Diversos conflitos emergem da desigual distribuição dos benefícios urbanos e da peculiar condição da propriedade da terra enquanto mercadoria. No caso do Rio de Janeiro, as remoções e demolições decorrentes dos projetos da Cidade Olímpica são um bom exemplo destas tensões, a partir do qual é possível avaliar possíveis beneficiados com as transformações, assim como aqueles prejudicados pelas mesmas. Conflitos comuns aos grandes centros dizem respeito ao uso da água (casos de racionamento e falta d'água), ao usufruto da paisagem (construções que obstruem a vista ou reduzem a privacidade), ao acesso aos serviços públicos (vagas em hospitais e escolas, por exemplo), à locomoção e acessibilidade. A natureza participa destes conflitos tanto no sentido dos bens e serviços por ela proporcionados quanto do respeito à existência de outras espécies e ecossistemas.
Estes dois aspectos são colocados em risco com a expansão urbana, o que reforça importância da consideração pela ecologia urbana nos debates sobre sustentabilidade e equidade.
A avaliação dos custos de construção e manutenção dos assentamentos humanos e seus artigos de consumo não parecem levar em consideração interdependências (ou “externalidades”) locais, regionais e até internacionais para apontar com maior precisão os custos monetários e ecológicos destes sistemas. No início do século XX, o biólogo e planejador urbano Patrick Geddes pretendeu promover uma visão biofísica da economia, como um subsistema incorporado a um sistema mais amplo de relações entre a ecologia, a geografia e o urbanismo. Em tempos de globalização, quando se distanciam as relações de causa e efeito entre a produção e o consumo de bens, muitas vezes, como evidencia Alier:
“os cidadãos ricos buscam satisfazer suas necessidades ou desejos por intermédio de novas formas de consumo que são, em si mesmas, altamente intensivas na utilização de recursos. Esse é o caso, por exemplo, da moda de degustar camarões importados dos países tropicais ao custo da destruição dos mangues, ou da aquisição de ouro ou diamantes,...” (2011, p.44)
Apesar da crescente reivindicação por medidas compensatórias para impactos ambientais e, secundariamente, para os sociais, deve-se considerar os limites da valoração de determinadas transformações ocasionadas pela exploração de recursos humanos e naturais. A filosofia grega fazia distinção entre os termos oikonomia (arte do aprovisionamento material da casa familiar) e crematística (estudo da formação dos preços de mercado, para ganhar dinheiro), o que fica expresso na Política, de Aristóteles. O primeiro representaria a riqueza verdadeira e os valores de uso, o segundo, os valores de troca e algo próximo do que hoje seria entendido como oferta e procura. Esta distinção parece hoje irrelevante porque o aprovisionamento material se dá, predominantemente, através de transações comerciais. Ainda assim, muitas atividades são realizadas no interior do núcleo familiar e muitos serviços da natureza ocorrem fora do mercado – basta contabilizar as horas dedicadas às atividades domésticas ou a pescaria amadora nas cidades costeiras.
As externalidades, por sua vez, são custos não contabilizados de uma determinada operação, gerando consequências para terceiros. Segundo Togeiro, "as externalidades ocorrem porque o bem em questão (meio ambiente/ recursos naturais) não é propriedade de ninguém, ou melhor, é de domínio universal”. (1998, p.28). Este é o caso do lançamento de afluentes industriais em corpos d'água, ou da destruição de certos ecossistemas para a produção pecuária extensiva. Nestes dois casos, o exercício da propriedade sobre os corpos d'água e a biodiversidade é praticado, ainda que seus custos não sejam assimilados pelas industrias e proprietários de terras. Entretanto, a consequente escassez da pesca em comunidades ribeirinhas, assim como a perda de espécies animais e vegetais pode ser considerada externalidade do processo, gerando prejuízos econômicos, sociais e ecológicos. A proposta do economista inglês Arthur Cecil Pigou, ainda em 1920,
sugeriu o estabelecimento de taxas e impostos para neutralizar os danos dos custos externos (ou externalidades), entre eles, os danos ambientais de variadas origens – princípio do poluidor pagador. (SANTOS, 1998) Este tipo de medida deve considerar o risco de reduzir todos os fatores à linguagem monetária, legitimando a possibilidade de gerar danos sociais e ambientais, desde que seja paga a compensação. Levando em conta que muitos bens proporcionados pela natureza são imateriais, difíceis de contabilizar e, sobretudo frágeis e não substituíveis, a prática da compensação meramente econômica parece insuficiente para solucionar os conflitos evidenciados.
Entretanto, Alier ressalta a importância das questões distributivas, social e ecologicamente, para a decisão produtiva de qualquer atividade econômica que seja. (2011, p.51) Existem fortes interesses de que as externalidades permaneçam como tal – fora da contabilidade dos resultados e do balanço da empresa. As decisões seriam diferentes caso tais passivos ambientais e sociais fossem incorporados na sua conta (na forma de algum valor econômico). Além disso, os aspectos distributivos ambientais não recaem unicamente sobre os produtores, podendo influenciar uma área indeterminada (no caso de agrotóxicos, por exemplo, ou da poluição ocasionada pelos automóveis). Isto possui, ainda segundo o autor, influência nas formas assumidas pelos conflitos ecológicos, que podem variar de acordo com o modo pelo qual se da a mobilização popular, os atores envolvidos e os métodos de valoração utilizados. (2011, p.52)
Para Swyngedouw e Heynen, a questão da sustentabilidade urbana trata, essencialmente, da distribuição das amenidades ambientais, tanto quanto dos riscos (SWYNGEDOUW E HEYNEN, 2003, pp.899-918). Embora a noção de risco ambiental incorpore certa imprevisibilidade na distribuição de seus efeitos, é possível estabelecer correlações entre o padrão sócio-econômico dos assentamentos e a exposição aos efeitos negativos da urbanização e da exploração dos recursos naturais. Isto porque as atividades que causam maior impacto negativo (aterros sanitários, indústrias químicas, plantações que utilizam agrotóxicos) tendem a se instalar em áreas desvalorizadas do território. Da mesma forma, muitas aglomerações irregulares não contam com saneamento básico, o que multiplica
riscos ambientais. Esta distribuição assimétrica de riscos e amenidades ambientais também parece responder ao que Bernardo Secchi chamou de "valores posicionais".
(2006)
São inúmeras as exposições dos mais pobres aos efeitos nocivos do desenvolvimento sobre o ambiente urbano, desde o tempo perdido no trânsito em transportes coletivos, até o risco de deslizamento da casa, construída em encosta; o risco de ser despejado do terreno, do qual não possui título de propriedade; risco de doenças decorrentes do saneamento inadequado; risco de ficar desempregado, de não poder sustentar a família. Percebe-se que a distribuição desigual da propriedade urbana, dos equipamentos de uso público, dos serviços de infra-estrutura e da renda, na Metrópole do Rio de Janeiro, levam à produção de espaços de grande fragilidade ambiental e social, fragmentados em relação à cidade, nos quais mais se percebe os fatores de insustentabilidade.
Também se observa na cidade, por outro lado, uma convergência de recursos públicos e privados, na forma de grandes transformações na infra-estrutura e acelerada dinâmica imobiliária, promovendo a remodelação de antigos bairros e a expansão dos limites (e da importância econômica) de outros. Neste processo, além das mudanças na paisagem e da incorporação de espaços naturais, também são observados conflitos de interesse quanto ao uso dos espaços urbanos - o que se manifesta nas remoções (nem sempre pacificas) promovidas pelo poder público, em ações contrárias às mudanças (a ocupação do Museu do Índio, por exemplo) e na política de ocupação armada de favelas.