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2. O PANTANAL EM SUA COMPLEXIDADE: NATUREZA, HISTÓRIA,

2.7 A bacia do alto Paraguai como unidade de gestão

Promulgada, dentre outros, com o objetivo de garantir a manutenção dos recursos hídricos para as presentes e futuras gerações, a Lei n. 9.433/1997, ao instituir a Política Nacional de Recursos Hídricos, positivou a possibilidade de que o território abrangido pela Bacia do Alto Paraguai — em que se insere o Pantanal propriamente dito — seja gerido como uma unidade.

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SILVA, Carolina Joana da. No ritmo das águas do pantanal, por C. J. da Silva e J. A. F. Silva. São Paulo: NUPAUB/USP, 1995, p.124.

Logo no art. 1º desta Lei verifica-se que;

Art. 1º A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos:

[...]

V - a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos;

A respeito, Irigaray assevera que:

O reconhecimento da bacia hidrográfica como unidade de gestão, decorre de imperativo ecológico, pois não se pode pensar no gerenciamento de um corpo d’água, sem considerá- lo em sua totalidade. Qualquer ação antrópica executada na nascente de um rio, pode repercutir até a sua foz, e a inadequada utilização de um curso d’água gera sempre externalidades que comprometem o uso múltiplo das águas pelos usuários localizados a jusante. 176

Isto se torna ainda mais emblemático no caso do Pantanal, cujo principal traço ecológico é representado pelo pulso de inundação e sua visceral ligação com os planaltos e chapadões circunvizinhos.

Assim, as políticas públicas e ações de Estado que digam respeito ao manejo, preservação, uso etc. dos recursos hídricos existentes na região da Bacia do Alto Paraguai deverão ser implementadas de modo a observar as correlações e interdependências inerentes ao conjunto de corpos d’água que compõem esta bacia, levando-se em consideração a solidariedade ecológica das microrregiões que a integram.

Além disso, a gestão destes espaços deverá ser o mais democrática possível, porquanto a conservação do meio ambiente, de per si, não justifica a exclusão dos atores sociais direta e indiretamente interessados.

Nessa toada, a Lei n. 9.433/1997 determinou que a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. (at. 1º, inc. VI)

Para tanto, deverão ser criados os Comitês de Bacia Hidrográfica, compostos por representantes do Estado, da sociedade civil e dos usuários

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IRIGARAY, C.T.J.H. Direito a água e direitos das águas no Brasil. In: IRIGARAY, Carlos Teodoro & MAZZUOLI, Valério (Org.). Novas Perspectivas do Direito Ambiental Brasileiro: Visões Interdisciplinares. Cuiabá: Cathedral, 2009, p. 10.

diretos dos recursos. Ademais, nas bacias em que existirem povos indígenas, terão acento representantes destes e da FUNAI. (art. 39, da Lei n. 9.433/1997)

Se por uma lado é bem possível que estes Comitês sirvam de instâncias legitimadoras de políticas públicas ambientalmente danosas e socialmente excludentes177, por outro, pode-se afirmar que é provável que venham a corporificar espaços de acirramento político, em que se tornarão evidentes os conflitos socioambientais que marcam a apropriação e utilização dos recursos naturais ao longo de todo o território brasileiro.

Contudo, não se pode negar que a previsão legal destes Comitês representa, ao menos em termos normativos, avanços do ponto de vista da gestão participativa dos recursos hídricos.

Dentre outras atribuições previstas no art. 38 desta Lei, caberá aos Comitês de Bacia Hidrográfica promover debates acerca de questões relacionadas a recursos hídricos e articular a atuação das entidades intervenientes, bem como aprovar o Plano de Recursos Hídricos da bacia.

Devendo ser elaborados de acordo com a Resolução CNRH n. 145/2012, os Planos de Recursos Hídricos se constituem

[...] no plano diretor para os usos da água. No plano devem ser definidas metas de racionalização de uso para aumento de quantidade e melhoria da qualidade dos recursos hídricos disponíveis, bem como os programas e os projetos destinados ao atendimento dessas metas. No plano são definidas também as prioridades para outorga de direito de uso da água, estabelecidas as condições de operação dos reservatórios, além de orientações e regras a serem implementadas pelo órgão gestor de recursos hídricos na concessão das outorgas. No plano também estarão as diretrizes e os critérios para cobrança pelo uso dos recursos hídricos. Enfim, o plano, como principal instrumento de deliberação do comitê, reúne as informações estratégicas para gestão das águas na respectiva bacia hidrográfica178.

177 Idem. Ibidem, p. 16. 178

Agência Nacional de Águas (Brasil). O Comitê de Bacia Hidrográfica: o que é e o que faz? Brasília:

SAG, 2011, p. 19. Disponível em <

http://www.ana.gov.br/bibliotecavirtual/arquivos/20120809150432_Volume_1.pdf > Acesso em 28 Mai. 2016

Assim, de suma importância a implantação do Comitê de Bacia Hidrográfica e a aprovação e implementação do respectivo Plano de Recursos Hídricos, representando, em princípio, a organização de espaços de debate cujos resultados poderão propiciar avanços socioambientais.

Não obstante, a Bacia do Alto Paraguai ainda não possui um Comitê. Diante disso, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, considerando, dentre outras circunstâncias, a instalação de empreendimentos hidrelétricos na Região Hidrográfica do Paraguai, bem como o uso e ocupação do solo nas regiões de planalto e seus impactos, em especial sobre o Pantanal, editou a Resolução CNRH n. 152/2013179, por meio da qual deliberou que caberá à Agência Nacional de Águas – ANA elaborar o Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai, devendo a formulação deste Plano ser acompanhada pelo Grupo de Acompanhamento da elaboração do PRH-Paraguai, formado por representantes do Estado, sociedade civil e usuários.

A prof. Débora Calheiros180 ressalta que, iniciada em dezembro/2014, a elaboração deste Plano tem enfrentado resistências no CNRH e ANA, justamente por representar a implantação de regras mais criteriosas para a utilização dos recursos naturais da região.

No entanto, a implementação do Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai, juntamente com a criação e atuação do Comitê desta bacia, representa a esperança de que a utilização dos recursos naturais aí localizados ocorra de maneira menos voraz e danosa, a fim de que a gestão deste espaço, sobretudo do Pantanal, busque ao máximo garantir a proteção e conservação do meio ambiente e a efetivação das condições indispensáveis para que as populações pantaneiras possam viver dignamente, de acordo com suas culturas e peculiares modos de ser, fazer e viver. No entanto, enquanto o Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai e seu respectivo Comitê não saem do papel, um expressivo conjunto de normas jurídicas nacionais e internacionais, por outro

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BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Resolução CNRH n.

152/2013. Disponível em <

file:///C:/Users/estagio/Downloads/Resolu%C3%A7%C3%A3o_152_Paraguai%20(1).pdf > Acesso em: 28 Mai. 2016.

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FONASC Pantanal – Mobilização do setor de pesca contra as barragens na região. Disponível em < http://fonasc-cbh.org.br/?p=14587 > Acesso em 28 Mai. 2016

lado, oferecem fecundas possibilidades legais e institucionais para a consecução de uma gestão sustentável do Pantanal.

3 DIREITO, SOCIOBIODIVERSIDADE E SUSTENTABILIDADE NO