3 CRITERIOLOGIA PRÓPRIA E APROPRIADA: DELINEANDO O
3.5 A BUSCA DE SENTIDO NA COMPREENSÃO DO DITO
Ao proceder fenomenologicamente, a amostragem não assume o nível de relevância como se observa nas pesquisas quantitativas. Bicudo (2011) esclarece que a quantidade de participantes não está condicionada a processos normativos, válidos estatisticamente. Enfocando a indagação epicentral dessa investigação, os treze colaboradores entrevistados nos permitiram uma atitude compreensivo- interpretativa essencial do fenômeno.
Ao direcionar nosso olhar reflexivo para as entrevistas não se pretendeu privilegiar a empiria em detrimento da imersão subjetiva que norteou o dizer próprio e apropriado a voltar às coisas mesmas. Intencionamos elementos essenciais de uma compreensão intersubjetiva. A experiência de sujeitos intelectuais – mulheres e homens cegos – é fitada prescindindo do caráter pragmático do agir, mas, privilegiando a singularidade do vivido. Postura em consonância com Bicudo, quando diz:
Experiência é compreendida como experiência vivida. E diferente de experiência compreendida enquanto empírica ou informativa. Para esta
concepção, não é o pragma que importa, enquanto experiência das coisas de que o sujeito se ocupa, mas importa a práxis, enquanto agir e fazer de modo criativo e crítico (BICUDO, 1994, p. 21).
Ao contactar com as experiências significadas pelos sujeitos, intencionamos compreender o sentido de suas memórias, seus projetos existenciais de formação intelectual em um processo cotidiano de um exercer-se em um mundo permeado por uma perspectiva oculocêntrica, visualista, em que a apreensão social da cegueira ainda é permeada por concepções míticas. Enfocaremos a expressão do mundo-vida, a singularidade de suas vivências como leitores, escritores, intelectuais e pesquisadores. Procederemos à busca de sentido na compreensão do dito, o que não remete aos fatos, visamos a descrição de vivências significadas em uma facticidade da existência. Nos dirigimos, exclusivamente, para as percepções significadas pelos colaboradores, seguindo os passos de Martins e Bicudo (1989), quando afirmam:
A pesquisa fenomenológica está dirigida para significados, ou seja, para expressões claras sobre as percepções que o sujeito tem daquilo que está sendo pesquisado, as quais são expressas pelo próprio sujeito que as percebe. Ao se concentrar nos significados, o pesquisador não está preocupado com fatos, mas com o que os eventos significam para os sujeitos da pesquisa (p. 93).
A interação com os colaboradores deu-se de maneira que os questionamentos fossem direcionados propiciando uma descrição das vivências, tendo como fio condutor a pergunta de partida da tese. As entrevistas iniciaram com a tematização do processo que engendrou a inserção no universo da cegueira e acerca da condição de ser e estar no mundo sem dispor do sentido da visão. De maneira enfática e cuidadosa, esses aspectos foram questionados em diversas nuanças, suscitando longas narrativas nas quais os colaboradores expressaram o sentido do não ver. Processo que motivava o momento subsequente, em que os relatos concentraram-se na descrição das vivências do ambiente acadêmico, no qual se deu e se dá a formação intelectual, atuação docente e prática de pesquisa. Nesta etapa, os questionamentos, também de natureza aberta, abordaram aspectos do vivido relativos ao desafio do acesso à leitura, as estratégias na realização de pesquisas, produções de artigos associados à utilização do código Braille, ledor, livro falado e as tecnologias digitais (computador pessoal).
Ainda no caminho sugerido por Martins e Bicudo (1989), ao imergir nas descrições oriundas dos relatos dos colaboradores acerca de suas vivências, inicialmente, dediquei-me a sucessivas leituras de todas as narrativas, sem pretensão interpretativa, no intuito de uma
familiarização com a estrutura geral dos discursos. Mais apropriado do conteúdo das descrições, as leituras subsequentes permitiram identificar significados relevantes correspondentes à intenção da pesquisa. As unidades de significados obtidos, nessa fase, já possibilitaram intuições que orientaram a compreensão interpretativa do fenômeno, o que por fim, tornou-se viável proceder a uma síntese de todas as unidades de significados. Um movimento reflexivo definido por Bicudo (2011) como:
Tomamos as descrições apresentadas como relatos de experiências vividas, entendendo-as como um texto e o lemos muitas vezes, com a finalidade de compreender o que está sendo dito pelo sujeito e, focando a interrogação diretriz da investigação, destacamos unidades de significado. Estas são unidades que fazem sentido para o pesquisador, sempre tendo como norte o que é perguntado (p. 50).
Continuando em conformidade com Martins e Bicudo (2011), conduzi o percurso compreensivo-interpretativo, inspirado por dois fundamentos, designados como análise ideográfica e análise nomotética.
A análise ideográfica se refere ao emprego de ideogramas, ou seja, de expressões de ideias por meio de símbolos. Esse estudo penetra e enreda-se nos meandros das descrições ingênuas do sujeito, tomados em sua individualidade. A raiz do termo está em ideografia que diz da representação de ideias por meio de símbolos gráficos. Ela revela a estrutura do discurso do sujeito, evidenciando os aspectos noemáticos da descrição (BICUDO, 2011, p. 58).
A análise nomotética indica o movimento de reduções que transcendem o aspecto individual da análise ideográfica. Esse termo vem de nomos, que diz da construção de leis e de seu uso. Nas ciências empíricas se refere à normatividade ou as generalizações decorrentes do tratamento de dados factuais e que são tomadas como princípio, operando como lei: fenomenologicamente, indica a transcendência do individual articulada por meio de compreensões abertas pela análise ideográfica, quando devemos atentar às convergências e divergências articuladas nesse momento e avançar em direção ao seguinte, quando perseguimos grandes convergências cuja interpretação solicita insights, variação imaginativa, evidências e esforço para expressar essas articulações pela linguagem. Solicita, enfim, compreensão da estrutura do fenômeno interrogado, tomando os individuais como casos de compreensões mais gerais que dizem agora de ideais estruturais concernentes à região de inquérito. Por exemplo, se essa região for aquela da Psicologia, então visamos, no momento da análise noemática, à estrutura geral psicológica do fenômeno interrogado (BICUDO, 2011, p. 58-59).
Com base nos procedimentos ideográficos e nomotéticos, fundamentado em uma vivência intuicional proveniente do lugar perspectival de perceber a questão enquanto sujeito situado, imerso na problemática, debrucei-me sobre as descrições, buscando compreender o significado das vivências, intencionando o sentido do dito. A operacionalização da busca por compreender e interpretar as experiências vividas pelos colaboradores deu-se a partir de elementos constitutivos da pergunta de partida. No decorrer das leituras, a cada resposta analisada, atribuía-se símbolos para, posteriormente, orientar o processo de análise compreensivo-interpretativa das vivências: ONT – ontologia referindo-se aos discursos sobre o sentido atribuído à condição de estar no mundo sem dispor da visão; CB – indicando o lugar do código Braille nas atividades de pesquisa; TL – relação vivenciada no trabalho com o ledor nas atividades de pesquisa; LD – as mudanças no campo cognitivo, âmbito da pesquisa e produção de conhecimento, ocasionadas com o livro digital.
4 CEGUEIRA, LEITURA E COGNIÇÃO: DO ADVENTO E CONSOLIDAÇÃO DA