Capítulo III: A Biblioteca Escolar
1. A Biblioteca Escolar e as políticas públicas
Calixto (1996)6 alude ao significado de aprender e aponta para a escola e biblioteca escolar como pólos integradores das várias aprendizagens que nomeia. Adicionalmente, refere que as bibliotecas e a escola não devem ignorar os desafios da sociedade da informação, uma vez que os locais e as formas de aprendizagem se tornaram muito diversificados.
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“Aprender é buscar, interrogar, criar, avaliar, diálogo mediato e imediato com o mundo. (…)
É na escola, é pelas bibliotecas escolares que os jovens podem e devem ganhar o gosto pelos livros e pela leitura, fazer desta parte do seu quotidiano, dos seus tempos livres, do seu prazer.” (CALIXTO,
29 Na portaria nº756/2009 de 14 de junho refere-se que a biblioteca escolar é uma estrutura inovadora, funcionando dentro e para fora da escola, mantendo-se atualizada e estimulando as mudanças nas práticas educativas de modo a garantir aos alunos o acesso à informação e ao conhecimento, bem como do seu uso, requeridos pela sociedade atual.
O mesmo é referido nas Diretrizes da IFLA/UNESCO para as Bibliotecas Escolares (2006), podendo-se acrescentar que a BE tem também como missão o desenvolvimento de competências essenciais nos alunos para a aprendizagem ao longo da vida, tornando-os cidadãos responsáveis e críticos. Para isso, como referido no Manifesto da Biblioteca Escolar da IFLA/UNESCO (1999) deverá disponibilizar serviços de aprendizagem, livros e recursos que o possibilitem.
Nas Diretrizes para Serviços de Bibliotecas para Crianças (2003), especifica-se que uma biblioteca com qualidade fornece às crianças competências para a aprendizagem ao longo da vida e para a literacia, com o objetivo de as habilitar para participarem e contribuírem positivamente para a vida em comunidade, devendo responder às mudanças na sociedade moderna7.
Para Veiga et al. (1996), a biblioteca deve ser o núcleo da organização pedagógica da escola e um meio de desenvolver o currículo escolar, bem como incrementar atividades culturais e de informação. As atividades da BE devem fazer parte das restantes atividades da escola e devem estar incluídas no seu projeto educativo. Por outras palavras, deve-se dar destaque ao desempenho da biblioteca escolar, sendo esta de extrema relevância para o desenvolvimento do conhecimento dentro e fora do ambiente escolar. A BE não deve ser vista somente como um serviço de apoio ao funcionamento dos serviços escolares ou um espaço à parte de aprendizagem e ocupação de tempos livres.
Calçada (2013) apela à necessidade de se reinventar o papel das leituras e das bibliotecas e perceber que o leitor é outro, que o conceito se modificou. Como consequência de uma representação formal de texto diferente, há que alterar a prática de fazer leitores, cabendo à escola e à sua biblioteca escolar incrementar e ensinar a
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"(...) Deve saber responder constantemente às crescentes mudanças na sociedade e satisfazer as necessidades de informação, cultura e entretenimento de todas as crianças. Todas as crianças devem sentir-se à vontade e confortáveis na sua biblioteca local e possuir as competências para se movimentarem facilmente e utilizarem as bibliotecas de um modo geral” (DIRETRIZES PARA
30 conhecer os ambientes digitais, sem negligenciar os contributos do passado. Cabe igualmente à escola e à BE desmistificar certas crenças, nomeadamente a de que o "conhecimento está à distância de um clique" (CALÇADA, 2013), pois é necessário exercer a competência crítica no momento de avaliar a informação que aparece no ecrã.
Em Espanha, de acordo com García-Quismondo e Cerveró (2007), após o lançamento de políticas educativas no sentido de formar a biblioteca escolar, tal como em Portugal, de forma a acompanhar as transformações da sociedade atual, a biblioteca passou a denominar-se Centro de Recursos para la Enseñanza y el Aprendizage (CREA). Esta designação é muito semelhante à portuguesa, uma vez que algumas BE têm também a parte do CRE, isto é, Centro de Recursos Educativos.
Durban Roca et al. (2012) sublinham três elementos transformadores que estão a gerar a necessidade de mudança das bibliotecas escolares: a existência de um novo ecossistema comunicativo e informacional; a introdução do digital no universo da leitura; a existência de um espaço virtual como ambiente social, relacional e comunicativo.
Tal como Calçada (2013), Durban Roca et al. (2012) e Lanzi, Vidotti e Ferneda (2013) apontam para a existência de novas práticas informacionais e leitoras e, por conseguinte, a BE deverá adotar dinâmicas e estratégias vocacionadas para a era digital como, por exemplo, converter a BE num espaço flexível quanto à redistribuição e organização de conteúdos, estar aberta a novas fontes de conhecimento, gerar meios ambientes informacionais específicos e a administração de plataformas virtuais de interação social. A BE acaba por ser um intermediário entre o aluno e a educação formal, estimulando-o a manifestar-se de acordo com as suas necessidades de aprendizagem, mas num ambiente mais informal e acessível. Para mais, poderá incentivá-lo a pesquisar e a partilhar as informações que encontra na internet, que poderão ser úteis para outros colegas, mesmo que não sejam da mesma escola (LANZI, VIDOTTI e FERNEDA, 2013).
Urge uma reorganização e redefinição da BE à luz de uma cultura digital que é transversal a toda a sociedade. Durban Roca et al. (2012) sugerem a designação de uma BE ubíqua para a sociedade em rede. Esta nova BE deverá desenvolver-se à volta do que é digital e estar preparada para intervir dentro e fora da comunidade educativa, porque se não o fizer, será colocada em causa a sua utilidade. Segundo Conde et al. (2012), a BE é um recurso essencial face aos desafios da sociedade atual pelo espaço
31 que é, facilidade de acesso à informação para todos e aprendizagem que potencia, sendo inconcebível a sua ausência do espaço escolar.
No referencial Aprender com a Biblioteca Escolar (PORTUGAL, RBE, 2012), as bibliotecas escolares são o veículo, por excelência, de acesso à informação e possibilidades de aprendizagem, porquanto facultam um recurso privilegiado nas escolas para responder a estes desafios. O referencial tem em vista o desenvolvimento da literacia e o uso crítico, consciente e criativo das tecnologias. Para tal, estrutura-se em três áreas: literacia da leitura, literacia dos media e literacia da informação. Através destas áreas, o documento procura a promoção e integração, por parte da BE, de conhecimentos, capacidades e atitudes ligadas a estas literacias na educação formal curricular.
Este referencial está também na base do modelo de avaliação das bibliotecas escolares da Rede das Bibliotecas Escolares. A Rede de Biblioteca Escolares foi lançada em 1996 e, desde então, o programa conseguiu incluir até ao momento cerca de 2450 escolas. A integração das BE na rede tem sido gradual ao longo destes 19 anos. Atualmente, há menos bibliotecas a serem integradas na rede devido à crise financeira e porque o número de escolas sem biblioteca escolar é diminuto (CONDE e MENDINHOS, 2015). A sustentabilidade do programa da RBE tem como suporte o investimento e informação veiculada aos investidores em como a BE contribui para o sucesso na educação. Cabe à escola perceber o impacto que a BE tem nas suas atividades, no ensino e na aprendizagem, e ter em consideração fatores críticos como a eficácia dos serviços e a satisfação dos utilizadores. A avaliação das BE permite compreender se a missão e os objetivos traçados estão a ser atingidos, identificar boas práticas e aspetos a melhorar (BASTOS e MARTINS, 2009). Por conseguinte, o modelo de avaliação proposto e usado neste momento nas BE, em Portugal: “Modelo de avaliação da biblioteca escolar: 2014-2017”, definido pelo Programa Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) analisa a informação e os resultados recolhidos ao longo dos anos de implementação deste modelo. Além disso, analisa o conhecimento partilhado pelos especialistas em avaliação, em estudos científicos produzidos e em diretrizes publicadas por instituições responsáveis pela avaliação e pelas bibliotecas escolares (PORTUGAL, RBE, 2013). Este modelo foi lançado no mesmo ano da publicação do Programa da Rede de Bibliotecas Escolares - Quadro Estratégico 2014- 2020 no qual se define uma visão de como deverão ser as BE e as prioridades para a atingir, bem como a sua implementação, monitorização e avaliação.
32 O modelo de avaliação suporta quatro domínios, cuja atualização pretende ajustar-se à realidade do trabalho da BE:
A. Currículo, literacias e aprendizagem; B. Leitura e literacia;
C. Projetos e parcerias;
D. Gestão da biblioteca escolar. (PORTUGAL, RBE, 2013)
Algumas das estratégias do Programa Rede de Bibliotecas Escolares Quadro
estratégico 2014-2020 (2013) que são avaliadas através destes domínios apontam para a
BE como um espaço que: prima pela flexibilidade e adaptabilidade às mudanças tecnológicas e às necessidades dos utilizadores; promove o trabalho colaborativo e articulado com os docentes, de acordo com os programas curriculares, e participação em projetos e atividades pedagógicas que visem a melhoria dos resultados dos alunos; intervém pedagogicamente no percurso curricular dos alunos e na sua formação para as literacias, tendo um impacto nas aprendizagens e no sucesso educativo. Além disto, sublinha-se o facto de os professores bibliotecários desempenharem um papel de liderança e inovação nas escolas, sempre apoiados pelo pessoal docente e não docente e a possível colaboração da BE com outras organizações como universidades, bibliotecas, museus, associações e empresas, que podem pertencer à comunidade escolar ou não, sempre com o intuito de valorização e integração na sociedade através de um trabalho colaborativo.
Todos os domínios a implementar e a avaliar são indiscutivelmente pertinentes, mas destacam-se no presente estudo os domínios A e B. No que concerne ao domínio A - Currículo, literacias e aprendizagem, preconiza-se, entre outros, o apoio por parte da BE ao currículo e à formação para as literacias da informação e dos media, sempre em articulação com os docentes. Isto significa uma participação da BE no ensino dos conteúdos e metas curriculares através da realização de trabalho colaborativo; utilização das tecnologias como acesso, produção e comunicação de informação que sirva de apoio à aprendizagem; produção de materiais informativos de apoio à utilização adequada da internet, sempre em trabalho colaborativos com os professores curriculares. Quanto ao domínio B – Leitura e literacia, salientam-se as funções primordiais da BE, que são o desenvolvimento das competências de leitura e promoção do gosto e dos hábitos de leitura, uma vez que são essenciais no percurso educativo dos alunos.
Pese embora todos os fatores apontados anteriormente, quer em relação ao programa da RBE, quer ao modelo de avaliação, a reorganização e redefinição da BE só
33 fará sentido se aprópria escola também se integrar dentro do contexto digital. Tanto para Todd (2011), como para Durban Roca et al. (2012), os agentes integradores e que fortalecem a aprendizagem na BE são os professores, os educadores, os professores bibliotecários e toda a administração escolar. As suas ações devem permitir ao alunos acederem, interagirem e utilizarem a informação para enriquecer o seu próprio entendimento das coisas. Porque "são as pessoas que formam/capacitam e são as
pessoas que são formadas/capacitadas" (TODD, 2011, p. 21), não são somente as
infraestruturas que estão em primeiro lugar quando se pretende alterar mentalidades.
2. Estudos nacionais e internacionais: as bibliotecas escolares e os nativos digitais