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A autodeterminação reflexiva do pensamento

No documento O problema do começo da lógica em Hegel (páginas 116-121)

3.4 A AUTOFUNDAMENTAÇÃO DA LÓGICA E O MOVIMENTO LÓGICO A

3.4.1 A autodeterminação reflexiva do pensamento

A negatividade representa uma dimensão do pensamento reflexivo determinante. Assim, opera de forma progressiva e constante, representando o movimento imanente do processo de reflexão. A contradição vislumbra-se como um operador da reflexão absoluta, impulsionando o processo lógico objetivo, ainda que

seja apenas um momento dessa relação mais ampla do pensamento ou do lógico objetivo. À contradição subjaz a relação de identidade e diferença. A contradição representa uma forma de determinação do absoluto, voltado sobre si mesmo via reflexão.

O lógico, ou o pensamento fundamental, na compreensão de Hegel, transcorre em um processo totalmente imanente a si mesmo. Isso somente é compreensível porque as categorias e conceitos adquirem, em Hegel, o status de determinação lógico objetiva. Conceitos e categorias não são mais compreendidos como formas subjetivas, produção da subjetividade, mas elementos da estrutura lógica objetiva do absoluto que se expõem como determinações do pensamento objetivo. O pensamento expressa igualmente o ser, visto que as categorias do ser são igualmente categorias do pensar.

O problema central é que a contradição em Hegel representa uma dimensão operativa da reflexão, circunscrito ao âmbito lógico, em que, afinal, toda a diferença se dissolve. A contradição surge dentro do horizonte do lógico e aí se resolve. O absoluto se desdobra sobre si mesmo, enquanto reflete sobre os seus próprios pressupostos.

Sendo assim, o pensamento lógico objetivo e imanente opera mediante determinações progressivas na esfera do ser e do pensar, formando uma grande unidade imanente. O pensamento lógico objetivo supera as formas lógicas da reflexão, como ocorre na filosofia de Kant. Hegel observa que, em Kant, os conceitos da reflexão ainda operam analiticamente como puras formas tautológicas.

Até onde vai Hegel com o princípio da contradição? Pretende superar todas as formas de filosofias, marcadas pelo pensamento que se movimenta pela dualidade. Portanto, o conceito de contradição se impõe como uma mediação lógico-

necessária no desenvolvimento imanente do processo de pensamento lógico- objetivo, superando a contraposição própria da reflexão subjetiva, contraposta à dimensão objetiva do ser, cerne da reflexão pura.

Essas são formas puras de reflexão, eis que assumem implicitamente uma relação dual com a realidade. Não são formas objetivas, porque não saem do âmbito da subjetividade. Assim, as formas puras de pensamento, restritas à atividade subjetiva, ficam no meio termo da dimensão lógico-objetiva do pensamento. Especialmente, porque elas não consideram positivamente a dimensão negativa, como propõe o pensamento especulativo. Hegel, ao contrário, entende que o movimento lógico é determinado de forma intrínseca, como totalidade autodeterminante, sendo que as relações, propostas pela reflexão, são imanentes, cujo fundamento é o próprio desdobramento lógico objetivo, operando estágios e processos no desenvolvimento das determinações do pensamento.

O processo de determinação de pensamento em si e tem caráter imanente e autodeterminante. Assim, Hegel confronta, de forma explícita, a filosofia da reflexão, especialmente a de Kant, por entender que, na compreensão de Kant, os momentos de determinação do processo lógico transcorrem ainda em um processo de pensamento puramente analítico, formal.

Hegel compreende, contrariamente, que os graus da reflexão que põem e a reflexão extrínseca constituem implicitamente os momentos de determinação, superando as formas de dualidade do pensamento. A reflexão sempre pressupõe uma base especulativa fundante que, pelo fato de a pura reflexão ser simplesmente analítica, não tem condições de percebê-la. Por isso, a passagem ao nível da determinação reflexiva se dá, quando se compreende que as esferas de

interioridade e exterioridade se encontram fundidas e relacionadas, ocorrendo aí já à primeira fase de superação da reflexão que põe.

A lógica determina-se intrinsecamente, sendo que todo o seu movimento é circular. O absoluto é autorreferencial, não sai de sua base de reflexão determinante. A passagem de um grau a outro se desenvolve na esteira do pensamento determinante. Podem ser percebidos dois aspectos importantes nessa fase de desenvolvimento da determinação. A primeira fase mostra que a reflexão que põe, sendo ainda uma fase da reflexão exterior, carrega pressupostos equivocados. Em segundo lugar, Hegel mostra que essas fases levam a um grau mais profundo de determinação, em que estas são superadas, conduzindo à reflexão determinante, imanente e objetiva.

O Absoluto é reflexão, este é um importante postulado hegeliano que define a perspectiva do processo de determinação imanente. Reflexão não mais é compreendida como uma atividade subjetiva, mas um processo de desenvolvimento da lógica objetiva. Trata-se de um processo de pensamento, voltado sobre si mesmo, sendo que se reconhece imanente no mundo externo, correlacionado com o interior do pensamento. É uma mediação, na medida em que o absoluto se autodetermina, passando pela diferença, desdobramentos, ainda que circunscrito ao círculo lógico especulativo.

Pode-se dizer também que é um movimento constante do aparente ao essencial, ao conceito. Assim,

[...] em primeiro lugar, a reflexão põe. Em segundo lugar, produz o começo pela percepção do imediato pressuposto, sendo, assim, reflexão extrínseca; em terceiro lugar, eleva esta pressuposição e, na medida em que eleva a pressuposição, ao mesmo tempo, a pressupõe, é reflexão determinante.191

Essa terceira forma, reflexão determinante, sintetiza os graus anteriores, em função de incorporar elementos de ambos.

Importa aqui ver que a primeira fase dessa reflexão determinante marca a relação da negatividade ainda como uma reflexão exterior, sendo que ali a negatividade ainda não se autocompreendeu como interna e relacional. Hegel afirma que “[...] a absoluta reflexão consiste no movimento do nada ao nada, determinando- se a si mesma”.192 O absoluto é reflexão, e a aparência indica a primeira fase de sua negatividade positiva. Positiva, porque a negação do que aparece conduz à verdade do aparente. A reflexão põe o ser como uma determinação do pensamento. Assim, na aparência, já há um começo de superação no processo de reflexão. A oposição que aparece nessa fase de reflexão já não é mais uma negação pura, excludente. Portanto, uma percepção consequente desse movimento na reflexão deve compreender que esse processo de reflexão representa uma primeira fase na superação da pura reflexão.

A reflexão, nos limites da aparência, reflexão sobre si mesma, passa de uma negatividade a outra, por um processo de identidade imediata, em cuja forma ocorre a negação da negação e alcança o primeiro nível do ser. Ser que se compreende como relação, justamente porque é apresentação sumária da reflexão determinante. No entanto, na reflexão da forma pura da aparência, o ser ainda aparece como inessencial, como o movimento da reflexão que põe o nada como nada. Ainda não um nada que constitui o ser em relação.

Notabiliza-se aqui a ocorrência de um movimento reflexivo sobre o ser, o início da consideração do pensamento determinante, determinando-se em sua base mínima originária. “O relacionamento do negativo a si mesmo constitui o seu retorno

a si [...]. Nisso consiste o ser posto, a imediação, considerada puramente como determinação, ou seja, posto que se reflita”.193 “Ela é um pôr, posto que seja a imediação como retorno. Efetivamente, ainda não está presente um outro [...], ela existe somente como voltar ou como negativo de si mesma”.194

A reflexão que põe representa o primeiro grau da reflexão determinante da lógica imanente, mas ainda é uma determinação apenas parcial. A reflexão ainda não atingiu o grau da reflexão lógico-especulativa plena.

3.4.2 A natureza da reflexão extrínseca (die äußere Reflexion) na negatividade

No documento O problema do começo da lógica em Hegel (páginas 116-121)