II. CAPÍTULO — A DOUTRINA ESTATAL DE ROBERT
2.2. A legitimidade do Estado
2.2.3. O Estado mínimo e a organização da comunidade: a justiça
2.2.3.1. A base teórica da justiça nozickiana: a teoria da titularidade
2.2.3.1.1. A justiça na aquisição
A primeira modalidade da justiça nos haveres consiste na sua aquisição original. Esta aquisição, geral ou, como considera Nozick, apropriação de coisas não possuídas, tem o significado de: como, o quê e em que medida algo pode ser possuído300.
Tomando em consideração os direitos individuais no estado de natureza, a aquisição de bens e afins implica cuidados relevantes. Pode-se questionar, por exemplo, até que ponto um homem pode escravizar outro, tomando-o como sua propriedade. Dito de outra maneira, pergunta-se de quem os indivíduos herdaram ou adquiriram os bens e a propriedade que alegam ser sua pertença?
Dada a pertinência do assunto para Nozick, a solução é vista através dos direitos individuais e da sua inviolabilidade. Pela sua natureza, a liberdade não coibiria ninguém de dispor de haveres; logo, afora as restrições morais extremas, a propriedade é um dom aquisitivo, individual e inalienável.
2.2.3.1.2. A justiça na transferência
O segundo tópico da titularidade nozickiana diz respeito à transferência dos haveres. Questiona, fundamentalmente, as vias pelas quais uma pessoa transfere para outra os seus haveres e vice-versa, como adquire de outrem posses que reclama, em definitivo, como sua pertença.
299 João Cardoso Rosas e Mathias Inigo González, “Filosofia política”, in Pedro Galvão (Org.), Filosofia,
uma introdução por disciplinas. Lisboa: Edições70, 2013, p. 181.
68 As formas de transferência dos haveres, a transmissão de posses de uma pessoa para outra, são, segundo Nozick, a troca voluntária, a doação, a fraude, entre outros301.
Antes de abordar o terceiro e último tópico da justiça nas posses302, Nozick
apresenta, grosso modo, o seguinte argumento:
“Se o mundo fosse completamente justo, a seguinte definição indutiva abrangeria exaustivamente o tema da justiça nos haveres. 1) Uma pessoa adquire um haver em concordância com o princípio de justiça na aquisição tem o direito a esse haver. 2) Uma pessoa que adquire um haver em concordância com o princípio de justiça na transferência, de outrem que tem o direito ao haver excepto através de aplicações (respeitadas) de 1 e 2”303.
Alexandra Abranches304 observou que a perspectiva nozickiana da justiça nos haveres segue o mesmo esquema de derivação do Estado mínimo a partir do estado de natureza, pois as questões morais e de justiça se impõem como vectores determinantes no exercício dos direitos naturais e na inviolabilidade da sua aplicação. Todavia, estes princípios não devem ser entendidos como uma descrição estrutural, nem como directivas formais de aplicação da justiça. Os indivíduos, por natureza, estariam aptos para — dentro dos seus direitos — delimitar as fronteiras de inviolabilidade, quer pessoais, quer de outrem. Para tal, Nozick destaca da seguinte forma as condições prévias, as circunstâncias e a legitimidade das aquisições: “o princípio de justiça distributiva completo diria simplesmente que uma distribuição é justa se todos têm direito aos haveres que possuem ao abrigo da distribuição”305.
Ora, na prática, a experiência demonstra que, as relações humanas que se estabelecem em torno das questões que envolvem a propriedade e as suas transferências não são isentas de conflitos, pelo que o processo da justiça nos haveres não legitimaria, por exemplo, as posses atribuídas a um ladrão pelas suas vítimas306.
301 Robert Nozick, op. cit., p. 192.
302 Alexandra Abranches, “Direitos individuais e Estado mínimo” in João Carlos Espada e João Cardoso
Rosas, O pensamento político contemporâneo, uma introdução. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 113.
303 Robert Nozick, op. cit., p. 193. 304 Alexandra Abranches, op. cit., p. 113. 305 Robert Nozick, op. cit., p. 193. 306 Ibid., p. 194.
69 Porém, numa sociedade derivada do estado de natureza, Nozick destaca que “a justiça nos haveres é histórica, depende do que efectivamente aconteceu”307 e, portanto,
das decisões individuais tomadas com base nos direitos individuais308.
Diz-se, pois, que num mundo completamente justo [que não seria humano], nada mais seria necessário para além dos dois primeiros princípios309. Ora, são muitas as situações históricas em que a justiça e o consenso não prevaleceram; já Locke referia casos de violações da justiça natural. Na mesma linha, diz Nozick:
“Algumas pessoas roubam outras, ou defraudam-nas, ou escravizam-nas, apoderando-se do que produzem e impedindo-as de viver como preferem, ou excluem coercivamente os outros da concorrência nas trocas”310.
Contudo, “a existência de injustiças no passado (violações prévias dos primeiros dois princípios da justiça nos haveres) levanta o terceiro tópico da justiça nos haveres”311 — a sua rectificação.
2.2.3.1.3. A rectificação da injustiça nos haveres
Se os dois primeiros princípios — justiça dos haveres na aquisição e justiça dos haveres na transferência — não fossem violados, o mundo seria perfeito. No entanto, a vigência desses princípios depende das circunstâncias históricas312. Isto é, se alguém prevaricou, prejudicando outrem nas suas posses, ou se adquiriu o que possui em moldes ilegais, terá irremediavelmente de repor a situação anterior à infracção. Como é que isso acontece em termos práticos? Nozick refere várias situações teóricas para ilustrar casos relevantes de irregularidades e da sua eventual correcção313.
“Este princípio usa a informação histórica acerca de situações prévias e de injustiças nelas praticadas — como definidas pelos primeiros dois princípios
307 Robert Nozick, op. cit., p. 194.
308 Cfr. Alexandra Abranches, op. cit., p. 113. 309 Vide ibid., p. 114.
310 Robert Nozick, op. cit., p. 194. 311 Ibid.
312 Cfr. Nota supra.
70 da justiça e direitos contra interferência —, e informação acerca da série actual de acontecimentos que resultou destas injustiças, até ao presente, e produz uma descrição (ou descrições) dos haveres na sociedade”314.
Nos casos de aquisição ou de transferência injustas, o princípio de rectificação utilizará os dados mais fiáveis fornecidos pelas partes envolvidas para construir uma solução rectificativa. Isto é, procurará ajustar a situação em função daquilo que seria de esperar se a injustiça não tivesse tido lugar315. Nas palavras de Nozick:
“Se a descrição actual dos haveres não for afinal uma das descrições produzidas pelo princípio, então uma das descrições produzidas tem de ser realizada”316.
O princípio da rectificação é, contudo, extremamente difícil de pôr em prática. A este propósito, Nozick explicita numa nota317 que, “se o princípio de rectificação das violações dos primeiros dois princípios produzir mais do que uma descrição de haveres, então tem de se fazer uma escolha relativamente a qual se terá de realizar. Talvez o género de considerações acerca da justiça distributiva e da igualdade contra as quais argumento desempenhem um papel legítimo nesta escolha subordinada. De igual modo, pode haver espaço para tais considerações ao decidir-se a que características, de outro modo arbitrárias, dará corpo a um estatuto quando tais características são inevitáveis porque outras considerações não especificam uma linha precisa; no entanto [dada a historicidade], há que traçar um limite”.
Segundo Nozick, se os princípios da justiça na aquisição e na transferência forem respeitados, o número de situações irregulares que carecem de rectificação ver-se-á significativamente reduzido, mitigando, desta forma, as dificuldades da aplicação do terceiro princípio318. O equilíbrio inerente à justiça nos haveres verificar-se-á pela mera aplicação daqueles dois princípios fundamentais, sem necessidade de recorrer ao terceiro:
314 Robert Nozick, op. cit., p. 195. 315 Cfr. Ibid.
316 Ibid. 317 Cfr. Ibid. 318 Cfr. Ibid.
71 “se os haveres de cada pessoa são justos, então o conjunto total (distribuição) dos haveres é justo”319.
De contrário, admite, torna-se impraticável aduzir uma teoria específica que possa enquadrar a abordagem casuística do recurso ao princípio da rectificação.320