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3 LEITURA NA ESCOLA: entre conceitos e práticas, o dizer e o fazer

4 O QUADRO SOCIAL DA PESQUISA: O CENTRO EDUCACIONAL CARNEIRO RIBEIRO (CECR)

4.1 AS ESCOLAS-CLASSE

4.2.1 A Biblioteca da Escola-Parque

O prédio que abriga a Biblioteca da Escola-Parque (Anexo B) destaca-se dos demais setores do Centro pela imponência da construção. Projetada em formato circular, ocupa uma área aproximada de 622 m², com estrutura física composta basicamente por vidros, proporcionando leveza e luminosidade natural àquele espaço destinado à aquisição do conhecimento. Em cada detalhe que se possa observar está evidenciada a visão do educador; a biblioteca deixa de ser apenas um local de estudos, assumindo o status de espaço de aprendizagem, informação, leitura e, principalmente, fruição do espírito.

A área externa da biblioteca, circundada por árvores frutíferas e bancos de cimento, propiciava um ambiente tranqüilo para o estudo e para a leitura.

Internamente, o espaço é composto por dois pavimentos: um inferior, destinado às atividades denominadas “aulas de biblioteca” e o superior (mezanino) reservado ao serviço de processamento técnico. A parte inferior, dividida em sete salas, foi estruturada, no sentido de possibilitar a dinamização das práticas ali desenvolvidas. As salas, separadas por estantes repletas de livros, obedeciam a uma ordem pré- determinada, para atender às diversas turmas que freqüentavam a biblioteca. Desse modo, cada sala contava com livros destinados a atender os alunos, de acordo com a faixa etária e a série específica.

A freqüência diária da Biblioteca no período girava em torno de 950 atendimentos, sendo que em muitas ocasiões esse número ultrapassava a 1.000, o que, de certa forma, causava inúmeros transtornos, como a falta de acomodação, de silêncio, de material, gerando indisciplina, já que o espaço ficava subdimensionado, causando um desconforto generalizado. Essas ocorrências exigiam dos responsáveis pelo atendimento a adoção de medidas criativas, como as atividades realizadas na área externa com os alunos menores, no sentido de proporcionar um melhor atendimento a todos.

As atividades desenvolvidas na Biblioteca da Escola-Parque constituíam-se inovações promovidas pelo movimento escolanovista, o qual buscava inserir novos métodos didáticos, que dinamizassem o processo de ensino-aprendizagem na educação formal, proporcionando aos educandos atividades que os levassem a utilizar as habilidades individuais, no sentido de facilitar a ação educativa. Nagle (apud KOUDELA, 1982, p.19) afirma que “[...] as idéias da Escola Nova trouxeram possibilidades de reformulação dos programas escolares, nova instrumentação para tornar eficaz o trabalho docente, a experimentação com novos órgãos e com novas práticas de ensino e, principalmente, a diversificação das atividades escolares [...]” Nessa perspectiva, a Biblioteca incorporou técnicas inicialmente utilizadas em sala de aula, em suas práticas informacionais. Dentre estas, destacamos as atividades que mediavam as práticas leitoras utilizadas pela biblioteca:

a) audiovisuais – recursos (cartazes, transparências, televisão, slides, entre outros) utilizados na escola para facilitar o processo educativo. Na biblioteca, o cartaz constitui-se num instrumento coadjuvante do trabalho bibliotecário. Na Biblioteca da

Escola-Parque, foi amplamente utilizado pelos professores e alunos, como instrumento de divulgação de informações relacionadas aos assuntos do currículo adotado nas Escolas-Classe, especialmente, quando da realização das exposições temáticas, ocorridas periodicamente no setor. De acordo com Ferreira e Silva Junior (1996, p. 11), “[...] dentre os meios de comunicação visual, o cartaz aparece como um dos mais utilizados em virtude de sua versatilidade.” Esse recurso, combinado ou não com o texto, pode permitir uma maior assimilação da informação, favorecendo, portanto, a aprendizagem;

b) teatro escolar – a adoção desse recurso na prática escolar possibilita ao aluno praticar a liberdade de expressão, a criatividade, o trabalho em grupo etc. Usado na biblioteca, é uma outra maneira de contar estórias, servindo como “[...] fonte de fruição do belo, tanto para quem interpreta quanto para quem dele usufrui.” (BARCELLOS; NEVES, 1995, p. 63). Na biblioteca, foi utilizado como um recurso imprescindível para incentivar os alunos em fase de alfabetização, ao prazer da leitura. Através de suas diversas formas (dramatização, jogral, hora do conto, fantoches, marionetes, sombras), as estórias da literatura infantil eram contadas e recriadas, fazendo com que as crianças assimilassem os conteúdos de forma prazerosa e, posteriormente, buscassem suas próprias leituras, independente da orientação do professor;

c) estudo dirigido – técnica utilizada no processo de ensino-aprendizagem em sala de aula, que consiste em orientar o aluno em suas atividades escolares, estimulando o pensamento reflexivo e o desenvolvimento de habilidades intelectuais. Pode ser realizado individualmente ou em grupo, sempre com a presença do professor. Autores como Nérici (1970), Bordenave (1982) e Vilarinho (1979) compartilham a mesma idéia de que essa técnica objetiva formar hábitos de estudo, prover o pensamento reflexivo, desenvolver métodos de trabalho intelectual, instigar o aluno a buscar fontes de informação que atendam suas necessidades, entre outros. Na Biblioteca da Escola-Parque, essa técnica foi muito utilizada, principalmente com os alunos de séries mais avançadas (ginásio), exigindo dos professores uma participação ativa, em especial quando relacionada à orientação em disciplinas específicas;

d) trabalho em grupo –prática de ensino socializado, usada na escola como uma alternativa facilitadora do processo educativo, que consiste na constituição de grupos de alunos, que partilhem de objetivos comuns, normalmente vinculados a assuntos do currículo escolar, para desenvolver alguma atividade designada pelo professor. De acordo com Carvalho (1978), a variedade de formas do trabalho em grupo (seminários, trabalho em equipes, jornal mural, teatro escolar, dramatização etc.) pode levar os alunos a enriquecer os conhecimentos adquiridos em sala de aula. O trabalho em grupo, desenvolvido com os alunos na Biblioteca da Escola- Parque, só era vinculado às práticas das Escolas-Classe, no que se refere à realização de tarefas escolares determinadas pelos docentes. Nesse caso, os alunos com interesses comuns formavam grupos em suas respectivas escolas, chegando à Biblioteca para desenvolver a atividade requerida; nas demais, os grupos eram formados no próprio local, tendo como base a faixa etária, o nível escolar e a preferência por determinada atividade;

e) leitura lúdica - considerada o principal instrumento mediador do processo de ensino- aprendizagem na escola, à medida que torna o ato de ler uma situação prazerosa. Esse tipo de leitura pode estimular o educando a buscar outras leituras essenciais na elaboração do conhecimento. Quando realizada na Biblioteca, pode se constituir em um elemento primordial para transformar esse local num ambiente propício a desenvolver a criatividade, a imaginação e a fantasia, condições necessárias para incentivar o gosto pela leitura. Na Biblioteca da Escola-Parque, essa leitura, resultante da escolha do próprio leitor, era considerada a principal atividade realizada pelos alunos, destacando-se das demais do setor, por representar a possibilidade de praticar uma leitura descompromissada das tarefas exigidas pelas Escolas-Classes na prática didática cotidiana.

f) hora do conto –recurso usado na biblioteca, especialmente na escolar, no qual uma série de atividades são incorporadas (narração, dramatização, teatrinho etc.), no sentido de estimular a criatividade, desenvolver a imaginação e incentivar o gosto pela leitura. De acordo com Abramovich (apud BARCELLOS; NEVES, 1995, p.16), a estória contada “[...] é o livro da criança que ainda não lê.” É através dela que os sentidos

(visão, audição, tato) são aguçados e sentimentos são externados num misto de prazer, encantamento, suspense e tantas outras coisas que uma estória pode despertar.

4.2.1.1 “Aulas de Biblioteca”

As atividades realizadas na biblioteca, denominadas de “aulas de biblioteca”, mesclavam práticas tradicionais de sala de aula com aquelas comuns à maioria das bibliotecas (pesquisa, estudo e leitura) e estavam vinculadas ao currículo adotado no CECR até o fim dos anos 90.

A presença do aluno neste local era obrigatória, como em uma sala de aula e seguia as normas estabelecidas para ambos espaços (silêncio, avaliações, uso de diários de classe para registro de conteúdos ministrados e de freqüência do aluno). O ingresso dos estudantes ao recinto era feito por turmas, previamente determinadas, em parceria com o setor recreativo, compostas de 20 a 25 alunos em média, distribuídos pelas salas, onde as atividades seriam realizadas, a cada 45 minutos, totalizando seis horários de atendimento diários (anexo C), tendo um docente específico à frente de cada uma delas.

O livre acesso permitia aos estudantes a liberdade de escolher a atividade ou a leitura que mais despertasse seu interesse, sem a interferência do professor responsável naquele período, independente da sala de aula a que estivesse vinculado. Assim, poderia ler, pesquisar, conversar, narrar estórias, dramatizar, realizar trabalhos em equipes etc., nos espaços destinados a essas práticas, sem o compromisso de permanecer exclusivamente na sala, onde se encontrava a turma à qual pertencia.

Em função de a biblioteca atender alunos de faixa etária e níveis de escolaridade distintos, havia o cuidado de proporcionar-lhes atividades diferenciadas, no intuito de contemplar cada segmento ali presente em suas necessidades.

Todo o trabalho realizado na biblioteca seguia uma programação com a elaboração de um plano de atividades para o período, no início de cada ano letivo, em reunião entre os professores da biblioteca e a bibliotecária. O planejamento incluía a

definição das atribuições de cada professor, as atividades a serem realizadas, a distribuição de turmas por sala e por professor, os horários de cada atividade, a elaboração dos relatórios mensais, os trabalhos extras (serviço técnico), mapas de freqüência mensal, entre outros. Periodicamente, outras reuniões eram realizadas a fim de serem discutidos os relatórios mensais, trimestrais ou semestrais, elaborados por cada professor, no sentido de reavaliar as atividades desenvolvidas no período. Esses encontros serviam para trocas de idéias sobre os problemas e as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia e, conseqüentemente, a busca de soluções possíveis, tendo em vista que algumas questões transcendiam a vontade do grupo.

Um outro aspecto a ser destacado nas aulas de biblioteca e que constituía uma exigência, por parte da direção da Escola-Parque, refere-se à qualificação dos ‘professores de biblioteca’. Os que fizeram parte da organização inicial foram capacitados através de cursos de: narração de estórias, auxiliares de biblioteca, biblioteconomia infantil, teatro de marionetes, fantoches, sombra etc. Os que vieram posteriormente, além dos cursos, eram orientados pelos mais antigos, com a finalidade de integrá-los à diversidade de atividades daquele ambiente. Parte desses professores era procedente de escolas estaduais, sem nenhuma experiência com o trabalho em biblioteca; outros vieram da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato.

No período em que esteve presente, a bibliotecária desempenhava as funções de processamento técnico, colaborando com os professores no planejamento das aulas de biblioteca e na orientação aos professores recém-chegados, quanto aos serviços de processamento técnico, numa clara integração entre os colaboradores da obra e o pensamento de seu idealizador.