• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 - RIO de JANEIRO, SECULO XXI

4.3 A Barra da Tijuca - utopia ou distopia urbana?

A Região Administrativa da Barra da Tijuca compreende oito bairros: Recreio dos Bandeirantes, Vargem Pequena, Vargem Grande, Camorin, Grumarí, Joá, Itanhanga e, finalmente, Barra da Tijuca. Cada bairro conta com uma própria

dinâmica interna de atração e repulsão de pessoas e capitais, centralidades e particularidades. A Região Administrativa reúne centralidades que compartilham características ambientais relacionadas ao território em comum. Além disso, em muitos casos, a história da formação e desenvolvimento urbano dos bairros decorre de fatos em comum, como a instalação do Plano da Barra da Tijuca e seu eixo principal, a Avenida das Américas.

Situada entre o Oceano Atlântico e os Maciços da Pedra Branca e da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Barra é formada em grande parte por “ilhas barreira”,66 separadas do continente por um extenso sistema lagunar. A área, cheia de alagadiços e imprópria para o plantio, coberta em sua maior parte por vegetação de restinga, permaneceu desocupada até meados do século XX, sendo frequentada apenas por pescadores.

O grande marco do início do desenvolvimento da Barra se deu na administração de Negrão de Lima, então governador do estado da Guanabara, que encomendou ao urbanista Lúcio Costa um projeto urbanístico para a região:

O Plano Piloto da Barra da Tijuca, de 1969, similar ao Plano de Brasília, com grandes avenidas e espaços livres. No final da década de 1960, foi construída a Auto-Estrada Lagoa-Barra, que possibilitou uma urbanização mais acelerada, diminuindo o tempo de transporte para a Zona Sul da cidade. Neste período consolidaram-se grandes condomínios no bairro, inspirados em modelos da habitação para idosos que começavam a surgir, sobretudo no Estado americano da Flórida, oferecendo espaços amenos, de baixa densidade, com qualidade paisagística e, sobretudo, vigilância e segurança na forma de vigias, muros e câmeras. Nos anos 70, destacam-se os condomínios Nova Ipanema e Novo Leblon, que trazem a interiorização do comércio como fator de comodidade.

Na década de 1990, outro grande marco urbanístico que possibilitou melhor ligação com a Zona Norte da cidade do Rio foi a criação da Linha Amarela, via

66 Uma ilha barreira é uma ilha formada por uma faixa arenosa, estreita e comprida, geralmente paralela à linha de costa. Geralmente ocorrem em cadeias, de algumas poucas a até mais de uma dúzia. Desconsiderando-se as pequenas embocaduras que separam as ilhas, uma cadeia de ilhas barreiras pode se estender por mais de cem quilômetros.

expressa que liga a Barra da Tijuca à Ilha do Fundão. (ABREU, 1988) A partir de então, o crescimento da Barra tem se caracterizado por grande afluência de capitais, empresas e empreendimentos imobiliários, mas também por focos de pobreza e expansão de assentamentos precários.

Outra característica marcante da Barra da Tijuca é a presença de grande variedade de Shoppings, lojas e empresas, que vêm migrando para o bairro atraídas pelo boom imobiliário. Entre as grandes empresas que escolheram a região para instalar suas sedes ou filiais, encontram-se a Shell Brasil, a Esso Brasil, a Vale do Rio Doce, a Vivo, a Michelin, a Nokia, a Tim e a Unimed, além de grandes empresas de comunicação, shoppings, agências de publicidade, etc. A região da Barra da Tijuca possui inúmeros centros comerciais de grande, médio e pequeno porte.

Grandes empresas nacionais e estrangeiras possuem sedes na região como Shell, Esso, Vale do Rio Doce, Vivo, Michelin, Nokia, TIM, Unimed e Globosat. Entre os principais centros comerciais estão o Américas Corporate, o Barra Business Center, o Barra Prime Office, o Barra Space Center, o Alfa Business, o Advanced Office, o Bandeirantes Office, o Barra Tower Offices, o Barra Trade, o Blue Center, o Brookfield Place, o Corporate Executive Offices, o Dimension Office & Park, o Via Comfort Working e o Le Monde Londres Financial Center.67 É notável a utilização de termos em língua estrangeira, o que pode ser entendido como a tentativa de revelar certo caráter cosmopolita, internacional, alinhado com uma cultura globalizada.

Os Shoppings Centers da Barra estão entre os maiores e mais importantes do Rio de Janeiro. O maior deles, o Barra Shopping, um dos maiores centros de compras da América do Sul, foi inaugurado em 1981 e é considerado um dos 3 shoppings mais frequentados da cidade, ao lado do Norte Shopping e do Shopping Rio Sul. (CARVALHO, 2005) Ao seu lado foi criado, em 1999, o New York City Center, uma extensão do Barra Shopping mais voltada para o lazer. Do outro lado fica o Centro Empresarial Barra Shopping. O New York City Center possui sua arquitetura inspirada na ilha de Manhattan, contando com uma enorme réplica

67 Fonte: Website de busca de imóveis. Disponível no endereço:

<http://www.buildings.com.br/busca/resultado_busca.php?cidade=Rio%20de%20Janeiro&regiao=Barra%20da

%20Tijuca> Acessado em Outubro de 2010

da Estátua da Liberdade em sua entrada. A imitação gerou polêmica, porém, sendo a Barra largamente influenciada pelos valores e ícones culturais norte-americanos68, a estátua foi mantida, e tornou-se um dos símbolos da Barra. Os outros 2 shoppings mais importantes são o Via Parque Shopping, e o Downtown, um shopping aberto, dividido em diversos blocos, que concentra lazer noturno, salas comerciais, lojas tradicionais e uma unidade da Universidade Gama Filho. Pode-se notar certa influência do movimento conhecido como Novo Urbanismo no modelo de implantação do Downtown – tentativa de reproduzir a ambiência de uma cidadezinha

“tipicamente americana” – as semelhanças são superficiais, o espaço do shopping é isolado da cidade ao redor, restrito, e mantido sob vigilância. Além disso, é voltado unicamente para atividades comerciais (não existem moradores no Downtown), ao contrário do que se espera de um centro de cidade tradicional.

Tabela 23: Shoppings Centers do Rio de Janeiro em 2002 (destaque para aqueles localizados na Barra da Tijuca)

Shopping centers Área Total do terreno (m²)

68 Conforme já apontava a reportagem da Revista Veja de 10/11/1999. Disponível no site:

<http://veja.abril.com.br/101199/p_180.html> Acessado em Outubro de 2010

Nova América Outlet

Shopping 120 000 56 000 22 100 1 2 000 5

Passeio Shopping 5 293 22 494 6 367 2 350 -

Recreio Shopping Center 26 379 41 902 18 337 4 1 070 5 Rio Design Barra 29 000 60 000 15 500 3 1 000 3

Rio Design Center 3 600 17 000 5 180 4 240 -

Rio Off-Price Shopping

Center 18 700 19 253 7 206 1 358 2

Rio Sul Shopping Center 21 827 135 000 49 500 4 3 000 4 São Conrado Fashion Mall 13 000 47 000 14 500 2 770 4 Shopping Center Iguatemi

Rio 24 552 93 200 25 500 3 1 394 7

Shopping Center Paço do

Ouvidor 1 089 3 181 1 415 3 - -

Shopping Tijuca 13 200 73 068 20 359 4 1 100 3 Via Parque Shopping

Center 107 000 90 000 39 700 2 2 400 6

West Shopping Rio 20 518 72 330 12 000 4 1 100 6

Fonte: Associação Brasileira de Shopping Centers - ABRASCE.

A Barra conta hoje com outros shoppings de grande e médio porte, como o Città America, o Barra Square, o Barra Garden, o Barra Point (ao qual se pode chegar de lancha, ancorando-a na parte de trás do shopping), o Bayside Shopping, o Marapendi Shopping, além de outros menores. Alguns foram criados junto aos prédios de condomínios fechados, como o Millenium, o La Palmas, o Novo Leblon, o Barra Mall, o Open Mall, entre outros. Há também shoppings especializados, como o InfoBarra (informática), o Barra Medical Center, e o Casa Shopping. Novos shoppings como o Centro Metropolitano e o Village Mall encontram-se em

construção e serão inaugurados antes dos Jogos Olímpicos de 2016.69 Mais uma vez, é notável a escolha de termos internacionais para os nomes e atributos associados aos shoppings.

A participação da Região Administrativa da Barra da Tijuca na arrecadação municipal foi fortemente influenciada pela expansão dos setores imobiliário, comercial e de serviços, passando de R$ 66.815.418,13 em 2001, para R$

205.894.394,12 em 2007. Neste período, a Barra passou de 4ª para 3ª maior arrecadação – atrás apenas do Centro e de Botafogo, ultrapassando a Lagoa – e dá sinais de contínuo crescimento, o que leva a crer que, em 2010, a RA já ocupe o 2º lugar no ranking das maiores arrecadações municipais. 70

A Região Administrativa da Barra conta com 166 km², dos quais 48,2 estão acima da cota de 100m e apenas 26,7 eram considerados área urbana em 2001.71 Outros 22,5km² eram considerados “área urbana não consolidada”, antecipando a expansão do bairro, 17,8km² eram ocupados por campos antrópicos e 4,3km² tinham o solo exposto para a mineração. Entre 1984 e 2001, as áreas antropizadas na Barra aumentaram 34,5%, mas a área urbana cresceu mais de 70%; a área urbana

“não consolidada” e o campo antrópico cresceram em ritmo menos acelerado e as áreas de mineração diminuíram. O Mapa 13, elaborado como subsídio para a revisão do Plano Diretor Decenal (recorte do autor), em 2005, apresenta um panorama da Barra da Tijuca em 2005, revelando favelas, loteamentos irregulares, conjuntos habitacionais, centros comerciais e eixos com concentração de comércio e serviços.

A expansão urbana tem como consequência a retração de áreas remanescentes de floresta, mangue e restinga, acompanhada do aumento de florestas alteradas, geralmente para usos humanos como a plantação de banana ou eucalipto. A área total coberta com vegetação em 1984 era de 112km², sendo 55

69 Fonte: Uma lista dos shoppings da Barra da Tijuca pode ser encontrada no site:

<http://www.apontador.com.br/em/rj_rio-de-janeiro/shoppings/em_barra-da-tijuca> Acessado em Outubro de 2010.

70 Fonte: Secretaria Municipal de Fazenda – SMF. Disponível no Site:

<http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/> Acessado em Outubro de 2010.

71 Fonte: Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SMAC

cobertos por floresta nativa; em 2001, a área verde total era de 94km² – redução de 16% – e as florestas tinham sido reduzidas a 39km², quase 30% menos que em 1984. A área de restinga e áreas úmidas com vegetação foram reduzida a praticamente metade no mesmo período.

MAPA 13: Barra da Tijuca – caracterização do território.

Fonte: Plano Diretor Decenal de 1992 – Subsídios para sua Revisão – 2005. Disponível no Site:

<http://www2.rio.rj.gov.br/smu/paginas/pdf/plano_diretor_relatorio_291208.pdf> Acessado em Outubro de 2010.

Por algum tempo se atribuiu o fenômeno do desmatamento e da destruição de ecossistemas naturais aos assentamentos irregulares dos mais pobres, as favelas e guetos que se multiplicam sem ordenamento e, muitas vezes, avançam sobre áreas de cobertura verde, protegidas ou não pela legislação ambiental. Em relação à Barra, assim como ao Rio de Janeiro, esta premissa não é verdadeira. A área ocupada por favelas na Barra da Tijuca, em 2008, era de aproximadamente 1,7km², área que corresponde a apenas 10% do total de floresta que foi desmatado entre 1984 e 2001. Mesmo assim, a área ocupada por favelas vem aumentando na Barra. Nos últimos dois anos, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP) e o Sistema de Assentamentos de Baixa Renda (SABREN), houve expansão de 1,8% na área

total ocupada por favelas, enquanto a média municipal teve retração de 0,8% no mesmo período – graças, entre outros fatores, às políticas de remoção.

A população da Barra da Tijuca, em 2010, era de 174.353 pessoas, que demonstrava predomínio de 74% dos homens como chefes de família no ano 2000, com idade de 45 anos e 11 anos de escolaridade, em média.72 O rendimento nominal mediano (não incluindo os sem rendimento) era de R$2.300,00 por mês em 2010, mais que o dobro do valor registrado no município. Isto caracteriza um assentamento com padrão econômico acima da média, e que se apresenta em expansão, motivado pela disponibilidade de terras e crédito para a construção, e por ações afirmativas do Estado, como os investimentos da Cidade Olímpica, equipamentos culturais e de infraestrutura.

Exemplo desta expansão é a quantidade de certidões de habite-se emitidas anualmente pela prefeitura para novos empreendimentos no bairro. Em 2010, foram emitidas 255 certidões para novas edificações construídas na Barra, que entre as R.A.’s só ficou atrás de Campo Grande, com 264 certidões. Quando se leva em conta a área total edificada, a Barra é a Região Administrativa na qual mais se construiu em 2010, somando uma área total de 210.002m² destinados a uso residencial, contra apenas 44 mil em Campo Grande. Esta diferença deve-se à padrões construtivos destinados à faixas de renda muito contrastantes.73

Outro elemento característico é o gabarito elevado das construções, sobretudo as de uso residencial. Na Barra da Tijuca, foram construídos ao todo 311 novas edificações em 2010, somando 880 unidades residenciais e 4212 comerciais.

Tal proporção só é possível através da intensa verticalização, que junto com a grande quantidade de áreas livres, caracterizam o modelo de urbanização percebido na Barra.

72 Fonte: IPP – Instituto Pereira Passos. Disponível no site: , <http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/>

Acessado em Outubro de 2012.

73 Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo – SMU. Disponível no site:

<http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/> Acessado em Outubro e 2012

A Região Administrativa da Barra da Tijuca conta com área 1,14 km² de áreas livres ajardinada, a 4ª maior entre as Regiões Administrativas da cidade, atrás de Santa Cruz, Campo Grande e Bangu. O Mapa 14 revela as principais áreas de crescimento urbano da Barra, a partir do número de construções no bairro em 2010.

Percebe-se maior concentração de novas edificações no Recreio e na porção Noroeste, com progressiva consolidação do eixo da Avenida das Américas.

MAPA 14: Total de Edificações em Construção na Barra em 2010.

Fonte: CNEFE – Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos. IBGE – CENSO 2010.

Percebe-se expansão, também do setor comercial da Barra, que pode ser sentido pelo crescimento do número de postos de trabalho e da arrecadação de ISS e outros impostos. Também pode ser associado ao aumento significativo do

consumo de energia elétrica pelo setor na última década.74 Este crescimento econômico é marcado por padrões elevados de consumo, geralmente direcionados a grupos de alta renda.

Conforme aponta Ledilson Santos, dada a distância em relação aos bairros mais centrais da cidade, como o Centro, Tijuca e mesmo a Zona Sul, pode-se dizer que sua localização territorial permitiu à Barra da Tijuca certo isolamento (JUNIOR, 2009). Nos projetos urbanos e nos empreendimentos imobiliários que vieram a consolidar o bairro, buscou-se ao máximo evitar a proximidade entre grupos sociais contrastantes.

“O espaço social da Barra da Tijuca, segundo os seus idealizadores, deveria ser asséptico, o que não significou a ausência de favelas na região e um passado recente de ações violentas de remoção”(JUNIOR, 2009, p.252)

Este desejo de isolamento não evitou o aparecimento de assentamentos irregulares, mas foi garantido que estes ficassem afastados da área urbana mais valorizada (diferente do que ocorre em Copacabana, por exemplo). Até 2009, estavam registradas 62 favelas na Barra, com uma população total de 54.501 pessoas em 2010, equivalente a 18% do total da R.A.75

Entre os domicílios particulares da Barra da Tijuca, 7,5% tinham renda nominal per capta menor que meio salário mínimo em 2010, caracterizando situação de pobreza. Mais de um terço dos domicílios, no entanto, possuem rendimento superior a cinco salários mínimos por pessoa, com expressiva concentração – de mais de 20 mil domicílios – com renda superior a dez salários por pessoa. Este

74 Fonte: IPP – Instituto Pereira Passos. Disponível no site: , <http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/>

Acessado em Outubro de 2012.

75 Fonte: IPP – Instituto Pereira Passos. Disponível no site: , <http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/>

Acessado em Outubro de 2012.

padrão é destoante do registrado no município como um todo, cuja maior proporção de pessoas se concentra na faixa entre ½ e cinco salários de renda domiciliar per capta. Se forem consideradas as diferenças na concentração das residências, possivelmente, a proporção da população que vive em situação de pobreza seria maior.

Já nos anos sessenta, Jean-Luc Godard produziu um filme clássico:

Alphaville, que apresentava a visão assustadora de um cenário urbano onde todos os movimentos eram programados e controlados por um grande computador, espécie de Big Brother de George Orwell, instalado no núcleo central da cidade, o Alphaville 60. Curiosamente, este pesadelo autoritário, no qual os indivíduos são destituídos de toda personalidade própria, teve a sua nomenclatura reaproveitada alguns anos depois por um ambicioso projeto residencial paulistano. Segundo Ledilson Santos,

“A recuperação deste nome parece atender a um preceito lógico.

Seus empreendedores, preocupados em convencer os futuros compradores das unidades alphavillianas de que estes morariam em ambientes inovadores, recorreram à ficção para reforçar uma representação coletiva. O fato de que viver nas cidades convencionais tenha se tornado perigoso, e ainda que os indivíduos precisassem sacrificar, em um primeiro momento, certo níveis de liberdade, esta perda seria compensada por um futuro seguro, sustentado por modos de vida harmoniosos. Daí a sua opção por uma cidade asséptica, longe dos intrusos, bem parecido com a intenção defendida pela paranóia de segurança do filme francês.”

(JUNIOR, 2009, p.3)

Recentemente foi inaugurado um condomínio da franquia Alphaville na Barra da Tijuca, em área nobre próxima ao Barra Shopping e ao parque municipal Bosque da Barra (Parque Arruda Câmara). O condomínio também localiza-se nas imediações do Aeroporto de Jacarepaguá, reforçando o caráter competitivo do empreendimento, voltado para fachas de renda extremamente elitizadas,

cosmopolitas, e relacionadas à dinâmica econômica inter-regional e internacional. O próprio nome, que pode ser traduzido como “vila dos alfas” ou, “cidades dos melhores”, reflete uma ideologia que legitima a competitividade como forma de seleção, uma espécie de darwinismo social que pode ter repercussões perigosas. O Alphaville Barra da Tijuca está em sua segunda fase, e os lotes, de 600 e 1.000m², são vendidos por até R$2,5 milhões.76

Um aspecto importante do que se poderia chamar de consciência urbana da Barra da Tijuca, como aponta Ledilson Santos, é a preocupação com segurança e comodidade, que acompanha a progressiva profissionalização da gestão dos condomínios, afastando os indivíduos de assuntos da vida comunitária e reforçando a individualização da vida quotidiana. A questão da comodidade aparece em decorrência do alto poder econômico e do aumento do stress como patologia urbana, o que leva a interiorização de serviços e comércio dentro dos condomínios.

Para o consumo de artigos indisponíveis dentro dos condomínios, é crescente a tendência à utilização de serviços de entrega em domicílio, que também é comum em outros bairros da cidade. Assim, mesmo que os condomínios fechados tenham aumentado a sua complexidade, tanto do ponto de vista estrutural quanto social e pessoal, esta opção residencial tem no individualismo um dos seus pressupostos.

(JUNIOR, 2009, p. 256)

Outra característica da população da Barra da Tijuca é o consumo intensivo de energia, acima da média municipal, tanto no uso domiciliar quanto nos espaços comerciais. Em 2012, o Rio de Janeiro consumiu aproximadamente 14,5 milhões de MWh (Megawatts-hora), sendo 5,9 milhões destinados ao uso residencial e outros 5 milhões, ao uso comercial. Na Barra, bairro que concentra apenas 2,9% da população total da cidade, foram gastos mais de 1,3 milhões de MWh. O uso residencial correspondeu a 0,67 milhões de MWh e o comercial, a 0,59 milhões.

Outras regiões ricas da cidade tiveram consumo energético muito inferior, tais como a Lagoa, com população de 167.774 – pouco menor que a Barra – que

76 Fonte: Viva Real – Portal imobiliário. Disponível no site: <http://www.vivareal.com.br/lote-terreno-36149425/> Acessado em Outubro de 2012.

registrou consumo anual total próximo de 840 mil MWH. Portanto, além de certa correlação entre renda e consumo energético, pode-se evidenciar, na Barra, outros fatores que contribuem para padrões de consumo mais intensivos na utilização de energia.

A grande concentração de Shopping Centers, utilizados como espaço de socialização, entretenimento e consumo, pode contribuir para os elevados gastos do setor comercial, já que estes equipamentos exigem iluminação e refrigeração permanentes. Em relação às residências, não se pode atribuir imediatamente o elevado consumo a determinados fatores sociais, entretanto, é possível imaginar que a forma dos assentamentos e a maior disponibilidade de recursos ocasionem hábitos quotidianos mais intensivos na utilização e energia elétrica – maior número de televisões e computadores, refrigeração de ambientes, iluminação, etc.

Consequência do elevado padrão material é também a quantidade de lixo produzida na Barra. Em 2009, foram recolhidos 54,5 mil toneladas de resíduo sólido domiciliar e 44,2 mil toneladas de resíduo público, correspondentes, em média, a 452kg de lixo anual por habitante. Pode ser percebido um aumento significativo na produção de resíduo, que acompanha o crescimento da população, mas também é intensificado pelo aumento da oferta de produtos e serviços, gerando uma média de geração per capta maior. Em 2001, a contribuição anual média de lixo domiciliar era, no município, de 240kg por habitante, na Barra da tijuca, esta média era de 260kg.

A despeito das iniciativas de reciclagem e reaproveitamento que se tornaram comuns, outro fenômeno que contribui para o aumento da geração de lixo é uma espécie de lógica industrial (ou “pós-industrial”) conhecida como “obsolescência

A despeito das iniciativas de reciclagem e reaproveitamento que se tornaram comuns, outro fenômeno que contribui para o aumento da geração de lixo é uma espécie de lógica industrial (ou “pós-industrial”) conhecida como “obsolescência