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II. CAPÍTULO — A DOUTRINA ESTATAL DE ROBERT

2.2. A legitimidade do Estado

2.2.3. O Estado mínimo como utopia

Sendo o Estado mínimo o único nozickianamente justificável, será ele convincente de modo a que os seus cidadãos se identifiquem com ele?382

Nozick conheceu a obra de Thomas Moore autor que se serviu, à época, da utopia como género novo nas suas análises político-sociais e críticas das contradições governativas.

Nozick deixa claro que o Estado mínimo não é uma utopia, embora reconheça, ao estudar a teoria utopista, que este é inspiração utópica383.

Nozick demonstra que conceber as sociedades como utopias é inconsistente384. Aspirar a uma sociedade em que todos os bens sociais seriam estáveis é pura quimera, visto que “a impossibilidade de realizar simultânea e continuamente todos os bens sociais e políticos é um facto deplorável da condição humana”385.

Todavia, a dificuldade da realização optimizada da vida social e política não inibe a perspectiva de, numa sociedade, se obter o melhor de todos os mundos possíveis. Para quem seria uma tal sociedade? — indaga Nozick. Os homens são livres de imaginarem estilos possíveis de mundos, mas nunca serão unânimes. “A utopia, contudo, tem de ser, num certo sentido restrito, o melhor para todos nós, o melhor mundo imaginável para cada um de nós”386.

O leque dessas aspirações, se porventura pensarmos em instituições concretas, de mundos possíveis, nem sempre é realizável. Portanto, que restrições ou proibições poderão impor-se a uns e a outros? Nozick acredita que “nem sempre serão desejáveis mundos em que cada qual recebe o seu produto marginal, parte do qual pode transferir para outros (que assim recebem mais do que o seu princípio marginal), ou ainda em que todos consentem unanimemente noutro princípio distributivo”387.

382 Robert Nozick, op. cit., p. 353. 383 Ibid.

384 Ibid. 385 Ibid.

386 Ibid., pp. 354-355. 387 Ibid., p. 61.

85 Nozick, na sua procura de modelos de sociedade desejáveis para indivíduos racionais, vê que o ordenamento político-social de tais modelos (utópicos) é interessante, contudo teórico388. A sua realização limita-se a aspectos parcelares, não abrangendo a

totalidade do social.

Esta avaliação das aspirações utópicas fá-lo avançar para um outro ponto: a projecção do modelo utópico no nosso mundo actual, questionando a possibilidade de adequação da vida dos indivíduos enquanto acto — o enquadramento389 do modelo

utópico. O primeiro passo desse trabalho de projecção consiste em identificar as diferenças entre o modelo utópico e o mundo actual.

“Há diferenças importantes [afirma Nozick] entre o modelo e a projecção do modelo no mundo actual. Os prolemas com o funcionamento do enquadramento no mundo real emanam das divergências entre a nossa vida terrena real e o modelo de mundos possíveis”390.

Das diferenças encontradas é possível destacar391: 1) ao contrário do modelo utópico, no nosso mundo não se pode criar as pessoas como se deseja — as pessoas são livres; 2) diferentemente do modelo, no mundo efectivo as comunidades não são uniformes, existem entre elas problemas de relações externas e autodefesa — há conflitos com a propriedade; 3) no mundo actual, descobrir o que as outras comunidades são e como são tem custos de informação; existem também custos de deslocação de uma comunidade para outra — receios de insegurança; 4) no mundo actual, existe apetência pelo monopólio e tendência para impor restrições às liberdades dos indivíduos.

Descritas as diferenças entre o mundo real e os mundos possíveis, Nozick não cessa de questionar: até que ponto o mundo dos possíveis (utopia) é relevante para o real? O percurso para a clarificação deste desafio é acidentado.

“Os detalhes em que alguns escritores utopistas se imergem indicam um esbatimento da fronteira entre a fantasia e o que é efectivamente previsto;

388 Robert Nozick, op. cit., p. 363. 389 Cfr. Ibid., p. 364.

390 Ibid., p. 364.

86 por exemplo, a perspectiva de Fourier, de que os mares se tornariam em limonada, em que evoluiriam antileões e antitigres amigáveis […] ”392.

A realização desses mundos possíveis envolve, nesse sentido, várias condições. Nozick desenvolve três dimensões — das muitas vertentes teóricas sobre a utopia — que considerou de enquadramento utópico393, o qual revela relevância do ideal sobre o real.

A primeira dimensão, teórica, consiste na consideração de que as pessoas são diferentes e de que, para cada uma, existe um tipo de vida que objectivamente crê ser melhor; “há um leque vasto de tipos de vida, muito diferentes, que são igualmente bons; nenhum outro tipo de vida é objectivamente melhor para a pessoa do que qualquer um dentro deste leque, e nenhum neste leque é objectivamente melhor do que qualquer outro”394. São defensores deste enquadramento muitos autores, desde Wittgenstein até Peter Kropotkine395.

Ora, se atentarmos nas diferenças entre as pessoas, “haverá realmente um tipo de vida que seja o melhor para cada uma destas pessoas?”396 pergunta Nozick. Tudo indica que há aqui uma abertura livre e pessoal no modo como cada um gostaria que o seu mundo, a sua vida, ou a sua comunidade fossem.

“A utopia [destaca Nozick] é um enquadramento para utopias, um lugar onde as pessoas têm a liberdade de se associar voluntariamente para procurar e tentar realizar a sua própria visão da vida boa na comunidade ideal mas onde ninguém pode impor a sua própria visão a outros”397.

A segunda dimensão do enquadramento utópico diz respeito ao consentimento e às escolhas voluntárias. As pessoas não estão obrigadas a pertencer a uma determinada comunidade, podendo “forjar” modelos que mais se identifiquem com as suas vontades. Este modelo de utopia é apelidado, pelos seus detractores, de modelo “bufete”398. As

diferentes comunidades proporcionarão um leque de menus societários a partir dos quais

392 Robert Nozick, op. cit., p. 365. 393 Vide ibid., p. 366. 394 Ibid., p. 367. 395 Cfr. Ibid., p. 368. 396 Ibid. 397 Ibid., p. 369. 398 Cfr. Ibid., p. 370.

87 cada indivíduo escolherá que comunidade se aproxima mais do seu equilíbrio entre valores rivais399.

A terceira dimensão teórica focaliza-se na complexidade das pessoas. Na procura de uma explicação para a formação das sociedades, a solução bifurca-se em duas direcções. A primeira direcção — dispositivo de concepção400 — é aquela que descreve as sociedades como resultado duma moção congressista. As pessoas reúnem-se e pensam sobre qual é a melhor sociedade. Depois de decidirem, começam a padronizar tudo conforme o modelo arquitectado401.

Esta perspectiva, dada a complexidade dos homens, não garante para que as sociedades se formem por esta via. A par dela existe uma segunda direcção: a teoria utópica dos dispositivos de filtragem. Esta apresenta a formação da sociedade a partir de especificações (prós/contras) concretas, até que se conclua o modelo definitivo. As

pessoas têm liberdade para testar os padrões que se lhes são propostos, porque um processo de filtragem que especifica uma sociedade concreta é aquela em que as pessoas que a planeiam consideram, a priori, várias opções: assimilam alguns modelos e criticam, eliminam, modificam outros, até que chegam àquela que consideram a melhor sociedade402.

De todas as vias do enquadramento utópico, o processo de filtragem é a mais vantajosa. O uso de um dispositivo de filtragem dependente das decisões individuais é extraordinariamente apropriado. Nozick considera que “o objectivo último da construção utopista é obter comunidades em que as pessoas quererão viver e nas quais escolherão voluntariamente viver”403; é, de facto, um ideal coberto de optimismo e realizável.

A propósito da inevitabilidade da existência do Estado e considerando a legitimidade da associação protectora, Locke defendeu que não se podia forçar ninguém a entrar na sociedade civil; alguns poderiam abster-se e permanecer na liberdade do estado de natureza, ainda que, na sua maioria, os indivíduos optassem por entrar404.

399 Robert Nozick, op. cit., p. 370. 400 Ibid.

401 Cfr. Ibid. 402 Ibid., p. 373. 403 Ibid., p. 376. 404 Cfr. Ibid., p. 87.

88 Nozick prossegue o seu raciocínio sobre o enquadramento da utopia no quotidiano do nosso mundo, descrevendo as suas vantagens. Indica três pontos de vista, descritivos e vinculativos405:

“Abandonamos a falsa pressuposição de que há um tipo de sociedade melhor para todos, e assim deixamos de interpretar equivocamente o problema como se fosse acerca do tipo de comunidade em que cada indivíduo devia viver”406.

Não há outro caminho para se pensar a utopia. Para os utopistas imperialistas, a utopia é uma via de realização social, ao passo que, tanto o utopismo missionário, como o utopismo existencialista consideram o enquadramento utópico como a forma de construção de uma sociedade de homens bons407.

O axioma central do enquadramento como processo genético dos ideais utópicos na actualidade do mundo consiste na vontade e liberdade individuais e das comunidades.

“O sentimento de que há um conjunto de princípios suficientemente óbvios para serem aceites por todos os homens de boa vontade, suficientemente precisos passa dar orientação inequívoca em situações particulares, suficientemente clara para que todos percebam os seus ditames, e suficientemente completa para abarcar todos os problemas que efectivamente surgirão”408.

A utopia é, portanto, uma sociedade livre e não apenas um ideário. Para Nozick, ela é equivalente ao Estado mínimo409. A diferença entre as pessoas, a liberdade de escolha individual e de escolha comunitária e a complexidade da sociedade humana partilham tanto os princípios utópicos como os libertários. Daí que Nozick entenda o meio-termo nos seguintes moldes: “o funcionamento do enquadramento tem muitas das virtudes e poucos dos defeitos que as pessoas encontram na visão libertária”410.

405 Nozick distingue três posições utopistas: o utopismo imperialista, que sanciona a imposição de um padrão

de comunidade a todos; o utopismo missionário, que espera persuadir ou convencer todos a viver num tipo particular de comunidade, mas não os forçará a fazê-lo; o utopismo existencial, que espera que exista (que seja viável), embora não necessariamente universal, um determinado padrão de comunidade, de modo que aqueles que o queiram possam viver de acordo com o padrão. Cfr. Robert Nozick, op. cit., p. 378.

406 Robert Nozick, op. cit., p. 377. 407Cfr. Ibid., pp. 377-378. 408 Ibid., p. 389.

409 Cfr. Ibid., pp. 391-392. 410 Ibid., p. 379.

89 Se a utopia é uma sociedade livre, a diferença individual constitui a sua diversidade. E, como tal, exige que o homem viva em comunidades particulares. Não se trata, por isso, de um perfeccionismo nem de um padrão sobre como os indivíduos devem viver, mas de um enquadramento geral que permite aos indivíduos viverem vidas muito diferentes. “Trata-se, portanto, [segundo Ricoeur] de um campo para maneiras alternativas de viver”411.

O enquadramento da utopia412 consiste em respeitar a individualidade inviolável

das pessoas interpretadas kantianamente; é a única institucionalização da política que permite a cada um viver uma vida com sentido, isto é, ser um fim e não um meio. Assim, o pluralismo é um modo de encontrar a verdade sociopolítica, se ela existir413.

No fim da sua obra, Nozick afirma, contudo, a utopia como inspiração do Estado mínimo:

“O Estado mínimo trata-nos como indivíduos invioláveis, que não podem ser usados de certas maneiras por outros como meios ou utensílios ou instrumentos ou recursos; trata-nos como pessoas que têm direitos individuais, com a dignidade que isto constitui. Tratando-nos com respeito respeitando os nossos direitos, permite-nos, individualmente ou com quem escolhermos, escolher a nossa vida e realizar os nossos fins e a cooperação que temos de nós próprios, na medida em que o podemos, ajudados pela cooperação voluntária de outros indivíduos que têm a mesma dignidade. Como se atreve qualquer Estado ou grupo de indivíduos a fazer mais. Ou menos”414.

411 Vide Paul Ricoeur, Utopia e ideologia. Lisboa: Edições 70, 1999, p. 88. 412 Cfr. Robert Nozick, op. cit., p. 379.

413 Cfr. Alexandra Abranches, op. cit., p. 106. 414 Robert Nozick, op. cit., p. 393.

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III. CAPÍTULO — A PERSPECTIVA NOZICKIANA FACE AO PARADIGMA