CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA MODALIDADE E DA
1.7. Perífrases verbais
Para o melhor entendimento sobre o conceito de verbo auxiliar, é necessário discutir o que se entende por perífrase verbal, uma vez que o verbo auxiliar é considerado, de forma não idêntica pelos autores, como um elemento constituinte de perífrase. Nesta seção, serão discutidos alguns aspectos que delimitam um verbo auxiliar como perifrástico na literatura.
Olbertz (1998, p. 32), que estuda a auxiliaridade e a natureza de perífrases verbais no espanhol, define perífrase verbal como uma “combinação produtiva e indissolúvel de um verbo lexical auxiliarizado com um predicado verbal em uma forma não-finita específica”.40 Ou seja, perífrase verbal é uma construção linguística de estrutura V1+V2 na qual se relacionam um verbo conjugado (V1), ou na terminologia de Olbertz (1998) forma finita, e um verbo na forma impessoal (V2), ou forma não-finita. A função dessa combinação, para a autora, é a mudança semântica do que é expresso pelo predicado não-finito e seus argumentos.
De um modo geral, alguns linguistas, como Ilari e Basso (2008), assumem que perífrase verbal é a construção gramaticalizada que perdeu parcial ou completamente o significado original. No entanto, de acordo com Gómez Torrego (1999), tal generalização sobre o tema pode ser problemática para uma análise detalhada de verbos auxiliares pelo fato de que existem perífrases verbais cujos verbos auxiliares mantêm seu significado original. Como exemplos de verbos que não apresentam diferenças semânticas do significado original e do auxiliar, Gómez Torrego (1999, p. 3345) menciona os verbos empezar e acabar, nas seguintes estruturas:
40 No texto original: periphrasis is the productive and indissoluble combination of an auxiliarized lexical verb with a verbal predicate in a specific non-finite form.
(44)
Empezó el partido.
Empezó a jugarse el partido. He acabado de trabajar. He acabado el trabajo. ‘Começou o jogo. Começou-se a jogar. Acabei de trabalhar. Acabei o trabalho.’
Pode-se observar, por meio desses exemplos, que a afirmação de Gómez Torrego (1999) a respeito da manutenção do significado original de V1 é passível de críticas, uma vez que não está em consonância com o processo de dessemantização do verbo. Nos casos supracitados, V1 retém traços sêmicos da estrutura verbal de que se originou, porém isso não se configura como “manutenção do significado original” conforme havia proposto o autor.
Para alguns autores, como Fernández de Castro (1998) e Gómez Torrego (1999), a construção perifrástica envolve noções sintáticas e não noções puramente semânticas, porque a construção de perífrase é uma expressão que mantém uma relação de interdependência entre os dois elementos. Nessa proposta, a construção que apresenta autonomia categorial entre os seus componentes não é considerada perifrástica porque, em caso de autonomia, o valor de conjunto se perde.
Por sua vez, Pontes (1973) e Lobato (1975), em suas análises do português, propõem que a categorização das perífrases inclua tanto estruturas rígidas, cujos verbos principais apresentam função exclusivamente gramatical, em contextos perifrásticos (V1+V2) e fora deles, como estruturas rígidas cujos verbos principais apresentam função ora gramatical, em contextos perifrásticos, ora lexical, em contextos fora de perífrases. Para fundamentar essa proposta, as autoras distinguem os verbos principais de contextos perifrásticos, isto é, de uma estrutura V1 + V2 em auxiliares e semiauxiliares.
Segundo Pontes (1973) e Lobato (1975), apenas os verbos haver e ter podem ser considerados como auxiliares de fato, porque apresentam função exclusivamente gramatical associada a eles. Outros verbos, como deixar, mandar, fazer, querer são considerados semiauxiliares (na terminologia de Pontes) ou auxiliantes (na terminologia de Lobato), pois conservam o seu significado lexical fora de contextos perifrásticos.
Olbertz (1998) estabelece, com base na distinção entre verbos auxiliares e semiauxiliares, que as perífrases verbais podem ser de dois tipos: parcialmente perifrásticas ou completamente perifrásticas. O primeiro caso, parcialmente perifrástica, diz respeito aos
verbos semiauxiliares e compreende construções cujo verbo principal apresenta aspectos gramaticais em estruturas fixas do tipo V1+V2, e aspectos lexicais, fora de estruturas rígidas, relacionados com a sua função. Como exemplo de construções parcialmente perifrásticas, Olbertz (1998, p. 215) menciona as seguintes construções verbais: comenzar/ empezar a + infinitivo (começar a + infinitivo), poder + infinitivo, soler + infinitivo (em português, costumar + infinitivo).
Já o segundo caso, completamente perifrástica, diz respeito às construções cujo verbo principal desempenha função gramatical em qualquer contexto linguístico, como a construção verbal ir a + infinitivo (em português, ir + infinitivo). No entanto, Olbertz (1998) observa que para se verificar o estatuto da construção linguística é necessária a aplicação de testes formais e semânticos.
Com os trabalhos desenvolvidos por Pontes (1973), Lobato (1975) e Olbertz (1998), pode-se verificar que a discussão a respeito da existência de verbos auxiliares e semiauxiliares, assim como a discussão a respeito de estruturas perifrásticas não é recente. Além disso, fica evidente que tais categorias são utilizadas para comprovar que a auxiliaridade e a estrutura de perífrase verbal não é algo estanque, e sim gradual e intermediário de mudança linguística. Desse modo, assim como as autoras, defende-se, neste trabalho, que algumas construções, como deber (de) + infinitivo, podem preencher parcial ou plenamente os parâmetros de auxiliaridade, sendo consideradas parcialmente e/ou completamente perifrásticas a depender do contexto linguístico que as envolve.
No Capítulo II, são apresentados os testes selecionados para a verificação da natureza verbal de deber, objeto de estudo deste trabalho, com base em Pontes (1973), Lobato (1975), Fernández de Castro (1998), Olbertz (1998) e Gómez Torrego (1999), além dos resultados obtidos com a aplicação desses testes. Também serão descritos os procedimentos metodológicos que serão utilizados na análise dos dados.
Em resumo dos conceitos discorridos ao logo deste Capítulo, o verbo deber pode servir à expressão das modalidades epistêmica, deôntica e volitiva. Tais valores podem ser abarcados dentro da GDF no Nível Representacional, atuando nas camadas do Episódio, do Estado-de-Coisas e da Propriedade Configuracional.
Considera-se, ainda, que este verbo modal, em contextos que licenciam a leitura deôntica, pode ser subdividido em subjetivo e objetivo a depender da fonte da qualificação modal e do tipo de ato deôntico. Por fim, é relevante considerar que o estatuto do verbo modal deber é discutido aqui com base na noção de continuum, podendo (ou não) ser concebido como auxiliar que está em uma etapa intermediária de mudança linguística.