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O CONTEXTO ECONÔMICO

No documento 2013Ernani da Silva (páginas 68-71)

Nos tempos tormentosos da Revolução Federalista, a questão econômica mantinha-se encoberta pela disputa política do poder do Estado, relegada à margem dos discursos políticos. Muito embora parecesse subjacente, o poder econômico tinha vital significância na supremacia política do Estado: para os estancieiros do sul do Estado, liderados por Gaspar S. Martins, perder o poder político significava perder a hegemonia do status econômico angariado por longos anos no apoio à Monarquia; já para os republicanos de Castilhos e da classe média que o apoiava, as novas diretrizes econômicas representavam a implantação do novo ideal para o progresso linear, nos moldes referenciais da Europa moderna, cujo momento compreendia como evolução. Félix traz um pouco de luz a esse raciocínio:

Não podemos perder de vista a contextualização desta luta. Estávamos em pleno final do séc. XIX, quando, de 1870 em diante, acelerava-se em dimensão internacional, através das elites intelectuais e políticas, a difusão da crença no progresso como um avanço inexorável que, através da razão e da técnica, levaria o homem à civilização e esta a permitir que fosse atingido o ideal da perfeição humana (1995, p. 20).

A disputa estabelecia-se entre a representação do “novo” encarnado no ideal de Júlio de Castilhos e o estigma do “velho” representado por Gaspar S. Martins, ou seja, o embate entre o ideal desenvolvimentista e a permanência de privilégios seculares corporificados pelo ideal liberal. No contexto, não se pode dissociar a questão política da questão econômica que redundou na Revolução de 1893. A questão política mantinha subjugado o aspecto econômico, sobretudo com a ascensão do sistema republicano rompedor dos interesses dos poderosos locais, especialmente, como já referido, na questão do contrabando, de isenções tarifárias e legitimação de terras (FRANCO, 1988).

Na questão do contrabando na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, sobressaiu, na sessão dos atos do governo provisório da República, datada de 21 de janeiro de 1890, manifesto em que Ramiro Barcellos busca, na condição de representante do Governo Brasileiro no país vizinho, o encaminhamento de uma solução para demanda tão tormentosa ao governo gaúcho. Na sessão, postulou um tratado aduaneiro para sustar a escandalosa prática que depauperava os cofres do Estado, sugerindo medidas como o preparo prévio à

65 repressão; a edição de decreto que considerasse a prática como crime de “moeda falsa” a fim de processar-se o contrabandista; a redução da taxa de armazenagem nas estações fiscais a uma baixa porcentagem; a instituição de uma polícia aduaneira armada e outra de agentes secretos; a eliminação dos impostos de exportação, compensados por elevação gradual da tarifa especial que foi concedida ao Estado do Rio Grande do Sul; proteção às indústrias rio- grandenses, elevando desde já ao tipo de tarifa geral a taxa sobre produtos similares importados; a nomeação de um superintendente no Estado, representante do ministro da fazenda, com autoridade necessária sobre todas as repartições da Fazenda e encarregado de organizar e dirigir todo o serviço de repressão ao contrabando, com competência para distribuir o valor integral dos contrabandos apreendidos aos apreensores como prêmio a seus serviços, descontada a taxa marcada pela tarifa para os cofres do Estado (ABRANCHES, 1907, p. 60).

A política fiscal consistia na supressão dos privilégios econômicos, estabelecendo a igualdade de competição com um sistema de impostos para cercear a ampliação do latifúndio e das posses impróprias da terra, o que era contrário aos interesses dos coronéis, porque solapava a autonomia econômica de ação (FÉLIX, 1995, p. 23).

Em relação ao poder econômico dos coronéis, Barreta assim se refere:

O poder [...] foi a arma que permitiu a Silveira Martins forjar a sua aliança-poder de um estado patrimonial, altamente centralizado, cujos privilégios e favores a ele exclusivamente mediava para a província. [...] além da tarifa especial-privilégio de tipo particular, dispensado a toda produção de charque e de gado na área de Pelotas, Rio Grande e Bagé, Silveira Martins foi pródigo na concessão de favores a seus aliados políticos (apud FÉLIX, 1995, p. 24).

Por esse raciocínio pode-se entender os motivos pelos quais os federalistas concitaram seus correligionários a pegar em armas contra a ditadura implantada pelo governo republicano de Castilhos, qualificada de regime de terror e de perseguidora de adversários (ESCOBAR, 1920). A revolução representou um marco divisório entre duas concepções ideológicas na condução político-econômica do Estado. Houve a ruptura de um modelo de privilégios e poderes concentrados no ideal liberal de Gaspar S. Martins para uma ditadura técnica científica do positivismo castilhista.

O movimento federalista, diante disso, consistia na tentativa de implementar um estado nacional liberal oligárquico para manter a hegemonia política dos coronéis:

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O que reparamos, então, é a consolidação de um federalismo desigual e a construção de um Estado nacional liberal na forma, mas oligárquico no conteúdo, e é nesse contexto que a Revolução Federalista surgiu como uma insubordinação inicialmente regional, mas que conseguiu aglutinar insatisfações nacionais. Para José Murilo de Carvalho, apesar dos esforços civilizatórios da elite brasileira em promover uma “modernização conservadora” entre 1870 e 1914, a força da tradição foi assaz vigorosa para conservar os valores de uma “sociedade rural, patriarcal e hierárquica”, na qual podemos inserir a Revolução Federalista (SÊGA, 2003, 2004, p. 184).

Com a República, os interesses econômicos convergiram para a política da exportação cafeeira, consolidando São Paulo e Minas Gerais como locomotiva do novo mapa de desenvolvimento econômico. O Rio Grande do Sul viu-se à margem desse processo, em razão da sua combalida economia baseada no fornecimento de gêneros de subsistência para o mercado interno nacional, representado pelas grandes estâncias da fronteira.

De acordo com Pesavento (1983), diante da desvinculação gaúcha desse processo econômico, ficavam os seus interesses subordinados às regras da economia central do país, considerada prioritária em nível nacional. Daí para a insurgência dos grupos de interesses rio- grandenses bastava apenas um pequeno motivo para acender a centelha da chama revolucionária.

Ao ensejo, a crise econômica se acentua nas charqueadas. É o que analisa Pesavento:

Ao redor da década de 70, a charqueada gaúcha encontrava-se em crise, com efeitos negativos sobre a pecuária como um todo. Frente ao processo de transformação econômico-social que se desenvolvia no Brasil, o braço escravo se tornava escasso, notadamente para as regiões desvinculadas da agroexportação. O preço dos negros elevara-se muito e ocorria no país uma drenagem interna de mão de obra escrava para a região cafeicultora, habilitada a pagar melhores preços. Ao mesmo tempo que se elevava o custo da reposição da força-trabalho, outros produtos necessários para o fabrico do charque – como o sal ou aniagem para o enfardamento – sofriam altas taxas de importação (1983, p. 39).

A crise gaúcha estabelecia-se na decadência das charqueadas que outrora serviram para alimentação da força de trabalho do centro do país, diante dos constantes reclames das fazendas cafeeiras por redução de custos em face da libertação da força de trabalho escrava. Somava-se, também, o fato da entrada nas alfândegas nacionais do charque platino, em especial o do Uruguai, mais barato, como forma de atender aos interesses do centro do país.

67 Nesse contexto, a economia rio-grandense via-se relegada à própria sorte, alijada de todo o processo econômico.

Aliada à crise da pecuária, havia, ainda, a falta de infraestrutura regional para escoar a produção aos centros consumidores:

Tanto os produtos pecuários como agrícolas viam-se igualmente afetados pela precariedade dos transportes na província. A primeira ferrovia, construída em 1874, ligava Porto Alegre a São Leopoldo [...]. As demais ferrovias [...] revelavam-se insuficientes para as necessidades de escoamento dos produtos da província, acrescido de que o único porto de mar – Rio Grande – tinha sua barra obstruída pela areia e não possuía um cais apropriado, não permitindo o acesso de navios de grande calado (PESAVENTO, 1983, p. 44).

Esses eram os fatores do agravamento da atividade econômica: a questão da fronteira (complacência ao contrabando), as altas taxas de impostos, a legitimação da posse fundiária, a inexistência de investimentos em infraestrutura para o escoamento da produção, o fomento do desenvolvimento regional e a subserviência da província ao poder político-econômico central. Essas bandeiras representavam os motivos de luta de orientação liberal apregoada pelo Partido Federalista de Gaspar Silveira Martins, por outro modo também representava a bandeira republicana de Júlio de Castilhos. A diferença consistia em um querer manter a hegemonia liberal-republicana e o outro, a República tecnocientífica do positivismo europeu. Enfim, ambas as agremiações apregoavam as mesmas ideias e o que as diferenciava era a ideologia política, distinção que, após o fim da guerra, consolidou o poder do setor financeiro urbano-litorâneo, estabelecendo Porto Alegre e a crescente região da serra-planalto na hegemonia mercantil sobre as demais regiões fronteiriças, economicamente decadentes (GAMA, 2009, p. 12).

No documento 2013Ernani da Silva (páginas 68-71)