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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO - UFMT FACULDADE DE DIREITO PROGRAMA DE MESTRADO EM DIREITO AGROAMBIENTAL ADRIANO BRAUN

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO - UFMT FACULDADE DE DIREITO

PROGRAMA DE MESTRADO EM DIREITO AGROAMBIENTAL

ADRIANO BRAUN

A DIMENSÃO SOCIOAMBIENTAL DA CRISE CIVILIZATÓRIA E AS POSSIBILIDADES LEGAIS PARA A EFETIVAÇÃO DE UMA GESTÃO SUSTENTÁVEL DO PANTANAL

MATO-GROSSENSE

CUIABÁ 2016

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ADRIANO BRAUN

A DIMENSÃO SOCIOAMBIENTAL DA CRISE CIVILIZATÓRIA E AS POSSIBILIDADES LEGAIS PARA A EFETIVAÇÃO DE UMA GESTÃO

SUSTENTÁVEL DO PANTANAL MATO-GROSSENSE

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, pelo Programa de Mestrado em Direito Agroambiental da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Mato Grosso.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Teodoro José Hugueney Irigaray

CUIABÁ 2016

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(5)

Às comunidades tradicionais e aos Povos Indígenas que lutam pelo direito de poder viver de acordo com suas culturas em um ambiente

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GRATIDÃO

A Deus, por tudo.

Aos meus pais, Inácio Braun e Maria Helena de Souza, pela vida e pela disciplina.

Ao Mestre Gabriel, pela União.

Ao meu irmão, Tarcísio José Braun, pela amizade e pela franqueza.

À minha querida companheira, Karine Krewer, pelo apoio e pela paciência diariamente renovados.

Ao Victor e à Cecília, pela lhaneza e pelo respeito.

À Helena Krewer Braun, pelo inefável sentimento de Amor.

A todos os professores e técnicos que labutam na Faculdade de Direito da UFMT, mormente aos professores do Programa de Mestrado em Direito Agroambiental, e especialmente ao prof. Dr. Carlos Teodoro José Hugueney Irigaray, pela orientação e pela sincera e despretensiosa amizade.

Ao prof. Dr. Pierre Girard que, no início deste percurso, me prestou valorosa orientação.

À prof. Dra. Débora Calheiros, pela atenção e boa-vontade.

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[...]

Nesse momento não

avançar é retroceder.

LEONARDO BOFF

(8)

RESUMO

A confluência de diversos fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais articulados em nível mundial provocou, a partir das últimas décadas do século XX, uma crise sem precedentes na História da Humanidade, cuja dimensão ambiental revela as deficiências ínsitas ao modelo de civilização mundializado pela Globalização Neoliberal. Na tentativa de superação dessa conjuntura surge a plurívoca noção de Sustentabilidade, amplamente aceita e utilizada nos mais diversos contextos com significações por vezes irreconciliáveis. A noção prevalente de Sustentabilidade orienta-se por uma racionalidade econômica que constitui o núcleo duro do modelo civilizatório responsável pela crise. A esta noção se contrapõe uma proposta de Sustentabilidade baseada em uma racionalidade ambiental, cuja expressão, embora ainda em construção, encontra expoentes nas comunidades tradicionais. Nesta abordagem o paradigma da sustentabilidade é analisado no contexto da crise civilizatória, considerando o Pantanal Matogrosse como um “locus” privilegiado de investigação, cujas peculiaridades refletem localmente o dilema socioambiental global. Nascedouro de inúmeros serviços ecossistêmicos, berço de uma riquíssima biodiversidade e lar de várias etnias indígenas e comunidades tradicionais, este patrimônio da humanidade segue cada vez mais ameaçado pelos impactos socioambientais oriundos do avanço de diversas atividades econômicas agudamente degradadoras. Esse quadro é agravado pela debilidade institucional resultante da ineficiente aplicação das leis ambientais somada à inadequada implementação de políticas públicas. A conjunção desses fatores limita a consecução de uma gestão capaz de harmonizar o incremento da qualidade de vida dos habitantes locais com a conservação do equilíbrio ecológico. Esta análise é complementada pelo exame do Marco Jurídico-constitucional Socioambiental como fundamento para a reformulação hermenêutica dos comandos legais incidentes sobre o Pantanal Mato-Grossense de modo a viabilizar a abertura de novas possibilidades de concretização de uma gestão socioambientalmente sustentável deste espaço.

PALAVRAS-CHAVE: Direito Agroambiental; Modernidade; Crise Socioambiental; Sustentabilidade; Pantanal Mato-Grossense.

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ABSTRACT

The confluence of various economic, social, political, cultural and environmental articulated factors worldwide caused, from the last decades of the twentieth century, an unprecedented crisis in human history whose environmental dimension reveals the deficiencies inherent in the model of civilization globalized by Neoliberal Globalization. In an attempt to overcome this situation arises the plurivocal notion of sustainability, widely accepted and used in many different contexts with meanings sometimes irreconcilable. The prevalent notion of sustainability is guided by an economic rationality which is the core of civilization’s model responsible for the crisis. Against this notion rises a proposal of Sustainability based on an environmental rationality, whose expression, although still under construction, finds exponents in traditional communities. In this approach the paradigm of sustainability is analyzed in the context of civilizational crisis, considering the Pantanal of Mato Grosso as privileged “locus” of research, whose locally peculiarities reflect the global environmental dilemma. Birthplace of many ecosystemic services, home of a rich biodiversity and several indigenous groups and traditional communities, this heritage of humanity follows increasingly threatened by social and environmental impacts from the advance of several degrading economic activities. This situation is compounded by the institutional weakness resulting of inefficient enforcement of environmental laws coupled with the inadequate implementation of public policies. The combination of these factors limit the achievement of a management able to harmonize the improvement of the quality of life of local people and the conservation of ecological balance. This analysis is complemented by examination of the Environmental Legal and Constitutional Framework as a foundation for the hermeneutic reformulation of legal commands applied to the Pantanal of Mato Grosso to enable a legal path whose realization will allow the opening of new possibilities for achieving a socially and environmentally sustainable management of this area.

KEYWORDS: Agro-Environmental Law; Modernity; Environmental Crisis; Sustainability; Pantanal of Mato Grosso.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1: Mapa da localização da Bacia do Rio Paraguai na América do Sul 60 Figura 2: Mapa com as Sub-regiões do Pantanal Mato-Grossense ... 62 Figura 3: Mapa com a classificação das diferentes áreas inundáveis da Bacia do Alto Paraguai em termos de nível e duração ... 65 Figura 4: Mapa com o Índice de Risco Ecológico da Bacia Hidrográfica do Paraguai, onde se localiza o Pantanal ... 84 Figura 5: Mapa da localização, do tipo e do estágio de licenciamento dos Projetos Hidrelétricos atuais e previstos na Bacia do Alto Paraguai, formadora do Pantanal Mato-Grossense ... 86

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Unidades de Conservação Estaduais situadas em MT ... 106 Tabela 2: Unidades de Conservação Estaduais situadas em MS ... 106 Tabela 3: Unidades de Conservação instituídas pelo Governo Federal ...107

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ANA – Agência Nacional de Águas APP - Área de Proteção Permanente ART - Artigo

AU - Área Úmida

CF - Constituição Federal CFC – Clorofluorcarbono

CNRH – Conselho Nacional de Recursos Hídricos CNZU - Comitê Nacional de Zonas Úmidas

EMPRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

IDH - Índice de Desenvolvimento Humano MAB - Man and the Biosphere

MS - Mato Grosso do Sul MT - Mato Grosso

ONG - Organização Não Governamental PCH - Pequenas Centrais Hidrelétricas PIB - Produto Interno Bruto

RE - Recurso Extraordinário

SESC - Serviço Social do Comércio STF - Supremo Tribunal Federal UC - Unidade de Conservação

UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso UHE - Usina Hidroelétrica

UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso

UNESCO - United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 12

1. DA MODERNIDADE À CRISE AMBIENTAL: O SURGIMENTO DA SUSTENTABILIDADE ... 16

1.1 O paradigma da Modernidade ... 17

1.1.1 A influência do Cientificismo Racional-Mecanicista ... 20

1.1.2 O papel do Liberalismo na consolidação do Capitalismo ... 23

1.2 O macroprojeto moderno-capitalista: progresso a qualquer custo ... 27

1.3 Da crise civilizatória à crise ambiental ... 32

1.3.1 A crise ambiental ... 38

1.3.2 As áreas úmidas no contexto da crise ambiental: um eloquente exemplo dos conflitos socioambientais oriundos da expansão indiscriminada do Capital ... 41

1.4 Sustentabilidade: racionalidade econômica X racionalidade ambiental .... 46

1.5 A resposta do direito à crise ... 54

2. O PANTANAL EM SUA COMPLEXIDADE: NATUREZA, HISTÓRIA, SOCIEDADE E A QUESTÃO AMBIENTAL ... 58

2.1 Localização ... 60

2.2 Características físicas ... 64

2.3 Importância da proteção do Pantanal ... 68

2.4 Aspectos históricos e sociais: Histórico de reocupação ... 71

2.5 Aspectos econômicos ... 77

2.6 A questão ambiental no Pantanal ... 81

2.7 A bacia do alto Paraguai como unidade de gestão ... 93

3 DIREITO, SOCIOBIODIVERSIDADE E SUSTENTABILIDADE NO PANTANAL ... 98

3.1 O Pantanal no Direito Internacional ... 98

3.2 A Convenção de Ramsar no Brasil ...103

3.3 O Pantanal na condição de Patrimônio Nacional ... 108

3.4 A disciplina jurídica do Pantanal nas Constituições Estaduais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul... 113

3.5 Os impactos do Novo Código Florestal sobre o Pantanal... 118

3.6 O Marco Jurídico-constitucional Socioambiental como fundamento para a reformulação hermenêutica dos comandos legais incidentes sobre o Pantanal... 123

3.6.1 O art. 10 da Lei n.12.651/2012 na perspectiva do Marco Jurídico-constitucional Socioambiental ... 129

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 144

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 149

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INTRODUÇÃO

A confluência de diversos fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais articulados em nível mundial provocou, a partir das últimas décadas do século XX, uma crise civilizatória sem precedentes na história da humanidade, cuja dimensão ambiental — por sua inadiável urgência — apresenta-se como ponto de convergência em que se revelam as deficiências, excessos e contradições ínsitas ao paradigma societal sobre o qual se erigiu o modelo de civilização mundializado pela denominada Globalização Neoliberal.

Nessa conjuntura, diversos conceitos têm sido propostos na tentativa de se estabelecer um quadro teórico-prescritivo nos termos do qual se poderá gestar a superação do dilema ecológico. Contudo, certamente nenhum destes conceitos obteve tão boa acolhida quanto a noção de Sustentabilidade, cuja plasticidade e manobrabilidade retórica permitem sua utilização em contextos radicalmente antagônicos. Assim, a concepção de Sustentabilidade predominante nos meios políticos e acadêmicos, apresenta-se umbilicalmente orientada pela ideia de desenvolvimento econômico associado ao aprimoramento técnico-científico das forças produtivas, de modo que esta crise socioambiental poderia ser superada nos termos do próprio paradigma que a gestou.

Nesse quadro, o Pantanal Mato-Grossense surge como um locus privilegiado de investigação, cujas peculiaridades refletem localmente o dilema socioambiental global. Nascedouro de inúmeros serviços ecossistêmicos, berço de uma riquíssima biodiversidade e lar de várias etnias indígenas e comunidades tradicionais, malgrado a Constituição Federal confira-lhe especial proteção, este Patrimônio Nacional e da Humanidade está cada vez mais ameaçado pelos impactos socioambientais oriundos do avanço de diversas atividades econômicas levadas a efeito de modo inconsequente por atores sociais que se movem num quadro de deficiência institucional resultante da ineficiente aplicação das leis ambientais somada à inadequada implementação de políticas públicas, dificultando-se sobremaneira, assim, a consecução de uma gestão capaz de harmonizar o incremento da qualidade de vida dos habitantes locais com a conservação do equilíbrio ecológico.

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Assim, a busca de um diagnóstico consentâneo à complexidade deste quadro de fragilidades institucionais e políticas — através da problematização da noção prevalecente de Sustentabilidade — é de grande importância na medida em que se apresenta como uma alternativa para a superação deste indesejável cenário de vulnerabilidade socioambiental.

Portanto, o objetivo principal deste trabalho é realizar uma reflexão sobre a possibilidade de que a noção de Sustentabilidade calcada na ideia de racionalidade ambiental venha a fundamentar uma nova forma de gestão do Pantanal.

Especificamente, buscou-se examinar as principais formulações da ideia de Sustentabilidade e seus reais potenciais para proposição de caminhos aptos a superar a crise ambiental. Também se analisou o modo como os conhecimentos tradicionais podem contribuir para a elaboração de uma concepção de Sustentabilidade capaz de congregar o equilíbrio ecológico, a pluralidade de valores, a participação democrática nos processos decisórios e a vida digna das populações em geral, sobretudo das sociedades tradicionais que habitam áreas de elevado risco ecológica e rica sociobiodiversidade.

Para conseguir melhor visualizar esses objetivos e consubstanciar a reflexão abstrata foi necessária a problematização de um caso concreto, escolhendo-se, então, o Pantanal Mato-Grossense e sua bacia hidrográfica formadora, a Bacia do Alto Paraguai Nessa linha, primeiramente observou-se de que maneira o processo de (re)ocupação deste território, somado ao avanço de atividades econômicas potencialmente degradadoras — tais como garimpo, pesca predatória, cultivo de commodities, instalação de Usinas Hidrelétricas, Projeto da Hidrovia Paraguai-Paraná etc. — configuram ameaças ambientais concretas, com indesejáveis efeitos sobre toda a tessitura hidrológica, ecológica e social da região.

A partir daí é possível examinar de que modo o as ameaças à conservação do Pantanal refletem a crise socioambiental global e quais os desafios legais e institucionais para a efetivação de uma gestão socioambientalmente sustentável deste Bioma.

Na consecução deste percurso investigativo, valemo-nos de pesquisas bibliográficas, empregando o método dedutivo.

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Primeiramente levantamos e analisamos bibliografias de autores de diferentes áreas, que permitissem refletir e ponderar questões como Modernidade, Sustentabilidade, Racionalidade, Crise Ambiental, entre outras, além de autores especialistas no Pantanal. Outrossim, foi pesquisado e analisado o quadro normativo concernente a este Bioma e à sua bacia formadora.

Com base nisto foi possível propor algumas considerações a respeito das possibilidades legais, institucionais e políticas propendentes à viabilização de uma gestão socioambientalmente sustentável do Pantanal.

Assim, valendo-se, sobretudo, das ponderações de Boaventura de Souza Santos e Edgar Morin, no primeiro capítulo foi traçado um rápido diagnóstico da crise civilizatória e do paradigma da modernidade. Adiante, são tecidas breves considerações a respeito dos pilares epistemológico (Cientificismo Racional-Mecanicista) e político (Liberalismo Político-Econômico) sobre os quais erigiu-se o projeto da Modernidade, para em seguida ser exposta a maneira pela qual o ideário moderno foi instrumentalizado pelo modo de produção capitalista, daí resultando, dentre outros efeitos indesejáveis, o aspecto mais urgente da crise civilizatória: o dilema ambiental.

O segundo capítulo foi elaborado principalmente a partir de contribuições de diversos estudiosos do Pantanal Mato-Grossense, tais como Débora Calheiros, Carolina Joana da Silva, Marc Dourojeanni entre outros, com o objetivo apresentar de modo geral e interdisciplinar os principais aspectos ambientais, sociais, políticos, econômicos e culturais que tornam este bioma um espaço de singularíssima sociobiodiversidade e intensos conflitos socioambientais, mirando evidenciar de que forma a exploração irracional e desregrada da riqueza natural aí existente tem gerado e pode ainda gerar profundos impactos sociais e ambientais.

Por fim, no terceiro capítulo foi realizada uma apresentação das principais legislações que incidem direta e indiretamente sobre o Pantanal. Dado este quadro legal, com base nas reflexões empreendidas por Juliana Santilli e Carlos Frederico Marés, propusemos uma releitura dos dispositivos normativos a partir do marco jurídico-constitucional socioambiental — conforme delineado por Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer — com vistas à formulação de horizontes hermenêuticos consentâneos a uma racionalidade

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socioambientalmente sustentável e substancialmente democrática — nos termos que propõe Antônio Carlos Diegues —, calcada, sobretudo, na possibilidade de os povos e comunidades tradicionais participarem ativamente dos processos decisórios atinentes à gestão do Pantanal.

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1. DA MODERNIDADE À CRISE AMBIENTAL: O SURGIMENTO DA SUSTENTABILIDADE

Este capítulo tem como objetivo apresentar um breve debate teórico acerca do paradigma da Modernidade que, apesar de ser potencialmente emancipador, resultou num processo de imoderado cientificismo que instrumentalizou a razão, paralelamente à consolidação do Estado Liberal que cimentou a afirmação do capitalismo. Este procedimento analítico é necessário porque surge nas últimas décadas do século XX um intenso debate sobre o fracasso da Modernidade e a descrença no progresso diante de um cenário evidente de crise socioambiental.

Em face disso pode-se problematizar a tese de que o capitalismo consubstanciaria o arranjo socioeconômico último, historicamente insuperável, apto, assim, a oferecer, sem rupturas radicais, soluções para a resolução dessa crise. Trata-se, portanto, de uma tentativa de desconstrução da ideia de que após a queda do muro de Berlim teria ocorrido o “fim da história”.

Ao analisar as diferentes perspectivas sobre o “fim da história”, Anderson1 afirmou: “É lúgubre o pio noturno da coruja”. Uma frase emblemática para altercar como a filosofia contemporânea, sobretudo a praticada por Fukuyama2, era fúnebre diante do pessimismo da crença de que nenhuma alternativa política existe diante do avanço do capitalismo liberal que se firmou sobre os escombros do muro de Berlim. Sua crítica segue no sentido de que, mesmo diante da ausência de uma alternativa real, o capitalismo liberal não pode ser considerado a forma última de organização social humana, uma vez que não tem capacidade de resolver os problemas ambientais decorrentes de sua dinâmica ínsita:

Uma solução desse gênero, dentro da estrutura familiar do capitalismo, é, não obstante, inteiramente inviável. Pois o problema central não é simplesmente os (crescentes) níveis absolutos de danos causados à biosfera, mas as contribuições

1

ANDERSON, Perry. O fim da História: de Hegel a Fukuyama. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1992, p.13. 2 ANDERSON (1992) dedica a citada obra para rebater a concepção de Fukuyama em seu livro “O Fim da história e o último homem” (1992), onde o cientista político norte americano retoma princípios filosóficos de Hegel para formular a ideia de que com a estabilidade do capitalismo e do liberalismo após a queda do Muro de Berlim em 1989 seriam a última forma de governo e modo de produção. Não haveria, portanto, novas possibilidades políticas e nenhuma alternativa.

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relativas de economias nacionais rivais para esses danos. [...] o consumo de combustíveis fósseis, a produção de lixo nuclear, a emissão de carbono, a substituição de CFCs, o emprego de pesticidas, o desmatamento de florestas? Quanto a isso, o mercado, embora reprimido, nada tem a oferecer3.

Contrapondo-se a Fukuyama, Anderson aduz que a possibilidade real do “fim da história” é a aniquilação da humanidade causada por uma crise ambiental oriunda da exploração indiscriminada de recursos naturais perpetrada pelas forças econômicas e consentida pela inércia e cooptação dos Estados Nacionais.

Portanto, a conjunção de uma série de fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais articulados em nível mundial provocou, nas últimas décadas, uma crise civilizatória sem precedentes na história da humanidade.

Mas para que se compreenda de que modo este quadro se impôs como realidade observável, é necessário problematizar a questão ambiental, a fim de evidenciar como esta se origina da consolidação do macroprojeto moderno-capitalista, nos termos do qual o “progresso” econômico é considerado o ápice da razão e o objetivo supremo da civilização.

1.1 O paradigma da Modernidade

Logo no início de seu desenvolvimento o paradigma da Modernidade

prenunciou ser capaz de emancipar a humanidade através do avanço das ciências e fortalecimento da razão. No entanto, ao confluir com a afirmação do modo de produção capitalista, resultou num macroprojeto social, econômico, político e cultural cuja mundialização nos trouxe ao dramático cenário contemporâneo de crise.

A apreensão deste intrincado processo exige a análise das premissas epistemológicas e políticas sobre as quais se erigiu o paradigma da Modernidade, bem como o modo pelo qual estes preceitos instrumentalizaram projetos de governos de Estados Nacionais e legitimaram as ações de

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insustentável exploração da natureza por parte de indústrias após a Revolução Industrial.

Primeiramente é necessário compreender o que é a Modernidade. A dificuldade ínsita à tentativa de assimilação e definição do que vem a sê-lo não impediu a profusão de conceitos cuja variedade de conteúdo costuma guardar estreita correspondência com o matiz ideológico que orienta o pensador. Sendo assim, a Modernidade é um conceito inegavelmente polissêmico, cujo entendimento se dá inescapavelmente em consonância com o contexto em que é empregado4.

Um dos primeiros estudiosos a questionar os efeitos da Modernidade foi o sociólogo Max Weber, que na obra Economia e Sociedade5 analisa como o capitalismo, através de sua ética voltada à acumulação, se apoiou no Estado Moderno e no direito racional.

A luta constante, em forma pacífica e bélica, entre Estados nacionais concorrentes pelo poder criou as maiores oportunidades para o moderno capitalismo ocidental. Cada Estado particular tinha que concorrer pelo capital, que estava livre de estabelecer-se em qualquer lugar e lhe ditava as condições sob as quais o ajudaria a tornar-se poderoso. Da aliança forçada entre o Estado nacional e o capital nasceu a classe burguesa nacional – a burguesia no sentido moderno da palavra. É, portanto, o Estado nacional fechado que garante ao capitalismo as possibilidades de sua subsistência e, enquanto não cede lugar a um império universal, subsistirá também o capitalismo6.

Para Weber7, a aliança entre o Capital, o Estado e o Direito se deu a partir do advento da Modernidade, ou mais apropriadamente daquilo que o autor denominou processo de racionalização, que se alastrou por todas as esferas da sociedade, sobretudo após a Reforma Protestante.

4 As reflexões empreendidas neste trabalho, a respeito do paradigma civilizatório da Modernidade, terão como fio condutor a obra de Boaventura de Souza Santos, valendo-se também das contribuições de Max Weber, Anthony Giddens, Edgar Morin e Leonardo Boff. Para outras teorias e propostas a respeito do que vem a ser este fenômeno Cf., dentre outros. BAUMANN, Zygmunt. Modernidade e

ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. TORAINE Alain. Crítica da Modernidade. 8 ed. Rio de Janeiro:

Editora Vozes, 2007.

5 WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Volume 2. São Paulo: Editora UNB, 2004.

6

Weber (2004, p.517). 7

WEBER, Max. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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Desse processo de racionalização, Weber analisa suas consequências nas esferas econômicas, política e cultural. Na esfera econômica, a modernização resultou na criação de uma ideologia, de uma ética econômica de caráter intramundano, favorável a um processo de poupança, compatível com o desenvolvimento econômico. [...] A modernização econômica, além dessa constatação ideal, envolveu também inúmeros fatores materiais, [...] como a criação de uma classe de trabalhadores assalariados, liberados de seus vínculos feudais, o que tornou possível a formação do mercado de trabalho. Outros fatores importantes foram: A incorporação da ciência e da técnica ao processo produtivo; a gestão racional das empresas, etc. Portanto, a modernidade econômica seria um sistema que tem bom desempenho e funciona racionalmente, em termos do seu objetivo principal – a produção de bens e serviços8.

Na perspectiva weberiana a modernização se baseia numa concepção sistêmica e descritiva dos processos sociais. Rouanet9 preleciona que para Weber a Modernidade “[...] não é somente aquilo que funciona bem; Modernidade é um modelo, é um telos, um arquétipo, um objetivo ideal, ligado a uma estrutura de fins”.

Por outro lado, para o sociólogo português Boaventura de Souza Santos a Modernidade é um projeto cultural surgido entre os séculos XVI e XVIII que, partindo da Europa, espalhou-se pelo mundo através do Colonialismo e Imperialismo, tornando-se, por fim, quase inconteste com a G lobalização10.

Não obstante a riqueza e complexidade deste projeto cultural, para os fins que aqui nos propomos, algumas linhas principais podem ser destacadas, tais como o Cientificismo Racional-Mecanicista e o Liberalismo Político.

Santos11 destaca, ainda, a importante circunstância de que o modo de produção capitalista não fazia parte, a princípio, do projeto cultural moderno,

8

ROUANET, Sérgio Paulo. Moderno x Pós Moderno. Rio de Janeiro: UERJ, Departamento Cultural, 1994, p. 40.

9

ROUANET (1994, p.43). 10

Para Boaventura de Souza Santos, ao contrário do que a maioria dos pensadores assevera, existem

processos de globalização locais e globais, globalização hegemônica e globalizações contra

hegemônicas, ocorrendo, em suma, um conjunto de fenômenos sociais marcados pela tensão entre o discurso neoliberal hegemônico e outros diversos discursos contra hegemônicos. Nesse contexto, a globalização hegemônica é marcada pela ampla aceitação e imposição internacional das políticas neoliberais levadas a efeito a partir da década de 1980. In: SANTOS, Boaventura de Sousa. A

Globalização e as ciências sociais. 2 ed. São Paulo: Cortez Editora, 2002.

11

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da Razão indolente: contra o desperdício da experiência. 8 ed. São Paulo: Cortez Editora, 2011, p.49.

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que originariamente não pressupunha nenhum sistema econômico específico. Nesse sentido, entende que, a despeito das diferenças existentes entre Capitalismo e Socialismo, ambos consistem em projetos totalizantes que assentam suas respectivas estruturas conceituais nos modernos preceitos do cientificismo, racionalismo, tecnicismo, industrialismo e linearidade histórica.

1.1.1 A influência do Cientificismo Racional-Mecanicista

No transcorrer dos séculos XV e XVI o continente europeu passou por uma série de profundas transformações de cunho social, religioso, econômico e cultural12, sendo que um dos aspectos mais marcantes destas mudanças ocorreu no âmbito da ciência13.

Foi nesta época que surgiu a filosofia moderna em contraposição à derrocada da Escolástica, cujos pressupostos epistemológicos — assentes na filosofia Greco-Romana compreendida, interpretada e moldada à luz da Doutrina Cristã — conformaram a visão social de mundo europeia ao longo de todo o medievo14.

Assim, empenhados na elaboração de um conjunto de ideias e valores que dessem conta de explicar e ao mesmo tempo orientar as mudanças por que passava o velho mundo, filósofos e pensadores, percebendo a insuficiência e anacronicidade da forma de pensamento até então dominante e impressionados com os avanços teóricos conseguidos por Copérnico (1473-1543), Galileu (1564-1642) e Kepler (1571-1630), viram aí algo como uma chave mestra científica, que, se adequadamente utilizada, poderia dar conta de desvendar os mais sagrados mistérios, abrindo as portas do entendimento humano para expurgar as trevas do obscurantismo medieval, conforme Santos15.

Nesse contexto, o filósofo francês Renè Descartes (1596-1642) teve um papel crucial quando, ao escrever sua mais famosa obra, intitulada “O

12

COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva. 2010, p.60.

13

PESSANHA, José Américo Motta. Descartes – Vida e Obra. In Os pensadores – DESCARTES. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.7-9.

14

Idem, Ibidem, p.7-9. 15 SANTOS (2011, p. 61).

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Discurso do Método”, enunciou as premissas filosóficas do método de investigação que, à moda dos geômetras, partindo de noções gerais e abstratas, em si mesmas autoevidentes, chegaria à formulação de juízos particulares cujo rigor metodológico garantiria a veracidade das proposições decorrentes.

Propôs então que a correta compreensão do mundo deveria se dar através da linguagem matemática, de modo a apreender a realidade por suas relações causais, como se se tratasse de um conjunto de fenômenos que, malgrado estivessem interligados entre si, poderiam ser perfeitamente decompostos e recompostos, como uma máquina mais ou menos complexa, cujas peças, separadas entre si, poderiam revelar as leis que organizam e regem o funcionamento do todo.

O inglês Francis Bacon (1561-1626), por sua vez, também foi decisivo para a formação do pensamento científico moderno. Ao propor um Novum Organum, Bacon insistiu na prevalência da experimentação na obtenção de um conhecimento que não mais se voltaria para explicações metafísicas, mas que, pelo contrário, deveria fazer do mundo o seu laboratório principal e da natureza seu objeto primordial, com vistas a extrair desta fêmea indomada os preceitos necessários à construção de conhecimentos eminentemente práticos16.

Assim, a combinação do racionalismo cartesiano com o experimentalismo de Bacon resultou num método filosófico-científico que, valendo-se do raciocínio matemático como forma privilegiada de investigação, veio a transformar qualquer fenômeno, por mais complexo que fosse (social, biológico ou natural; microscópico, macroscópico ou astronômico; material ou ideal) em algo divisível e analisável, cujo caráter quantitativo preteriu aos traços qualitativos, fazendo com que as relações qualitativamente intrínsecas, não matematizáveis e insuscetíveis de decomposição perdessem qualquer

16 A esse respeito verificar os aforismos LXX e LXXX do Livro I do Novum Organum “A melhor demonstração é, de longe, a experiência, desde que se atenha rigorosamente ao experimento. [...] Que ninguém espere um grande progresso nas ciências, especialmente no seu lado prático, até que a filosofia natural seja levada às ciências particulares e as ciências particulares sejam incorporadas à filosofia natural. Por serem disso dependentes é que a astronomia, a óptica, a música, inúmeras artes mecânicas, a própria medicina, e, o que é espantoso, a filosofia moral e política e as ciências lógicas não alcançaram nenhuma profundidade, mas apenas deslizam na superfície e variedade das coisas.” In: Os Pensadores – BACON. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 55 e 63.

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importância para a ciência, que, a partir de então, passou a gozar do status de instância suprema para a determinação do que era ou não verdadeiro17.

A par disso, à medida que o antropocentrismo renascentista ia gradativamente expulsando a religiosidade do domínio das investigações filosóficas, o Cientificismo Racional-Mecanicista pôde então teorizar desafrontadamente sobre o mundo e manipular livremente a natureza, cuja aura sagrada já não mais impediria o progresso da ciência experimental18.

À proporção que esse conjunto de ideias ganhava legitimidade entre os círculos de pensadores e filósofos, daí espraiando-se para os demais âmbitos sociais, o meio ambiente natural foi gradativamente secularizando-se e coisificando-se, até, por fim, tornar-se um repositório de bens e materiais inteiramente à disposição do homem.

A natureza é tão-só extensão e movimento; é passiva, eterna e reversível; mecanismo cujos elementos se podem desmontar e depois relacionar sob a forma de leis; não tem qualquer outra qualidade ou dignidade que nos impeça de desvendar seus mistérios, desvendamento que não é contemplativo, mas antes activo, já que visa conhecer a natureza para dominar e controlar19.

Assim foi que a mãe-natureza, sustentáculo de todas as formas vivas, transformou-se num acervo de bens mundanos desprovido de qualquer valor intrínseco que não a utilidade que pudesse ter para o progresso do gênero humano, que, valendo-se das descobertas científicas ensejadas pelo novo método científico, passou a explorar ao máximo todas as possibilidades materiais oferecidas por esta imensa fonte de recursos.

Paralelamente à afirmação deste modelo filosófico-científico surgiam os valores liberais, responsáveis pelo engendramento da arquitetura

17 SANTOS (2011, p.63). 18

É bem verdade que a doutrina judaico-cristã — incontestavelmente dominante em solo europeu desde a queda do Império Romano até as primeiras manifestações do Renascentismo Italiano — concebe o meio ambiente como algo à disposição do ser humano. Entretanto, se, ao contrário deste, as demais criaturas (fauna e flora) não haviam sido feitas à imagem e semelhança de Deus, isso não significava que pudessem ser impunemente profanadas. Daí que, até antes da Renascença, o teocentrismo, enquanto permitia ao homem se utilizar da natureza, também impunha o dever de respeitar a obra do criador. Assim, ao passo que Deus deixou de ser a ideia fundante das estruturas de pensamento e a Terra deixou de ser o centro do Universo, o homem passou então a ser o Senhor da Terra e de tudo que nela existe.

19

(25)

institucional necessária à apropriação desse arcabouço científico pelos processos produtivos, circunstância fundamental para a consolidação do capitalismo industrial.

Assim, para que se compreenda como essas formas racionais foram empregadas nos processos produtivos, é necessário entender de que modo se consorciaram o cientificismo e a constelação dos valores liberais, sendo oportuna, destarte, uma breve discussão sobre os aspectos políticos básicos do Liberalismo.

1.1.2 O papel do Liberalismo na consolidação do Capitalismo

Primeiramente há que se ressaltar a impossibilidade de se empreender, aqui, uma abordagem aprofundada sobre o Liberalismo. Além de não ser este o objetivo do presente trabalho, existe uma complexidade inerente ao conceito, que por si só desafia filósofos, historiadores, cientistas políticos e sociólogos. Portanto, não existe a pretensão de esgotá-lo, manuseando-o tão somente com a finalidade de explicitar seu papel no contexto da formação do pensamento moderno e como isso se refletiu na configuração da crise ambiental.

O conjunto dos valores liberais aflorou no contexto de desagregação do mundo feudal, concomitante ao surgimento do Renascentismo e à emergência do Mercantilismo. A conjunção destes fatores, dentre outros inúmeros efeitos, além de motivar a atenuação do jugo social exercido pela religião e flexibilizar as relações sociais até então em grande parte limitadas à vassalagem e suserania, lançou o indivíduo europeu numa conjuntura de maior liberdade social cuja mobilidade ligava-se umbilicalmente à possibilidade de trocar mercadorias e acumular riquezas materiais.

Para que o Liberalismo pudesse se fixar como constelação de valores capaz de orientar e conformar as instituições oriundas desse cenário de rupturas sociais, foi necessário que pleiteasse ferrenhamente a afirmação de concepções até então pouco robustas, tais como liberdade e propriedade.

(26)

[...] a Igualdade de oportunidades é possível mediante a igual atribuição dos direitos fundamentais "à vida, à liberdade e à propriedade". Abolidos os privilégios e estabelecida a Igualdade de direitos, não haverá tropeços no caminho de ninguém para a busca da felicidade, isto é, para que cada um, com sua habilidade, a alcance20.

Não obstante o mosaico jurídico-político característico do Feudalismo, as famílias reais sempre permaneceram atuantes e desejosas por reafirmar seu poder21. Esta circunstância foi sagazmente apreendida pela burguesia nascente que, percebendo aí uma oportunidade de implementar condições mais favoráveis ao comércio (estabelecimento de uma autoridade secular promotora de uma uniformização das normas aplicáveis a determinado território onde circularia uma moeda específica), incentivou a formação das monarquias absolutistas.

Porém, a partir do momento que as burguesias locais já estavam suficientemente fortalecidas, os desmandos e ingerências dos monarcas tornaram-se entraves aos seus objetivos políticos e econômicos. Laissez-faire22 torna-se a palavra de ordem e as monarquias absolutistas passam a encarnar o rançoso autoritarismo das “trevas feudais”. Para que as trocas econômicas se desenvolvessem com segurança e os indivíduos pudessem viver livremente era necessário, então, suprimir as incertezas oriundas do poder ilimitado do monarca23.

Assim, a existência de uma lei forte o suficiente para submeter a própria autoridade real era condição sine qua non para a liberdade do homem. Nesse contexto, a tensão entre liberdade24 e poder real/estatal tornou-se uma questão de primeira ordem.

20

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 11 ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1983, p. 604.

21 Comparato (2010, p.57-57). 22

Parte da expressão francesa "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa literalmente "deixai fazer, deixai ir, deixai passar", este termo remete ao conjunto de ideias surgidas na segunda metade do século XVIII que, em contraposição ao exacerbado intervencionismo estatal característico do mercantilismo, propugnavam que os atores econômicos deveriam agir o mais livremente possível, sendo esta a forma mais eficaz de fazer prosperar a economia e toda a sociedade. Cf. HUBERMAN, p. 143-154 23 Conforme HUBERMAN, (1981, p. 139-149).

24

Muito embora a questão fosse colocada como se se tratasse da ideia de liberdade lato sensu, o mote principal das reivindicações pela concretização de um estado de direito, foi a implementação das condições necessárias para o desenvolvimento da economia de mercado. In: MARMELSTEIN, George.

(27)

Três são os filósofos que se destacaram nessa seara. Os chamados contratualistas25 se esforçaram por formular considerações sobre como o ser humano deixou de viver em estado de natureza e passou a se organizar socialmente sob o governo de uma determinada autoridade. A questão fundamental enfrentada por Hobbes (1588-1679), Locke (1632-1704) e Rousseau (1712-1778) girou em torno dos direitos ínsitos à condição natural do ser humano e o modo mais justo e adequado de se compatibilizar o gozo desses direitos em uma sociedade civil, garantidos através de um contrato social.

Não obstante as diferenças conceituais e teóricas de cada uma das três abordagens, a liberdade do homem permanece como inconteste direito natural cuja máxima garantia deve ser o principal objetivo da autoridade constituída pelo contrato social, sem que, contudo, o exercício deste direito pusesse em risco a manutenção do equilíbrio social e a permanência do pacto civil.

Esta liberdade se consubstanciou mormente na certeza de que a autoridade real/estatal não mais se imiscuiria na esfera privada da vida social26. Ou seja, o cidadão, a partir de então, poderia livremente associar-se, professar fé e opinião, e principalmente ascender socialmente através do fruto de seu trabalho, produzindo, vendendo e comprando mercadorias e acumulando riquezas, podendo até, em último caso, vender o próprio corpo27.

Assim, as primeiras leis a disciplinar o poder dos soberanos28 vieram em socorro da liberdade individual como direito natural intangível, inerente à própria condição humana.

25

Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau são assim chamados por terem proposto, cada a um à sua maneira, que a sociedade civil existe com base em um contrato celebrado entre os homens, sendo a formulação deste contrato o fato decisivo que marca a passagem do estado de natureza para o estado civil.

26 MARMELSTEIN (2008, p.34). 27

Apesar de Locke enfatizar a possibilidade de acumulação de bens como um direito natural, os teóricos do contratualismo não pressupõem um modo de produção específico, pois seu foco de análise visava dar conta das transformações sociais ocorridas na Europa ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Bem assim, pretenderam formular contribuições para a reflexão acerca da melhor maneira de compatibilizar o gozo dos direitos naturais em uma sociedade civil politicamente organizada com a necessidade de pacificação social e legitimidade da autoridade governante. Desse modo, a utilização das ideias contratualistas na tarefa de estruturação de um discurso capitalista liberal não reflete, a priori, a postura teórica de Hobbes, Locke ou Rousseau.

28

Dentre estas leis, emblemático é o exemplo da Magna Carta na Inglaterra, cuja celebração se deu em 1215, e teve por objetivo principal sujeitar o Rei João a determinados preceitos que, de tão importantes,

(28)

Eis o fundamento do Estado Liberal.

Implementado na última quadra do século XVIII sob os auspícios da independência americana e da revolução francesa, este modelo de Estado de Direito teve por viga mestra a garantia dos chamados direitos fundamentais de primeira dimensão: notadamente o direito à vida, o direito de ir e vir e sobretudo o direito de propriedade. Este rol de direitos corresponde ao primeiro dos três elementos que compuseram o lema da revolução francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade29.

Conformado nos moldes do cânone liberal articulado ao fortalecimento do modo de produção capitalista, este Modelo de Estado, assim, deveria garantir a igualdade de oportunidades (mais em termos formais do que concretos) para que todos pudessem trabalhar, acumular riquezas e ter garantias sobre as propriedades conquistadas.

O pensamento Liberal Clássico se consolidou com base na tríade “trabalho, propriedade e inteligência” e se desdobrou numa configuração normativa e ideológica que legitimou a propriedade privada como direito inconteste. Segundo Melo30: “A propriedade, enquanto instituto histórico, é ainda hoje o mais sagrado dos institutos, e sua sacralidade implica dogmaticidade, no sentido de que não se deve questioná-lo”.

Desse modo, à proporção que o capitalismo firmava-se como o sistema econômico predominante em solo europeu (aprimorando velozmente as forças produtivas com o auxílio do método científico moderno, fazendo, assim, avançar a eficiência das indústrias e aumentando as taxas de lucros) coube ao Estado Liberal, por meio das prestações negativas31, assegurar as condições

não poderiam ser desrespeitados nem mesmo pelo soberano. Outros exemplos também vindos da Inglaterra: a Petition of rights de 1628 e a Bill of rights de 1689, ambas objetivando garantir um núcleo mínimo de direitos intangíveis ao poder real. Embora mais tarde, mas não menos importante, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão formulada em 1789, representando o ponto culminante da Revolução Francesa.

29

MARMELSTEIN (2008, p.44-45). 30

MELO, Tarso de. Direito e Ideologia: um estudo a partir da função social da propriedade. 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p.61.

Melo (2009, p.61): 31

Por prestações negativas se entende o conjunto de ações estatais que caracterizaram o modo pelo qual o Estado Liberal implementou os chamados Direitos Fundamentais de Primeira Dimensão — correspondentes à propriedade, liberdade econômica, liberdade de associação, liberdade de expressão etc. Assim, a missão primordial deste modelo de Estado consistia em garantir tão somente a ordem e a segurança necessárias à livre atuação econômica dos indivíduos, abstendo-se ao máximo, portanto, de quaisquer outras formas de atuação tendentes intromissão na esfera da vida civil. A respeito deste

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fundamentais para que o capital se reproduzisse, de maneira a praticamente sacralizar o direito de liberdade ao qual se atrelava visceralmente o direito de propriedade que, aliás, passou a ser a pedra de toque da própria ideia de liberdade, cuja máxima expressão resumiu-se no preceito jurídico da autonomia da vontade privada, fundamento axiológico-jurídico da liberdade contratual, a forma dinâmica do direito de propriedade.

1.2 O macroprojeto moderno-capitalista: progresso a qualquer custo

Como dito anteriormente, o paradigma da Modernidade, originariamente elaborado nos termos do Cartesianismo Cientificista e do Liberalismo Contratualista, não pressupunha um determinado sistema econômico. Contudo, não se pode negar que, ao se desenvolverem paralela e concomitantemente, Capitalismo e Modernidade entrecruzaram-se numa relação simbiótica até formarem um macroprojeto socioeconômico totalizante e globalmente implementável.

O progresso técnico-científico propiciado pelo Cartesianismo Racional Mecanicista tornou-se, então, o motor principal do desenvolvimento das forças produtivas, e o liberalismo contratualista, institucionalizado na forma do Estado de Direito Liberal, garantiu, a seu turno, a afirmação sociopolítica dos valores burgueses, sobretudo a autonomia da vontade privada.

Ao que parecia, a emancipação da razão por um lado, e a liberdade contratual por outro, combinados sob o manto da segurança jurídico-institucional, levariam a humanidade à inequívoca superação das “trevas do obscurantismo” e das mazelas sociais.

Deste modo, a crença no poder da razão entronizou o discurso científico como única instância capaz de produzir saberes válidos, concedendo

atributo do Estado Liberal, Streck & Morais lecionam que “A atividade estatal, quando se dá, recobre um espectro reduzido e previamente reconhecido. Suas tarefas circunscrevem-se à manutenção da ordem e segurança, zelando que as disputas porventura surgidas sejam resolvidas pelo juízo imparcial sem recurso a força privada, além, de proteger as liberdades civis e a liberdade pessoal e assegurar a liberdade econômica dos indivíduos exercitada no âmbito do mercado capitalista. O papel do Estado é negativo, no sentido de proteção dos indivíduos. Toda a intervenção do Estado que extrapole estas tarefas é má, pois enfraquece a independência e a iniciativa individuais. Há uma dependência entre o crescimento do Estado e o espaço da(s) liberdade(s) individual(is).” In: STRECK, Lênio Luiz; BOLZAN DE MORAIS, José Luis. Ciência Política e Teoria Geral do Estado. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 56.

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às ciências a liberdade de tudo fazer em nome do progresso científico que, articulado ao liberalismo político capitalista, conduziria as sociedades a uma permanente evolução social, garantida pelo desenvolvimento econômico que democratizaria as riquezas materiais extraídas da natureza e transformadas pela tecno-ciência.

A assimilação do racionalismo cientificista pela lógica do capital fez do aprimoramento das forças produtivas o principal objetivo das ciências, assegurando-se, assim, o desenvolvimento econômico que, por sua vez, poderia cada vez mais alimentar o avanço científico, doravante substancialmente dependente de maciços investimentos financeiros.

À ideia de “progresso social”, então, associou-se à de desenvolvimento econômico, de modo tal que este, no último quartel do século XX, havia se tornado um mito no âmbito das ciências sociais, sobretudo na economia.

Celso Furtado, aliás, preleciona que:

[...] os mitos operam como faróis que iluminam o campo de percepção do cientista social, permitindo-lhe ter uma visão clara de certos problemas e nada ver de outros, ao mesmo tempo que lhe proporcionam conforto intelectual, pois as discriminações valorativas que realiza surgem aos seu espírito como reflexo da realidade objetiva. A literatura sobre desenvolvimento econômico do último quarto do século nos dá um exemplo meridiano desse papel diretor dos mitos nas ciências sociais: pelo menos noventa por cento do que aí encontramos se funda na idéia, que se dá por evidente, segundo a qual o desenvolvimento econômico, tal qual vem sendo praticado pelos países que lideraram a revolução industrial, pode ser universalizado. Mais precisamente: pretende-se que os standards de consumo da minoria da humanidade, que atualmente vive nos países altamente industrializados, é acessível às grandes massas de população em rápida expansão que formam o chamado terceiro mundo. Essa idéia constitui, seguramente, uma prolongação do mito progresso, elemento essencial na ideologia diretora da revolução burguesa, dentro da qual se criou a atual sociedade industrial.32

Sendo assim, o ideal do desenvolvimento econômico — concebido como sinônimo de crescimento econômico33 — passou a ser o diapasão das

32

FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1974, p. 15-16.

33

Essa concepção de desenvolvimento como crescimento do PIB e incremento do consumo, segundo José Eli da Veiga, predominou no pensamento econômico até poucas décadas atrás. Paralelamente,

(31)

liberdades civis, cuja expressividade mais acabada tornou-se o livre consumo e a abundância material. Nesses termos, desenvolver-se economicamente significa aumentar o Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, fazer crescer a quantia de capital acumulado para reinvesti-lo a fim de mais se acumular, sendo necessário, para tanto, aperfeiçoar as forças produtivas e fomentar o consumo.

No fundamento da ideia dominante de desenvolvimento está o grande paradigma ocidental do progresso. O desenvolvimento deve assegurar o progresso, o qual deve assegurar o desenvolvimento. O desenvolvimento tem dois aspectos. De um lado, é um mito global no qual as sociedades industrializadas atingem o bem-estar, reduzem suas desigualdades extremas e dispensam aos indivíduos o máximo de felicidade que uma sociedade pode dispensar. De outro, é uma concepção redutora, em que o crescimento econômico é o motor necessário e suficiente de todos os desenvolvimentos sociais, psíquicos e morais. Essa concepção tecno-econômica ignora os problemas humanos da identidade, da comunidade, da solidariedade, da cultura. Assim, a noção de desenvolvimento se apresenta gravemente subdesenvolvida. A noção de subdesenvolvimento é um produto pobre e abstrato da noção pobre e abstrata de desenvolvimento34.

E para que haja “progresso” é necessário o consumo. Consumir tornou-se o ato mais repretornou-sentativo do exercício do direito de liberdade. O estilo de vida moderno criou necessidades nunca antes experimentadas, virulentamente disseminadas pelos meios de comunicação. Ao consumo se incorporou conceitos e valores, até que o consumo se culturalizou e a cultura se

havia uma corrente que, embora menos expressiva, se fazia notar entre alguns pensadores mais críticos, nos termos da qual o desenvolvimento seria apenas uma ferramenta ideológica útil à manutenção e reprodução das relações assimétricas existentes no interior dos países e entre os países. O ponto de contato entre estas duas posições reside no fato de entenderem desenvolvimento como

desenvolvimento econômico, primando, portanto, por uma perspectiva ‘restritivamente economicista’.

Por outro lado, pensadores como Ignacy Sachs, Amartya Sen e o próprio Celso Furtado entendem que, para além do crescimento econômico, o desenvolvimento congrega fatores sociais, políticos, culturais e ambientais que, articulados, possibilitam a criação de quadros sociais aptos à consecução de liberdades emancipatórias e a concretização dos direitos humanos. In: VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento

Sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2010, p.17-82. Nessa linha, confira-se a

lição de Celso Furtado: “o crescimento econômico, tal qual o conhecemos, vem se fundando na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização; já o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente. Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um melhor futuro para a massa da população. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condições de vida dessa população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento.” In: FURTADO, Celso. Os desafios da nova geração. In: Revista de Economia Política. Vol. 24, n. 4(96) outubro-dezembro 2004, p. 484.

(32)

mercantilizou35. Passou-se a consumir não só bens de uso, mas também ideias, informações, identidades e estilos de vida.

Os encontros dos potenciais consumidores com os potenciais objetos de consumo tendem a se tornar as principais unidades na rede peculiar de interações humanas conhecida, de maneira abreviada, como “sociedade de consumidores”. Ou melhor, o ambiente existencial que se tornou conhecido como “sociedade de consumidores” se distingue por uma reconstrução das relações humanas a partir do padrão, e à semelhança, das relações entre os consumidores e os objetos de consumo. Esse feito notável foi alcançado mediante a anexação e colonização, pelos mercados de consumo, do espaço que se estende entre os indivíduos – esse espaço em que se estabelecem as ligações que conectam os seres humanos e se erguem as cercas que os separam36.

Todavia, se uma parcela da humanidade passou a consumir compulsivamente — mormente as populações dos países centrais —, por outro lado, a maior parte da população mundial permaneceu vivendo em condições pouco dignas. Diante deste cenário, ao Estado Social de Direito (também conhecido Welfare State) caberia a mitigação das injustiças sociais oriundas da exacerbação do individualismo, corrigindo alguns desvios do Estado Liberal37. O segundo elemento da emblemática tríade da Revolução Francesa passaria a despontar como objetivo de primeira ordem nas políticas públicas implementadas pelos países industrializados. Contudo, se por um lado a busca da igualdade material, consubstanciada na garantia dos direitos fundamentais de segunda dimensão, minimizou as discrepâncias resultantes do livre jogo das forças econômicas, por outro, em momento algum e em hipótese nenhuma o crescimento econômico deixou de ser o alvo principal dos governos, pois, a final de contas, só poderiam ser garantidos os direitos sociais e econômicos se o PIB assim o permitisse. Tendo o discurso desenvolvimentista se tornado hegemônico, qualquer país que não buscasse o progresso social por meio do

35 Para saber mais a respeito da dinâmica cultural do capitalismo contemporâneo. In: JAMESON, Fredric.

Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática, 1996.

36

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo. A transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 19.

37

O Welfare State também surge como um pacto social que teve por objetivo conter o avanço das organizações trabalhistas cujas reivindicações tornavam-se mais radicais diante do aprofundamento das contradições entre Capital e Trabalho, de modo que a mitigação destas poderia acalmar os ânimos dos trabalhadores, evitando-se, assim, uma revolução do proletariado.

(33)

crescimento econômico estaria fadado ao subdesenvolvimento, cuja superação dar-se-ia inexoravelmente pela via trilhada pelos países centrais.

No entanto, o “calcanhar de Aquiles” do Projeto Social-Democrata se revelou quando as finanças públicas apontavam que não seria possível conciliar a implementação crescente e generalizada dos direitos fundamentais de segunda geração com os imperativos do crescimento do PIB e da necessidade de aumento dos lucros das grandes empresas. A isto se articulou a transnacionalização dos processos econômicos, a financeirização da economia, e o protagonismo incondicional das empresas multinacionais, daí surgindo um quadro político-econômico que apontava o enfraquecimento do poder gerenciador do Estado Nacional em face da dinamicidade e fortalecimento do Capital38.

Eis, de modo geral, as condições em que irrompeu o ideário Neoliberal. Associado ao expressivo aperfeiçoamento dos meios de comunicação e de transporte, e à internacionalização dos processos produtivos, este discurso hegemonizou a ideia de que o mercado seria o vetor principal na busca do progresso social, de sorte que quanto mais livremente se movimentassem os atores econômicos, maiores as chances de prosperidade e riqueza para todos.

À Globalização Neoliberal coube a função de mundializar — política, cultural e economicamente — esse modelo civilizatório39

. Assim, ao passo que o ideal do eterno e ininterrupto crescimento econômico conquistou o mundo e ganhou as políticas públicas levadas a efeito pelos governos (fossem democráticos ou autoritários), o consumismo, a seu turno, inebriou as mentes e precificou todas as aspirações de realização pessoal e/ou coletiva.

Quando a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) parecia ter comprovado o inequívoco acerto da via capitalista, levando alguns a crer que a história havia chegado ao seu fim, a natureza deu sinais de que sua exploração desenfreada poderia ocasionar efeitos de proporções catastróficas.

38

SANTOS (2002, p 77)

(34)

1.3 Da crise civilizatória à crise ambiental

Os últimos anos do século XX foram marcados pela emergência de uma sensação que, partindo dos grandes centros, foi se espalhando por todo o planeta, chegando até os corações dos habitantes das mais recônditas localidades. À medida que este sentimento arraigava-se, gradativamente foi ganhando mais e mais corporeidade até se tornar inelutavelmente palpável.

Desde as relações econômicas e os sistemas políticos, passando pelos códigos morais e religiosos, até as relações interpessoais e as mais diversas formas de subjetividades, enfim, todas as dimensões da experiência humana têm sido arrebatadas pelo fogo dos novos tempos.

Nesse contexto, “crise” talvez seja o termo mais adequadamente oportuno para a tentativa de fazer convergir em uma palavra o multifacetado torvelinho sócio-econômico-cultural que se apresenta à humanidade.

Com efeito, o primeiro impacto da crise do Paradigma da Modernidade é a perda da crença no “progresso”:

A perda da crença no "progresso", é claro, é um dos fatores que fundamentam a dissolução de "narrativas" da história. Há, aqui, entretanto, muito mais em jogo do que a conclusão de que a história "vai a lugar nenhum". Temos que desenvolver uma análise institucional do caráter de dois gumes da modernidade40.

A perda da fé no progresso se dá de forma paulatina e fragmentada, ocorrendo de forma desigual ao redor do globo, gerando a sensação de crise “generalizada”. Este sentimento se espalha cotidianamente, aprofundando-se diante de significativos fatos históricos, tais como as duas grandes guerras mundiais, nas quais a racionalidade e a cientificidade foram utilizadas como arma para aniquilar o “outro”. Nesse contexto, os teóricos da Escola de Frankfurt apontaram que o “progresso” baseado numa razão instrumental: “[...] perdeu seu potencial transformador ao reduzir-se por inteiro ao ‘progresso técnico’” 41

.

40

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991. p. 15. 41

NOBRE, Marcos. Max Horkheimer: a Teoria Crítica entre o nazismo e o capitalismo tardio. In: NOBRE, Marcos (Org.) Curso livre de Teoria Crítica. Campinas, SP: Papirus, 2008, p. 51.

(35)

E não só, todo esse complexo fenômeno se dá num planeta cujo equilíbrio ecológico vem sofrendo drásticas perturbações das quais podem resultar conseqüências fatalmente catastróficas para a espécie humana.

A racionalidade econômica que se instaura no mundo como o núcleo duro da racionalidade da Modernidade, se expressa em um modo de produção fundado no consumo destrutivo da natureza que vai degradando o ordenamento ecológico do planeta Terra e minando suas próprias condições de sustentabilidade42.

A insaciabilidade do macro-projeto moderno-capitalista encontrou limites nas leis naturais, cuja completa apreensão e irrestrita dominação revelaram-se, por fim, mais do que uma ilusão do discurso cartesiano mecanicista, mas sim, em última instância, um erro cuja persistência poderia ser fatal.

No entanto, não se pode nem se pretende negar os inúmeros avanços positivos galgados pela evolução tecnológica, a par da conquista de melhores condições de vida para parcelas significativas da população mundial garantidas pelas instituições democráticas.

A Modernidade, portanto, é intrinsecamente ambivalente, sendo apta a oportunizar a emancipação social por um lado, e, por outro, justificar a dominação política e instrumentalizar formas de destruição em massa. Giddens43, aliás, afirma que presentemente configura-se uma tensão entre confiança versus risco.

Não apenas a ameaça de confronto nuclear, mas a realidade do conflito militar, formam uma parte básica do "lado sombrio" da modernidade no século atual. O século XX é o século da guerra, com um número de conflitos militares sérios envolvendo perdas substanciais de vidas, consideravelmente mais alto do que em qualquer um dos dois séculos precedentes. No presente século, até agora, mais de 100 milhões de pessoas foram mortas em guerras, uma proporção mais alta da população do mundo do que no século XIX, mesmo considerando-se o crescimento geral da população. Se um conflito militar ainda que limitado eclodisse, a perda de

42

LEFF, Enrique. Ecologia, capital e cultura. A territorialização da racionalidade ambiental. Petrópolis: Editora Vozes, 2009, p. 27.

(36)

vidas seria estarrecedora, e um conflito total entre superpotências pode erradicar completamente a humanidade44.

Em contraposição ao sentimento de Segurança — atrelado à ideia de Progresso — irrompe a sensação de Risco, causado, principalmente, pela desconfiança de que a Ciência e a Tecnologia talvez não sejam aptas a resolver os problemas criados pela Razão Instrumental.

[...] argumentar que “ciência e tecnologia podem solucionar todos os nossos problemas a longo prazo” é muito pior do que acreditar em bruxas, já que tendenciosamente omite-se o devastador enraizamento social das ciências e da tecnologia atuais. [...] hoje ambas estão estreitamente determinadas e circunscritas pela necessidade da perpetuação do processo de maximização dos lucros45.

A expansão e a consolidação da Razão Instrumental nos mais diversos âmbitos da vida social, ao passo que tornou mais “metódicas” e “eficientes” as ações e relações sociais — cujos resultados se tornaram mais “palpáveis” e “rentáveis” —, escamoteou a dominação política subjacente a todo este processo.

Nessa linha, Habermas destaca que:

A “racionalização” progressiva da sociedade depende da institucionalização do progresso cientifico e técnico. [...] A acção racional dirigida a fins é, segundo a sua própria estrutura, exercício de controles. Por conseguinte, a “racionalização” das relações vitais segundo critérios desta racionalidade equivale à institucionalização de uma dominação que, enquanto política, se torna irreconhecível: a razão técnica de um sistema social de ação racional dirigida a fins não abandona o seu conteúdo politico46.

O afloramento deste quadro agravou o enfraquecimento da crença no progresso. A isto se soma o fato de que o desenvolvimento do paradigma moderno-capitalista foi marcado por genocídios, guerras mundiais, constantes conflitos sociopolíticos, crises econômicas das mais difíceis, miséria e pobreza, espoliação e violência etc.

44

GIDDENS (1991. p. 15). 45

MÉSZÁROS, István. A crise do capital. São Paulo: Boitempo, 2009. p.53.

Referências

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