CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA MODALIDADE E DA
1.6. A auxiliaridade verbal
Visto que o verbo deber, além de ser considerado um modal, é também um verbo comumente tratado como auxiliar, mas não de forma idêntica por todos os autores, é necessário discutir algumas questões relacionadas à auxiliaridade verbal. Assume-se, neste trabalho, que o estatuto categorial de um verbo está relacionado diretamente com a função que ele desempenha (NEVES, 2000; ILARI; BASSO, 2008), de modo que o verbo é considerado como auxiliar quando apresenta função gramatical (ou com aspectos mais próximos da gramática) e quando o predicado a ele associado apresenta características semânticas de verbo pleno.
Assim como a conceituação e a delimitação do tema da modalidade resulta em um campo do saber bastante conflituoso, a auxiliaridade verbal também apresenta dificuldades em sua categorização, pois, de acordo com Lobato (1975, p. 27) a classificação de um verbo como auxiliar trata “ora de um sistema fechado de número variável de elementos nunca coincidentes, ora de um sistema aberto de número ilimitado de elementos”.
Para Pontes (1973), que estudou a auxiliaridade no português brasileiro, o estatuto categorial de um verbo auxiliar é explicado do seguinte modo: o verbo principal da estrutura V1 + V2, sendo V1 o verbo auxiliar e V2 o verbo principal, pode tomar como complemento outro verbo. Nos casos em que V2 constitui uma oração com função de complemento
oracional da construção linguística, V1 configura-se como não auxiliar, e a função atribuída a ele é nominal, visto que se trata de um verbo transitivo. Nessa perspectiva, é proposto pela autora, com base em aspectos puramente sintáticos, que alguns verbos, que não tomam uma oração como complemento, são auxiliares, como ser, estar, ter, haver e ir, enquanto outros verbos, que podem tomar uma oração como complemento, são auxiliantes, como dever.
Para outros autores (NEVES, 2000; ILARI; BASSO, 2008), um verbo auxiliar desempenha função mais gramatical por apresentar características de pessoa, número, tempo e modo verbal mais restritas/ específicas do que um verbo de caráter lexical. Outra distinção relevante a se observar é que o verbo de significação plena permite a substituição por um elemento nominal, confirmando seu caráter lexical. Já um verbo auxiliar não permite essa permutabilidade com elementos nominais.
Para Ilari e Basso (2008), a distinção entre um verbo de significação plena e um verbo auxiliar deve ser feita por meio da distinção entre léxico e gramática. Tal estratégia esclarece a diferença de estabilidade entre esses verbos porque
enquanto a língua cria todos os dias e com grande agilidade novas palavras de sentido pleno, parte das quais acaba se incorporando ao patrimônio lexical da língua, vários séculos podem ser necessários para consolidar uma nova construção gramatical (ILARI; BASSO, 2008, p. 177).
A diferença de estabilidade entre um verbo de significação plena e um auxiliar mostra, também, o processo histórico de mudança linguística: o processo de gramaticalização. Este processo diz respeito aos itens lexicais que perdem seu significado inicial para adquirirem, ao longo da história, novos matizes semânticos, com funções e estruturas específicas, consolidando-se em novas construções gramaticais.
De acordo com Hopper e Traugott (2003 [1993]), o processo de gramaticalização é caracterizado pela mudança linguística gradual e unidirecional, de modo que os elementos lexicais passam a desempenhar funções gramaticais, ou elementos gramaticais adquirem funções ainda mais gramaticais. Para os autores, ao se tratar de gramaticalização é fundamental a compreensão do conceito de cline, pois
do ponto de vista da mudança, as formas não mudam abruptamente de uma categoria para outra, mas por meio de uma série de pequenas mudanças, transições que tendem a ser similares através das línguas (HOPPER; TRAUGOTT, 2003, p. 6).39
39 No texto original: From the point view of change, forms do not shift abruptly from one category to another, but go through a series of small transitions, transitions that tend to be similar in type across languages.
Os autores concebem cline como um continuum, um arranjo de formas ao longo de uma linha imaginária, que se inicia com uma forma lexical e finaliza com uma forma compacta e reduzida, ou seja, uma forma gramatical. Nessa linha imaginária, há pontos de arbitrariedade entre as formas, distribuídos gradualmente em:
Item lexical > palavra gramatical > clítico > afixo
Cada item da direita dessa linha imaginária é mais gramatical e menos lexical do que o item a sua esquerda. No entanto, ainda segundo Hopper e Traugott (2003), é difícil estabelecer os limites entre uma forma e outra.
Dentro dessa visão histórica das línguas, pode-se afirmar que os verbos auxiliares, antes de serem mais gramaticalizados que os verbos plenos, ou seja, antes de se consolidarem como uma nova construção gramatical, passam por um processo em etapas “não estanques” (ILARI; BASSO, 2008; CASTILHO, 2010), cuja sequência, segundo Castilho (2010), não é obrigatória, conforme ilustra a figura a seguir:
Verbo Pleno Verbo com matizes Verbo Auxiliar
de pleno e de auxiliar
Figura 4: Etapas de gramaticalização que os verbos percorrem.
Como se pode observar na figura 4, durante o processo de gramaticalização, os dois tipos de verbos, verbo de significação plena e auxiliar, podem ser localizados dentro de um mesmo continuum, que permite observar os graus de gramaticalização do verbo. Nesse continuum, há nuanças que se interpõem entre as características, funções e valores de um extremo e outro.
Heine (1993) também propõe que o estatuto categorial de um verbo seja considerado como um continuum, que permite observar uma trajetória gradual de mudança. Nessa proposta, o autor denomina cada etapa de A, B, C, D, E, F e G, as quais são subjacentes às mudanças de dessemantização (que diz respeito à perda de conteúdo semântico), decategorização (que diz respeito à mudança de classe gramatical), cliticização (integração do item ao verbo principal) e erosão (perda de substância fonética). Com base nessa proposta, podem-se estabelecer as seguintes correspondências: nas etapas A e B do processo de
gramaticalização, os verbos podem ser considerados de significação plena; na etapa C, os verbos podem ser considerados como semiauxiliares; nas etapas D e E, os verbos são considerados como auxiliares; na etapa F, os verbos são considerados como afixos; por fim, na etapa G, os verbos são considerados como marcadores gramaticais.
Conforme se pode observar, dentro dessa perspectiva de mudança dos elementos linguísticos em etapas graduais, a auxiliaridade é apenas uma etapa intermediária de um ciclo/ cline/ continuum completo. Assim sendo, defende-se aqui a necessidade de se reconhecer outros verbos, além dos tradicionais haver, ter e ser, como auxiliares, ou como verbos que estão a caminho desse processo de gramaticalização.