CAPITULO 3 OS RESULTADOS
3.1 A Análise do Discurso
3.1.2 A perda do transplante
3.1.2.2 A busca do sentido
Ao entrar em contato com a informação que o enxerto renal, tão esperado, parou de funcionar, que o tratamento de hemodiálise é o recurso para continuar a existir, a angústia toma conta do paciente que procura respostas para o que aconteceu.
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Inúmeros são os questionamentos do “por que não deu certo?”. As informações recebidas, antes da cirurgia, sobre a possibilidade de perder o enxerto, não respondem às indagações e o “por que comigo?” fazem com que o paciente experimente sentimentos de pequenez, de impotência e de desmerecimento.
Por quê? Por que pra uns dá certo e pra outros não? (Edimara)
[...] você fala assim: será que eu merecia tudo isso? Por quê? Será que eu fiz alguma coisa para Deus que eu não mereço ter uma vida normal? (Edimara)
Toda hora que eu vou tomar água eu lembro. Por quê não deu certo? Por que o que recebeu o outro rim deu certo e o meu não? Será que eu sou tão pior que os outros que, pra mim, nada dá certo? [sorri]. (Edimara)
Na busca do sentido, questões relacionadas ao autocuidado surgiram com preocupação. A certeza de que as orientações foram seguidas e os cuidados tomados, tranquiliza e afasta a culpa.
Até o dia que ela falou que eu perdi eu falei: Mas, Dra, o que eu fiz errado? Eu tomo remédio do jeito que vocês mandam, por quê eu perdi? Ela falou: Ah, dona Helena, isso acontece... uns duram muito, outros não... (Helena) Os pacientes mostraran-se, predominantemente, bem informados a respeito de suas condições clinicas e, em alguns momentos, fizeram uso da linguagem apoiada no discurso médico, para dar sentido à perda do enxerto.
Os motivos clínicos que envolvem a falência renal são descritos, apontando que estes pacientes são bem informados e, em alguns momentos, se apegam a eles para dar sentido ao fato de perderem o rim enxertado.
[...] ele (o rim) foi regredindo... aí, quando chega num patamar de uns dez por cento, aí tem que retornar prá máquina porque os exames vai subindo tudo... uréia... essas coisas. Eu não perdi o transplante, eu conversei com o nefrologista e ele falou que o transplante cadáver a maioria é dez anos. Alguns vão mais, outros perdem com cinco, seis anos. (Carlos)
A gente luta bastante, né? Porque eu perdi o enxerto foi por causa de uma seqüela que eu tenho na bexiga, que atrapalhou a função do rim. Então foi uma correria... o médico tentando melhorar, fazer a cirurgia na bexiga, pra tentar melhorar a qualidade da urina, porque eu tenho uma infecção na urina que não sara fácil. Então os médicos tentaram melhorar a qualidade da urina... Fiz bastante tratamento em Ribeirão pra não perder o enxerto do rim, mas não tem tratamento, por enquanto, pra melhorar a bexiga. (José)
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Num dia de hoje, quarta feira, o médico falou: ‘Oh, seu Lúcio eu não vou... às vezes o Sr vai ficar nervoso mas eu vou falar uma coisa, o Sr quer saber?’ Eu disse: ‘quero’. Ele disse: ‘O Sr está com duas hepatites, B e C, o senhor vai internar agora.’ [...] Eu, se não fosse essa hepatite, eu tava livre da máquina. (Lúcio)
Na busca de dar sentido para o que aconteceu, o sentimento de culpa emerge e o paciente atribui a perda do enxerto a si, ao seu comportamento e ao seu descuido. Essa constatação que provoca sofrimento e culpa é descrita com a tentativa de convencer, a si próprio, que essa culpa não lhes pertence.
[...] tento me enganar, a hora que vem esses pensamentos na cabeça: ‘não, não foi por isso, porque o médico falou que foi por nefrite...’ Mas, no fundo, no fundo eu sei que sim. Porque eu acho que abusei, mas não admito isso prá minha mãe, não admito que ninguém fale, pelo contrário, quando alguém fala, eu choro... Eu queria que a pessoa se colocasse no meu lugar e entendesse que eu era uma criança, depois eu era uma adolescente... eu queria ter uma vida normal, não era justo me privar pelo resto da vida das coisas. (Daiane)
[...] então, na época que eu fiquei adolescente eu ia pras festas, ficava até de madrugada na rua, tomava cerveja como minhas amigas faziam e, apesar de não ter sido por isso que eu perdi o rim, porque o médico, na biópsia, falou que foi por nefrite... Minha mãe acusa até hoje que eu tinha que dar mais valor, aí ela fala que se lembra do meu sofrimento, porque ela fala que quem tá do lado sofre mais que o próprio paciente, que eu devia ter me cuidado mais... Ela diz que cansou de me falar que não era pra eu ficar nos bailes até de madrugada tomando friagem [...]. (Daiane)
Eu acho que poderia ter durado mais... mas, também, eu não fiz muito pra durar esse enxerto... Não, eu fiz no final, no finalzinho. No começo, quando tava tudo bem eu não fazia... No começo do tratamento eu tinha que fazer autocateterismo, não fazia a higiene direito, entendeu? Saía pra casa dos outros, passava da hora de fazer e eu não dava bola. Estudava, até voltar estudar eu não podia ter voltado porque na hora de fazer o cateterismo eu estava na escola, então a bexiga enche, eu tinha que estar esvaziando ela e eu passava da hora e não era de vez em quando... Era sempre... Vai acumulando diurese e vai dando infecção de urina. (José)
Esse transplante, se eu tivesse cuidado dele mais poderia ter durado mais... Eu não fiz nada pra que ele durasse mais... Eu tive bastante culpa nessa perda... Eu tive, porque foi no final que eu vi que a infecção estava atrapalhando o rim, aí eu falei: ‘vou fazer minha parte agora’. (José)
A perda do enxerto é também descrita como um golpe do destino, como uma falta de sorte. Como tentativa de dar sentido as suas vivencias, o paciente atribui ao sobrenatural, que independe de seu domínio, a perda do enxerto.
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[...] tem gente que saiu e não voltou mais até hoje... fez na minha época e está aí, transplantado. Tem um colega meu que teve até câncer e está lá, com rim bom ainda... mais de dez anos, operou de câncer e está lá bom. Eu não levei sorte. (Pedro)