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Orfeu e Narciso: o mito em Marcuse

No documento 2019VivianBaroni (páginas 138-142)

Um dos principais pontos ressaltados por Marcuse na obra Eros e civilização é a necessidade de se suprimir a sobre repressão e tudo o que ela significa em termos do progresso nas civilizações avançadas. O filósofo busca nas qualidades inerentes à dimensão estética as imagens de uma outra forma de desenvolvimento na qual o crescimento econômico não enseje a limitação das potencialidades do homem. É nesse sentido que o autor aborda as imagens de

Orfeu e Narciso enquanto representantes de um outro princípio da realidade no sentido de revalorização da sensibilidade frente a prevalência da razão e a supressão das pulsões.

O mito é utilizado por Marcuse em diversas partes de sua obra para ilustrar aspectos teóricos mais amplos, desempenhando um papel importante dentro de sua filosofia. Na medida em que mantém preservados elementos que não foram influenciados pelo princípio da realidade, Marcuse os utiliza para resgatar noções que o auxiliam na fundamentação de um princípio da realidade não-repressivo. Conforme Lévi-Strauss, a importância do mito consiste na identificação da função simbólica com as leis estruturantes do inconsciente, embora ressalte a intencionalidade não de “mostrar como os homens pensam os mitos, mas como os mitos se pensam nos homens” (LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 31). Enquanto parte de uma realidade cultural extremamente complexa, o mito só pode ser abordado e interpretado a partir de perspectivas múltiplas e complementares, de tal forma que representa um objeto difícil dentro da pesquisa. Contudo, a riqueza de abordagens que o mito sucinta faz dele uma fonte inesgotável de sentidos de onde podemos problematizar aspectos importantes da realidade contemporânea.

O mito é para Freud uma narrativa construída para explicar uma realidade, ao mesmo tempo que a cria. Além disso, o seu significado jamais pode ser lido de maneira fixa, já que o mesmo elemento pode guardar significados distintos e até mesmo opostos, como amor e ódio, vida e morte. Em diversos momentos é possível notar que Freud recorre aos mitos de origem e às referencias mitológicas tanto para abordar ou explicar determinadas características do comportamento neurótico, quanto para preencher lacunas teóricas. Nesse caso, o mito aponta para a limitação da teoria que impede uma abordagem mais abrangente. É nesse sentido que Marcuse também procura trabalhar o mito, em uma dinâmica que, por um lado, resgata elementos reprimidos importantes para a problematização da transformação da sociedade, e por outro, agrega fatores que permitem uma visão ampliada da cultura.

Eros, Orfeu, Narciso e Prometeu são utilizados como elementos saturados de significado que complementam, em sentido de totalidade, a teoria apresentada, ou seja, introduzem ideias e fundamentos de um universo mais amplo, assumindo a função de reunir um conjunto de fatores dispersos em uma totalidade própria. Conforme a entidade mítica de Eros66, deus do amor, reúna em torno de si uma multiplicidade de significados que extrapolam a definição científica, Freud o habilita para designar a pulsão da vida, responsável por reunir fragmentos menores em unidades cada vez maiores, indivíduos em sociedade (1920/1996d). Para Marcuse

66 Na Teogonia, Hesíodo considera Eros como nascido do Caos e, portanto um dos deuses primordiais. Também

o define como o mais belo dos deuses imortais, atribuindo ainda o papel unificador e coordenador dos elementos, contribuindo para a passagem do caos ao cosmos (1995, p. 91).

(1968, p. 180), a própria introdução do termo Eros nos últimos escritos de Freud vem acompanhada do sentido de ampliação do conceito de sexualidade. Isto é, enquanto pulsão de vida, indica um instinto biológico mais amplo em contraposição à um âmbito mais vasto de sexualidade; contudo, a não distinção de Freud entre sexualidade e Eros implica uma ampliação quantitativa e qualitativa do próprio conceito de sexualidade.

Alargando o conceito a partir de Freud, Marcuse modifica e amplia seu significado que passa a designar não apenas a pulsão da vida e os elementos representativos desta, mas termo que reúne em si as qualidades de uma civilização não-repressiva, ligando-o diretamente à estética. Nesse sentido, Orfeu e Narciso aparecem como os arquétipos dessa transformação porquanto representem aspectos opostos à rigidez da racionalidade. O primeiro, poeta e musico oriundo da Trácia, usava seu canto para acalmar as feras e os homens, comovendo até mesmo as pedras. O segundo, apaixonado pela imagem de si mesmo refletida na água, afoga-se e é transformado em uma flor. Narciso representa a bela forma, na qual a atração exercida pelo belo é capaz de parar o tempo. Por sua vez, Orfeu é capaz de controlar a natureza através da música.

Como já comentado anteriormente, a intenção de Marcuse com essa abordagem é mostrar a prevalência da razão frente à sensibilidade, apontando para os prejuízos dessa perspectiva. O autor argumenta que essa noção de razão, tal qual aparece nas sociedades ocidentais modernas, é característica do princípio do desempenho e, como tal, instrumento de coação e supressão das pulsões. Enquanto se procede com a separação de razão e sensualidade, as duas passam a designar extremos antagônicos em que um deve suplantar o outro: “de Platão até as leis ‘Schund und Schmutz’ do mundo moderno, a difamação do princípio do prazer provou seu irresistível poder; a oposição a essa difamação sucumbe facilmente ao ridículo” (MARCUSE, 1968, p.146).

Marcuse ressalta que o domínio da razão jamais foi completo, mas permanentemente contestado. Nesta posição, a fantasia assume uma postura cognitiva na medida em que preserva e protege as aspirações de realização integral do homem e da natureza. Ainda que em uma dimensão à parte, as imagens da liberdade continuam válidas, mantendo-se vivas no folclore e nas lendas, na literatura e na arte. Sua essência aparece na sociedade somente enquanto arquétipos, símbolos, e seu significado é interpretado em termos dos estágios filogênicos ou ontogênicos. É nesse nicho que se inscrevem as imagens de Orfeu e Narciso.

Conforme ressalta Marcuse, os chamados “heróis culturais” persistem na sociedade moderna enquanto arquétipos dos feitos da humanidade. Porém, o modelo que se destaca é o embusteiro, o rebelde, símbolos da produtividade e do esforço para domar a vida. Ou seja,

Prometeu, aquele que rouba a chama dos deuses, mas também permanece eternamente acorrentado, é o arquétipo central do princípio do desempenho, enquanto Pandora, o princípio feminino, a sexualidade, surge como maldição. Desse modo, Prometeu representa o herói cultural do esforço laborioso, do progresso através da repressão, enquanto que Narciso e Orfeu são os símbolos do seu oposto:

Não se convertem em heróis culturais do mundo ocidental, a imagem deles é a da alegria e da plena fruição; a voz que não comanda, mas canta; o gesto que oferece e recebe; o ato que é paz e termina com as labutas de conquista; a libertação do tempo que une o homem com deus, o homem com a natureza (MARCUSE, 1968, p. 148).

Enquanto negam a produtividade repressiva do princípio do desempenho, a linguagem de Orfeu e Narciso reconciliam as duas pulsões antagônicas, Eros e Tanatos, invocando imagens de um mundo libertado, desencadeando poderes reprimidos ligados a Eros e, nesse sentido, vinculados à paz e à beleza. Ao contrário de Prometeu, ente ligado a conceitos como produtividade, esforço e labuta, Orfeu e Narciso vinculam-se à redenção pelo prazer, paralização do tempo, absorção da morte, sono e ao princípio do Nirvana (não como morte, mas como vida). Enquanto os heróis culturais reforçam a realidade, as imagens órfico-narcisistas a destroem: não comunicam um modo de existir, mas estão ligadas ao inferno e à morte. “Não ensina qualquer mensagem, exceto, talvez, uma de natureza negativa: que ninguém pode vencer a morte ou esquecer e rejeitar o apelo da vida na admiração da Beleza” (MARCUSE, 1968, p. 151).

No entanto, tais imagens guardam outra mensagem, aquela que se refere à libertação da repressão na contramão do esforço e da coação, em um caminho que aponta também para o crescimento e o desenvolvimento. As árvores e os animais respondem à linguagem de Orfeu, e a primavera e a floresta respondem ao desejo de Narciso. Esse Eros dá vida às coisas inanimadas e animadas, coisas reais mas suprimidas na realidade não erótica, sugerindo uma realidade na qual a supressão das pulsões não é uma regra. Essa experiência órfica e narcisista nega tudo aquilo que sustenta o princípio do desempenho. A oposição homem e natureza, sujeito e o objeto é superada para dar lugar à experimentação do ser enquanto gratificação. Por esse ângulo, a união entre o homem e a natureza é vista como uma via de mão dupla, pois é, ao mesmo tempo, elemento para a realização plena do homem, sem violência, que conduz também a plena realização da natureza. O ponto central é a disposição da atitude erótica, pela qual as coisas recebem o seu telos. A canção de Orfeu despetrifica a natureza, a faz responder, libertar-se da

brutalidade: essa é obra de Eros, o qual imprime em tudo o que se aproxima essa necessidade como uma obrigatoriedade de libertação.

Se Orfeu coloca em movimento, induz à ação, por sua vez Narciso conduz ao sono e à morte, ao repouso e silêncio, isto é, aparece como antagonista de Eros ao negar o amor que o une a outros seres. Por vezes ligado à Dionísio, sua imagem não deve ser confundida com asceticismo, frigidez e egoísmo, mas está focada no que a literatura e a arte preservaram. De fato, o seu silencio não é o da morte, e quando nega o amor das ninfas é por rejeitar um Eros em favor do outro: vive às custas de um Eros próprio e não ama exclusivamente a si mesmo, já que não sabe que a imagem refletida é a sua. Para Marcuse, sua atitude é afim da morte e a leva a ela, logo o repouso e a morte não aparecem distintos na medida em que o princípio do Nirvana impera em todas as partes.

Em todo o caso, as imagens que suscitam Orfeu e Narciso estão essencialmente ligadas à Grande Recusa através da negação em aceitar a separação entre o sujeito e o objeto libidinal. Enquanto colocam a recusa como caminho que leva à libertação, exigem, ao mesmo tempo, uma nova realidade com uma ordem própria guiada por valores radicalmente contrários ao princípio do desempenho: harmonia, beleza, liberdade. É nesse sentido que se pode enxergar essa nova ordem representada pela dimensão estética, pois para Marcuse o conteúdo representativo das imagens órficas e narcisistas é a reconciliação erótica do homem e da natureza na atitude estética, na qual a ordem é beleza e o trabalho é atividade lúdica.

Marcuse, até aqui, procurou nos mitos, talvez por eles guardarem uma afinidade inerente com o passado sub histórico do homem, os elementos e valores que são opostos ao repressivo princípio do desempenho. Por embasarem-se em concepções como liberdade e beleza, e sugerirem uma produtividade embasada na imaginação e na fantasia, são passíveis para demonstrar a possibilidade de emergência de um princípio da realidade alternativo, não- repressivo. No capítulo 9 de Eros e civilização, Marcuse vai dar um passo além e, somando as características encontrados nas imagens órfico-narcisistas e na fantasia, tentará justificar a possibilidade e necessidade de um outro princípio da realidade fundamentada na dimensão estética enquanto elemento aglutinador.

No documento 2019VivianBaroni (páginas 138-142)