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6 CEGUEIRA, LEITURA E COGNIÇÃO: A INSERÇÃO DE

6.2 LER-OUVINDO: APRENDER, PESQUISAR E PRODUZIR

6.2.2 Das condições, comprometimento e preparo do ledor

A natureza do trabalho do ledor exige boas condições de saúde, pois emprega de modo intenso o corpo próprio nesta atividade, articulando a visão, o aparelho vocal, audição e tato durante todo o trabalho em prol dos propósitos cognitivos do cego pesquisador. Requer ainda um estado psicológico favorável para que a leitura transcorra de modo producente. Portanto, comprometer-se, colocar-se disponível, refere-se também às condições físicas e psicológicas adequadas para que a leitura preencha os requisitos concernentes à compreensão do pesquisador. Um ledor que, por exemplo, esteja cansado, com a saúde debilitada ou envolvido por um nível de estresse elevado, inevitavelmente expressará o desconforto durante a execução da leitura, interferindo no entendimento do leitor, dificultando a apropriação do texto e a elaboração reflexiva pretendida. Predisposição física e psicológica é fundamental para a execução de uma boa leitura, tanto por parte do leitor voluntário, quanto do ledor remunerado.

Eu me lembro que também tinha muitas vezes eu, pagava uma pessoa para ler para mim, trabalhos acadêmicos, textos e às vezes essa pessoa começava a bocejar, pronto, eu me desligava totalmente, eu perdia o fio, eu começava a bocejar também, eu dizia: - Vamos parar, vamos dar uma pausa, vamos tomar um café. O que eu prefiro é exatamente isso, são as cadências, são as firmezas, é a velocidade constante (Professora Doutora docente no Ensino Superior).

Durante o percurso na pós-graduação lato ou stricto sensu, ao recorrer ao ledor como mais uma opção de acesso ao texto, o cego pesquisador é envolvido pela expectativa que essa relação contribua satisfatoriamente, favorecendo-lhe na demanda de atividades a cumprir e que a leitura realizada propicie plena interação com a obra para que possa assimilar devidamente o

conteúdo, tendo em vista a intenção investigativa em foco. Embora seja de interesse e responsabilidade do leitor-pesquisador compreender e interpretar o que está sendo lido, o ledor não pode prescindir da necessária concentração ao executar a leitura, primando sempre pela qualidade do trabalho, possibilitando, assim, uma elaboração cognitiva do leitor. A satisfação do cego-pesquisador no que se refere ao propósito investigativo ocorre quando a execução da leitura corresponde de maneira adequada aos fins aos quais se propõe, uma leitura que considera apropriada para o seu processo cognitivo.

Para ser ledor é necessário disponibilidade, compromisso e estar consciente da importância desse trabalho; abertura constante de querer aprender, aperfeiçoar-se, o que se dá na interação com o leitor. Em geral, o ledor principiante na relação com o leitor-cego- pesquisador demonstra explícita ou implicitamente preocupação quanto à qualidade da leitura que executa. Uma inquietação pertinente, pois, se trata do principal requisito no tocante às necessidades do leitor. A disponibilidade e o compromisso devem estar associados ao preparo do ledor, relativo ao ato de proceder a leitura para transmitir com clareza o conteúdo lido. Uma pessoa que tem vivência de leitura provavelmente será um bom ledor. A qualidade da leitura é um processo contínuo de busca que o ledor e o cego leitor-pesquisador constroem, o que também envolve entrosamento entre ambos, correspondente à constituição de laços afetivos, relação de amizade, propiciando uma interação em que o estreitamento do vínculo gera uma parceria, facilitando essa construção.

Não seria prudente, tampouco razoável, sugerir ou indicar esquemas pretensamente definidores de um determinado modelo que norteie o trabalho do ledor, entretanto, a execução de uma leitura adequada que propicie a apreensão do texto e, por conseguinte, a interação com a obra, é condição necessária para que o leitor possa alcançar seus objetivos. É na experiência vivida, na dialogicidade do encontro que ledor e leitor decidem os caminhos a serem seguidos, cabendo a este último, ensejar o diálogo, esclarecendo ao primeiro os procedimentos a serem adotados que melhor atendam suas necessidades.

Diferentemente do leitor incipiente, o cego-pesquisador, na relação com o ledor, intenciona projetos intelectivos, logo a execução da leitura precisa seguir critérios de rigor para que permita ao pesquisador utilizá-la com fins investigativos. Cadência, tom de voz moderado, velocidade equilibrada, nem muito rápido e nem lento demais, sinalização precisa da pontuação proporcionam um bom entendimento do texto, favorecendo a reflexão. A pontuação deve ser indicada pelo ledor no fluxo da leitura, no encadeamento da harmonia, salvo quando em caso de dúvida, o leitor, ao interromper, questione. Não é necessária a verbalização de vírgula, ponto

e vírgula, interrogação, exclamação, ponto de seguimento, devendo ser expressa na entonação da voz, evitando exageros.

É recomendável que o ledor atente para, no transcorrer da leitura, apontar os marcadores textuais como: parênteses, aspas, chaves, grifos, notas de rodapé, sem comprometer o fluxo da leitura. Informar também sobre letras em tamanhos e cores diferentes, enfatizar mudança de tópico, descrever gráficos, dentre outros procedimentos acordados com o pesquisador.

As percepções dos cegos leitores são convergentes, apontam aspectos comuns que caracterizam uma maneira de executar a leitura que atenda aos propósitos almejados, referentes a uma apreensão concernente a fins de pesquisa.

Eu gosto de uma leitura firme, com uma velocidade média, firme e tranquila. A leitura fluente, corrente, com boa pontuação, com a correta entonação (Professora Doutora docente do Ensino superior).

Geralmente, eu prefiro uma voz cadenciada por que se a gente for ler, lê de diversas formas. Tem três principais: - uma leitura dinâmica, uma reflexiva e a outra contemplativa, então geralmente, até mesmo pela área que eu estudei e estudo ainda exige uma leitura mais reflexiva, então eu prefiro por conta disso uma leitura mais cadenciada (Professor Especialista).

Então uma boa leitura para mim é uma leitura feita de forma em tom médio, nem muito alto, também nem muito baixo, uma voz compreensível, uma leitura que não seja rápida e uma leitura que respeite a pontuação que sempre vá dizendo tópicos, números de páginas que as pessoas consigam ler bem. Não tenho preferência de voz; pode ser tanto masculina, quanto feminina, o que eu preciso é a qualidade da leitura (Professora Especialista).

Bom, a questão é: - tem leitura que você faz uma vez e você consegue entender o contexto como um todo, tem leitura que você tem que ler três, quatro vezes, então uma leitura muito corrida não serve, também muito lenta é enjoativa, então a medida que você vai ganhando a confiança do seu ledor você vai junto com ele vendo qual a melhor forma de você apropriar-se do conhecimento, então, nada muito lento, uma leitura que eu diria normal no sentido de facilitar a absorção desse conhecimento, da mensagem que o ledor está lhe passando no ato da leitura (Professor Doutor Docente do Ensino superior).

Além dos aspectos acima observados, outras questões podem ser suscitadas, seja por parte do ledor ou do leitor, objetivando uma melhor compreensão do texto. Na minha relação com o ledor, solicito que, ao encerrar um parágrafo, seja pronunciada a palavra parágrafo, pois, dessa maneira, assimilo melhor o encadeamento das ideias e, se necessário, procedo anotações ou peço para grifá-lo e, se for o caso, utilizá-lo em citação ou posterior reflexão e produção textual. Conforme já explicitado, o ledor executa a leitura, mas cumpre ao leitor dirigir o trabalho, tendo em vista seus propósitos, devendo, portanto, expor ao ledor as questões que

julgar importantes para o seu processo cognitivo, articulando estratégias que promovam um melhor entendimento possível, considerando o trabalho que desenvolve, o que remete ao caráter dialógico da relação.

Atento ao fluxo da leitura, esforçando-se na apropriação do texto, concentrado no ato de ler-ouvindo, o cego pesquisador elabora, faz ilações, realiza conexões focado em seus objetivos. Naturalmente, no transcorrer da leitura, solicita pausas para refletir sobre alguma questão, repetição de determinado trecho, requisita ao ledor proceder anotações, constrói parágrafos e sinaliza o desenvolvimento de ideias. Utilizando-se de outros recursos e da criatividade, engendra processos que ampliam suas possibilidades cognitivas.

Geralmente quando eu tô com o ledor, eu faço minhas anotações em Braille ou no computador, eu sempre paro e registro a ideia principal, a ideia secundária, eu vou tentando identificar alguma frase de efeito para eu usar nas epígrafes, já tentando também indicar as citações, eu sempre faço isso (Professor Doutorando).

Então, eu sou da época dos fichamentos, da época em que a gente fazia fichamento de tudo que lia, então todas as minhas leituras com o ledor a gente vai com o lápis no texto e marca as partes que eu considero mais importantes, então os meus textos são todos grifados e marcados entre chaves ali, todas as vezes que eu faço uma leitura eu deixo esse texto marcado e, quando isso é possível eu digito com o ledor. Nesse processo, ainda com o ledor, eu digito aquelas partes importantes em Braille pra eu melhor me apropriar do conhecimento (Professor Doutor Docente do Ensino superior).

Num exercício perscrutativo, o cego pesquisador, ao escutar a leitura, intenciona assenhorear-se da obra, o que dependerá do modo pelo qual a leitura é executada e do comprometimento do ledor com o trabalho. O cego pesquisador espera do ledor, tão somente, que leia sem intervenções que supostamente entenda como ajuda na compreensão.

Uma boa leitura? A imparcialidade do ledor, a fluência de leitura do ledor é a não interferência. Na verdade, essa não interferência eu preferia, eu sempre preferia que o ledor lesse, apenas lesse, não tentasse me explicar. Quando ele tentava me explicar era ruim, porque ele tentava me explicar, sintetizar aquilo que ele tem com as palavras dele. Isso me incomodava porque queria que ele voltasse: “você pode voltar o tal parágrafo? Não, mas você poderia voltar, por favor? Pra mim a imparcialidade nesse sentido, é a não interferência (Professor Doutorando).

Caso a leitura seja de seu interesse, o ledor deve tomar cuidado para que o envolvimento com o assunto não interfira no trabalho de modo a prejudicar ou influenciar a apropriação do

cego-pesquisador. As pausas para reflexão, comentários acerca do conteúdo e fazer anotações são procedimentos de iniciativa exclusiva do leitor. Independentemente de qual seja o conteúdo do texto, se de agrado ou não do ledor, o que deve estar em foco é o objetivo do leitor. O caráter técnico do trabalho do ledor não significa que a relação com o cego-pesquisador seja desprovida de afetividade e que o ledor não possa envolver-se com a temática, todavia o ledor deve ter a clareza da atividade que realiza, envidando esforços para possibilitar o melhor aproveitamento possível por parte do leitor. Ao encontrar-se frente a frente com o cego-leitor-pesquisador, o ledor deve estar apto e consciente de sua função, pois disto depende a eficiência do ato de ler- ouvindo.