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A Bildung alemã

No documento 2019VivianBaroni (páginas 54-60)

Antes de adentrarmos ao estudo mais sistemático das Cartas é necessário orientarmos a obra de Schiller como inserida no interior do movimento alemão conhecido por Bildung. De

33 Doravante nos referiremos a obra A educação estética do homem numa série de cartas unicamente com o termo Cartas.

fato, para os objetivos desta tese, dizemos que a educação estética de Schiller conforma o próprio sentido da palavra Bildung, ao mesmo tempo em que a teoria estética da Marcuse é fortemente influenciada por essa noção de educação estética. Mas afinal, o que é esse conceito? A que ele se refere? Ainda que a morfologia bastante simples da palavra possa sugerir um significado claro que acompanha o uso, essa constatação está longe de ser verdadeira: Bild poderia ser traduzido por forma, enquanto que o prefixo ung designaria o processo segundo essa forma seria obtida, o que nos leva a traduzi-la no português por formação34. Para que seu sentido pedagógico pudesse aflorar, a semântica da palavra teve que assumir especificidades, distinguindo-se do sentido mais amplo de formação – tanto de Schöpfung, Gestaltung,

Verfertigung, Verfeinerung e Bildnis – quanto no sentido especificamente pedagógico de

formação cultural – como Erziehung, Unterricht, Wissen, Kultur. O equivalente latino para formação é a formatio, e corresponde no inglês (Shaftesbury) a form e formation.

Como bem observa Gadamer (1997, p. 48), a palavra “formação” tal qual nos chega, já não está vinculada com o antigo conceito de “formação natural”, que se refere a aparência externa, de uma figura bem formada, nem a configuração produzida pela natureza, como se poderia dizer da “formação de montanha”. A formação integra para os modernos especificamente o conceito de cultura e designa, antes de tudo, “a maneira humana de aperfeiçoar suas aptidões e faculdades”. Se Kant trata da “cultura” como faculdade que representa um ato de liberdade do sujeito atuante, Hegel já fala de formar-se e formação ao acolher o pensamento kantiano do dever para consigo mesmo, e Humboldt, por sua vez, percebe a diferença entre cultura a formação, referindo esta última como um processo mais íntimo que abarca tanto o conhecimento, quanto o empenho espiritual e moral que reflui na sensibilidade e no caráter.

Ainda que o termo Bildung apareça já durante o século XIII ligado em sua origem à mítica do período barroco e dos primeiros românticos, o termo só vai adquirir significado pedagógico em sentido estrito no século XVIII35 como parte da pedagogia do Esclarecimento. Nesse período ela se separa da corrente teológica, mística e metafísica anterior e passa a ser

34 Horlacher (2014, p. 36) ressalta que a palavra Bildung é praticamente intraduzível para qualquer outro idioma:

“nem ‘educação’, nem ‘instrução’, nem ‘capacitação’, nem ‘formação cultural’, nem ‘criança’ se aproximam sequer da ambição cultural na semântica da palavra Bildung”.

35 É curioso observar que o conceito de Bildung, nos termos em que se refere à estética em seu sentido educacional,

aparece apenas no século XVIII, quando já na Paideia grega a educação estética era parte integrante do conceito de formação. Para Goergen uma explicação para esse lapso temporal pode ser encontrada na passividade dos sujeitos frente aos desígnios divinos que imperou na idade média, assim como no fato de que a relação direta entre

Bildung e educação só ocorreu no contexto do movimento emancipatório burguês com seu afastamento crítico da

teologia e da metafísica: clero e nobreza. “Trata-se de uma oposição às relações de poder limitantes da condição humana, na qual a Bildung eleva o homem ao nível do racional, libertando-o da condição de mera função das relações de poder” (2017, p. 440).

formulada nos termos da linguagem disciplinar da pedagogia. Para Goergen (2017, p. 440) esse percurso do conceito e a ênfase arregimentada no século XVIII relaciona-se com a emergência da razão enquanto elemento distintivo do humano que flui diretamente do movimento iluminista. Pode-se dizer que é a partir de Humboldt, que assumindo alguns pontos da filosofia de Herder, direciona a discussão da Bildung como formação no sentido do Esclarecimento. Conforme Britto (2010, p. 10 e ss), com a filosofia de Humboldt o conceito de Bildung é utilizado para designar a realização do homem enquanto processo de desenvolvimento pleno de suas potencialidades individuais, no qual a sociedade funciona como meio desse processo.

Esse novo momento da Bildung é marcado por uma postura fundada sobre a fragilidade e dependência própria da natureza humana, implicando ao mesmo tempo na premissa da inevitável necessidade do homem educar-se, formar-se com vistas a sua realização enquanto indivíduo e ser social. Conforme Goergen (2017, p. 440) em termos pedagógicos a Bildung significa aqui “a formação do homem virtuoso mediante influência externa à luz do conceito de cultura e civilização, atinentes ao progresso do mundo”. Um momento importante dessa tradição diz respeito a influência de Rousseau (1712-1778) na ênfase essencialmente pedagógica ao valorizar a historicidade e a individualidade. Movido pela ideia da perfectibilidade humana, Rousseau pensa uma educação fundada em uma postura crítica frente as formas desumanas da realidade em que vivia com o intuito de gestar formas engajadas na constituição de uma sociedade de homens livres.

A concepção de processo e continuidade é também uma das características marcantes da ideia de formação ou Bildung. Em sua ênfase no processo de devir, o processo formativo não se reduz a uma finalidade técnica, “mas nasce do processo interno de constituição e de formação e, por isso, permanece em constante evolução e aperfeiçoamento” (GADAMER, 1997, p. 50). A formação tampouco conhece algo diferente de suas metas estabelecidas, e precisamente neste ponto é que ela supera o mero cultivo de aptidões pré-existentes. Nestes termos, o estudo de qualquer matéria é um simples meio e não um fim, pois nada do que se aprendeu durante a formação desaparece, mas é preservado. Ou seja, a formação é para Gadamer também “um conceito genuinamente histórico, e é justamente o caráter histórico da ‘preservação’ o que importa para a compreensão das ciências do espírito”.

Outro importante marco para a Bildung contemporânea – e também o que mais interessa para os objetivos dessa tese – refere-se ao seu período neo-humanista. Devido à Reforma Protestante considera-se que o Renascimento alemão sofreu um atraso e estendeu-se até o século XVIII, de forma que os pensadores desse período – entre eles Schiller – atraídos pela arte e filosofia clássica, procuraram resgatar aspectos destas para pensar um conceito moderno

de formação. Como movimento, a Bildung neo-humanista estende-se até o século XX com a

Paideia de Jaeger (1989), escrita durante o período de entreguerras (1919-1939), que busca o

resgaste da tradição grega de educação.

Conforme Vilanou (2001, p. 7), a Bildung em sua vertente contemporânea se desenvolveu em contato com o neo-humanismo do século XVIII que se orienta para o mundo grego-latino, perdurando durante décadas a modo de um ideal (Bildungsideal) que atua como uma ideia na qual transita toda a pedagogia contemporânea. Ainda que um dos pontos principais seja a orientação para o ideal de humanidade, o que remete a um projeto de cultura geral humana, não exclui a individualização, mas ao contrário, a exige. Esta também vai ser uma ideia marcante da Bildung schilleriana. Na medida em que o objetivo da educação estética é o aperfeiçoamento da humanidade, Schiller não deixa de mostrar que para o alcance dessa meta não bastam novas instituições, mas sim um homem novo. Mediante a concepção do homem educado pelo belo como indivíduo virtuoso, Schiller traça o caminho para a liberdade que não se basta ao indivíduo com ser isolado, mas exige sua projeção no universo que o cerca.

Conforme Gadamer (1997, p. 53), na ideia de formação teórica de Hegel encontramos a concepção que demonstra na reconciliação consigo mesmo e no reconhecimento de si no outro um traço importante da dinâmica particular/universal que permeia a Bildung. A formação teórica conduz ao conhecimento para além do que o homem sabe e vivencia, pois implica aprender o diferente, aquilo que é distinto do comum experenciado, o que remete à necessidade de construir pontos de vista universais a fim de apreender a realidade. Para Hegel, “reconhecer no outro o que é próprio, familiarizar-se com ele, eis o movimento fundamental do espírito, cujo ser é apenas o retorno a si mesmo a partir do diferente” (GADAMER, 1997, p. 54). Logo, toda a formação teórica, mesmo o aprendizado de um idioma e a concepção de mundos estrangeiros, constitui um processo de formação autêntico que se iniciou bem mais cedo. Cada indivíduo particular que se insere na coletividade de um povo, assimila traços culturais de uma substância já existente, que precisará ser apropriada individualmente em um movimento que vai do universal para o particular. Por isso cada indivíduo particular está constantemente em processo de formação “e já sempre a ponto de suspender sua naturalidade, tão logo o mundo em que esteja crescendo seja um mundo formado humanamente no que diz respeito à linguagem e ao costume” (GADAMER, 1997, p. 54). Disso podemos concluir que não é o alheamento que perfaz a formação, mas o retorno a si.

Há que se considerar que mesmo que a tradução corrente da palavra Bildung nos leve ao significado simplificado de formação, a vertente contemporânea liga-se ainda com outras expressões como Geist (espírito) e Freihet (liberdade). Logo, esses três termos, Geist, Freihet

e Bildung unidos sob um mesmo signo constituem a chave sobre a qual descansa uma pedagogia voltada para a plenitude do ser humano segundo os desejos de liberdade que se seguiram à Revolução Francesa (VILANOU, 2001, p. 8). Nesses termos é preciso considerar o importante papel desempenhado pela ascensão da burguesia enquanto se orienta por valores que em si mesmos abarcam a ideia de Bildung como ideal de formação do indivíduo burguês. Frente ao ideal cortesão do antigo regime surge o ideal de homem culto da Bildung enquanto modelo desse novo sujeito, o homem burguês, um ideal que tem sua origem já em Herder. Em muitos aspectos a Bildung conforma-se com os parâmetros do que Marcuse vai mais tarde designar de cultura afirmativa36: o cultivo de si nos termos de uma autoformação como processo exclusivamente interior e espiritual mediante o qual o sujeito pode elevar a sua verdadeira condição humana através da emancipação intelectual que envolve também a educação estética e moral.

Em seu intento de resgatar a rica filosofia educacional, a Bildung alemã compreende a formação humana de uma perspectiva da totalidade da pessoa, ou seja, toma a educação do indivíduo enquanto unidade integral, autônoma, individual e, porque não, bela. Para Vilanou (2001, p. 10), essa noção veio a resultar na confiança no progresso da humanidade, da história e da educação do gênero humano (Lessing), na moralização da humanidade (Kant), na dimensão estética da educação (Schiller) e na resolução das dissonâncias do indivíduo (Hölderlin). Daí ser o romance de formação (Bildungsroman) uma das maiores contribuições da cultura alemã à literatura mundial, visto que coloca a educação como um itinerário que tem que percorrer cada indivíduo singular no percurso de uma formação que o eleva ao universal. Visto em seu conjunto, a Bildung neo-humanista trata de uma série de projetos formativos que visavam restabelecer a harmonia ideal abalada pela sucessão dos acontecimentos históricos que levaram à consolidação da racionalidade e a consequente cisão entre razão teórica e razão prática, interioridade e exterioridade, impulso formal e impulso sensível.

Como veremos mais adiante, um dos principais fatores que influenciaram a Bildung schilleriana foi a Revolução Francesa e as consequências nefastas que a ênfase exacerbada na razão trouxe. Daí vem a importância desempenhada pela estética, que coloca a Bildung como um “processo de autoconstrução do ser humano e da constituição de sua vontade no permanente conflito entre a sensibilidade e a razão, ou seja, entre o indivíduo e a sociedade” (GOERGEN, 2009, p. 45). Essa noção vem a ser também representação da insatisfação de Schiller com a dicotomia entre as inclinações naturais e o dever em Kant, sendo que se Schiller parte de Kant,

ele distancia-se e até critica seu contemporâneo, pois acredita que a ligação entre as faculdades não vai ser encontrada no homem, mas sim na arte. A forte conotação estética da Bildung neo- humanista vai ser, de fato, o seu elemento distintivo, o que a distancia do ideal da Paideia em sua ênfase central na ética.

A estética vai colocar a ênfase na dinâmica de apreensão dos elementos estranhos ou incomuns da realidade, posição que valoriza outras formas de conhecimento, como os sentidos e os sentimentos. Falando de Helmholtz, Gadamer vai dizer que o tato que atua nas ciências do espírito não se esgota no inconsciente, como uma espécie de senso, mas é ao mesmo tempo uma forma de conhecimento e uma forma de ser. “Tem de se ter sentido ou tem-se de ter formado o sentido para o que é estético e o que é histórico, caso queiramos confiar no nosso tato no trabalho das ciências do espírito” (GADAMER, 1997, p. 57). Este sentido não é meramente natural, mas tende para a consciência, uma consciência que sabe avaliar cada caso específico, resultando no fato de que quem possui sentido estético sabe separar o belo do feio, a boa e a má qualidade. Como a formação do sentido estético envolve a ponderação, a reflexão e a avaliação, para Gadamer esta não se refere à um determinado comportamento nem a um mero processo, mas à questão do ser que deveio: “considerar com maior exatidão, estudar com maior profundidade não é tudo, caso não esteja preparada uma receptividade para o que há de diferente numa obra de arte ou no passado” (GADAMER, 1997, p. 58). A característica universal da formação vai ser, portanto, o manter-se aberto para o diferente, para outros pontos de vista mais universais que não formam um padrão fixo, mas aparecem apenas como pontos de vista de possíveis outros, adotando características que o aproximam de um sentido universal. A experiência formativa que emana da estética põe ênfase em aspectos distintos de apreensão do real, permeados por uma racionalidade que é ao mesmo tempo sensível e instintiva e, justamente por isso, conforma uma experiência aberta e não dogmática. Para Schiller, ainda que a estética kantiana tenha preparado os caminhos para uma nova teoria da arte, assim como através do esclarecimento fundou no sujeito as bases sobre as quais se assenta o instinto moral até que o conhecimento claro o emancipe, ao mesmo tempo, essa “técnica que torna a verdade visível ao entendimento, a oculta, porém, ao sentimento; pois o entendimento, infelizmente, tem de destruir o objeto do sentido interno quando quer apropriar-se dele” (SCHILLER, 2002, p. 20). Nesta lógica, a concepção de educação estética schilleriana vem completar o sistema kantiano ao colocar em jogo novamente a virtude e a felicidade, doutrinas ainda que não suprimidas, pelo menos negligenciadas na moral kantiana.

Conforme Suzuki (2002, p. 7) a estética é utilizada por Schiller as vezes como uma doutrina da virtude, uma ética, que completa o sistema da moral. Na medida em que as

investigações de Schiller sobre o homem enquanto natureza sensível e racional empenhadas em unificar felicidade e obrigação complementam a filosofia kantiana e conduzem ao estabelecimento do estado moral, elas também mostram uma doutrina pedagógica preocupada com o desenvolvimento do homem em sua totalidade, como ser que encontra sua plenitude no restabelecimento do conjunto de suas dimensões. Nas próximas sessões vamos acompanhar como esse processo é pensado por Schiller através da análise das Cartas.

No documento 2019VivianBaroni (páginas 54-60)