em utilizar os módulos sanitários para as finalidades adequadas, inclusive sem nenhuma resistência ao uso por parte de qualquer pessoa da família ou visitantes da casa.

Sendo assim, o mito de que as populações rurais apresentam resistência à utilização dos módulos sanitários para as finalidades adequadas (Rozemberg, 1998) não se confirmou, nesta Pesquisa, valendo ressaltar que se trata no caso de Nerópolis, de uma região urbana em que a maioria dos beneficiários já havia tomado conhecimento dessas instalações sanitárias, pois embora não as tivessem em seus próprios domicílios, as conheciam provavelmente pela vizinhança ou em residências de seus próprios familiares.

A respeito da conservação das instalações, os técnicos adotaram essa orientação no sentido de manutenção preventiva, o que pode ser relacionado à idéia de sustentabilidade no âmbito da Funasa. Neste caso, é provável que em reuniões e contatos com os técnicos da Fundação esta idéia tenha sido partilhada com os representantes da Prefeitura.

Os objetivos de sensibilizar os gestores e as organizações sociais para a importância da efetiva participação da comunidade no desenvolvimento de ações de prevenção e controle de doenças; contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população; incentivar a cidadania;

e otimizar a aplicação de recursos orçamentários e financeiros (Brasil, 2000, Guimarães, 2000), não foram desenvolvidos, exceto no que tange à idéia de melhoria da qualidade de vida, que foi mencionada por dois técnicos (Entrevista II e IX) e um gestor (Entrevista X) entrevistados.

Como se pôde constatar, essa contribuição para a melhoria da qualidade de vida está presente na fala dos beneficiários, ao manifestarem sua satisfação com a aquisição dos módulos sanitários, valorizado-os pelo fato de significarem o acesso ao “conforto” que lhes garantiria maior privacidade e o uso de locais mais higienizados e sem a presença de insetos.

Quanto ao objetivo de sensibilizar os gestores municipais e as organizações sociais, há na programação de atividades (Anexo VII) o apontamento de reuniões com algumas autoridades. Entretanto, não há no decorrer das entrevistas esclarecimentos sobre os resultados dessas reuniões nem mesmo sobre seus objetivos.

Por fim, cabe uma consideração sobre o objetivo específico do Pesms: “ informar todos os beneficiários sobre o uso adequado das instalações sanitárias” , o qual foi ampliado para

“ 100% dos beneficiários informados e orientados sobre adesão, conservação, promoção da saúde e prevenção de agravos evitáveis por ação de saneamento.”

Mais uma vez se confirma o mito do poder da informação, em que, ao invés de os técnicos se voltarem para os objetivos relacionados à participação da comunidade, cidadania e mobilização social, concentram seus esforços apenas em “ disseminar conhecimentos” para a população, sobre higiene, prevenção de doenças e cuidados com a manutenção das melhorias, expressando a crença de que as pessoas só não perseguem estilos de vida saudável por não terem conhecimentos suficientes para fazer melhores escolhas, e que, uma vez informados pelos profissionais, isso ocorrerá (Goode apud Rozemberg & Peres, 2003).

Esses mitos relacionados ao poder da transferência de informações são recorrentes na memória institucional no campo da saúde e reemergem nos programas de promoção e prevenção primária (Baillie apud Rozemberg & Peres, 2003), o que concorre para o fracasso dos programas educativos, por não levarem em conta e muitas vezes violarem os padrões culturais do público envolvido.