A batalha mais sangrenta da região ocorreu nos arrabaldes de Passo Fundo, na localidade de Pulador, distante 12 a 13 quilômetros da cidade. O fato deu-se quando a coluna revolucionária de Gumercindo Saraiva, regressando da sua longa marcha do Paraná, atravessou o município no dia 26 de junho de 1894, acompanhado de Prestes Guimarães, pela
83 atual Avenida Brasil, ao som de música, indo pernoitar na localidade de Pinheiro Torto (GUIMARÃES, 1987, p. 53). Ao mesmo tempo, sabendo que Gumercindo estava na região, a incansável divisão do norte, que há tempos saíra na sua perseguição, comandada pelo coronel Rodrigues Lima, não dava trégua aos federalistas, oferecendo combate na localidade do Umbu. Nessa e em outras localidades de Passo Fundo, antes da chegada de Gumercindo, várias batalhas já haviam ocorrido, sendo inclusive chamado o Cel. Santos Filho para reforçar e reorganizar as forças republicanas da divisão do norte, a fim de somar-se à 5ª brigada comandada por Firmino de Paula, porque havia notícias, e os próprios fatos revelavam isso, da existência de uma grande concentração de federalistas comandados por Elisário Prestes Guimarães – aproximadamente 1.200 homens – que haviam provocado a derrota das forças legais de Gervásio Luccas Annes e planejavam marchar para Cruz Alta (CARVALHO, 1897, p. 162). Ao se aproximar a coluna revolucionária de Gumercindo Saraiva, os primeiros combates deram-se no Umbu. Houve, em seguida, um recuo estratégico das tropas para perto da fazenda dos Mello, redundando com a batalha final da localidade do Pulador. Na luta, houve significativas baixas para legalistas e revolucionários, não sendo possível aferir qual agremiação saiu vencedora tal fora a ferocidade da refrega. Prestes assim conta o ocorrido:
No dia 26 de junho toda a força revolucionária passou ao som de música pelo centro da cidade de Passo Fundo, de Leste para Oeste, indo pernoitar no “Pinheiro Torto” [...]. No dia seguinte, 27, ao encetar a marcha para frente, encontrou no “Umbu” as avançadas do Exército de Lima, travando desde logo combate, e recuando essas avançadas até perto da Fazenda de Antônio de Mello no “Pulador” [...]. Aí feriu-se grande e renhidíssima batalha (1987, p. 52).
Nos seus apontamentos, chegaram a 88 revolucionários mortos, e passados alguns dias, quase 200 feridos, além de vários comandantes, também mortos e feridos. Essa seria a última e mais dura batalha que Gumercindo enfrentaria. Nela, sofreria grandes perdas e não teria mais condições de oferecer resistência às forças legais que se achavam equipadas com fuzis Comblains e canhões Krupp (SÊGA, 2011).
A divisão do norte, de Santos Filho, postou-se, inicialmente, em Carazinho, no caminho que ia a Cruz Alta, agrupando-se à 5ª brigada do coronel Firmino de Paula e à 4ª brigada de Salvador Pinheiro. Após a junção, marcharam de encontro à coluna revolucionária de Gumercindo e de Prestes Guimarães em Passo Fundo para, em 26 de junho de 1894, iniciar a epopeia no enfrentamento entre as forças combatentes:
84 26 de Junho – Inimigo tomou posição à tarde nos Vallinhos ficando 500 homens de
cavallaria a sua direita. Nossas forças avistam-se. A divisão firme e pujante. Cumprirei meu dever, como todos os meus companheiros. Inimigo visto agora: dois mil homens. Viva a República. Gen. Lima. - Saudo-vos em nome da Divisão do Norte. Amanhã ao alvorecer pretendo desfraldar a bandeira da república e tocar o hymno nacional na toca destes caudilhos saqueadores do nosso querido Rio Grande. Morrer ou vencer. Viva a República. Gen. Lima. 27 - Caudilhos Gumercindo, Apparicio e Prestes, depois de 6 horas de nutrido fogo, derrotados completamente, fugiram vergonhosamente do campo de lucta levando como trophéus grande numero de feridos, deixando o campo de lucta juncado de cadaveres. [...]. Gen. Lima (CARVALHO, 1895, p. 220-221, grifo do autor).
Esses são trechos dos telegramas enviados ao governo do Estado pelo general Lima, em que relata como se sucedera a Batalha do Pulador, demonstrando o firme propósito de dissolver a resistência federalista de Passo Fundo e Soledade, que se unira com a coluna de Gumercindo Saraiva no intuito de marchar sobre a cidade de Cruz Alta, onde se concentravam as forças republicanas. Em outro telegrama, o coronel Firmino de Paula assim expõe o ocorrido:
Viva a Republica! Hoje após seis horas de combate derrotamos completamente mercenários suecos e polacos, commandados pelo castelhano e Prestes. Miseráveis espavoridos fugiram completamente dêrrotados, direcção Passo Fundo. Grande quantidade de morttos e feridos; muito armamento tomado. A Divisão bateu-se heroicamente. Minha brigada, occupando o flanco esquerdo, enfrentou a infantaria e cavallaria mercenária; à distância de vinte metros. O general dirá seu comportamento. Depois darei pormenores. Fui levemente ferido. Si tivesse cavallos para montar cem homens a mortandade seria enorme. Viva a República! Abraços. Coronel Firmino de Paula (CARVALHO, 1895, p. 221).
Nesse trecho, o coronel Firmino de Paula menciona o comando dos revolucionários por parte de Gumercindo Saraiva, chamado de “castelhano” pela sua dupla nacionalidade, e de Prestes Guimarães. Refere a fuga destes para Passo Fundo, descrevendo ter havido grande quantidade de mortos e feridos e que, caso se dispusesse de mais cavalos, a mortandade seria ainda maior. O tom empregado no telegrama transparece seu regozijo, de forma a conferir um caráter heroico e bravo à sua brigada na batalha. Como se trata de um telegrama oficial enviado aos escalões superiores, cujo conteúdo passou para a história como documento, percebe-se a intenção de denegrir a imagem do inimigo e enaltecer as façanhas do subscritor.
Em outro telegrama descrito por Carvalho (1895), o coronel Salvador, que também tomou parte da batalha, conta ter avançado às oito horas, junto com a divisão do norte, sobre
85 as linhas revolucionárias de Gumercindo, travando renhido combate, tendo o inimigo ateado fogo no campo e avançado com bravura, o que acarretou perdas consideráveis. Eram tantos cadáveres que não se podia calcular ao certo, devido ao adiantado da hora em que findou o combate. O alferes Guapindaya também mencionou a bravura do inimigo e a forma como se desenvolveu a luta: “a couce d’armas e baionetas”. Neste, o tom da descrição é ameno e praticamente desprovido de qualquer nódoa de enaltecimento de espírito vitorioso ou glorificação de feitos. Já o coronel Lima, em outro telegrama, fazer referência à formação de uma comissão para contar a perdas, calculando um prejuízo no inimigo de 700 a 800 homens. Na missiva, afirma que a intenção de Gumercindo, relatada por cinco prisioneiros, era passar à fronteira pela região serrana do planalto de Passo Fundo, custasse o que custasse; no telegrama, garante que o caudilho se enganara, porque a divisão do norte saberia galhardamente interpor o seu passo, gabando-se, também, ao afirmar que Gumercindo parecia ter esquecido as lições que a divisão vinha lhe infligindo. Enaltecia a forma como a divisão se comportara em combate, beirando o delírio, não ligando a importância e audácia inimiga, os quais chegavam a 3.000 combatentes. Enumera, por último, a baixa de 200 mortos e feridos entre oficiais e soldados e que a história haveria de reservar um lugar para perpetuar esse feito (CARVALHO, 1895, p. 224). No relato do coronel Lima está clara a sua intenção de prosperar para a História o espírito heroico da sua divisão e de seus combatentes, fazendo crer, em razão disso, que a baixa dos inimigos fora superestimada, não merecendo crédito esses números informados.
Em contrapartida, Dourado (2011) descrevia no seu diário que, no dia 27, o acampamento revolucionário não se movia, antevendo a mais sangrenta e cruel batalha entre irmãos. A coluna de Prestes Guimarães uniu-se à de Gumercindo para em seguida atravessar um arroio para o fim de manter guarda. Este determinou que fosse ateado fogo no campo para que o inimigo não visualizasse essa manobra. Por aí se percebe a astúcia que tornou famoso o guerrilheiro e comandante Gumercindo Saraiva. Da mesma forma, Dourado assim descreve a disposição das linhas revolucionárias:
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Nossas forças não estavam completas. A brigada de Apparicio que era de 530 homens, só tinha ali 300. Torquato teria quando muito 200. Pahim 150. O batalhão do Coronel Jesus e polacos 150. Teriamos portanto no maximo 700 atiradores e as munições poucas. As forças de Prestes Guimarães quase todas de lanceiros poderia ter 800 homens promptos para combate. [...]. Depois disso surgiu na cochilha a força inimiga formando três quadrados, calculamos estes quadrados em mil homens cada um. [...]. As nossas forças ficaram dispostas no seguinte modo: Torquato Severo à direita, Apparicio e Augusto Amaral no centro, Pahim à esquerda. Prestes Guimarães flanqueava-os pela direita procurando logar e esperando para carregar (2011, p. 250).
Nesse cenário, sobressaía a demonstração de bravura dos oficiais governistas, destacada pelo relator dos fatos como “digna de brasileiros”, considerando a investida de fogo dos fuzis federalistas sobre os quadrados militares da divisão republicana que abria clarões em suas fileiras para logo em seguida serem preenchidos. O fogo do campo, que antes encobrira as manobras da coluna de Gumercindo, agora agia em favor dos governistas, ocultando a maioria dos quadrados, não sendo possível promover uma ofensiva de carga de infantaria para que fossem rompidos, como pretendiam os federalistas. Numa última tentativa de rompimento dos quadrados do inimigo, Gumercindo ordenou a Prestes Guimarães a carga da infantaria. Isso é descrito por Dourado no trecho a seguir:
Ao ouvir o sinal de carga eu corri para a cochilha e ali vi o espetáculo mais lugubramente grandioso que só a presença e a vista podem dar ideia. Nossas forças marchavam calmas, methodicas contra os quadrados, como somnambulos que não vem o abysmo para onde se dirigem. Dos quadrados sahia um fogo continuo de fuzis e metralhadoras e os nossos caminhavam com a impavidez das ondas que vem do mar para se despedaçarem nos rochedos. [...]. O 3º quadrado inimigo se desdobrando veio sobre os nossos e a luta se travou à faca e coice de armas, pelos nossos que não tinham sabres, e a sabres pelos inimigos [...] (2011, p. 252).
Na ordem do dia nº 105 do comando da divisão do norte, o coronel Lima faz um extenso relato da batalha ocorrida no dia 26 de junho de 1894, que, dadas as suas minúcias, deixa-se de transcrever na íntegra para apenas mencionar alguns de seus aspectos. Para os olhos mais atentos, contudo, vale o esforço de examiná-la ante a verve apaixonada com que fora escrita. Nela está relatado como se comportaram as divisões governistas e as linhas revolucionárias, enfatizando-se o atear do fogo ao campo, a bravura atribuída aos revolucionários e as táticas empregadas para o combate, que durou cerca de seis horas. Retifica para o número de 300 inimigos mortos, sendo reconhecidos entre eles um chefe
87 federalista de Itararé, São Paulo, e o “célebre bandido Palmeira”; e do lado republicano, baixas em torno de 58 mortos e 177 feridos. Nesse mesmo sentido, o coronel Santos Filho transcreve o ocorrido no dia 17 de junho de 1894, conforme registrado por Carvalho (ANEXO L).
Após o combate, Gumercindo juntou-se a Prestes no “Veado Pardo”, aproximando-se pelo Arroio Teixeira, atravessando o Campo do Meio e entrando na serra pela estrada da Guabiroba. Por ali rumou a Soledade para alcançar a região da fronteira. Entretanto, o coronel Lima não lhe deu guarida, estando pronto a pôr-se a seu encalço. O coronel Salvador Pinheiro, em outro telegrama, assim apresenta a retirada de Gumercindo Saraiva:
Dia 29. – Segui até o Passo onde obtive as seguintes informações seguras: Hontem de madrugada Gumercindo e Prestes, com 200 homens, seguiram fugitivos à rumo de Soledade. Aquelle, indignidado por ter perdido muitos officiais como Cezario Saraiva, major Sanches, [...] o célebre coronel Juca Borges, chefe da Soledade, degollador do capitão Procópio e mais 24 companheiros nossos, e que era o terror da Soledade [...] o coronel Colombo Leoni, commandante do batalhão polaco; Apparicio Saraiva que foi baleado na virilha, era quem andava no serigote e escapou-se por estar perto do mato. Passaram hontem em completa debandada os miseráveis pelo Passo Fundo, a pé, desanimados, entrenhando-se no matto em todas as direcções. Calculo o prejuízo em mil maragatos. Continuo a affirmar que, em vista do que verifiquei, estropiados e magríssimos, não podem sair campo a fora. Não tem munição. Coragem exgottou-se. Continuamos a encontrar muitos mortos pela estrada; neste momento achamos oito. Tomaram uma lição de mestre. Gomercindo diz que nunca soffreu desastre tão bárbaro. Abraço-vos. – Coronel Salvador Pinheiro (CARVALHO, 1895, p. 234).
Gumercindo Saraiva, não logrando êxito para transpor as tropas governistas, articulou a retirada para Soledade na madrugada. Às três horas, a coluna pôs-se a marchar, passando pelo rio além do Veado Pardo, onde saía uma estrada que vinha do Campo do Meio. A tropa não havia comido ou dormido durante aquele dia. Era uma viagem triste, os feridos amontoados em carretas, sem coberturas, sem poderem se mover; ouviam-se gemidos e lamentos a todo o momento; o frio intenso os castigava; e a travessia dos arroios, lajeados e pedras fazia que os cavalos caíssem a todo o momento; alguns feridos morreram nessa jornada. Às onze horas, a coluna chegou à localidade de Tope, onde recebeu a comunicação de que o número de cadáveres deixados pelo inimigo beirava 800, não se sabendo ao certo por que se confundiam com os dos federalistas. Por parte dos federais, as baixas foram contadas no total de 214 mortos e cinco feridos que poderiam ainda viver, segundo Dourado (2011, p. 254). De Soledade, os revolucionários seguiram caminho pelo Jacuí em direção a Santa
88 Maria.
Dos relatos não há como se precisar qual dos lados contendores saiu vencedor, muito menos quantificar o número de baixa dos combatentes. Conforme Franco (1988), entretanto, o memorável combate na Fazenda dos Mello poderia selar a sorte da revolução e decidir os destinos do castilhismo e da própria unidade brasileira. O que Franco quis dizer é que Gumercindo, desde o regresso do Paraná, concebia a ideia de secessão do Rio Grande do Sul para formar um país independente, residindo nessa afirmação a motivação do seu regresso ao Estado. Nessa batalha, refere que a divisão do norte saíra vencedora, mas impossibilitada de prosseguir na perseguição de Gumercindo, que escapara para Soledade até o seu trágico final em Carovi. A propósito de sua longa marcha, junta-se o Anexo M, para demonstrar graficamente a sua epopeia. O fato é que a divisão do norte regressou a Cruz Alta para recompor suas fileiras e reiniciar a ofensiva contra os revolucionários (CAVALARI, 2007).
Pairava a questão do por que a divisão do norte não saíra de pronto em perseguição à coluna de Gumercindo, muito embora os revolucionários tivessem se retirado furtivamente na madrugada, como relatado no diário de Dourado (2011). Escobar (1920), nos seus apontamentos, refere que não houve vencedores pelo caráter violento como se dera a batalha. O resultado foi que as tropas governistas ficaram de donas do campo de batalha ante a retirada dos federalistas e que, devido ao estado deplorável em que se achavam, não tinham condições de empreender a perseguição aos federalistas.
Do campo de Batalha do Pulador a brigada republicana partiu rumo a Cruz Alta, carregando grande número de feridos, e o exército revolucionário, sem ser incomodado, marchou no dia 28 para Soledade. Nesse ponto, porém, há uma discrepância no relato, porque, nas citações de Dourado (2011), o exército libertador seguiu furtivamente, mesmo porque havia alguns piquetes governistas em sua perseguição. Notável, entretanto, se revelou o caráter belicoso do embate, que reduziu a estados deploráveis ambos os contendores, e, sem sombra de dúvidas, ao se fazer uma análise mais acurada, pode-se perceber que houve realmente muitas baixas entre os combatentes, o que impossibilitou uma nova ofensiva e uma efetiva perseguição aos revoltosos. A propósito, transcreve-se o seguinte trecho para clarear como ficara a situação:
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O Exército revolucionário, sem ser incommodado, marchou, a 28, com direcção a Soledade, ficando de observação no Passo Fundo o valente coronel Veríssimo da Veiga, que se houve nessa comissão com valor e perícia. Santos Filho com sua brigada, mais com o intuito de cobrir a retirada do general Lima do que travar combate, se apresentou a vista de Passo Fundo a 28; tiroteia sem resultado nesse e nos dois dias subsequentes com Veríssimo e retira-se, afinal, a 1º de julho, caminho de Cruz Alta (ESCOBAR, 1920, p. 452).
A Revolução Federalista depois da Batalha do Pulador caminhava a passos largos para seu epílogo. Os últimos combates restringir-se-iam à zona fronteiriça do Uruguai, onde iniciara. Para Gumercindo, o destino lhe reservava um trágico fim na localidade de Carovi, quando, passando em revista às suas tropas, por ocasião de embate com a divisão do norte, fora atingido por um disparo efetuado por um soldado republicano que decretou o seu fim, circunstância que arrefeceu o ânimo revolucionário pela perda do seu maior expoente. A revolução subsistia no prestígio e na liderança de Gumercindo, no qual se encarnavam todas as esperanças de prosseguimento do levante. Ressalta-se que, pela sua liderança e coragem, era chamado o “Napoleão dos Pampas”, alcunha que lhe conferiu o jornalista José do Patrocínio (ESCOBAR, 1920, p. 461). Acerca da sua morte, Caldas (1895, p. 248) transcreve a ata de sepultamento do seu corpo, ocorrido às oito horas e meia do dia 11 de agosto de 1894, no Cemitério dos Capuchinos do Santo Antonio, entre os banhados Camaquan e Itacolomy junto à estância do Sr. Antonio Moraes, ex-propriedade dos Souza, em território rio- grandense.
Por fim, com a eleição de Prudente de Morais para presidente da República, em 15 de novembro de 1894, a ideia de pacificação do Rio Grande do Sul já tomava a dimensão do debate público, nos jornais e nos meios políticos, sendo encampado, então, pelo presidente eleito. Restava apenas aparar as arestas das dissidências entre os líderes Júlio de Castilhos e Gaspar Silveira Martins e, especialmente, equacionar as causas que determinaram o desencadear da revolta armada.
Os pontos cruciais para pacificação da revolução levada a efeito, dessa forma, remetiam ao seu início, tratado neste capítulo, ou seja: a) a disputa pelo poder republicano representado pelo ideal de promover a república científica, por parte de Júlio de Castilhos, em contrapartida ao projeto liberal parlamentar propugnado por Gaspar Silveira Martins; b) a delicada questão econômica da regulamentação do contrabando na região da fronteira e a legitimação da possessão fundiária das zonas rurais da serra e do planalto, assim como a restituição das propriedades dos rebeldes; c) a questão da representação política, com a
90 reforma do direito ao voto e o reflexo nas eleições municipais, entre outros pormenores.
Com o início das negociações, a situação de pacificação do Estado, a partir de então, começa a se consolidar, reafirmando a ascensão da liderança regional de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros, o que fortalece o predomínio do Partido Republicano Rio-Grandense. A ruptura política, finalmente, se consolida. A República passa a ser o regime institucional oficial do país, solidificando as forças políticas, de modo a estabelecer uma nova geografia político-institucional do país, do Estado e da região do planalto médio.
Pelo exposto, encerra-se este capítulo, passando-se a analisar no próximo as representações da Batalha do Pulador no contexto contemporâneo, levadas a efeito pelos seus atores. Nele, busca-se identificar os processos, a memória, a narração, os ressentimentos, esquecimentos e o imaginário, enfim, todo o processo que permeia o passado e o presente, envolvendo o coletivo e o social.
3 A ENCENAÇÃO DA BATALHA DO PULADOR
Neste capítulo, esboçado o conteúdo histórico precedente que desencadeou a batalha campal do Pulador, pretende-se analisar o denodo com que certos grupos, de Passo Fundo e região, estão representando, através das encenações, esse importante fato histórico ocorrido nas cercanias da cidade no dia 27 de junho de 1894, no solo gaúcho.
Do exposto nos capítulos anteriores, procurou-se cotejar as versões das agremiações que disputaram a hegemonia política do Estado, suas intenções, seus objetivos e qual facção obteve êxito na implantação do projeto político. O leitor mais atento perceberá o grau de parcialidade dos relatos daqueles que tomaram a palavra ao descrever, segundo as suas impressões, os fatos ocorridos, conotando uma visão estritamente “apaixonada”. Destaca-se, também, a distinção pela qual o povo rio-grandense se particulariza em relação aos demais Estados da federação, diferença marcada pelas peculiaridades regionais, pela formação geopolítico-social e pelo aspecto territorial do qual denota o nativo rio-grandense, especialmente em razão das inúmeras lutas travadas pelos limites meridionais, fato que influencia, diretamente, a concepção ideológica de culto à identidade regional. O embrião do